Uma Onda Insuperável - Yara Mourão




 Uma Onda Insuperável

Yara Mourão Phillip não tinha grandes recordações de sua jornada de vida. Era um coração instável, uma mente inquieta. Mas o ponto de contato dele com a terra era estar na água. Por isso nunca se afastava dos grandes lagos, rios turbulentos, oceanos infinitos.
Havia sido um surfista em sua juventude e agora, às portas dos cinquenta anos, lutava para ficar de pé, preso a uma cadeira de rodas; alimentava sua existência mirando as ondas nas costas mágicas do Havaí. Eis que ao entardecer do solstício daquele ano, Phillip se ancorou no patamar mais alto do belvedere da praia central, para observar o por do sol. Mas foi ficando inebriado pela vista do mar turbulento e, ainda que imóvel em sua cadeira de rodas, ia surfando no barulho das ondas.
Sabia se conduzir: primeiro, sentia o vento; vinha de leste para oeste crispando o topo das ondas. Era um bom vento, embaralhava seus cabelos e respingava agua salgada em seu rosto. Depois, sentia a temperatura da água num arrepio intuído; água fria mas sempre dominável.
Phillip se moldava ao movimento da maré, girando sua cadeira de um lado para o outro, imaginando o ângulo certo para entrar no tubo e sair do outro lado. Ele quase nem abria os olhos e se projetava pelo espaço, mergulhando no turbilhão das emoções inesquecíveis.
Sempre, a água, a dádiva preciosa.
Ele sabia amar aquela fonte de beleza e perigo. Lembrava de quando surfava e que, ao se atirar ao encontro de uma onda abraçava a criação e agradecia aos céus.
Até que, sob os últimos raios de sol, surgiu aquela onda magnifica! Enorme, densa. Phillip a encarou como um caçador que encara sua presa feroz. O ruído da queda na água remetia a trovões. Ele quis muito estar numa prancha! Não havia mais. Ele quis muito um equilíbrio. Não o encontrou. E a grande onda veio, altiva, insuperável, tapando o horizonte do entardecer.
Ele se projetou à frente num esforço para ficar de pé e estar, de novo, surfando. Ele conseguiu se apoiar no parapeito do belvedere e ver toda aquela fúria se transformar em marolas aos pés da areia.
Caiu a noite.
Phillip sentiu, no fundo do peito, a natureza imitando sua vida, que agora, como a maré, estava se amainando sobre a terra.

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