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UM PADRE SABICHÃO - Isabella Brancher
O sacerdote bonitão - Ises de Almeida Abrahamsohn
O sacerdote bonitão
Ises de Almeida Abrahamsohn
Era um jovem padre inconformado com o celibato obrigatório imposto pela Igreja Católica Apostólica Romana. Por que ele, másculo, atraente, com os desejos carnais normais da espécie humana, deveria se sujeitar às leis de um grupo de cardeais vetustos e impotentes sediados em Roma?
Gostava de seu ofício, prezava sua habilidade de conselheiro, considerava-se mesmo um psicólogo. Não havia escolhido a vida religiosa. O destino o havia empurrado para o orfanato e depois para o seminário. Lúcio era filho bastardo colocado numa família pobre e piedosa para ser criado. Era grato ao casal idoso que o abrigara e amara até os seis anos. Aos sete, morreu-lhe o pai adotivo e a mãe, impossibilitada de o manter, enviou-o ao internato católico. Aos doze anos, faleceu a mãe, deixando o imóvel onde morava à Cúria em troca do compromisso de manter e educar o jovem até a idade adulta. Acabou optando pela facilidade de continuar os estudos no seminário. Faltou-lhe coragem de abandonar antes da ordenação.
Como padre, Lúcio levou a sério a profissão. Aconselhava jovens, apaziguava famílias, aliviava os pecadores. Enfim, cuidava de seu rebanho e era apreciado especialmente pelas paroquianas do sexo feminino. O que constituía um problema para o bom padre Lúcio, que gostava das mulheres e, principalmente, gostava de sexo.
Procurar profissionais de sexo, nem pensar. Tinha pavor de doença venérea. Impossível também, naquela pequena cidade, ir a um prostíbulo ou receber visitas femininas. Atrair alguma moça bonita solteira entre as fãs paroquianas também estava fora de cogitação. Primeiro, o medo de engravidar e, segundo, porque preferia uma parceira que tivesse alguma experiência e que, de fato, apreciasse as volúpias do ato sexual.
Estava cansado das confissões. Muitas mulheres frequentavam as missas atraídas pelo jovem e belo padre. O confessionário era disputadíssimo , algumas mesmo ousavam insinuações. Como achar uma parceira experiente e discreta para suas noites?
Veio-lhe a ideia de chamar para confissão num dia determinado aquelas que costumavam trair os maridos. Ele as chamava de “traideiras”. Confessavam, ouviam os conselhos, faziam a penitência, e na semana seguinte lá estavam elas de novo, relatando o mesmo pecado e seguindo a mesma penitência. Era entre essas que faria a seleção. Eram cerca de dez senhoras que, confiantes no segredo da confissão, haviam exposto seus pecados de adultério. Padre Lúcio descartou aquelas de adultério ocasional.
Procurava as pecadoras contumazes a quem habilmente perguntava sobre os pecados de volúpia e luxúria. Restaram-lhe três candidatas a sondar. Decidiu-se por Rita.
Rita era uma linda morena de trinta e cinco anos, casada há 15, sem filhos. Era infértil.
Melhor assim, a candidata ideal, não haveria complicações.
Padre Lúcio chamou Rita para uma confissão de fim de tarde, num sábado com a igreja vazia. Sugeriu mostrar-lhe um livro ilustrado na sacristia. Ao que Rita aceitou entusiasmada.
Da sacristia à cama do sacerdote que morava na casa ao lado foram apenas doze passos.
E assim Lúcio e a bela Rita se encontraram ardentemente por vários meses.
Rita se divorciou, Padre Lúcio resolveu abandonar a batina e o casal mudou-se para outra cidade. Ele passou a dar aulas de português e história, e Rita se tornou corretora de imóveis. E foram muito felizes, ou tanto quanto é possível ser.
Tradição x Novos Tempos - Sergio Dalla Vecchia
Tradição x Novos Tempos
Sergio Dalla Vecchia
Por fim, o pároco idoso da pequena cidade do interior aposentou-se. Não a seu pedido, e sim uma imposição do bispo. É o que comumente acontece com os velhos de casa. Na fábrica, nas grandes corporações e até na igreja.
Quando a notícia veio a público, a cidade ficou em polvorosa.
Quem será o seu substituto? Será simpático ou linha dura? Nosso padre, há tantos anos, não poderia ter feito isso com a comunidade. Já conhece cada um de nós. Criamos um vínculo de amizade e respeito, como nos adaptaremos ao novo padre?
Eram as perguntas que perambulavam pelas ruas da cidade!
Após uma semana de ansiosa espera, eis que ele chega, o novo padre!
Jovem, bonitão e com jeito inovador, foi a impressão que causou nas pessoas.
Após as boas-vindas, com mimos e muita demonstração de acolhimento, o padre iniciou os trabalhos.
Nas primeiras missas e conversas na sacristia, foi conhecendo os paroquianos, principalmente as mulheres penitentes que praticamente ali moravam.
Assim, as pessoas foram adquirindo confiança, se desinibindo e, com isso, a fila do confessionário aumentou.
O padre não dava conta de tantos pecados. Pensando na melhor eficiência, resolveu escalonar as beatas nos dias da semana e conforme o tipo de delito.
Nas segundas-feiras, as fofoqueiras; nas terças-feiras, as que tiravam dinheiro às escondidas da carteira do marido; às quartas-feiras, as hipócritas; nas quintas-feiras, as que bebiam além da conta; nas sextas-feiras, as diabólicas; nos sábados, as gulosas; e finalmente, aos domingos, as traidoras de maridos.
Esse calendário inovador afetou muito o cotidiano da pequena paroquia.
As beatas, rangendo os dentes, pareciam sem rumo, circulando aleatoriamente pelas ruas.
─ Como conseguiremos cumprir o cronograma? Ficaríamos rotuladas pelos nossos pecados, agonizavam elas!
─ Lá vêm as ladras das terças. Lá vêm as hipócritas das Quintas e assim por diante!
É o que gritaria o povo!
─ Preferimos morrer, cogitavam algumas desesperadas.
Entretanto, o grupo que menos se preocupou foi o das traidoras de maridos. Não viam a hora de se abrirem para aquele bonitão.
Animadas com a ordem do Padre para que o aguardassem na sacristia para confessarem e que em seguida ele ajudaria uma a uma no pagamento da penitência.
─ Tem coisa melhor? Agora, além de gostarmos, ainda receberemos o consolo do padre bonitão! Expressou seu contentamento em voz alta à mais animada das beatas.
O OUTRO LADO DO CONTO DO VIGÁRIO - Yara Mourão
O OUTRO LADO DO CONTO DO VIGÁRIO
Yara Mourão
É muito próprio dizer que “ser mineiro é ter vida interior”, e que isso se manifesta em diferentes graus de criatividade.
Certa vez, um padre mineiro, percebendo a pressão que as mulheres exerciam sobre ele, tentando acabar com as digressões no confessionário, estabeleceu interessantes critérios para a confissão das beatas; cada dia da semana era para um determinado tipo de pecado.
Entretanto, não contava com a marotice das mais jovens frequentadoras da igreja, que encontraram brechas para contornar a estratégia do vigário bonitão.
Elas, as jovens, sabiam que as mulheres são de tudo um pouco: preguiçosas, fofoqueiras, surrupiam os trocados dos maridos, se fazem de santas, apreciam vários goles de vinho, acendem uma vela a Deus, outra ao diabo e fingem com perfeição que fazem dieta. Por isso mesmo, a turminha do fundão das missas, a fim de testar a força dos ditames do padre, resolveu ir ao confessionário todos os dias da semana, configurando-se, assim, como pecadoras contumazes.
Para elas era uma contínua emoção! Elas trocavam entre si as penitências recebidas, avaliando qual pecado era mais grave que outro! Até rezavam com fé, mas com pouca convicção de que seriam perdoadas.
Iniciaram-se às segundas-feiras, e tudo foi normal; às terças, o padre pareceu estranhar a presença das meninas. Quarta, o vigário quase se recusou a permanecer no confessionário. Na quinta, ele já tinha certeza de que aquilo era uma coisa de satanás. Sexta-feira, estava a ponto de chamar um exorcista.
Mas quando chegou a noite de sexta-feira, terminada a missa, o padre bonitão se surpreendeu ao ver a igreja praticamente vazia, sem beatas, sem os maridos. E, sentadas nos primeiros bancos da igreja, estavam aquelas jovens que se confessaram a semana toda de todos os pecados listados pelo vigário!
Ele, então, se dirigiu a elas e, em tom severo, passou-lhes um sermão cheio de mineirices!
Mas elas, em tom sereno, explicaram que as mulheres não são pecadoras eletivas e sim pessoas que amam o adorável caos de viver! E que o Senhor saberia entender o recado em sua infinita misericórdia!
O padre, meio que possuído, meio que iluminado, só conseguiu abençoá-las e dizer:
“Ide em paz, o Senhor vos acompanhe!”
E até hoje as beatas agradecem às meninas por livrá-las de confissões tão reveladoras!
A grande onda - Ises de Almeida Abrahamsohn
A grande onda
Ises de Almeida Abrahamsohn
Helena abriu os olhos bem devagar. Deitada, sentia o corpo balançar em todas as direções. Estaria deitada na prancha de surf, embalada pelas ondas? Pouco a pouco, percebeu as paredes brancas que se moviam, iluminadas pela intensa luz branca, e ouviu o apitar constante de algum equipamento que não conseguia enxergar. Sim, era um quarto de hospital. A cabeça doía-lhe muito e, com esforço, conseguiu levantar a mão direita.
Que horror, rasparam minha cabeça… percebeu enquanto os dedos apalpavam os vários ferimentos suturados. Quis virar-se na cama, mas uma perna e um braço engessados a impediram. Algumas imagens surgiram nebulosas: o rosto da mãe, seu gato preto e branco, o mar e uma praia… Exausta, adormeceu…
Ao acordar, tudo lhe veio à mente.
A praia em Honolulu. Bem que lhe avisaram do perigo.
O rapaz havaiano carregando a prancha profissional advertindo:
― Lady… Lady é palavra que ele usara. Cuidado, essa praia é para profs. Profissionais!
Olhei incrédula e respondi que eu já tinha surfado muitas ondas altas no Brasil. Não devia ser muito diferente. Ele me irritou repetindo para tomar cuidado. Devia ser daqueles que pensam que mulheres não sabem surfar!
O mar de um azul profundo com ondas de porte médio a intervalos regulares era convidativo. Peguei algumas boas ondas. Talvez umas seis voltando cada vez mais confiantes com braçadas fortes até um pouco além da arrebentação. Eu estava ali deitada, deixando as marolas passarem, olhando à frente à espera de uma boa. Havia outros surfistas perto da praia que vi, alguns agitando os braços e gritando, porém, estavam distantes.
E foi então que ela veio, de repente… Enorme, impossível, um paredão azul com sete metros de altura se erguia à minha frente. Tinha que me encaixar no bolso da onda antes que arrebentasse sobre mim. Movia os braços com toda força para chegar ao tubo. Não deu… Ainda consegui direcionar a prancha para o fundo para escapar da fúria que se abateria sobre meu corpo. Enchi os pulmões e mergulhei, arrastando a prancha. O empuxo me jogou ao fundo. Eu sabia o que tinha de fazer, era rolar no fundo, protegendo a cabeça, até que a onda passasse.
Acho que desmaiei. Não sei de mais nada. Acordei aqui no hospital. Não sei como saí, nem se alguém me salvou.
Mais tarde, Helena soube que devia a vida àquele rapaz da praia. Ao ver que ela sucumbira à enorme onda, entrou no mar com um colega, ambos em jet-ski, levando um colchão salva-vidas. Quando a onda estourou, viram o corpo da moça aflorar à superfície antes de ser de novo empurrado para o fundo. Conseguiram assim localizar onde se encontrava, mergulhar e puxá-la para o colchão. Estava desmaiada, porém na praia, com as manobras necessárias, expeliu a água dos pulmões e voltou a respirar.
Tinha várias fraturas e foi levada de ambulância ao hospital.
Se vou surfar de novo? Me perguntaram várias vezes após o acidente. Por enquanto, não. Mas sei que, logo que ficar curada das fraturas, vou voltar ao mar. Mais experiente e sem me arriscar.
FOFOQUEIRA - Sergio Dalla Vecchia
FOFOQUEIRA
Sergio Dalla Vecchia
Lá estava Mafalda debruçada sobre a janela da viela quando surgiu uma moça grávida. Feliz da vida, acariciava o ventre com as mãos, mostrando aquele sorriso típico de grávida, suave e pleno.
Foi o suficiente para Mafalda iniciar o ataque:
─ Creuza, como vai você com essa linda barriguinha?
─ Ah, Mafalda, estou ótima e já de três meses!
─ Nossa, que rápido, hein! Você não tinha nenhum noivo e agora está grávida. Com todo o respeito, mas você já sabe quem é o pai?
─ Claro que sei, é o Roberto, meu noivo.
─ Que rápido, hein, agora do nada apareceu um noivo!
─ Será que o pai é ele mesmo? Emendou Mafalda com um sorriso irônico.
─ Você está me ofendendo, é o que o Roberto já disse, sua maldosa.
─ Creuza, Creuza, e o Antenor que você saiu num sábado. Passaram juntinhos aqui na frente, conversando animadamente, e no domingo cedinho você retornou toda descabelada!
─ Você está inventando coisas, por ser uma solteirona com inveja.
─ Ah, é, e o Clodoaldo das terças-feiras, esqueceu-se dele?
─ Você é mesmo maluca, Mafalda, passe muito bem que vou embora. Fique aí com seus rancores!
Mafalda engoliu em seco e, justificando a si própria, resmungou.
─ Não tenho culpa de me atualizar no dia a dia pelo jornal da minha janela, portanto sei de tudo e não controlo essa minha boca santa, afinal sou Mafalda, a fofoqueira. Doe a quem doer!
OLHA A ONDA! - Sergio Dalla Vecchia
OLHA A ONDA!
A onda - Carla Di Sessa
Uma Onda Insuperável - Yara Mourão
Uma Onda Insuperável
A terrível criatura - Isabella Brancher
A terrível criatura
Isabella Brancher
O torneio começaria em alguns dias, eu havia decidido chegar antes para me ambientar.
O tempo estava ótimo, ensolarado, poucas nuvens e uma vibração amena preenchia o espaço, agora ainda vazio.
A brisa marinha era doce e aveludada. Sentado na areia, bem próximo da rebentação, observava as ondas que vinham deslizando pela costa até espumarem na praia. Junto aos meus pensamentos, questionava-me. Como me sentiria abraçado por aquele mar de água? Permaneci horas ali, olhando. Algumas pareciam criaturas sinistras, enigmáticas, capazes de calar o mais corajoso dos homens. Outras eram crianças inocentes buscando espaço para brincar.
Fiquei me imaginando a flutuar sobre essas criaturas, tentando dominá-las. Conhecia a minha capacidade de lidar com elas, mas ainda assim seguia me perguntando. Devo mesmo participar desse torneio?
Nos dias seguintes, segui o mesmo ritual, tomei o meu café da manhã e, sentado na areia, passei horas a observar. A lembrança do acidente no torneio de Nazaré ainda me atormentava. Aquela imagem do meu colega abatido turvava minhas ideias. Não havia como me furtar, amanhã teria que enfrentá-las.
A tão inesperada manhã chegou, dirigi-me até a praia, não como o espectador dos outros dias, mas como protagonista. Meu papel, o mais importante de todos: era sair vivo.
Surfei a primeira, depois a segunda onda, desci a terceira como se bailasse num salão, meu domínio era total. Ainda precisava descer uma onda perfeita, um tubo redondo e bem alto para poder ganhar o campeonato.
Ela vinha se formando e, enquanto crescia, aumentava em paralelo a minha incerteza.
— É agora!
Entrei na onda com a mesma certeza das anteriores. Ela me engoliu. Fui sugado para dentro daquela criatura feroz aquilina que me consumia, foram minutos intermináveis, a prancha de um lado, eu do outro. Nos misturávamos naquele infinito de água.
Felizmente, como todas as anteriores, ferozes ou dóceis, cuspiam seus invasores na areia, misturados com uma montanha de espuma. Finalmente, me vi inteiro, esparramado na praia. Tossindo as entranhas da criatura que insistira em me possuir.
Como uma onda no mar... - Ledice Pereira
Como uma onda no mar...
Ledice Pereira
Vendo um vídeo de uma onda gigante, a princípio, escura, transformando-se num túnel majestoso, de um azul turquesa ou verde intenso, penso como é grande o poder da natureza que, ao mesmo tempo que nos amedronta, nos impacta.
Como Ítalo Ferreira e Gabriel Medina devem se sentir hipnotizados por essa força misteriosa que, desde a infância, os atrai tão fortemente, fazendo-os enfrentar corajosamente, qualquer que seja o tamanho e a violência delas.
Ao mesmo tempo, essa imagem me remete à adolescência, quando convidada a passar férias em Ubatuba, na casa de uma amiga e sua família.
Muitas são as lembranças boas daqueles momentos, cinema, footing na praça, as peripécias vividas com aquela família grande, a amiga, as irmãs, os pais, tão diferente da minha realidade de filha única.
Mas a imagem mais marcante que ficou foi da onda que me dominou totalmente, levando-me a sentir, acho que, o maior medo de toda minha vida, tentando vencer aquela inimiga forte e poderosa pronta para me derrubar.
Foram longos minutos de terror, lutando com as forças que eu tinha para subir e respirar. Momentos que ficaram para a vida toda e me impedem, até hoje, de superar a dificuldade de enfrentar o mar e até uma piscina.
Fico com a imagem maravilhosa da foto e a admiração pelos intrépidos surfistas. Mas me dou o direito de admirar tudo de longe e sem qualquer envolvimento.
3 continhos: Carinho - Lauto - Cobiça/Preguiça - Ledice Pereira
Carinho
Aquelas crianças ficavam ali, tão sedentas de carinho, que nos causavam grande comoção.
Ao mesmo tempo, uma enxurrada de perguntas povoava nossa mente: conseguiríamos adotá-las? Estaríamos preparados para esse desafio?
Os olhinhos tristes, ao mesmo tempo esperançosos, pareciam pedir que os levássemos dali. Precisavam tanto de amor!
Lauto
Nosso grupo jovem foi convidado para a festa por um dos organizadores.
Estávamos todos sem programa mesmo. Resolvemos aceitar.
Ao chegar, já percebemos que estávamos no lugar errado. Todos de jeans, camiseta básica, enquanto os convidados desciam de seus carrões, elas de longo, eles de terno e gravata.
Nós ali, a pé com nossos tênis sujos e velhos.
O jantar foi servido, sem que pudéssemos fugir dali. Um lauto jantar. Nem sabíamos como nos portar.
Tratamos de engolir rapidamente e nos safamos dali. Já havíamos pagado o mico.
Cobiça / Preguiça
Sinval era aquele cara que não queria nada com a vida. Não tinha trabalho fixo. Vivia de um bico aqui, outro ali.
Não que fosse burro, mas vivia com muita preguiça. Preguiça de andar, de comer, até de falar.
O que não lhe faltava era querer o que os outros possuíam. A cobiça era uma constante em sua vida.
Queria o que os outros tinham mas a preguiça o impedia de ir atrás de seus desejos.
UMA MULHER DESCONFIADA - Suzana da Cunha Lima
UMA MULHER DESCONFIADA
Suzana da Cunha Lima
Palmira sabia de tudo que se passava na vizinhança. O peitoril da janela já tinha até a marca de seus cotovelos. Cada atitude fora do comum já lhe parecia suspeita e digna de uma investigação.
Agora ela estava se especializando em relações humanas, ou mais explicitamente “quem está com quem?” e por que “aquele alguém não fica com ninguém”? Esta última questão lhe requeria mais atenção do que as costumeiras.
Naquela tarde preguiçosa, onde parecia que o mundo, os carros na rua e as pessoas na calçada, se moviam em câmera lenta, ela observou um casal se dirigir para a pracinha sem pressa, de mãos dadas.
Ela já ia fechar a janela e encerrar o expediente do dia, quando estacou subitamente. Conhecia aquele casal, ora se conhecia… Eles eram casados, mas não um com o outro. Aí tem… pensou alegre, levando sua xícara de café para a janela e retomando seu posto de observação.
— Raul e Alice, hein? Que fingidinha…
Ora, Raul sempre posava de bom moço, bom marido, cumpridor de seus deveres. E Alice, então? Vai à missa todo domingo, reza como uma condenada e faz de tudo para ser notada como boa esposa e boa cristã. E agora? Ali, na cara de todos, agarrada a Raul.
— Será que liberou geral? O que deixei escapar? Correu célere para telefonar para a comadre que morava em frente à pracinha, num local privilegiado para testemunhar aquela obscenidade.
— Rute, espia aí para a pracinha, logo! Raul e Alice agarradinhos… Cristo! Onde vamos parar se as safadezas vão ser agora a céu aberto?
— Palmira, para de pensar mal dos outros. Alice é prima de Raul e teve uma torção no tornozelo. Coisa séria.
— E daí? Tem salvo-conduto para primagem agora? Primo pode?
— Para, mulher, ele deve estar levando Alice para o postinho. Eles moram perto e o marido dela está viajando.
— Viajando nada… Daqui estou vendo ele sair de casa pela porta dos fundos. Quem te disse que ele ia viajar?
— Como é? Nestor está na cidade? Espantou-se a comadre, indignada. — Ele mesmo me avisou que ia passar a semana fora. Ah, aquele sacripanta me paga! Ah, se paga… Não se pode confiar em ninguém mais nesta vida. Credo!
A Revanche - Ledice Pereira
A Revanche
Ledice Pereira
Eram duas horas da manhã, quando Rafael entrou pé ante pé, depois de custar a achar o buraco da fechadura.
Nem acendeu a luz. Foi andando devagar, tentando não trombar em nada para não acordar Palmira. Mas a mulher estava com o olho mais que aberto. Esperou que o marido entrasse no quarto e gritou:
– Isso são horas?
Rafael tentou, em vão, inventar uma desculpa esfarrapada. Primeiro, que estava fazendo hora extra.
– Sei, sei – ela murmurou, franzindo a testa – e esse bafo de bebida que está chegando até aqui?
Apesar da raiva, sabia que não conseguiria manter qualquer tipo de conversação porque Rafael estava mais pra lá do que pra cá.
Mandou-o dormir no outro quarto. Não suportaria aguentar aquele odor de bebida misturado a um perfume barato.
Estava muito brava! Estava puta mesmo! Custou a dormir. Perguntava-se por onde andara aquele sem vergonha.
Dia seguinte, Rafael acordou cedo. Deixou que a água caísse sobre a cabeça esperando que a ressaca passasse. Tinha consciência de que dessa vez havia se excedido.
Entrou na cozinha, onde Palmira passava o café e tentou dar-lhe um beijo, mostrando seu melhor sorriso, procurando não demonstrar a dor que sentia na cabeça pesada.
– Não me venha com beijinho.
Ele pediu desculpas. Jurou que não aconteceria mais.
– Ah tá, agora você é um santo! Ela já o havia perdoado em outras vezes.
– A turma resolveu beber para aliviar o dia que foi pesado – explicou com cara de cachorrinho magoado, os olhos baixos, fingindo arrependimento.
– Hã, hã, e esse perfume horroroso que não saiu nem com o banho? Não me diga que é do Jorge.
– Ah, meu amor, não é nada disso que você tá pensando.
Ela, levantando a sobrancelha, descrente, – sabe que estou ficando com pena de você. Seu chefe o está explorando muito, acho que vou ter uma conversinha com ele. Quando ela pegou o telefone, ele gritou:
– Desliga esse telefone, mulher! Prometo que isso não vai acontecer de novo! Juro!
– Jura mesmo? Vou sair. Quando voltar quero encontrar as camas arrumadas, a louça lavada, o banheiro enxuto e limpo. Faça isso antes de ir para o seu pesado trabalho. E pegue um táxi, ou ônibus, metrô, que hoje quem vai usar o carro sou eu. Vou fazer umas comprinhas. Não se assuste se receber notificação do meu cartão de crédito.
Rafael teve a certeza de que a farra não valera a pena. Sabia que teria que fazer muita hora extra, de verdade, para conseguir pagar o cartão de crédito.
Medonho - Isabella Brancher
A mãe desconfiada Ises - Almeida Abrahamsohn
A mãe desconfiada
Ises Almeida Abrahamsohn
Palmira tinha fama de botar defeito em tudo . Porém não era verdade. Desconfiada, era o que de fato era. O neto Artur a chamava de vó São Tomé. Para quem não sabe, Tomé era aquele apóstolo que duvidou da ressureição. Até que o Mestre o fez tocar sua ferida de lança.
Bem, Palmira não chegava a desconfiar das escrituras, mas de tudo e de todos que a cercavam, sim. E deixava sua filha Anita desesperançada.
Esta era jovem, tinha apenas 30 anos, viúva há seis anos. Era mãe de Artur, agora com sete anos. O marido falecera num acidente de automóvel. Viviam mãe e filho na casa de Palmira, um arranjo que de início parecia cômodo, mas que agora perturbava Anita. Trabalhava como contadora num escritório de advocacia. Quando fez vestibular para a Faculdade de Direito há dois anos, Palmira se sentiu ameaçada.
― Minha filha, tem certeza de que essa faculdade é boa? Você vai dar conta?
Demorou um ano a litania de Palmira...
Atacou em seguida o flanco de possível dano à educação de Artur. “Vai se ausentar demais, sem pai, ele vai sofrer com sua ausência, você toda noite fora!
Anita retrucava que o filho estava bem, afinal ela o punha na cama e ele dormia tranquilo a partir das oito quando ela estava em aula. E nos fins de semana ficavam sempre juntos.
Porém Anita se sentia só. Com o trabalho, a faculdade e cuidados com o filho ela não tinha amizades estreitas, apenas colegas e primas, ninguém realmente próximo. Desejava encontrar um parceiro que, além de bom marido se tornasse amigo do filho. Alguém que fosse seu parceiro nos gostos por música, viagens, leituras e bons filmes. As colegas lhe diziam que era um sonho irrealizável.
“Os homens solteiros na idade que você quer só desejam se divertir”, você verá, repetiam.
Depois de alguns relacionamentos que duraram poucos meses, Anita ia se convencendo disso. A alternativa eram homens vinte anos mais velhos à procura de mulheres jovens que os cuidassem na velhice.
Mas então apareceu Eduardo. Era advogado, 38 anos, divorciado com dois filhos adolescentes . Era pessoa interessante. Teria dado certo, não fosse a interferência de Dona Palmira. Começou a minar o namoro assim que percebeu possibilidades mais sérias.
― Anita, será que ele vai deixar de ver a ex? Afinal, ele a encontra todos os finais de semana ! A moça retrucou que ele visitava os filhos e se importava com eles.
Palmira em seguida revidou que Eduardo não tinha bens outros além do automóvel. Tanto fez e questionou que a relação esfriou e o rapaz desistiu,
O segundo namorado, Rodolfo, nem teve chance. Era alto, muito magro e corredor de final de semana. E era solteiro aos quarenta e dois anos.
Dona Palmira desconfiou logo.
― Será que é doente? Tão magro.
― Claro mãe, ele é corredor de meia maratona! Tem que ser magro !
A megera não se deu por vencida e atacou. ― Solteiro nessa idade? Não será bissexual ? Ainda pode passar HIV para você!
A gota d´água foi quando o rapaz chamou Artur para treinar corrida.
― Cuidado Anita, vai ver que é pedófilo. Cuidado... muito cuidado com Artur.
Agora Anita tinha encontrado Vitório, advogado no fórum, dois anos mais velho que ela. Estava à procura de um relacionamento sólido. E se deu bem com Artur. Os avós dele eram italianos. Iam a concertos, a parques e livrarias. Adorava ler e trazia para Artur os livros de aventuras de sua infância. Ajudava o menino nas leituras de Júlio Verne, Emilio Salgari, Karl May e outros.
Dessa vez Anita não ia deixar a mãe se intrometer. Ameaçou a mãe:
― Se você perturbar vamos eu e o Artur embora daqui!
Meio ano depois Vitorio lhe trouxe um belo anel. Era um anel de noivado. Anita radiante aceitou.
O rapaz quis encontrar a futura sogra. Veio almoçar no domingo. Palmira o olhou desconfiada e lançou uma saraivada de perguntas. Depois da quinta pergunta o rapaz deu uma risada, avisado que já estava do caráter da mulher.
Dona Palmira, a senhora é igual à minha avó. Bem desconfiada! Anita me contou . Vou me casar com sua filha e seu neto vai morar conosco,
Palmira engoliu em seco. Não tinha o que responder. Vitorio tinha se revelado. Era um esgrimista à altura das suas estocadas!
Derrotada, só lhe restava propor um brinde ao noivado. Até Artur ganhou um copinho do champagne misturado com água.
Mais tarde Vitorio explicou para Artur que observara tudo com olhos arregalados.
― Às vezes temos que ser como os mosqueteiros do livro, Artur, saber esgrimir e desviar! Sua avó é meio difícil, mas tem bom coração!
UM ESTRANHO EM MINHA SALA - Sergio Dalla Vecchia
FOFOQUEIRAS - Sergio Dalla Vecchia
FOFOQUEIRAS
Sergio Dalla Vecchia
Ao iniciar esse texto com o título de fofoqueiras, logo surgiu uma cena que assisti em um programa humorístico de televisão. Ela me fez rir muito.
Tratava-se de uma mulher que ficava debruçada sobre a janela em uma casa de subúrbio e sabia de todos que passavam à sua frente. Era impertinente, sarcástica e contundente. Tinha vontade imensa de criar cizânia.
A minha personagem é baseada nisso e chama-se Mafalda.
Lá estava Mafalda debruçada sobre a janela da viela quando surgiu uma moça grávida, feliz da vida, acariciando o ventre com as mãos, mostrando aquele sorriso típico de grávida, suave, terno e pleno.
Foi o suficiente para Mafalda iniciar o ataque:
— Oi, Creuza, como vai você com essa linda barriguinha.
— Ah, Mafalda, estou ótima e já de três meses!
— Nossa, que rápido, hein! Você não tinha nenhum noivo e agora está grávida. Com todo o respeito, mas você já sabe quem é o pai?
— Claro que sei, é o Roberto, meu noivo.
— Que rápido, agora, do nada, apareceu um noivo!
— Será que o pai é ele mesmo? Emendou Mafalda com um sorriso irônico.
— Você está me ofendendo, já disse, é o Roberto, já disse.
— Creuza, Creuza, e o Antenor com quem você saiu num sábado. Passaram juntinhos aqui na frente, conversando animadamente, e no domingo cedinho você retornou toda descabelada!
— Você está inventando coisas, por ser uma solteirona que tem inveja.
— Ah, é, e o Clodoaldo das terças-feiras, esqueceu-se dele?
— Você é mesmo maluca, Mafalda, passe muito bem que vou embora. Fique aí com seus rancores!
Mafalda engoliu em seco e, justificando a si própria, resmungou.
— Não tenho culpa de me atualizar no dia a dia pelo jornal da minha janela, portanto sei de tudo e não controlo essa minha boca santa, afinal sou Mafalda, a fofoqueira. Doe a quem doer!
Muito além do olhar - Yara Mourão
Sentinela do Bexiga - Adriana Frosoni
Sentinela do Bexiga
Adriana Frosoni
Florinda desconfiava até de elogio gratuito. Quando o padeiro lhe desejava “bom dia” sorrindo demais, ela apertava os olhos e respondia: “Hum… sei não”. Aos 57 anos, morava há décadas na mesma rua do Bexiga, conhecia o barulho dos portões, os horários dos vizinhos e até o humor com que saíam para trabalhar. Por isso estranhou quando viu Clóvis — marido de Celeste — sair de camisa azul-marinho nova, perfume forte e cantarolando. Homem casado há trinta anos não cantarola à toa, pensou.
Na manhã seguinte, Florinda o seguiu e percebeu outro detalhe: ele atravessou a rua no meio da tarde e entrou numa floricultura. Aquilo bastou para deixá-la alerta.
— Tem coisa aí, não tem?... — murmurou.
Nos dias seguintes, a rotina dela virou uma investigação silenciosa. Quase perdeu o ar ao ver Clóvis saindo de uma joalheria enquanto guardava um volume pequeno no bolso do casaco. Viu também quando ele voltou à floricultura e saiu com uma orquídea enfeitada com laços.
Resolveu então “proteger” a amiga. Naquela tarde, foi até a casa dela levando um bolo simples — porque notícia ruim combina com café fresco — e lançou suas dúvidas devagarinho, como quem não quer nada, medindo o efeito de cada palavra.
— Ih… não sei não… teu marido anda diferente.
Celeste riu. Disse que era impressão. Ainda assim, houve um vacilo mínimo no sorriso dela enquanto girava a aliança no dedo. Aquilo bastou para que Florinda continuasse.
— Quem garante que não é amante? — sussurrou. Depois disso, contou tudo, aumentando cada detalhe para sustentar sua teoria.
Celeste empalideceu. Tinham acabado de passar uma fase difícil, é verdade, mas ele estava tão mudado que essa notícia parecia fora de contexto. Inclusive, ele foi muito carinhoso no jantar do último sábado, quando comemoraram o aniversário dele.
Celeste chorou. Passou o resto do dia ensimesmada tentando encaixar os acontecimentos e preferiu esperar o fim de semana. Talvez, com mais calma, conseguissem conversar sem transformar tudo num dramalhão.
No domingo, depois de ir à missa, ele chegou em casa com a orquídea. Estavam fazendo trinta e cinco anos de casados e ele preparara tudo com o maior zelo para esta comemoração. Ele pediu para ela se arrumar e foram ao mesmo restaurante onde ele a pedira em casamento. Chegando lá, ele tirou uma caixinha de veludo do bolso e lhe deu uma aliança nova.
Na segunda-feira, Florinda voltou para o café da tarde: desta vez com pães de queijo ainda quentes, ensaiando o que diria para consolar a amiga. Foi recebida com frieza e soube dos detalhes do domingo. Quando questionou sobre o perfume forte e a camisa azul, descobriu que ambos foram presentes da família.
Sentada na ponta do sofá, ela ouviu tudo segurando a bolsa contra o peito. Ao final Celeste perguntou, magoada:
— Por que você sempre pensa o pior das pessoas?
Florinda não encontrou resposta pronta.
— Ah… não sei! Parecia tão óbvio. Já vou indo, então.
À noite, em casa, onde morava sozinha, olhou a janela escura, a rua quieta, as sombras imóveis da noite. Não tinha feito aquilo por maldade. Realmente acreditava no que disse à Celeste — que agora não seria mais sua amiga. Intimamente, aquela pergunta ainda ecoava. Ela percebeu seu reflexo na janela e, agora, sua imagem parecia menos esperteza e mais solidão.
A fofoqueira sem limites - Isabella Brancher
A fofoqueira sem limites