No Meio do Caminho - Yara Mourão

 





No Meio do Caminho

Yara Mourão


Na mata fechada, o brilho do sol iluminava partes do caminho, abrindo uma fresta de esperança aos olhos dos trilheiros.

Eva seguia, já ofegante, atrás de Denis, com passos hesitantes e num fio de voz expressando seu desassossego: 

— Parece uma estrada para o além!

— Mas é só um pedaço de terra cercado de verde por todos os lados, Eva. Muito intenso, muito tenso, tudo junto! 

 Denis comentou, ainda tranquilo.

Ele seguia à frente, passos largos e firmes, como se fosse um conhecedor do trajeto.

Entretanto, eles não eram parte de um grupo, porém ambos tinham o apelo irresistível de desbravar o desconhecido e intuíam uma aventura nos imprevistos imaginados.

Neste dia, a manhã estava úmida e quente, oferecendo projetos de beleza e encantamento. Deixando-se levar por essa atmosfera agradável, Eva se encantava com a confiança que Denis lhe passava desde o início da caminhada, quando foram apresentados um ao outro. Já ele se sentia um guia experiente, sem ter dúvidas do caminho a seguir, dos atalhos a passar, dos sinais de correção da trilha.

Denis dizia ser habituado a caminhos na mata, e que era só seguir a esteira das folhas secas, dos seixos quebrados, que se chegava ao ponto de encontro. Ele não hesitava. Vez por outra, parava para acertar a respiração, esticar os joelhos, alongar os braços. Chamava por Eva para se certificar de que ela o seguia.

Sim, ela o seguia, sem fantasias, sem aspirações, mãos frias e pensamentos incertos. “Será que ele já fez essa trilha antes? Parece tão seguro, os passos certeiros, sem tropeços em meio às rochas, às pedras…”

Algumas horas depois, bateu o cansaço, a lentidão do caminhar, a insegurança à flor da pele.

Eva se dobrou devagarinho, sentou sobre um tronco de madeira e chamou baixinho por Denis.

— Por favor, não me sinto mais com energia para seguir no caminho. Preciso voltar!

Denis olhou para trás e viu no rosto dela a expressão do medo que ele não queria confessar. Mas hesitou. ‘’Afinal, não era ele um atleta experiente? E ela, seria mesmo uma esportista ou mais uma curiosa se passando por mochileira?’’

Na verdade, agora ele já suava, a mochila lhe pesava demais. Seu andar era incerto e pensou que talvez esse não fosse o sentido que queria dar a um encontro com a natureza. Ele se sentou ao lado dela e disfarçou o embaraço. Até sorriu. Cantarolou uma melodia triste. Por fim, pegando na mão dela, confessou seu cansaço e insegurança.

— Se você quer, vamos voltar; vamos aproveitar a claridade que resta e a água que ainda temos nos cantis!  

Eram, agora, dois perdidos na mata úmida, que já começava a ser fria e sombreada. O sonho de conquistar alturas e distâncias, de se integrar à natureza bruta e volúvel, se desfazia. Eva e Denis souberam ser desbravadores incautos, amantes de ilusões.

Retornaram à base. “Vinham tristes e fatigados”, descrentes deles próprios.

Aos pés do grande jatobá de onde partiram, se olharam como “prisioneiros libertados que se maravilham com a liberdade”.

E foi assim, experimentando tudo o que o desconhecido pode oferecer, que Denis e Eva se conheceram, desejando, ardentemente, que o destino lhes presenteasse com uma outra jornada juntos, só que, desta vez, bem mais gratificante!


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