SATURAÇÃO - Sergio Dalla Vecchia

 



SATURAÇÃO

Sergio Dalla Vecchia

 

Havia uma pequena cidade. Pitoresca, o pouco que cresceu foi se afastando do rio que lhe deu guarida desde pequena vila. Assim foi se expandindo, pequenas ruas foram surgindo, dando início a uma urbanização improvisada.

Habitavam ali trabalhadores do meio rural utilizados no agronegócio da região.

Aconteceu que o modesto rio que ali coabitava já não era mais o mesmo que tanto colaborou para a formação da cidade.

Mostrava-se ranzinza, por vezes inflava-se de orgulho ferido, mostrava os dentes através de pequenos transbordos nas margens para defender seu território.

Era evidente seu desconforto com o crescimento atabalhoado de ruas sem critério, bem como o desmatamento de áreas lindeiras ao seu leito visando a ampliação da cidade.

Quando chovia forte na região onde a mãe terra lhe deu à luz, seu sangue cristalino aumentava muito, borbulhava de ansiedade. Porém, já não era mais puro como antes e sim barrento.

Com o passar do tempo, a cidade resolveu cerceá-lo dos seus direitos, confinando-o entre muros, formando um canal áspero, sem poesia, retificando suas curvas e travando sua cintura. Além disso, os dejetos das casas foram lançados sem o mínimo pudor no seu sangue barrento, tornando-o cinza esgoto.

Sem jogo de cintura e sem perspectivas, a paciência o abandonou!

Assim, em certo mês de março, ele, não aguentando mais tanto desaforo, rebelou-se!

Aproveitou o ritmo das águas de março, levando o verão do Jobim, alastrou todo seu sangue ora impuro por toda a cidade.

Não sobrou nem pau, nem pedra, só restos de tocos por todos os caminhos!

 

 

 

A AMIGA - Carla Di Sessa

 



A AMIGA

Carla Di Sessa

 

O lugar não era muito grande, cheirava a fechado, livros velhos e umidade.

Sentada no chão frio, ela olhava fixamente para um abajur, único ponto de luz disponível, como se sua luz pudesse aquecê-la.

Ela não sabia ao certo há quanto tempo havia sido levada para lá pelos vizinhos que a estavam ajudando.

Você vai ficar aqui por alguns dias, disseram, até conseguirmos uma maneira de você fugir.

Eles também explicaram que havia um banheiro e que trariam comida e água, mas ela precisava ser cuidadosa e economizar no caso de, por qualquer razão, eles não conseguirem fazer a entrega.

Conseguia perceber cheiros que normalmente a agradariam, como o dos livros antigos espalhados nas prateleiras em uma das paredes. Mas, nessa situação, eles só conseguiam despertar nela a sensação de abandono.

Havia quadros também: uma natureza morta, morta no estilo e no esquecimento, e outro, pequeno, de uma dama antiga sentada segurando um leque. Talvez por causa desse detalhe a imagem trouxesse alento e frescor. Olhou atrás desse quadro e encontrou um nome: Senhorita Amélia Fernandes.

Havia encontrado uma amiga nesse lugar sombrio como um pesadelo.

“Amélia”, ela começou, fitando a figura no quadro, “olha, não quero te assustar, mas preciso te avisar. Acho que tem perigo escondido embaixo de cada pedra do chão, atrás dessa porta, enfiado no meio dos tijolos das paredes. E ainda por cima, ainda tem o perigo que mora dentro da nossa cabeça e que estende seus tentáculos, como um polvo, por todo lado. A gente não pode deixá-lo tomar conta, entende? Você entende, Amélia?”

E continuou, mais tarde:

“Aí, Amélia, temos de estar o tempo todo em alerta. Temos que dar a cada coisa uma defesa, mesmo que seja frágil e que precise de reparos a toda hora”.

“Se há esperança, você quer saber? Sei lá, eu diria que sim, embora eu sinta que nossas vidas estão, como vou te explicar, na corda bamba, sabe?”

Respirou fundo e continuou:

“Você está com medo, Amélia? Eu também estou, mas vou tentar manter esse medo submerso à força. Você deveria tentar fazer a mesma coisa. Sim, Amélia, é mesmo uma solidão sem fim, um passo antes do desespero”.

Nesse momento, a porta se abriu e alguém entrou apressado dizendo:

Rápido, vamos embora, rápido, vem!

Ela olhou para Amélia na parede e, sem pensar, pegou o quadro e saiu.

 

 

ANA, a BELA - Carla Di Sessa

 




ANA, a BELA

Carla Di Sessa

 

Era uma vez uma fada madrinha chamada Ana a Bela. Era uma daquelas fadas que tornam realidade os sonhos de seus protegidos, mas, ultimamente, tinha surtos de esquecimento e acabou com fama de atrapalhada.

Sua supervisora, com o intuito de ajudá-la, a presenteou com um tablet, dizendo:

Pronto, agora com esta maravilha moderna você vai anotando tudo e vai ver como as coisas vão se ajeitar.

Bem, não foi bem assim. Os caminhos do aparelhinho às vezes criavam vida própria, mudavam e ela quase nunca conseguia fazer o caminho de volta.

Resolveu se inscrever em um curso sobre tablets que aconteceria em uma loja de departamentos e agora estava ali se dirigindo ao terceiro andar, seção de tecnologia. Lá chegando, se apresentou e perguntou pelo curso. Disseram para ela se dirigir à sala 5, no corredor à direita. Nesse momento, Ana, a Bela, percebeu que esquecera o seu tablet.

Droga, ela pensou, agora tenho que usar algum truque para conseguir ir buscá-lo e voltar a tempo de assistir à aula. Preciso achar um lugar vazio onde ninguém me veja desaparecer e reaparecer do nada.

O tal corredor à direita tinha várias salas e Ana, a Bela, foi olhando discretamente até descobrir uma vazia. Entrou e começou a se preparar. Pegou sua varinha e começou a dizer as palavras mágicas:

Tempo, tempo, tempo

Ligeiro, rápido, veloz

De volta, me leve.

De volta, me traga.

Para antes, agora e

Foi aí que ela viu uma funcionária da loja em um canto da sala apontando o celular para ela.

Não pare, continua, está ótimo! Ela disse.

Ana, a Bela, riu sem graça, dizendo: 'Você gostou?

Sim, você é muito autêntica, parecia mesmo que uma mágica ia acontecer. Você veio para o teste da peça infantil? Estava dando uma última ensaiadinha, né? Vem comigo, eu te acompanho até o teatro.

Ana, a Bela, seguiu a mocinha da loja, sentindo-se feliz: a ideia de uma peça infantil era muito mais atraente que o curso sobre tablets.

 

 

 


A FADA ATRAPALHADA - Antonia Marchesin Gonçalves

 



A FADA ATRAPALHADA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

             Beatriz vivia numa floresta encantada, seu pai era um mágico humano e sua mãe, uma fada rainha. Eles se apaixonaram quando o pai treinava mágicas na floresta. Era jovem, bonito e um pouco atrapalhado. Ele mesmo se enroscava com os truques de mágica. E foi aí que apareceu a Fada Rainha para ajudá-lo… E nunca mais se separaram. Após um tempo, nasceu Beatriz numa torre de luz, toda envolvida por nuvens azuis, simbolizando a paz do lugar.

             Ela cresceu com o sonho de sair daquele lugar para auxiliar os pobres. Sabia ela que fora da floresta encantada havia muita injustiça e pobreza, e, como uma boa adolescente, queria consertar o mundo. Sempre deu palpites em tudo dentro do seu mundo. E, como o pai, ela também era um pouco atrapalhada: derrubava os objetos, ao invés de consertar com a varinha mágica, transformava-os em objetos que não queria. Vivia sendo chamada à atenção pelos professores. Certo dia, já com dezoito anos, estabeleceu um plano com a sua ama e resolveu partir para o outro lado do mundo. Vestiram-se com roupas masculinas e ambas conseguiram escapar levando com elas o cavalo alado branco, amigo inseparável da fadinha.

             Bem próximo da entrada da cidade, elas esconderam o cavalo em uma caverna. Com as mochilas nas costas, seguiram se sentindo poderosas. Foram entrando encantadas para viver novas aventuras. A cidade era bem diferente da floresta. As pessoas andavam com pressa, mal se olhavam e até se esbarravam. Encantadas, olhavam tudo, os prédios, as lojas e, quando viram uma confeitaria cheia de guloseimas, não resistiram e entraram. Pediram doces e mais doces, se deliciaram, e quando estavam saindo, a dona as chamou, deveriam pagar a conta.

— Pagar?

 Não tinham dinheiro e não podiam usar a sua varinha. Perto delas havia um rapaz que percebeu toda a atrapalhação e se ofereceu para pagar.

— Sou Marcos, sou jornalista.

             Beatriz, envergonhada, agradeceu dizendo que eram novas na cidade e que ainda não tinham o dinheiro local, na realidade, nem sei direito o que é dinheiro. No meu mundo, isso não existe, é tudo à base de troca ou favores.

Ao serem perguntadas onde estavam hospedadas, as duas se olharam com ponto de interrogação nas faces, denunciando que não haviam pensado a respeito.

Logo ele percebeu que eram novas e nada sabiam sobre cidade grande. Se eu não ajudar, cairão fácil nas mãos de golpistas — pensou. Foi sincero dizendo que iria ajudá-las a encontrar uma boa pensão.

— Gostaria de saber mais da história de vocês. 

De carro, foram até a pensão de Dona Mariquinha, o nome parecia carinhoso. Ela logo acomodou ambas num quarto com mais espaço, tendo duas camas e banheiro.

             Dona Mariquinha as convidou para um café com bolo na cozinha, o melhor não foi o bolo e sim as deliciosas coxinhas de frango que não dava para comer uma só. Marcos começou a fazer perguntas sobre a origem delas e, ao ouvir, pensou: vieram de um colégio interno, que história mais maluca! Essa Beatriz tem um semblante tão dócil, mas, fada! Me poupe, e com ama ainda?

Já Beatriz olhava para Marcos como seu herói, já havia amor, mas havia medo, pelo seu encantamento por ele. No dia seguinte, foi logo cedo à pensão, havia passado a noite acordado pensando na beleza de Beatriz e na história maluca dela. Chegou com uma ideia de fazer com que ela o levasse ao seu mundo. Farei um furo de reportagem e serei promovido, — pensou. 

             Após o café, Dona Mariquinha ficou triste ao saber que iriam embora. Foi uma despedida com emoção por parte de todos. Beatriz perguntou se podia ajudar com algo que precisasse, disse que não tinham dinheiro para poder pagar. A senhora rejeitou a ajuda.

— Foi uma alegria ter conhecido vocês.

Os três saíram e, depois de horas, chegaram à caverna onde se encontrava o cavalo alado. Outra surpresa para Marcos, que ficou chocado com o que via.

Ao chegarem à floresta encantada, encontraram os pais altamente preocupados, e o alívio foi tanto que nem notaram a presença de Marcos. A Rainha Mãe, ao ver Marcos, não gostou e repreendeu Beatriz: 'Nosso mundo jamais deve ser noticiado para outros mundos.  Poderíamos prendê-lo ou que passe a viver conosco.

             Beatriz, imediatamente, interferiu por ele, dizendo que se apaixonara. E ele acabou confessando que estava encantado por ela, e que, com certeza, ficaria na Floresta Encantada.

Marcos pediu Beatriz em casamento e, feliz, ela aceitou.

Viveram felizes, principalmente Beatriz, que conseguiu realizar o sonho de auxiliar o próximo, aceitando o convite para atuar em novelas infantis com cenas dinâmicas na Floresta, levando alegria e mensagens educativas para as crianças de todos os mundos.

 

História do rio transbordeiro - Yara Mourão

 

 


História do rio transbordeiro

Yara Mourão

 

Era uma vez um rio transbordeiro. Não por culpa dele. De certo preferiria passar incólume pela quietude da paisagem e, ensimesmado em seu lugar de ser, chegar tranquilamente ao seu destino.

Ele surgia quase sorrateiro na curva de uma ruazinha. Ruazinha estreita, cheia de pedras e buracos, que ora causavam uma depressão, ora uma elevação no leito das águas. Isso dava ao rio uma personalidade indisciplinada, fazendo com que limite não fosse o seu forte. Ele extravasava. Nem era o caso dele carregar água demais para seu leito estreito. Era mais uma inconstância da estrutura essencial, porque se houvesse mais harmonia na base da sua necessidade de fluir, o que é próprio para os cursos d’água, o riozinho não passaria por cima de seus obstáculos naturais, desestabilizando seu entorno.

Mas seguia o rio noite e dia, sempre à espera de uma solução para seu desencanto.

O que ele queria era ser o desenho da paisagem, a pintura no quadro do artista, o playground das crianças do lugar.

Eis que um dia um terremoto sacudiu tudo. Rasgaram-se as ramas das plantas, derreteram-se as margens de barro, alargaram-se as fronteiras das águas. O riozinho cresceu. Aprofundou-se. Afogou toda a relva, todo pedacinho de terra.

Agora ele era imenso, punha até medo.

Os homens do lugar se perguntavam o que fazer para domar o impetuoso riozinho que, de suave presença, passou a ser grave ameaça. As crianças não vinham mais brincar em suas margens; os artistas não vinham mais com seus cavaletes para pintar na tela o azul do céu mergulhando no azul do rio.

Só quem vinha agora ver aquela água toda eram os engenheiros. Depois vieram os operários com suas máquinas, seus canos longos e largos, o cimento, a areia, o pedregulho.

No espaço de uns dias, as margens se estreitaram…

No espaço de umas noites, canalizaram o rio.

Ele sucumbiu. Secar não secou, mas de mágoa se negou a continuar.

Amofinou-se.

Despediu-se de ser natureza.

Foi-se sem derramar uma gota d’água sequer, à guisa de uma lágrima.

E, sendo assim, o riozinho foi-se embora e nunca mais quis voltar.

 

 

VIAGEM DOS SENTIDOS - Sérgio Dalla Vecchia

 


 

VIAGEM DOS SENTIDOS

Sérgio Dalla Vecchia

 

Numa comunidade da Zona Leste, Creusa, nascida e criada na periferia de São Paulo, não conhecia nada além do cheiro fétido do esgoto escoando defronte a seu barraco.

O trabalho de faxineira a perfumava com o cheiro da água sanitária, exalado pelos pisos ávidos de limpeza.

Certo final de ano trabalhou muito e conseguiu um dinheiro extra e não teve dúvidas. Adquiriu uma passagem de ônibus para a cidade de Tiradentes, em Minas Gerais.

Seu sonho era conhecer as terras onde nasceu seu pai, que nunca conheceu, só ouviu falar.

Desembarcou, foi para uma pousada, acomodou-se e já no dia seguinte saiu a passear.

Cada rua que percorria, através do calçamento secular, a história a invadia pelos pés. Seus olhos descobriram cores nunca vistas por ela na cidade de São Paulo. Verde, verde, azul, azul e branco, branco. Encantada seguiu andando pela cidadezinha até que chegou a uma pequena estação de trem.

Seus olhos arregalaram-se com a figura fumegante da Maria Fumaça, quente como seu coração acelerado.

Comprou um bilhete e logo embarcou na pequena composição ferroviária. O vagão era de época, seu interior parecia encantado, a atmosfera era pura história. Creusa sentou-se no tempo.

Ouviram-se três apitos e o trem partiu!

Ela não conhecia nada de música clássica, mas naquele momento ela flutuava ao som do “Trenzinho Caipira” de Villa-Lobos. Pela janela via a produção de insumos para os supermercados da cidade grande. Havia frescura no ar quente do interior rural.

Pirulitos cônicos de caramelo, enrolados em papel manteiga, circulavam encaixados firmemente na bandeja furada da simpática moça, que, vestida a caráter, encantava a todos.

Na boca, o papel manteiga tinha gosto de prazer e o resto era apenas açúcar!

Nessa atmosfera lúdica, Creusa adormeceu. Quando acordou, estava em um céu azul azul, nuvens brancas brancas e uma bala cinza chumbo cravada em seu coração.

Morreu feliz com uma bala perdida na comunidade de onde nunca saiu.

 


O porão sombrio - Isabella Brancher

 


O porão sombrio

Isabella Brancher

 

Já não sabia quantos dias havia passado fechada nesse porão. Sentia meus ombros pesados, faltava ar, até o silêncio parecia me vigiar. O cinza que cobria os móveis e objetos já dizia bastante sobre o lugar. Um sabor de mofo impregnava o ar. Tudo parecia esquecido no tempo. Tempo de uma época distante, onde brincar era a maior preocupação.
Agora, com a respiração mais suave, observava cada detalhe do porão. Olhando à distância, consegui identificar alguns objetos. Eles traziam, pouco a pouco, lembranças doces da minha infância. No canto da mesa lateral, um jogo de xadrez. Meu rosto se iluminou ao me lembrar de como conseguia derrotar o meu avô quando jogávamos. Eram memórias bem antigas. Enchiam meu corpo com um calor aconchegante. Sobre o sofá, uma colcha com quadradinhos coloridos de crochê trazia uma leve vida para o espaço. Novas recordações surgiram ao perceber o colorido da colcha. Parecia ouvir a voz aveludada da minha avó preenchendo o espaço. No outro canto da sala, uma caneca… Vovó me trazia chocolate quente com bolachinhas de nata, senti aquele gosto envolvente, percebi-me engolindo a própria saliva.

Subitamente, um som cego, pesado, caiu e me trouxe de volta à realidade.

Estou só, pensou friamente. E estava, literalmente. Todos haviam morrido. Ali me sentia segura, protegida. Precisaria sair desse esconderijo a qualquer momento. Só me restavam uns pacotes de bolacha salgada.

Como estaria tudo longe do porão seguro. Aquela invasão do inimigo havia destruído boa parte da cidade. Cambaleando, reuni minhas forças e subi as escadas rangentes, abri a pesada porta e afastei com delicadeza a estante. Nem sempre aquele espaço tinha sido escondido. Nos últimos anos, por conta das sucessivas invasões, meu avô, num último gesto protetor, havia preparado aquele porão para servir de refúgio se fosse necessário. Meu peito se encheu de orgulho quando rememorou o avô fazendo os ajustes para deixar o porão escondido.

 A sala por onde se abria o porão ainda estava intacta, algumas partes da casa haviam sido afetadas. A casa ainda existia! Pouco a pouco, andando lentamente, com os meus olhos ainda embaçados pela luz intensa, fui para a rua.

Caminhando como se o chão sob meus pés fosse afundar, fui identificando antigos locais, até que cheguei à esquina. Era na esquina que ficava aquela maravilhosa padaria de onde sempre ia com meu avô e voltava com os bolsos cheios de balas.

A padaria estava com algumas janelas trincadas e outras avarias, mas conseguia funcionar. Isso havia feito aquele pedaço da rua se encher de esperança. Entrei, pedi um café e um croissant e saboreei aquele café como uma rainha!

Enfim, agora tudo seria um novo recomeço!

 



Um segredo de família napolitana ou de qualquer outra família… - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



 Um segredo de família napolitana

ou de qualquer outra família…

Ises de Almeida Abrahamsohn

 

       Era a terceira vez que o celular tocava. Isabella ignorou as chamadas de número desconhecido. Seu pequeno Fiat serpenteava entre caminhonetes de entregas e ferozes 4×4 tentando escapar dos arredores de Nápoles e alcançar a estrada para Salerno. Mas os toques   irritantes continuaram. Podia ser algum cliente importante de seu pequeno escritório de arquitetura.   Finalmente conseguiu passar para a faixa da direita e estacionar o automóvel numa rua lateral. Retornou a ligação. Sua irmã Beatrice, a Bea, acabara de ser presa, informou uma voz masculina impessoal. Não explicou o motivo. Apenas lhe indicou o endereço da “stazione di polizia”. Isabella conhecia bem o local. Era no Vomero, o bonito bairro onde a irmã morava em um confortável apartamento. Tentou mais alguma informação, mas o sujeito desligou. Ligou para o advogado que a auxiliava no escritório e passou-lhe o endereço da delegacia. Pelo menos teria alguém para orientá-la. 

       Chegaram quase ao mesmo tempo na delegacia e o policial logo informou:
― Sua irmã  foi presa em flagrante.  Ela atirou no senhor Oreste D’Annunzio, que está no momento no hospital. Parece que o atingiu na perna e está sendo operado. Sorte que não o matou, disse meio sorrindo o policial. Senão, ela ficava dormindo aqui.  A fiança para libertá-la são 20.000 euros, suponho que pode pagar. Isabella ligou para a gerente do banco; resgatando seus investimentos, conseguia o valor necessário para tirar a irmã dali. Enquanto aguardavam, o advogado conseguiu a permissão para falarem com Beatrice.

       Foram conduzidos a um recinto minúsculo, sem janelas, mobiliado apenas com quatro cadeiras e uma mesa sobre a qual pendia a única lâmpada.  Sentaram-se Isabella e o advogado Mário. ― Deve ser uma sala de interrogatórios, disse Isabella, tentando disfarçar o nervosismo.
E continuou, como se conjecturasse para si mesma: 'Mário, me diga, você a conheceu?' Como é que a Bea, minha irmã, tão calma e paciente, iria atirar em alguém? Nem sabia que ela teria um revólver em casa, deve ser do marido. 
A porta se abriu e Beatrice entrou acompanhada por uma policial que informou terem quinze minutos para conversar. 
Isabella abraçou a irmã e despejou uma saraivada de perguntas. Beatrice enxugou as lágrimas e calmamente informou:
― Sim, de fato atirei no tio Oreste. Ainda bem que não o matei. Teria desgraçado a minha vida mais do que já sofri nestes últimos dois anos. Você lembra do tio Oreste? Irmão do papai, Que Deus o tenha! Pois é, ele apareceu há dois anos em casa, do nada, e foi se insinuando.  A gente já não gostava dele quando éramos crianças e ele aparecia de vez em quando na Páscoa, sempre com suas brincadeiras meio estúpidas e maliciosas. Principalmente comigo. E eu lembro de discussões entre ele e nossa mãe que acabavam o enxotando de casa, antes de papai chegar do trabalho.
A história que contou é que ele seria de fato meu pai e não o nosso pai Enzo. Que ele teria namorado a nossa mãe e ela, meses após se separar dele, teria se casado com papai. Porém, ele teria continuado a vê-la nesses intervalos e que ela teria casado já grávida de mim.

O que ele queria de fato era dinheiro. Estava mal, queixou-se, e agora, com o falecimento do irmão que sempre o acudira...   Então, ele era forçado a recorrer a mim, sua filha segundo ele, situação que o tornaria também herdeiro do espólio de nosso pai.
Fiquei horrorizada, principalmente porque ele ameaçava contar tudo para meu marido. O Alberto, você sabe como ele é.  É muito orgulhoso da família, de repente se ver associado a um tipo destes e a essa história toda.
Não disse nada a você para não aborrecê-la e achei que poderia resolver o caso. Eu lhe dei 10 mil euros e lhe disse para sumir da minha vida.  O que é claro, ele não fez. Como chantagista, voltava sempre. Temos posses, mas esconder retiradas de cinco, outra vez dez e até 15 mil euros não era possível. 
E eu queria me certificar se aquela história era verdadeira.
Guardei o copo em que ele havia bebido e fui a um laboratório pedir exame de DNA.
De fato, ele é o meu pai biológico. Fiquei transtornada. Quando ele apareceu hoje para mais uma extorsão, eu o esperava. Não sei o que deu em mim. Quando fui ao quarto pegar o celular, lembrei do revólver antigo de Alberto, há anos guardado no fundo do armário. Não sei atirar.
Ao entrar na sala, ameacei Oreste e, para expulsá-lo de vez, apontei o revólver. Achei que se assustaria… Porém, ele riu e avançou para me desarmar. Foi quando atirei. Ele caiu ferido na coxa, me   xingou e desmaiou. Eu liguei para a polícia e informei do ferimento. Fiquei sentada numa   poltrona da sala. Creio que estava em estado de choque pelo que fizera. Pensava que tinha matado o maldito.
Quando chegou a ambulância e me disseram estar vivo e que o tiro apenas atingira a perna, comecei a rir descontroladamente.  E eu repetia sem interrupção: bem-feito, maldito, bem-feito, maldito!  E me trouxeram para a delegacia.

       Alberto está em viagem de negócios na Austrália.  Não sabe de nada. É isso o que se passou. Agora virá tudo ao conhecimento dele, das irmãs esnobes e   dos amigos,    também tipos arrogantes e endinheirados. Ele vai me apoiar, eu sei, é diferente dessa turma. Talvez perca alguns negócios, mas ficará bem…

       Isabella abraçou a irmã com carinho. Nós estamos aqui, Bea. Pagaremos logo a fiança e você vai comigo para casa. Com um advogado criminalista e essa história, você não irá para a prisão.  Ficará no máximo em sistema de restrição policial.

Que história, comentou o advogado Mário. Parece novela da TV.

 

FELICIDADE NÃO SE COMPRA - Ledice Pereira

 


FELICIDADE NÃO SE COMPRA

Ledice Pereira

 

— Enfim, só! – gritou Ofélia, jogando-se no sofá.

 

Como esperara por esse momento. Finalmente, estava livre. Foram anos e anos daquele casamento sem amor, sem respeito, tendo que abaixar a cabeça e obedecer se não quisesse ser agredida. Sentia arrepios só de pensar.

 

— Como pude aguentar tanta humilhação por todo esse tempo? Trinta e oito anos, longos trinta e oito anos...

Ficou ali, estática, deixando que o pensamento a levasse para longe.

Tinha apenas vinte quando fizeram seu casamento. As famílias determinaram sem que pudesse fazer alguma escolha. Não conhecia Antônio, filho de Custódio Alvelim, homem mais rico da região. Ninguém o apresentou. Só soube que aquele senhor, vinte anos mais velho, seria seu marido.

Não ousou contrariar o severo pai que, visando a não perder a fortuna de que a família Alvelim era possuidora, não mediu esforços para que o prazo para o enlace fosse o menor possível.

Tinha consciência de que a filha não tinha nenhum atributo que pudesse encantar algum pretendente. Aquela era uma oportunidade de ouro para que ele colocasse suas finanças em ordem.

Daquele dia distante, Ofélia sentiu que todos os seus sonhos de juventude iam por água abaixo: estudos, viagens, amor...

Resignada, entrou na igrejinha da cidade, como se estivesse dirigindo-se para o abate.

E viveu uma vida sem sentido, sem amor, sem esperança, sem graça.

Os filhos, por não aguentarem o gênio e intolerância do pai, e com o aval da mãe, trataram de sair dali, um a um, com a desculpa de querer estudar na cidade grande onde haveria mais oportunidades.

Sem a presença dos filhos, os únicos que lhe davam alegria, dedicou-se à caridade. Isso a alimentava e a ajudava a passar o tempo. Achava que nunca ficaria livre daquele martírio.

Quando Antônio adoentou, exigiu ser tratado por Jandira, uma conhecida enfermeira da redondeza.

Ofélia, ao invés de sentir-se rejeitada, achou uma ótima solução. Ficaria mais livre. Não teria que cuidar daquele homem por quem sentia intensa repugnância.

Jandira instalou-se ali, com certa petulância, como se fosse ela a dona da casa a dar ordens aos empregados e até a Ofélia, que procurava ignorá-la.

Durante aqueles longos dez meses, a casa transformou-se num verdadeiro hospital, montanhas de medicamentos, cama e cadeira hospitalar, balão de oxigênio, cheiro de doença.  

Quando Antônio se foi, os filhos precisaram intervir, firmemente, para que Jandira, contrariada, deixasse a casa. Foi necessária a presença da Guarda Civil e a ameaça de instaurar uma medida protetiva contra ela.

Finalmente, Ofélia estava ali, dona de sua própria vida.

Começou por esvaziar guarda-roupa e gavetas com as roupas do falecido. Não suportava sentir aquele odor impregnado no ambiente.

Chamou o casal de empregados Sofia e Armando, que ali trabalhavam desde que os filhos eram pequenos e distribuiu tudo, deixando que escolhessem o que queriam e dessem o resto a quem quisessem.

Comprou tinta e pincéis para que Armando pintasse as paredes dos quartos de cores alegres e comprou móveis novos, livrando-se de tudo que pudesse levá-la a lembranças desagradáveis.

Os filhos surpreenderam-se com as mudanças nas atitudes da mãe. Ela que sempre fora subserviente, mostrava-se dinâmica, resolvida, determinada e colocando a mão na massa com força e vontade.

A única coisa que ainda não conseguia, era mexer no escritório do marido, entupido de papelada, cheio de pó em razão dele não querer que ninguém limpasse o local. Não sabia nem por onde começar. Sabia que um dia teria que criar coragem.

Passados meses, certo dia, sentiu que havia chegado a hora. Ia, finalmente, conseguir enfrentar um dos seus últimos fantasmas. Dirigiu-se resoluta ao escritório. Abriu a janela. Deixou que o sol invadisse o ambiente.

 Começou por juntar tudo que estava em cima da escrivaninha. Em pouco tempo, encheu a lixeira que ficava ali embaixo. Passou um pano úmido sobre a madeira envelhecida. Sentiu-se mais encorajada. Havia superado o primeiro desafio. Partiu para as gavetas. Quase desanimou.

Teve vontade de jogar tudo fora. Conteve-se.

“E se tiver algo importante aí no meio” – pensou com seus botões.

Era tanta coisa que foram necessários vários dias.

Separou notas fiscais, recibos, comprovantes de pagamentos.

Até que se deparou com uma pasta manchada pelo tempo, com uma capa diferente das outras, amarrada com uma fita avermelhada que as traças haviam se fartado de devorar.

A primeira página indicava em letras garrafais: SIGILOSO

Sentou-se, pressentindo que se tratava de algo importante. Tinha todo tempo do mundo.

 

“Processo criminal contra Custódio Alvelim”

Encerrado por falta de provas

 

Ali, ficou sabendo que seu sogro, Custódio Alvelim, numa briga, teria atirado acidentalmente em Tenório Trindade, seu vizinho, que morreu prematuramente, deixando sua mulher, Jandira Trindade, grávida de cinco meses.

Juntavam-se inúmeras notas promissórias assinadas por Antônio Alvelim, filho de Custódio, com valores altos pagos à citada viúva, que acusava recebimento.

A descoberta ficou martelando na cabeça de Ofélia. A coincidência de nomes, o crime encoberto do qual nunca se falou, notas promissórias pagas, tudo muito mal explicado.

Resolveu ir a fundo. Varou a madrugada, abrindo pastas e lendo folha por folha.

Só percebeu que amanhecera, quando Sofia veio lhe oferecer um café, achando que a patroa, apesar da hora, já estava fazendo arrumação no escritório, cuja entrada lhe fora sempre proibida pelo patrão.

Apesar de exausta, Ofélia aceitou o café. Sua madrugada havia sido reveladora. 

Havia encontrado cartas e bilhetes que se amontoavam numa caixa fechada a chave, que ela conseguira destruir.

Antônio e Jandira Trindade, enfermeira de profissão, mantinham um relacionamento amoroso desde a tentativa de abafar o crime cometido por Custódio.

Antônio foi criado naquela família em que o dinheiro comprava tudo.

Com dinheiro, comprou o silêncio de Jandira.

Com dinheiro, comprou o pai de Ofélia. Este, ao descobrir tudo sobre o crime cometido, começou a chantagear a família. Foi convencido a entregar a filha em troca do silêncio.

Mas Antônio não “comprou” a felicidade. Viveu um amor escondido. Fez a infelicidade de Ofélia e dos filhos.

Jandira, por sua vez, criou o filho sozinha, tendo que manter em segredo o relacionamento com Antônio.

Quando ele adoeceu, achou que cuidando dele, tinha mais chance de pleitear, para seu filho, a casa que para ela, por direito, deveria ser dele numa forma de compensação.

Aquela proximidade e convivência diária, no entanto, mostrou-lhe a verdade daquele relacionamento. Antônio estava cada vez mais rabugento, bruto, insuportável.

Ofélia chamou os filhos. Revelou-lhes tudo que havia descoberto. Inclusive sua suspeita:

Talvez, um excesso de dose de remédios ministrado por ela, tenham-lhe abreviado o tempo de vida”.

Apesar de tudo que vivera com Antônio, não poderia viver com aquela incerteza.

 

Lenita Fragoso foi indicada para proceder a investigação.  Ela que foi tida como morta, após sofrer um acidente sério, que lhe tirou de circulação, estava de volta, com toda competência que lhe era peculiar, para tentar descobrir a real causa da morte de Antônio.

A primeira providência da perita foi pedir a exumação do corpo, instalando-se num hotelzinho da região, embora Ofélia lhe tivesse oferecido hospedagem. Achou que ninguém deveria vê-las juntas, para não atrapalhar o curso das investigações.

 

II capítulo – A Investigação

 

Enquanto aguardava o resultado dos exames toxicológicos, procedimento que, por ser meticuloso, costuma demorar um tempo considerável, Lenita debruçou-se sobre os aspectos do caso. Deu atenção a cada detalhe que lhe foi passado por Ofélia e os filhos. Promoveu vários encontros, tentando não deixar escapar nada.

A papelada do escritório foi vasculhada de cabo a rabo. Pena Ofélia ter se desfeito dos móveis, inclusive do quarto hospitalar ali instalado. Além do mais, a pintura de parede e a colocação de carpete de madeira, talvez, pudessem encobrir alguma prova. Tinha que trabalhar com o que lhe viesse às mãos.

O afastamento temporário de suas atividades não diminuíra sua capacidade de investigação e muito menos sua intuição. Sentia que ali havia fumaça e o ditado popular é sábio ao afirmar que “onde há fumaça, há fogo”.

Resolveu procurar Jandira. Para isso, usou o subterfúgio do encontro casual. Durante dias, estudou cada passo da suspeita. Seus hábitos, seus horários, seus locais preferidos.

Como turista, passou a frequentar as praças, igrejas, empórios, que faziam parte da vida de Jandira, que logo a notou e a cumprimentou. Daí para uma conversa na praça, foi uma questão de dias. Como Lenita imaginava, não demorou para ser convidada para um café, convite que aceitou sem delongas.

A solidão de Jandira era visível. Sem amigos, sem emprego, sem outras atividades. Dificilmente, recebia a visita do próprio filho, que havia se mudado para um centro financeiro desde que se formara em Economia.

Lenita, sempre munida do seu gravador ligado, passou a ser companhia constante da enfermeira. E, de certa forma, eu diria, confidente.

Não foi difícil para Lenita, com toda sua habilidade, entrar em assuntos que pudessem levá-la a atingir seu objetivo, o de que a interrogada deixasse escapar alguma informação reveladora.

Já estava desanimando, quando Jandira deixou escapar que havia se aproximado do médico que cuidava de Antônio. Uma aproximação com a qual ela chegou a se iludir.

No entanto, Dr. Oswaldo, deu-lhe a entender que Ofélia o atraia, deixando-a decepcionada e com uma certa raiva.

Essa revelação deixou a investigadora com a pulga atrás da orelha.

Procurou mencionar o médico em conversas com Ofélia, que comentou que Antônio tinha confiança absoluta nele. Quando ela sugeriu que ele procurasse outro profissional para ouvir uma segunda opinião, uma vez que o tratamento parecia não surtir efeito, Antônio esbravejou, como sempre fazia, dizendo que ela não devia se meter onde não era chamada.

Por essa razão, Ofélia saía de fininho, sempre que o doutor vinha examinar o marido. E foram anos, antes dele ficar acamado.

Às vezes, quando Sofia estava muito atarefada com os afazeres da casa, por educação, servia-lhe, ela mesma um café com biscoitos, ao que ele agradecia efusivamente com um sorriso enigmático.

Ofélia comentou que, apesar de tentar ser simpático com ela, havia nele um quê de falsidade que a deixava desconfiada da sua competência.

Mas Antônio não a ouvia. Nem aos filhos, com quem ela comentava o que pensava.

..........................................................................................................

A investigação parecia tomar outro rumo.

Lenita estava diante de um grande quebra cabeça. Voltou ao hotel, debruçando-se sobre suas gravações e anotações.

Procurava a ponta do iceberg.

O que teria deixado escapar – pensava ela?

Eram quatro horas da madrugada, quando adormeceu entre papéis de anotação.

Acordou bem tarde, assustada com uma trovoada que anunciava tempestade. Estava faminta. Havia perdido o horário do café. Dirigiu-se à padaria perto dali. Estava tão absorta, tomando seu café, que nem viu quando Jandira entrou para abrigar-se da chuvarada que caía. Só então se deu conta do temporal e de que teria que aguardar. Não estava disposta a bater papo. Sua cabeça estava a mil.  Assim que a chuva permitiu, retirou-se, despedindo-se, sem muita explicação.

Os próximos dias seriam dedicados à investigação sobre o Dr. Oswaldo da Costa. Onde nasceu, viveu, estudou, fez residência, exerceu a profissão, estado civil, existência de processos, tudo que pudesse envolver a identidade do dito doutor. Nada.

Seria mesmo esse o nome do indivíduo?

Lenita escarafunchou tudo que pôde. Consultou todos os órgãos de investigação, criminal, científico. Resolveu pesquisar sobre um tal de Oswaldo Leme da Costa Soares, que tinha várias passagens pela Polícia por venda ilegal de medicamentos não aprovados pela Anvisa.

Descobriu que ele teria cursado dois anos de medicina, sendo reprovado. Não constava que tivesse continuado e se formado. Coincidência ou não, Lenita foi a fundo. O que descobriu, deixou-a atônita. Tratava-se do mesmo sujeito. Havia fotos que não deixavam dúvida. Jandira mostrara-lhe fotos do “doutor”. É verdade que mudara o corte de cabelo e deixara barba e bigode. Ali, tratava dos doentes da região, muitos dos quais, constatou, falecidos prematuramente.

A cidade pequena era bem apropriada para quem queria esconder-se.

A perita teria que apresentar ao Ministério Público, um documento muito bem fundamentado, com a juntada de documentação suficiente, que embasasse a suspeita de que a morte de Antônio e, talvez, de outros moradores da região, tivessem sido provocadas por tratamentos inapropriados.

Após mais um mês, em que Lenita trabalhou dia e noite na elaboração da denúncia, a família de Ofélia, ciente de todos os fatos, entrou com processo contra o falso médico, que teve decretada prisão preventiva, sendo posteriormente julgado e condenado por júri popular, além de ter que pagar uma indenização às famílias, que haviam sido notificadas e puderam acompanhar o desenrolar do julgamento. Levantado por Lenita, o vultoso patrimônio de Oswaldo era mais do que suficiente para pagar a todos.

Jandira não foi considerada cúmplice, por ficar comprovado que ela desconhecia o passado do réu.

Ofélia e Jandira tornaram-se amigas, unidas talvez pelas desventuras sofridas na pequena cidade. Devido às duas, e graças à persistência da investigadora, a justiça foi feita, com a prisão do impostor.


 da investigadora, a justiça foi feita, com a prisão do impostor.

Rastros do Passado - Adriana Frosoni

 



Rastros do Passado

Adriana Frosoni

 

O telefone tocou quando Isabela estava à janela, olhando os parreirais que ainda resistiam em Vinhedo. A cidade crescera ao redor — muros altos, condomínios fechados, ruas asfaltadas onde antes havia terra vermelha —, mas ali, naquele terreno herdado do pai, as videiras permaneciam. Eram teimosas como a memória.

Ela atendeu distraída, com o cheiro doce das uvas ainda impregnado nas mãos.

A notícia veio sem rodeios: existia um filho mais velho de seu pai, registrado na Itália, nascido antes de ele emigrar para o Brasil. Filho de outra mulher. 

Havia documentos. 

Havia nome. 

Havia apenas uma solicitação de contato.

O mundo perdeu densidade, como se o ar tivesse sido sugado por um instante. Isabela apoiou-se no batente da janela e sentiu o próprio coração bater fora de compasso — deslocado.

Filho mais velho.

A expressão reverberava dentro dela como sino em igreja vazia. Sempre houvera lacunas na história do pai. Silêncios que se impunham à mesa de domingo. Fotografias antigas, aparentemente sem história. Uma cronologia marcada por pequenos saltos. Mas nada disso se transformava em provas; eram apenas sombras.

Agora tudo havia adquirido forma.

Isabela deixou o telefone repousar na mesa e voltou a olhar o horizonte. O céu de fim de tarde começava a tingir-se de um laranja espesso, com nesgas cor de vinho. Pensou em como seria o pai jovem, ainda na Itália, antes da travessia, antes da versão brasileira de si mesmo. Pensou na coragem de partir — e na possível covardia de deixar algo tão importante para trás.

Quantas vidas cabem dentro de um homem? 

Quantas precisam ser enterradas para que outra possa florescer?

A informação não despertou ciúme. Nem curiosidade. Trouxe cansaço. Uma fadiga antiga, como se tivesse intuído a existência dessa rachadura nas rugas duras que via na fisionomia do pai. O passado dele acabou de se apresentar como um vinho guardado em barril: que parece quieto, quase esquecido, mas continua fermentando no escuro.

Poderia investigar.

Atravessar oceanos de perguntas. 

Reexaminar a infância sob nova luz, reinterpretar cada gesto do pai, cada silêncio da mãe. 

Poderia até transformar a própria biografia em tribunal.

Mas para quê?

Nem todo segredo exige exumação e nem toda verdade exige convivência.

O irmão existia — isso era um fato. Mas existência não é vínculo, e sangue não é contrato moral. Se não lhe fora contado antes, foi porque alguém escolheu assim. E ela não se via obrigada a reescrever a própria história para acomodar uma verdade tardia.

Não se tratava de indiferença cruel, mas de fronteira. De limite. O passado dos outros não lhe pertencia.

O telefone vibrou novamente com uma mensagem internacional. Um nome desconhecido surgiu na tela como um eco distante. Isabela leu. Sentiu o peso da expectativa alheia. Depois, apagou a notificação.

Ignorar também é uma resposta.

Encostou a testa na janela. Seu reflexo devolveu-lhe um rosto inesperadamente firme. Não havia ali uma menina que acreditava em narrativas lineares, mas uma mulher que compreendia que toda família precisa de edição — cortes estratégicos, versões melhoradas e, às vezes, capítulos omitidos. Assim como um bom livro.

Não reeditarei meu passado, decidiu em silêncio. 

Não pagarei por escolhas que não fiz. 

Não carregarei culpas que não são minhas.

Fechou a janela.

Lá fora, as videiras permaneciam enraizadas na terra fértil de Vinhedo, absorvendo o silêncio. O passado podia bater-lhe à porta livremente, assim como ela podia escolher não abrir.

E a vida — bela como aquela cidade — continuaria a crescer ao seu redor.