O CAÇULINHA - Sérgio Dalla Vecchia

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O CAÇULINHA
Sérgio Dalla Vecchia

Numa tarde de junho nasceu o terceiro filho de um casal que já havia gerado duas lindas filhas.

Portanto ele recebeu as honras do título de caçulinha varão.

Houve farta distribuição de charutos e whisky para amigos e parentes.

O pai desmanchou-se de felicidade ao ver pela primeira vez o seu almejado filho ainda no berçário. Era tudo o que ele queria, um filho homem!

Participando da felicidade do casal também lá estava o solteirão do tio Luiz. Figura muito querida por todos pelo seu bom humor.

De tanto o tio Luiz insistir e prometer que o carro dos 18 anos seria por conta dele, o pai acabou aceitando em batizar o caçulinha com o seu nome.

A solução encontrada foi a de dar um nome duplo e assim foi feito:

João Luiz. João em homenagem ao avô,  Luiz pela insistência.

Não faltaram carinhos e mimos para o Joãozinho tanto do pai como do tio.

Assim Joãozinho foi crescendo e mostrando atitudes de caçulinha. Começou a mandar nas irmãs. Falava dos vestidos, de horários e outras tantas implicâncias.

O que mais se ouvia na casa eram os choramingos das irmãs:

Mãe, o Joãozinho me bateu!

Mãe, o Joãozinho derrubou suco de laranja no meu vestido!

E assim as irmãs eram atazanadas incansavelmente por ele.

Não dava tréguas a ninguém. Até a gata siamesa levou um puxão no bigode, e que de pronto reagiu, desferindo uma forte unhada no nariz do provocador.

Joãozinho disfarçava bem suas travessuras. Quando empurrava um vasinho da coleção de violetas, dispostos pela avó no parapeito da varanda, nunca ninguém desconfiava dele.

De menino levado passou a ser um rapaz de 1,90m de altura e muito forte.

Tudo onde ele punha as mãos quebrava ou desaparecia misteriosamente.

—Quem quebrou a maçaneta do meu quarto? -Gritava a filha mais velha.

—Foi o Joãozinho, respondia de pronto a outra irmã.

La ia a atribulada mãe atrás do arteiro. A diferença de tamanho era enorme, ela de 1,70m enfrentava um filho tão maior! Chegava a ser cômica a cena, mas ela não se intimidava. Algumas vezes subia num banquinho para igualar as alturas e aí o reprendia sem dó.

Já cursando a faculdade ele saia sonolento aos trancos e barrancos pela manhã e por vezes estacionava o carro numa praça próxima e lá dormia tranquilamente para voltar faminto na hora do almoço.

Assim a vida foi passando. Joãozinho, solteiro convicto ainda morava com os pais.

Por vezes num domingo com os pais ainda na cama, surgia ele no quarto com seu 1,90m, e sem a mínima cerimonia, deitava-se entre o casal que o aceitava como uma criança, beijando sua testa e acariciando-o.


Esse era o caçulinha do papai, que o tempo o fez da mamãe também.

O jovem empreendedor - Ises de Almeida Abrahamsohn

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O jovem empreendedor
Ises de Almeida Abrahamsohn


A mãe de Manuelito, conhecido  por Nelito, ficou contente quando o pároco do bairro  pediu autorização para o garoto ser coroinha da igreja. Ele tinha se oferecido e pedido se podiam ajudar com o estudo. A mãe estranhou um bocado, mas ficou agradecida. O menino vivia se metendo em confusões pelo bairro e andava mal na escola. Com três filhos e as tarefas de casa ficava sabendo das travessuras apenas quando alguém vinha se queixar.

Nelito iria atuar como coroinha nas missas de sábado e domingo. Três vezes na semana, à tarde, ajudaria a trocar as flores dos altares. Nesses dias, o menino tomaria o lanche no seminário que ficava atrás da igreja e teria ajuda de um noviço para estudar porque estava a perigo de ser reprovado na escola  pública do bairro.

O seminário ocupava meio quarteirão e os seminaristas cultivavam o jardim e a horta. Renques de pinheiros plantados na face interna dos muros escondiam o cimento enegrecido e espalhavam agradável cheiro de resina. Lá pelas cinco da tarde, Nelito, depois de tomar o lanche, saía do refeitório para o jardim e ficava conversando com um ou outro dos jovens seminaristas antes de ir para casa.

Aproximava-se o Natal e foi quando  o garoto vislumbrou uma oportunidade de negócios. Pinheirinhos verdes eram obrigatórios nas casas das famílias alemãs então numerosas no bairro. O esquema de Nelito contava com a ajuda de seu amigo do peito, Carlinhos. A árvore era cortada por Nelito quando o jardim ficava vazio ao toque da Ave-Maria. O malandro amarrava uma corda que era jogada por cima do muro. Depois calmamente se despedia do padre porteiro e ganhava a rua. Uma hora mais tarde, no escuro, os dois amigos  içavam a árvore pelo lado externo do muro. O pinheirinho encomendado era então transportado e entregue na casa da incauta família. Não se soube quantos a dupla subtraiu.

O esquema deixou de funcionar quando Nelito ofereceu um pinheirinho à tia. Diga-se a verdade: o garoto tinha bom coração, e dela não cobrou nada. Porém a tia desconfiada perguntou a origem da árvore. Nelito, pego de surpresa, explicou que os padres estavam refazendo o jardim e estavam doando as árvores  às famílias do bairro interessadas. A balela não colou. A tia telefonou para a mãe do jovem que, por sua vez, ligou para o pároco. O padre ainda incrédulo se escondeu no jardim ao anoitecer. Com espanto viu o cuidadoso içamento e o sumiço do pinheiro além do muro. Não conseguiu deter os garotos que, de bicicleta, sumiram na noite.


Mais uma do Nelito, pensou a mãe  ao se desculpar com o pároco quando este lhe comunicou o fim do interesse da Igreja pelos préstimos do garoto. Uma jovem “alma em perigo”, alertou o sacerdote. Mas, Nelito foi perdoado e, em troca do ultimo pinheirinho, recebeu da tia uma boa gorjeta. Que “alma em perigo” que nada, sentenciou a tia. Apenas uma estrepolia de garoto. 

MAL ENTENDIDO - Oswaldo U. Lopes


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MAL ENTENDIDO
Com a filha de João, Antônio ia se casar...
Oswaldo U. Lopes

        O problema com o mal entendido é que num determinado momento, numa certa hora ele pode ser muito bem entendido, só que de modo inesperado, de um jeito torto, digamos.

        Foi o que aconteceu com o Antônio que andava namorando a filha de João. Na roda do bar disse que só casava com mulher virgem. Ninguém nem lembrava como aquilo começara, de como a conversa rolara entre pingas e cervejas, mas todos lembravam o que Antônio dissera. Sobretudo porque ele, logo depois, rompeu com a filha de João assim de uma hora para outra, sem mais essa nem aquela.

        João ficou muito bravo, pois juntou a frase ao fato. Maria que era sua filha passou a chorar pelos cantos, cheia da vida e certa de que ia ser falada, comentada e condenada.

        Não que fosse virgem, fazia tempo que não era. Em pleno século XXI ela não era, e um montão de amigas também não era. Antônio sabia muito bem desse fato, não por ouvir dizer, mas por fazer, se me entendem. O que ia rolar agora?

        Antônio apelou para o mal entendido, dissera não que só casaria com mulher virgem, mas que mulher virgem só atrapalhava o casamento. O soneto que já era ruim com a emenda ficou pior.

        Não colou. Não colou no bar, não colou na praça, não colou na Igreja e não colou em João que resolveu ir ao bar na hora da roda e acertar as coisas. Além das coisas acertou Antônio com dois tiros.

        O delegado homem antigo, machista e velho no serviço não lavrou flagrante, botou fiança baixa e deixou o caso rolar.

        Rolou tão bem que Antônio foi absolvido sob a alegação de lavagem da honra e isso ficou muito claro e bem entendido. O mal entendido deixara de ser problema.

        Querem saber da Maria? Século XXI gente, mudou de cidade, arranjou a vida teve sucesso e nem se lembra direito do Antônio. Tem uma filha, produção independente, como dizem, e espera que ela viva num mundo melhor.

        

O TROCO - Carlos Cedano


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O TROCO
Carlos Cedano

Jaiminho moleque levado e inteligente era adorado pelas coleguinhas da escola, era o pequeno herói sempre disposto a protegê-las e defendê-las safados. A turma, entre os doze e treze anos, em plena adolescência, adorava festas e cada quinze dias havia uma na casa de algum deles.

Porém, o que começou como uma diversão sempre esperada começou a ficar chata. Explico porque, Jaiminho se revelou, além de simpático e querido,  um excelente dançarino e todas as meninas só queriam dançar com ele o que causou não poucas situações embaraçosas devido aos ciúmes dos namorados. Jaiminho não estava nem aí.

Como a próxima festa seria na casa de Jaiminho os outros meninos decidiram boicota-la. Os convites tinham sido feitos boca a boca, mas na véspera os meninos ligaram para as meninas e lhes disseram que o local tinha sido mudado dando como endereço o de uma danceteria muito conhecida e badalada, o entusiasmo das meninas aumentou e todas foram a “se produzir” nos salões de beleza mais conhecidos e... caros.

Os meninos já imaginavam o vexame: de um lado o despontamento e raiva das meninas e do outro, a tristeza de Jaiminho sem seus convidados! Sexta feira a sete horas da noite começaram a chegar os convidados na danceteria, as meninas pensando numa noite maravilhosa e cada uma sonhando em dançar pelo menos uma vez com Jaiminho e os rapazes ansiosos, esperavam para ver o circo pegar fogo.

A primeira surpresa dos meninos foi que quando perguntaram por Jaiminho  veio um senhor alto e simpático que disse: avante meninos e meninas, hoje o local é todo de vocês e espero que se divirtam muito. Ah... Completou o gentil senhor, Jaiminho estará já com vocês.

Um dos meninos perguntou-lhe:

— O senhor conhece o Jaiminho?

— Evidente, ele é meu filho e sou dono deste local! Como o lugar é amplo pude atender seu pedido de urgência sem problemas.

— E como Jaiminho soube disso? Perguntou outro menino.

— Ora, ora, disse o pai, varias meninas ligaram para confirmar o horário da festa, liguei para ele e informei das ligações que recebi e ele entendeu a brincadeira:  

— Pai, vou dar o troco!


Poucos minutos depois de iniciada a festa, Jaiminho entra e recebe as palmas entusiasmadas das meninas! E dos meninos? Bom para eles só posso dizer que o tiro lhes saiu pela culatra! Mas a festa acabou sendo um sucesso, e todo mundo se divertiu muito! 

A ADOÇÃO UM PROCEDIMENTO DIFÍCIL - OSWALDO U. LOPES



A ADOÇÃO UM PROCEDIMENTO DIFÍCIL
OSWALDO U. LOPES

         A adoção nunca foi e nunca será simples. O mais das vezes torna-se um processo complicado para o conjunto da humanidade. Há evidências de que no âmbito das famílias constituídas nos moldes tradicionais as crianças sempre questionam se são adotadas ou não. Ao receberem um belo pescoção moral ou mesmo físico como resposta, convence-se de imediato que estão biologicamente inseridas naquela família e ponto final. As adotadas tem ali, talvez sua primeira experiência negativa.

        É frequente que os pais adotantes façam questão que as crianças alvo sejam de tal ordem que impossibilitem traçar qualquer traço genealógico. Mães que tiveram filhos em casa e os entregaram quase que imediatamente, adoções não registradas pela justiça e por ai vai. Querem matar o mal pela raiz. Será um mal? Que raiz é essa?

        No universo estelar da existência das famílias ditas normais, com filhos biológicos, a adoção é um fenômeno não significativo, mas é ai que a estatística falece de mal intrínseco. É um não significativo que toda vez que é tocado assume uma significância impar e nos comove e no cobra entendimento.

        Parece que o conjunto da humanidade rege-se pela máxima de Terencio:
Nada do que é humano me é estranho. Nihil humani a me alienum puto, no original latino. Faz parte da peça “O atormentador de si mesmo” e é um exemplo clássico do texto que fora do contexto ganhou uma dimensão muito diferente da que tinha no teatro.

        Constitui-se hoje em dia um exemplo de que se um foi ferido todos fomos feridos, se um foi ofendido todos fomos ofendidos. Não há estatística que nos tire a dor interior por um que esta fora do abrigo. O filho pródigo é importante exatamente porque é pródigo, não porque sejam muitos.

        Há pouco foi exibido um filme cujo título original era Lyon (Uma jornada para casa) sobre um menino indiano que se perde da família e é adotado por um casal australiano e passa a viver uma vida normal numa família que é muito diferente da sua original.

        Baseado em fatos reais o filme termina quando ele reencontra sua pequena aldeia natal e sua mãe biológica. Há no filme menção a 60.000 crianças perdidas todo ano na Índia e o enorme esforço para arranjar um lar para todas.

        O trabalho é grande e complicado, na película mostra-se claramente o perigo que cerca essas crianças sem família e a conivência expressa de autoridades que deveriam cuidar delas com a bandidagem.

        Creio que faz parte da complexidade do ser humano esse desejo que não se cala, essa questão sem resposta, se há um perdido então estamos todos implicados.

        Não há estatística que nos socorra na dor interior por um que esta fora do abrigo.

        Em que pesem todas as ideologias, todas as interpretações da história, o numero infinito do todo, o um ainda importa muito. Não haverá paz enquanto um estiver ao relento. Dificilmente nos convencemos de que a realidade esmagadora do conjunto supera a tristeza do apartado.

        A mensagem aparentemente cristã é anterior a Ele próprio e existe mesmo entre povos que nuca ouviram falar Dele. Não é curioso que a frase de Terencio fosse uma das favoritas de Karl Marx, ateu convicto e o pensador crítico original do comunismo?

        A adoção é certamente uma das partes que compõe a esperança que foi o que nos restou no vaso de Pandora.


Exposição “Códices Mexicanos” revela pele e alma mesoamericanas

A Ises enviou essa dica para nós. Obrigada, Ises.


Exposição “Códices Mexicanos” revela pele e alma mesoamericanas




Até o dia 30 de julho, a mostra apresentará na USP reproduções de escrituras dos povos ameríndios
Por  - Editorias: Cultura



A exposição Códices Mexicanos: imagens, escritura e debate estará em cartaz até o dia 30 de julho de 2017, no Prédio de História e Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A visitação pode ser feita de segunda a sexta-feira, das 10h às 21h. Visitas guiadas ocorrem às terças-feiras, às 18h. Escolas ou grupos podem agendar um horário através do e-mail: cema@usp.br




Não percam!


O CORONEL GAMARRA - Carlos Cedano


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O CORONEL GAMARRA
Carlos Cedano

Foi na Segunda Guerra Mundial, durante a campanha expedicionária dos pracinhas na Itália que o Capitão Gamarra se consagrou um intrépido herói. Seu pelotão deparou-se com um feroz ataque alemão contra soldados americanos encurralados numa espécie de garganta sem saída; quando o capitão viu a situação atacou os alemães  pela retaguarda com vontade e decisão e os eliminou salvando assim setenta americanos além de dez feridos. A novidade espalhou-se rapidamente em ambos os exércitos e o Capitão recebeu a Medalha Púrpura do Governo Americano além das mais altas  condecorações do Governo Brasileiro.

Foi com esse prestigio e contando com uma “forcinha” do Departamento de Estado Americano que alavancou sua carreira militar e em pouco tempo já era coronel. Mas o Coronel Gamarra tinha seus defeitos e limitações, além de ser muito exigente e grosseiro com seus subordinados, não suportava que alguém o contradissesse mesmo nas questões mais banais e contava vantagens muitas delas beirando a mentiras deslavadas, mas tudo isso era “perdoado” pela sua condição de herói.

Como não era muito bom e ortografia e recebia observações de seus superiores pelos frequentes erros que cometia, decidiu resolver essa situação ou pelo menos melhora-la. Entre os novos recrutas identificou um rapaz estudante de Direito chamado Rui Dias e o incorporou a seu staff com o cargo de ajudante de ordens. Rui, que o Coronel passou a chamar de Luisinho, era ele que redigia seus comunicados, informes e memorandos: uma mão lava a outra! Pensou o Coronel e até o autorizou sair do quartel às noites para assistir a suas aulas na Universidade.  Com o tempo o Coronel se fez amigo de Luisinho e o fazia acompanha-lo, inicialmente em eventos oficiais e, aos poucos até em reuniões informais onde ele era o único que não era oficial de carreira.

Foi nas reuniões informais donde Luisinho, já promovido a cabo, começou a escutar os exageros e lorotas do Coronel. E, o pior de tudo, quando o pessoal ficava em dúvida, o Coronel chamava Luisinho como testemunha ocular do assunto em questão. Certa vez numa reunião onde os colegas contavam suas histórias com armas,  o Coronel levantou, quase interrompendo um colega, e disse:

— Arma boa mesmo é a espingarda que me deu de presente o Coronel Wilson Brown da Escola das Américas no Panamá. Numa caçada na floresta desse país avistei um belo bando de passarinhos, apontei e atirei e sabem quantos passarinhos caíram?

As respostas foram diversas: um? Disse alguém, cinco? Disse outro e um último Dez?

— Não! Foram cento e vinte disse o Coronel!

Oh...! Foi a exclamação de admiração dos presentes.

— Não é verdade Cabo Luisinho? Perguntou o Coronel Gamarra.

— Verdade, é a mais pura verdade! Confirmou Luisinho com segurança.

E assim foram muitas outras ocasiões em que Luisinho se sentiu obrigado a “validar” as fantasias exageradas do Coronel. Tudo isso já o estava deixando de saco cheio cansado de mentir para os outros. Tempo depois numa outra reunião onde o Coronel ufanava-se de ter estado numa noite só com quinze belas mulheres escutou um oh...! Desta vez de incredulidade que repercutiu na sala inteira.

— Não é verdade Cabo Luisinho?
— Verdade meu Coronel, quinze belas mulheres e uma baranga!
— Como uma baranga? Eu não vi nenhuma replicou o Coronel.
— Meu Coronel, pra falar a verdade verdadeira eu só vi a baranga!


Os risos que ressoaram na sala foram como tapas no rosto de Gamarra que, ofendido no mais profundo de seu narcisismo, no dia seguinte pediu a expulsão do exército de seu ajudante de ordens por insulto grave a um superior, mas nessa altura Luisinho não estava nem aí, três dias antes tinha recebido seu diploma de advogado e já estava de malas prontas para ir à procura de sua nova vida.

Amarga Revelação - Ises de Almeida Abrahamsohn


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Amarga Revelação
Ises de Almeida Abrahamsohn

        Os pais das minhas colegas da escola vão todos participar do comício das diretas na segunda feira. Na nossa família ninguém vai. Meu pai é major da polícia militar e diz que isso é coisa de baderneiros.  Meu pai diz que com essas molezas que o presidente Figueiredo está dando para os políticos e os sindicatos o país vai ficar na mão dos comunas. Ele quer dizer dos comunistas. Os meus tios também repetem a mesma coisa. Mas muitas outras pessoas que conheço não são comunistas e são a favor das eleições diretas. A minha professora e os irmãos das minhas amigas e as minhas tias, irmãs da minha mãe, querem todas o fim do governo dos generais. A inflação está alta e há muita corrupção e é preciso eleger gente melhor por eleição direta para mudar o país.

        Minha melhor amiga na escola é a Suely e ela diz que eu tenho que pensar com a minha própria cabeça e não devo acreditar no que dizem meu pai e meus tios porque são militares. Os pais da minha amiga detestam os militares. A razão é que a tia Lina, irmã da mãe dela, ficou um ano na prisão e sofreu muito. Quando saiu soube que o marido tinha sido morto. Isto aconteceu há quinze anos e a tia desde então mora com eles e tem depressão. Isso é o que a Suely ouviu da mãe que lhe prometeu que um dia contará tudo o que realmente aconteceu à tia.  Eu disse para minha amiga que meu pai e meus  tios são boas pessoas e não têm nada a ver com essas coisas que aconteceram faz tanto tempo.

        Suely me convidou para almoçar na casa dela e depois estudar para as provas de matemática e português. Nós combinamos de eu falar que meu pai é funcionário do Banco do Brasil, se alguém perguntar, para não criar caso.  Nós já estávamos almoçando na mesa grande da sala quando a tia chegou da escola onde trabalha. A Suely nos apresentou e ela, sentada à minha frente começou a conversar e não tirava os olhos de mim durante todo o almoço. Perguntou o que meus pais faziam, se eu tinha irmãos e eu respondi como combinado  que sou filha única, o que é verdade, e que eu nasci em São Paulo e meu nome, Marina. Ela me disse que eu era muito parecida com uma pessoa que ela conhecia e a mãe da Suely confirmou que a semelhança era muito grande.  Eu fiquei meio sem jeito e brinquei dizendo que esperava que a pessoa de quem estavam falando fosse bonita. Depois subimos para estudar e eu não pensei mais nisso.

        Quando voltei para casa no fim da tarde contei para minha mãe o que se passou no almoço e ela ficou muito agitada. Indagou se a tia da Suely fez muitas perguntas.  Eu respondi que havia mentido que meu pai trabalhava no Banco do Brasil e ela quis saber por que. Então tive que falar que eles detestavam militares e ao  ouvir a história da tia ela ficou muito nervosa, começou a chorar e subiu para o quarto.  Depois a ouvi telefonar para meu pai. Ele veio logo para casa e os dois ficaram um tempão conversando no quarto. Não me falaram nada, mas eu sabia que algo de grave se passava.

         No dia seguinte minha mãe, sem me olhar nos olhos, disse que nós iríamos mudar para Manaus na semana seguinte porque o pai tinha sido transferido. Eu percebi que mentia. Protestei por causa da escola, ainda nem era fim de semestre. Retruquei que não acreditava porque meu pai, na semana anterior, havia dito que com o comício e as passeatas todos os exércitos do país teriam que ficar de prontidão.

        Eu estava desnorteada  e pedi à Suely para conversar com a tia para entender a razão da reação de meus pais. Encontrei-a naquela tarde mesmo.  Ela me recebeu com carinho. Depois me contou que quando foi presa estava grávida e na prisão teve  uma menina. Quando o bebê completou dois meses foi levado pelos guardas e ela nunca conseguiu saber o paradeiro da sua filha. Imaginava que tinha sido entregue a alguma família de militares que registraram a menina como sua.

 ̶   Marina, eu creio que você é minha filha. Mostrou-me fotos:
 ̶  Olhe, este aqui é seu pai antes de ser preso e desaparecer.
        Comecei a chorar. Não sabia se acreditava nela ou não, mas eu era mesmo parecida com o homem da foto.

Podia ser... Tenho os mesmos cabelos castanhos crespos, os olhos meio puxados e um pequeno espaço entre os dentes da frente, não sei o que fazer, e se não for verdade? E meus pais até agora? Roubaram o bebê da Lina. São horríveis sequestradores? Se for verdade não quero mais viver com eles, o que fazer? Não posso deixar que me levem para Manaus.

        A Lina percebeu que eu estava desorientada e sofrendo, e tentou me acalmar. Falou para eu voltar para casa e que a certeza só viria se meus pais confessassem ou se os advogados dela conseguissem provas. Além disso, eu teria que fazer testes genéticos para mostrar que eu não poderia ser filha deles, mas isso seria demorado. Amanhã os meus pais seriam intimados pelos advogados e o juiz iria impedir a minha viagem para Manaus.

        Foi terrível voltar para casa e não falar nada. Olhava para minha mãe e pensava como ela pôde fazer isso! Fiz de conta que estava aborrecida por ter que mudar para Manaus. Chorei no meu quarto à noite e ela veio me consolar, mas eu a afastei!  Não queria nem que ela me tocasse.

        Só dois dias depois chegaram os papéis dos advogados de Lina. Fomos meus pais e eu ao juizado e lá estavam Lina e os advogados. Meus pais confessaram. Foi terrível. Minha mãe chorando explicou que não podia ter filhos e que, quando o avisaram da prisão, meu pai aproveitou e levou o bebê da presa para casa.

Eu não queria mais olhar para eles. A Lina me abraçou e disse que eu podia vir morar com ela, se quisesse. Eu disse ao juiz que, sim! Não podia mais ficar com aqueles que me criaram. Minha mãe de criação chorando me disse que esperava que um dia eu  entendesse e a perdoasse. Não sei. Foi o que respondi. Pedi para pegar em casa minhas roupas e material da escola. Queria me mudar o quanto antes.


        Agora estou há três  meses com minha verdadeira mãe, a Lina. Ela é muito diferente da minha outra mãe. É professora de inglês. Tem ideias modernas e se interessa por cinema e lê muito. Temos que nos acostumar uma à outra. Ela se curou da depressão e também remoçou e passou a usar roupas coloridas.  Moramos as duas em um apartamento em outro bairro e eu mudei de escola. Não sei se voltarei a encontrar meus pais de criação. No momento não quero. Talvez, um dia, apenas a minha mãe.

O suco de cagaita - Ledice Pereira




O suco de cagaita
Ledice Pereira



Aqueles desbravadores queriam deixar seus nomes marcados na História do país.

Seriam lembrados por seus feitos, custasse o que custasse. Não importava os meios que usassem. Os fins estariam justificados.

Montados em seus imponentes cavalos, cantil a tiracolo, cuias nas mochilas, armados de facões e punhais com os quais abririam caminho, embrenharam-se mata a dentro. O objetivo era descobrir novas terras, encontrar tribos indígenas que ali habitassem, catalogar plantas e árvores e levar civilizações para aquelas regiões afastadas.

 Partiam, em geral, em número de sete ou oito para que um ajudasse o outro, em caso de ataque de índios ou de animais selvagens. Iam abrindo clareiras perto de algum riacho, onde montavam barracas, que os abrigavam enquanto ali permanecessem.

Zeca, um rapaz meio atrapalhado, que vivia só, havia insistido tanto que acabaram por levá-lo. Quem sabe ele serviria para preparar um chá, ou café e até uma sopa à noite.

Alguns dos cavalos iam carregados de comestíveis fáceis de preparar.

À noite, a temperatura na mata costumava cair e uma fogueira era necessária para aquecê-los enquanto preparavam batatas assadas e pedaços de carne de porco salgada.

Colocaram o pobre Zeca para acender o fogo, mas o rapaz teve muita dificuldade para realizar a tarefa, sem contar que, ao conseguir, quase incendiou uma das barracas já armadas.

Começaram a se perguntar se teria valido a pena levá-lo com eles cedendo aos seus apelos.

O grupo estava exausto e após alimentar-se resolveu recolher-se, cada um, à sua barraca.

Zeca, encarregado de preparar a refeição matinal, brindou-os com um suco natural feito com cagaita, uma fruta nativa que colheu ali mesmo, perto do acampamento.

Todos se deliciaram com o suco e belos pedaços de bolo que haviam levado.

 O que ninguém sabia é que a tal frutinha tinha um efeito laxante o que impediu a todos de trabalharem naquele dia como haviam programado.

A maioria passou o dia correndo do mato para o riacho.


Na manhã seguinte, destituíram Zeca da função de preparador de desjejum e, antes que algo mais grave acontecesse, resolveram mandá-lo de volta ao vilarejo com a ajuda de um nativo que para lá se dirigia.

A VERDADE DE UM PESCADOR - Oswaldo Romano


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A VERDADE DE UM PESCADOR
Oswaldo Romano

No baixão da serra, corre o histórico Rio Tietê, na época, paraíso dos pescadores. Pescaria estava sempre ligada a uma boa cachaça. Lá moleque desmamado bebericava, assim como as avós de cócoras pitavam em cachimbo de barro. Coisa que não faltava na região era ela, a marvada.

Certa vez, numa pescaria, notamos um amigo que se distanciou do grupo. Um silêncio profundo tomava conta da escuridão e só se ouvia o coaxar dos sapos, rãs, cricri dos grilos e, naturalmente, o barulho das chumbadas quando lançadas na água.

Assim, um ou outro se afastava procurando um poço piscoso, o que não era aconselhável devido a cobras e outros perigos.

Mas o Alcides afastou-se. Quando voltou, questionado, floreou que não havia percebido ter sentado, em vez de numa pedra, no casco de um cagado!

   Contou que mais em baixo o rio estava piscoso. Realmente no seu balde o chacoalhar das águas mostrava uma profusão de peixes. Alguns amigos, mal acreditando rodeavam seu sucesso e admirados com tantos elogiavam a tamanha sorte.

   Eu fazia ponto próximo e continuava tentando pegar os meus. Que nada! Quanto a ele não podia ter se distanciado tão longe, e o rio era o mesmo. Normalmente os peixes sobem a correnteza para surpreender alimentos que descem. Nem todos voltam. Era raro fisgarmos, mas ora um, tempos depois outro anunciava: —até que enfim!

— Pegou? - Alguém perguntava.

A resposta, sempre a mesma:

— Pequeno, tira gosto.

   Depois que os amigos curiosos se afastaram, dele me aproximei:

   —Alcides, eles acreditaram em você. Você varou aquela cerca e entrou no pesqueiro do vizinho, não foi? Claro que pescou, ele é criador. Além de tudo neste rio não dá carpa. Está escuro, não viram.


     — tem razão, eu queria me mostrar lá em casa. Não vou levar, não.... Errei feio. Vou voltar e devolvê-los.

Decisões Inoportunas - Maria Amelia Favale


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Decisões Inoportunas
Maria Amelia Favale

  Ao folhear o jornal me impressionou a história que relata os dependentes de drogas.

   O delegado da cidade se mostrou pouco preparado para administrar uma cidade povoada de drogados.

    Antes de tomar qualquer decisão, seria precisos ir além dos conceitos necessários. Ouvir opiniões contraditórias, ter capacidade e sensibilidade para compreender o que realmente acontece com o comportamento singular dos que vivem no mundo fantasioso e fora da realidade, no entanto querendo mostrar o quanto poderoso ele era neste assunto,  afugentou os viciados do local onde se concentravam para satisfazer suas necessidades em outras praças.

     Como diz o ditado popular: foi pior o emenda que o resultado.

      A turma se espalhou pela cidade com aparência de zumbi, assustando criança, mulheres e até homens.

       Todos indignados com que assistiam, sentem-se impotentes.