UMA MULHER DESCONFIADA - Suzana da Cunha Lima

 



UMA MULHER DESCONFIADA

Suzana da Cunha Lima


Palmira sabia de tudo que se passava na vizinhança. O peitoril da janela já tinha até a marca de seus cotovelos. Cada atitude fora do comum já lhe parecia suspeita e digna de uma investigação.

Agora ela estava se especializando em relações humanas, ou mais explicitamente “quem está com quem?” e por que “aquele alguém não fica com ninguém”? Esta última questão lhe requeria mais atenção do que as costumeiras.

Naquela tarde preguiçosa, onde parecia que o mundo, os carros na rua e as pessoas na calçada, se moviam em câmera lenta, ela observou um casal se dirigir para a pracinha sem pressa, de mãos dadas.

Ela já ia fechar a janela e encerrar o expediente do dia, quando estacou subitamente.  Conhecia aquele casal, ora se conhecia… Eles eram casados, mas não um com o outro. Aí tem… pensou alegre, levando sua xícara de café para a janela e retomando seu posto de observação.

— Raul e Alice, hein? Que fingidinha…

Ora, Raul sempre posava de bom moço, bom marido, cumpridor de seus deveres. E Alice, então? Vai à missa todo domingo, reza como uma condenada e faz de tudo para ser notada como boa esposa e boa cristã. E agora? Ali, na cara de todos, agarrada a Raul.

— Será que liberou geral? O que deixei escapar? Correu célere para telefonar para a comadre que morava em frente à pracinha, num local privilegiado para testemunhar aquela obscenidade.

— Rute, espia aí para a pracinha, logo! Raul e Alice agarradinhos… Cristo! Onde vamos parar se as safadezas vão ser agora a céu aberto?

— Palmira, para de pensar mal dos outros. Alice é prima de Raul e teve uma torção no tornozelo. Coisa séria. 

— E daí? Tem salvo-conduto para primagem agora? Primo pode?

— Para, mulher, ele deve estar levando Alice para o postinho. Eles moram perto e o marido dela está viajando.

— Viajando nada… Daqui estou vendo ele sair de casa pela porta dos fundos.  Quem te disse que ele ia viajar?

— Como é? Nestor está na cidade? Espantou-se a comadre, indignada. — Ele mesmo me avisou que ia passar a semana fora. Ah, aquele sacripanta me paga! Ah, se paga… Não se pode confiar em ninguém mais nesta vida. Credo!


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