A ONDA
Carla Di Sessa
Carlos saiu de casa com a cabeça girando, o coração aos pulos e os pés sem rumo.
Após 23 anos juntos, Aline havia pedido o divórcio, dizendo que não era mais tão jovem e queria ser feliz. Como assim ser feliz? E ela havia sido o quê até agora?
Carlos continuou andando e se viu no mirante onde as pessoas costumavam se reunir para admirar as ondas gigantes, mas, naquele momento, ele não enxergava nada.
Ele sabia que o começo brilhante de um casamento se dissolvia com o passar dos anos, dando lugar a outras emoções que podiam ser tão bonitas quanto. Ele olhou as ondas e finalmente pôde vê-las se formando, crescendo até arrebentarem em uma confusão de água e espuma.
Quais os sinais que ele havia ignorado? As pistas que não havia entendido? Aquela ideia não podia ter surgido do dia para a noite, Aline devia ter deixado que crescesse e se espalhasse, feito erva daninha.
As ondas caíam com força, explodiam, mas não conseguiam deixar marcas permanentes no mar embaixo. Aquela água toda se movia junto. Talvez um dia ele poderia fazer o mesmo: se juntar à dor e à raiva e deixar que explodissem, tomando conta de tudo. Uma hora elas perderiam força e, então, quem sabe, seu coração poderia seguir em frente.
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