Sentinela do Bexiga - Adriana Frosoni

 



Sentinela do Bexiga

Adriana Frosoni


Florinda desconfiava até de elogio gratuito. Quando o padeiro lhe desejava “bom dia” sorrindo demais, ela apertava os olhos e respondia: “Hum… sei não”. Aos 57 anos, morava há décadas na mesma rua do Bexiga, conhecia o barulho dos portões, os horários dos vizinhos e até o humor com que saíam para trabalhar. Por isso estranhou quando viu Clóvis — marido de Celeste — sair de camisa azul-marinho nova, perfume forte e cantarolando. Homem casado há trinta anos não cantarola à toa, pensou. 

Na manhã seguinte, Florinda o seguiu e percebeu outro detalhe: ele atravessou a rua no meio da tarde e entrou numa floricultura. Aquilo bastou para deixá-la alerta.

— Tem coisa aí, não tem?... — murmurou.

Nos dias seguintes, a rotina dela virou uma investigação silenciosa. Quase perdeu o ar ao ver Clóvis saindo de uma joalheria enquanto guardava um volume pequeno no bolso do casaco. Viu também quando ele voltou à floricultura e saiu com uma orquídea enfeitada com laços.

Resolveu então “proteger” a amiga. Naquela tarde, foi até a casa dela levando um bolo simples — porque notícia ruim combina com café fresco — e lançou suas dúvidas devagarinho, como quem não quer nada, medindo o efeito de cada palavra.

— Ih… não sei não… teu marido anda diferente.

Celeste riu. Disse que era impressão. Ainda assim, houve um vacilo mínimo no sorriso dela enquanto girava a aliança no dedo. Aquilo bastou para que Florinda continuasse.

— Quem garante que não é amante? — sussurrou. Depois disso, contou tudo, aumentando cada detalhe para sustentar sua teoria. 

Celeste empalideceu. Tinham acabado de passar uma fase difícil, é verdade, mas ele estava tão mudado que essa notícia parecia fora de contexto. Inclusive, ele foi muito carinhoso no jantar do último sábado, quando comemoraram o aniversário dele. 

Celeste chorou. Passou o resto do dia ensimesmada tentando encaixar os acontecimentos e preferiu esperar o fim de semana. Talvez, com mais calma, conseguissem conversar sem transformar tudo num dramalhão.

No domingo, depois de ir à missa, ele chegou em casa com a orquídea. Estavam fazendo trinta e cinco anos de casados e ele preparara tudo com o maior zelo para esta comemoração. Ele pediu para ela se arrumar e foram ao mesmo restaurante onde ele a pedira em casamento. Chegando lá, ele tirou uma caixinha de veludo do bolso e lhe deu uma aliança nova.

Na segunda-feira, Florinda voltou para o café da tarde: desta vez com pães de queijo ainda quentes, ensaiando o que diria para consolar a amiga. Foi recebida com frieza e soube dos detalhes do domingo. Quando questionou sobre o perfume forte e a camisa azul, descobriu que ambos foram presentes da família.

Sentada na ponta do sofá, ela ouviu tudo segurando a bolsa contra o peito. Ao final Celeste perguntou, magoada:

— Por que você sempre pensa o pior das pessoas?

Florinda não encontrou resposta pronta.

— Ah… não sei! Parecia tão óbvio. Já vou indo, então.

À noite, em casa, onde morava sozinha, olhou a janela escura, a rua quieta, as sombras imóveis da noite. Não tinha feito aquilo por maldade. Realmente acreditava no que disse à Celeste — que agora não seria mais sua amiga. Intimamente, aquela pergunta ainda ecoava. Ela percebeu seu reflexo na janela e, agora, sua imagem parecia menos esperteza e mais solidão.


A fofoqueira sem limites - Isabella Brancher

 



A fofoqueira sem limites

Isabella Brancher

Palmira era uma mulher magra, alta, de ombros levemente curvados para a frente. Tinha um sorriso enigmático: às vezes acolhedor, outras, quase de repulsa. Costumava usar vestidos que pareciam gastos, embora fossem novos.

Morava sozinha em um condomínio vertical. Seu apartamento, no primeiro andar, dava para o pátio interno, onde a vida alheia passava diante de seus olhos como um espetáculo silencioso. Pouco tinha para fazer. Ficara viúva havia muitos anos, e os filhos, com o tempo, tinham se afastado. Evitavam sua companhia sempre que possível — bastava Palmira abrir a boca para um comentário atravessado surgir, desconfortável, quase sempre inoportuno.

O pátio era um constante vai e vem de pessoas. Palmira passava horas sentada na varanda, observando. Havia rostos que lhe interessavam mais do que outros — principalmente a família do 22 e a nova vizinha do 11.
A família do 22 parecia tradicional: pai, mãe e dois filhos. Ainda assim, brigavam com frequência, quase sempre por motivos pequenos demais para justificar o tom exaltado. Era impossível não ouvir. Discussões sobre o filho que se metera em confusão na escola, sobre o carro que precisava de manutenção, sobre planos frustrados do fim de semana… Coisas banais, repetidas, previsíveis.

Já a vizinha do 11 era recente no prédio. Discreta, entrava e saía em horários irregulares. Mais de uma vez, Palmira notou o homem do 22 ir até seu apartamento. Não era sempre, nem parecia demorar muito — mas o suficiente para plantar uma dúvida. Ele olhava para os lados antes de entrar? Ou era apenas impressão? Palmira não saberia dizer. Ainda assim, guardou aquilo.

Até então, tudo não passava de fragmentos soltos.

— Aquele short que ela usa, muito justo… você ia querer que a sua filha se vestisse assim? — perguntou a mulher do 22, em tom carregado.

— Deixa ela — respondeu o marido. — É jovem, bonita… logo aprende, se veste melhor.

— Não entendo essa sua postura. Muito permissivo.

Palmira se ajeitou na cadeira, inclinando-se discretamente para frente. Havia algo no tom dele — leve demais, talvez. Ou apenas cauteloso.

“Será?”

A lembrança das visitas rápidas ao 11 voltou-lhe à mente.

Olhou para o pátio vazio por um instante. “Não sei… mas… e se…?”

A ideia surgiu quase pronta. Em poucos minutos, já ganhava forma: encontros discretos, olhares trocados, coincidências convenientes. Quando percebeu, Palmira já havia construído uma história inteira — um caso extraconjugal cheio de tensões, riscos e inevitáveis escândalos.

No dia seguinte, ao encontrar outras moradoras no prédio, deixou escapar comentários carregados de insinuação. Não disse tudo de uma vez — preferia semear. Bastavam sugestões, pausas bem colocadas, olhares significativos. O resto crescia sozinho. Entre aquelas mulheres, conversas assim encontravam terreno fértil: pequenos episódios do cotidiano ganhavam contornos mais dramáticos a cada repetição, como se precisassem de certo exagero para se manterem interessantes. Em pouco tempo, a história já circulava com detalhes que Palmira sequer havia mencionado.

Em pouco tempo, o boato corria pelo condomínio.

O homem do 22 e a vizinha do 11 começaram a notar os olhares. Alguns curiosos, outros claramente acusatórios. Havia frieza nos cumprimentos, uma estranheza difícil de ignorar. Sem entender exatamente o motivo, passaram a evitar conversas no pátio.

Até que, numa manhã cedo demais para suspeitas, conversavam sem cautela. Palmira, como de costume, estava na varanda.

A voz dele vinha tranquila, quase afetuosa:

— Você se adapta rápido, né? Quando cheguei aqui, estranhei tudo. Estudar longe de casa não é fácil.
— Ainda bem que você está por perto — respondeu a moça do 11. — Mamãe ficou mais calma sabendo que eu não estava sozinha na cidade grande.

Ele riu, baixo.

— Sou seu irmão mais velho, ora. É o mínimo que posso fazer.

Palmira permaneceu imóvel na cadeira.

Por um instante, o pátio pareceu silencioso demais.

Numerologia e endereços - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



Numerologia e endereços

Ises de Almeida Abrahamsohn 


Como esta história se passa no início da década de 1970, são requeridas algumas explicações aos leitores nascidos após 1990 e principalmente à geração Z do atual milênio. 

Naquela década, não existiam telefones celulares, e muito menos Google Maps ou Waze para mostrar endereços e trajetos. Havia guias impressos com mapas das ruas das cidades, indicações das linhas de ônibus e metrô e as mãos de direção das ruas.  Por fim, se tudo o mais falhava ao se tentar localizar um endereço, ainda era possível telefonar para o endereço anotado (havia listas telefônicas por nome e por endereço).  Se estivesse na rua, teria que ter as moedas ou fichas necessárias para usar um telefone público. 

No verão de 1971, um jovem casal de brasileiros recém-chegado à cidade de Philadelphia, nos Estados Unidos. Estavam hospedados num hotel de poucas estrelas no centro da cidade e deviam se dirigir a determinado endereço para encontrar a residência de um professor da Universidade.   O endereço na carta que receberam estava anotado como: 828, 13th St W. Ou seja, Rua 13, número 828 W. 

Olharam o mapa da cidade e parecia bastante simples chegar lá. 

—A gente pega o metrô na esquina da rua Broad com a Market e desce na parada da rua 12. Mais um quarteirão e chegamos na rua 13, esquina da Broad. Aí andamos uns 500 metros até a casa do Dr. Lash. 

De fato, chegaram bem à rua 13 e foram olhando a numeração.

— Deve ser logo aí,   talvez uns 500 metros daqui, falou a moça.

Foram caminhando pela calçada   sob o calor sufocante do verão até que, depois de alguns quarteirões, se aperceberam do engano. A numeração dos imóveis nos Estados Unidos é sequencial, portanto, diferente do Brasil, onde o número do imóvel indica a distância do início da rua. 

Após andarem cerca de 3 km, chegaram ao número 828.  Porém, não parecia casa de nenhum professor. Era um predinho de 4 andares, tijolinho vermelho sujo, com algumas janelas vedadas por tábuas e emporcalhado de grafites.  O número era aquele mesmo, porém algo estava errado.  

Haviam passado por uma única quitanda aberta naquele deserto escaldante e vazio e lá foram se informar. O vendedor os olhou com ar desconfiado.  Mostraram-lhe o papel com o endereço. O homem sorriu com ar de pena dos dois.

― Vocês esqueceram desta letra aqui. Estão vendo? É rua 13, W. W. de West.  Vocês caminharam na direção errada. Aqui é a rua 13, E. E de East.  Portanto, estão do outro lado da rua.

Com esse calor, é melhor vocês andarem até o próximo ponto de ônibus que fica na rua 12, paralela a esta rua. O ônibus vai pela 12 inteira, cruza a  Broad , que divide os lados da cidade,   e continua pela 12 West. Podem, de dentro do ônibus, acompanhar os números até próximo do número 800. Devem estar mais ou menos na altura   do número 800 da rua 13. Os dois agradeceram várias vezes as informações.  Descobriram que o quitandeiro era grego e já há alguns anos era morador na cidade.

― Não querem tomar uma Pepsi bem gelada?

Depois da Pepsi gelada, seguiram as instruções. O gentil grego havia ensinado direitinho.   Logo os brasileiros descobriram que em Phila, como em outras cidades americanas, as ruas têm lados leste, oeste, norte e sul.


Fotografias - Carla Di Sessa

 


Fotografias

Carla Di Sessa


Mariana gostava de fotografias antigas e, ao longo dos anos, foi amealhando as de sua família. Cada vez que alguém resolvia fazer uma arrumação, já sabia que poderia mandar para ela todas as fotos antigas ao invés de simplesmente jogá-las no lixo. Recentemente, sua prima Helena havia mandado para ela duas caixas cheias e ela mal podia esperar para ver o conteúdo.

Mariana gostava de procurar nos rostos antigos os traços das pessoas atuais e foi assim que descobriu, olhando a foto de seu bisavô, os mesmos olhos azuis e cabelos ondulados de seu filho. 

Examinava cada rosto, procurando os traços que faziam parte daquela família, imaginando as linhas que se estendiam pelas gerações, fazendo de cada pessoa um personagem da história que unia a todos.

Casamentos, batizados, viagens, aniversários, tudo era o Tempo fazendo sua mágica. Mariana queria ver aquele tempo não só pelo pedaço que lhe cabia, mas também queria saber o antes e o depois. Porém, não se conformava com o fato de o conhecimento do depois ter limites. Queria saber tudo como se fosse um astronauta que no espaço é capaz de enxergar não só a Terra, mas também a imensidão que a rodeia, o antes e o depois espalhado pela eternidade no Universo. 

Mariana abriu a primeira caixa e ficou feliz, pois além das fotos havia convites de casamento, cartões postais e algumas cartas, coisas que geralmente traziam ângulos insuspeitados dos acontecimentos. 

A primeira coisa que viu na segunda caixa foi a famosa foto de sua tia Idalina sorrindo marota, montada ao contrário em um burrico, a face voltada para o traseiro do animal, isso lá pelos idos de 1930. Mariana pensou divertida que essa tia havia contribuído com pedaços bem coloridos para o fio da história da família. 

Continuou olhando até que viu uma foto que lhe chamou a atenção: as pessoas estavam sentadas à mesa, muito sérias, mas o detalhe intrigante era que o rosto de uma das mulheres havia sido cuidadosamente recortado. Quem eram aquelas pessoas? Por que o rosto daquela mulher tinha sido eliminado da fotografia? Rapidamente, a imaginação de Mariana soltou-se desenfreada. Histórias de vingança, tragédias escritas com sangue, tudo parecia possível até que ela pensou: “Chega, vamos ligar para Helena e descobrir a verdade.”

Ligou para a prima e perguntou se ela sabia alguma coisa sobre a estranha foto.

— Ah, disse Helena, é a foto com o rosto recortado, não é? Nem te conto, o rosto é da Tia Idalina. Ela namorou um rapaz chamado José antes de conhecer o tio Gilberto e essa foto é dela com a família do tal José. Ela mesma recortou esse pedaço da fotografia e colocou dentro de um relicário que deu de presente para ele se lembrar dela. Ele tinha sido se alistado no exército e ia partir para lutar na Europa. 

“Vejam só”, pensou Mariana, “no fim não é uma história trágica regada a sangue, mas uma cheia de suspiros e beijos apaixonados!”


Viagem a Paris - Isabella Blancher

 



Viagem a Paris

Isabella Blancher


O ano era 1959, Maria estava entusiasmada com a viagem que aconteceria em alguns dias. Havia preparado as malas com detalhado cuidado. Separou cada peça de roupa para acompanhar todas as festas das quais teria que participar. Seria uma semana maravilhosa. Enquanto fazia a mala, alguns momentos maravilhosos da festa no Copacabana Palace lhe vinham à mente.

Naquela noite, o Copacabana Palace está finamente enfeitado com velas em tons de laranja e lindos arranjos com hibiscos da mesma cor. Chegou à festa levemente atrasada. O suficiente para que o salão já estivesse relativamente cheio, mas não muito tarde para trazer comentários desnecessários. Maria tinha consciência da sua beleza, sentia os olhares. Era como um raio de sol em um dia nublado. Cumprimentou todos os conhecidos. Eram todos da socialite carioca. Essa festa estava particularmente tentadora. Muitos jovens, alguns frequentadores habituais e alguns novos. Pierre era um dos novos. Reconheceu nele essa novidade. Altivo, cabelo bem arrumado, smoking bem passado. Admirada, olhava furtivamente para ele. Pierre percebeu seus olhares assim como a sua presença logo que ela entrou. Não passou muito tempo até serem apresentados e o encanto se acentuou. Pareciam que se conheciam há anos. A conversa corria solta. Apesar de terem vivido em países tão distintos, ela no Brasil e ele na França, pareciam velhos amigos de infância. O gosto semelhante, os prazeres em comum, a forma de ver e viver a vida. Pareciam feitos um para o outro. A festa não foi suficiente, a cada novo encontro, enquanto se preparava, o frio lhe percorria a espinha. Era sempre uma nova descoberta. Continuavam a se perceber como almas gêmeas, e novos encontros naturalmente foram acontecendo. O amor crescia exponencialmente, e de uma forma muito saudável e sólida.

A França enfrentava alguns problemas em suas colônias na África, isso fez com que Pierre tivesse que deixar seu posto de cônsul no Brasil e assumir interinamente o posto no Senegal. Não passou muito tempo e o Senegal se tornou independente, o que fez com que Pierre retornasse a Paris.

Aquele distanciamento não havia esfriado a relação entre eles. A saudade havia alimentado o amor e enchia por dentro com uma luz quente e silenciosa.

E chegou o dia, o dia em que finalmente embarcaria para Paris. O voo duraria entre 18 e 24h, com uma escala em Dakar. Maria nunca havia voado de avião e aquela experiência juntava ainda mais emoção ao romance com o cônsul. O avião com suas poltronas amplas e confortáveis. Os passageiros elegantemente vestidos. O tempo passava lentamente, entre as refeições servidas em bandejas cobertas com toalhas de linho e um menu ricamente selecionado, servido certamente com revigorante espumante. A escala em Dakar não passara desapercebida, um calor envolvente entrou na cabine quando as portas foram abertas. Precisaríamos descer para a limpeza e abastecimento do avião. As horas de espera no saguão em Dakar passaram rápido, eram muitas novidades, desde a decoração do local até as vestimentas dos trabalhadores. Tudo encantava Maria e a deixava hipnotizada. Logo embarcariam em direção a Paris, onde a sua vida seria um conto de fadas, rica em festas e celebrações, o que mais apreciava fazer.

Chegando a Paris, procurou por Pierre no saguão, mas não o encontrou, esperou uma hora, duas horas e nada. Aflita começou a não sentir as suas pernas. Falava francês, mas aquela demora a estava sufocando. Começou a se perguntar o que faria sozinha em Paris? Desesperada, perdeu o raciocínio e percebeu seus olhos marejarem, quando uma pessoa vestindo um uniforme de motorista se aproximou dela e perguntou: — Mademoiselle Maria Coimbra? Pierre havia pedido ao motorista que a buscasse no aeroporto, pois havia ficado retido em uma reunião com alguns ministros.

O motorista a levou até a residência de Pierre. A casa ficava em um palacete antigo. O motorista a acompanhou até a entrada principal, mas deixou suas malas no carro. Ela, reflexiva, estranhou a falta de gentileza do motorista. Tocou a campainha e Pierre a atendeu prontamente. Estava lindo como sempre, mas algo em seu olhar estava diferente, havia um certo abatimento. Foram para a sala, o espaço era decorado com sobriedade, quase sem se notar um toque feminino. Sentaram-se, tomaram um vinho. Ele contava sobre a reunião com os ministros. Maria se remexia como se algo em sua roupa não estivesse no lugar certo, desconfortável. Foi quando, com um ruído forte, se fez presente. A porta abriu, passos em direção à sala. O pouco brilho que Pierre tinha no olhar se apagou de vez. A mulher que chegou combinava perfeitamente com a sala e um silêncio constrangedor se instalou. Finalmente, Pierre disse: Maria, te apresento minha esposa, Sophie.

Maria, quieta, não se manifestou, tomou um gole de vinho. Reorganizou as ideias e entendeu a ausência, a distância, os constantes adiamentos do reencontro. Tudo fazia sentido naquele momento. Suas pernas fraquejaram, se sentou, com as mãos trêmulas, gotas de vinho caíram sobre a sua luva branca que repousava sobre a mesa. Uma após a outra, manchando de sangue as luvas e o mapa de Paris onde havia planejado uma grande história.

O porão - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



O porão 

Ises de Almeida Abrahamsohn  

Eles vieram de noite.  Atrás de André e de Celina. Há três dias, André tinha sido avisado de que alguém o dedurara aos caras da repressão.   Parou de ir à faculdade e avisou Celina, sua jovem mulher que estudava na PUC.  Tinham que sumir   por uns tempos e depois tentar viajar para onde conseguissem. Apenas ontem conseguiu um endereço de esconderijo.   Era um sobrado antigo, daqueles construídos com porão e sótão no bairro de Vila Zelina.  Havia pertencido aos avós de um companheiro. O jardinzinho da frente, bem cuidado, não destoava da vizinhança e não denunciava   a desocupação.  Servia de esconderijo aos militantes da UNE (União Nacional dos Estudantes — grupo não armado de resistência à ditadura militar) quando a situação apertava.

Era dia de São João, junho de 1971.  No bairro, ainda com algumas ruas de terra, viam-se restos de fogueiras e bandeirinhas. 

André havia sido enfático.

― Celina, querida, se vierem me pegar, você se esconde no porão. O que esses animais mais querem é torturar as mulheres na frente do marido para conseguir delações. 

O porão tinha sido escavado sob metade da casa, originalmente apenas para servir de oficina e depósito. Ferramentas em uma bancada de madeira, uma estante com livros velhos apoiada nas paredes e alguns quadros empoeirados apoiados no chão contra a parede.   Uma torneira no canto e uma única lâmpada pendente do teto. Mas, antes deles, o porão já havia sido preparado como esconderijo. Uma cama de armar e duas cadeiras de plástico eram o mobiliário.     Um balde com tampa já existia para as necessidades e outros dois com água para higiene. A entrada se fazia por alguns degraus sob o vão da escada de madeira que, da sala, levava ao primeiro piso.  A portinhola de acesso era oculta por uma estante de livros. Logo ao chegarem na casa, André havia abastecido o porão com um garrafão de água potável e comida para alguns dias.

De madrugada, ouviram o furgão parar em frente à casa. 

― Rápido, Celina. Alguém avisou. Vá para o porão e eu empurro a estante de novo. 

Celina agarrou a lanterna e o pesado casaco de lã e desceu até o porão escuro.  Ficou parada ali, de pé no escuro absoluto, desorientada, tentando ouvir o que se passava acima. A garganta arranhava, a umidade e a poeira a sufocavam e ela mordia o tecido do casaco para abafar a tosse inevitável. Ouviu alguns gritos, passos no assoalho e bater de portas. Depois, o silêncio.  

Ficou pensando em como os agentes da OBAN descobriram o esconderijo. Alguém da turma da PUC tinha caguetado.  Ou talvez nem isso. Alguém que sabia que ela namorava o André e simplesmente tinha seguido a ela ou ao marido até o esconderijo. 

Sabia que levariam André e ficariam de tocaia por uns dias, vigilância contínua, dia e noite.  Para o caso de alguém sair ou se aproximar da casa.  Tinha que se manter silenciosa dia e noite. À noite, não acenderia a lanterna por medo de alguma luminosidade escapar por alguma fresta na parede. O chão de cimento exalava umidade e mofo num miasma palpável.  Noite e dia marcados no relógio e na agenda durante o dia, quando acendia a lanterna para se mover no aposento.

A primeira noite foi a pior. Até o cansaço vencer, Celina acordou inúmeras vezes para se achar mergulhada na escuridão, sem saber onde e por que ali se encontrava.  Doze horas mais tarde, acordou sentindo-se melhor. No relógio eram 15 horas. Podia acender a lanterna na bancada. Tinha mais três horas até escurecer. Bebeu água e comeu alguns biscoitos com goiabada. Achou uma lata de leite em pó na bancada. Ficou feliz quando achou uma espiriteira a álcool, já com uma caneca de alumínio à espera da água, uma latinha de café solúvel e açúcar.  Celina adorava café. O café a acordou e o cheiro neutralizou o mau cheiro do inóspito porão. Considerou a comida como sendo o almoço e resolveu explorar a área.  Chegou até a estante para investigar os livros. As lombadas daqueles poeirentos e abandonados volumes pareciam   atrair seus dedos.  A lanterna iluminava títulos e autores que ela não conseguia ler.  Era escrita cirílica, sabia que algumas letras eram semelhantes ao alfabeto grego e as vogais iguais ao latino. Tentou decifrar:  Толстой  seria Tolstoi? E este outro: Фёдор e este começando com Phi, Д é delta e o é mesmo.  Claro, devia ser Fiodor, Fiodor Dostoiévski. Que pena, pensou… Não poderia lê-los.  Na prateleira inferior, encontrou alguns livros em francês.  Foi sua segunda pequena felicidade do dia.  Procurou não pensar mais no escuro porão e começou a ler.  Escolheu aventura, o Conde de Monte Cristo. Isso me distrairá um pouco, pensou. Mas, ao avançar na saga de Edmond Dantes, já eram 19 horas no relógio. Hora de mergulhar na escuridão completa.   

Decidiu ficar o máximo de tempo possível na cadeira próxima ao leito até perto das 23 horas, sua hora habitual de dormir. Lamentou não ter trazido seu radinho de pilha, companheiro de muitas horas de insônia, porém não teria coragem de ligar mesmo mantendo próximo ao ouvido. Se alguém estivesse vigiando no andar de cima, arriscaria ser detectada.  Tentou organizar os pensamentos. 

Começou por lembrar viagens que fizera desde criança, paisagens, parentes, festas de aniversário, amigas… Tudo para não se deixar abater. Até que   o cansaço a fez cambalear e se esticar na cama.  Dormiu até as cinco um sono entrecortado de sonhos perturbadores nos quais colegas e conhecidos da PUC conversavam nas mesas de calçada do barzinho que todos frequentavam. Aparecia o André que a abraçava e, à distância, o Nelson, seu namorado durante um semestre no primeiro ano da universidade há 3 anos.  Não havia sido uma ruptura sem consequências. Era um jovem de família rica, que se revelou muito possessivo e ciumento. Várias vezes ele a seguiu, pedindo para reatar o namoro.  Celina recusava educadamente até que, há dois anos, após violenta discussão, ela o afastou definitivamente.  Raramente cruzavam os caminhos nos corredores da escola e ela o ignorava. 

Quando ela passou a namorar André e, inevitavelmente, a frequentar o grupo da UNE, até esqueceu dele. Mas agora lhe veio à memória uma conversa ouvida há alguns meses ao almoçar com colegas.  Alguém mencionou o nome do Nelson como participante do grupo CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Nunca mais ouvira falar dele e repeliu a lembrança, ocupada agora por pensamentos mais imediatos. Será que já era dia? Podia ligar a lanterna?  Precisava chegar ao balde para urinar, a bexiga estava doendo…  

Aliviada, programou as atividades da manhã. Passou esponja molhada no rosto e axilas e aplicou desodorante.  Sentia muita fome.  Achou os biscoitos, o doce e a lata de leite em pó. Não se arriscou de novo a fazer café. Não se ouvia nenhum barulho, nem vindo da rua, nem do andar superior.  Quanto tempo ainda teria que ficar ali até que desistissem da tocaia ou de procurá-la? E quando alguém da turma iria se arriscar a vir para resgatá-la?  Ou pior, se ninguém viesse? Não posso entrar em pânico…

Levantou-se e executou uns passos relembrando a letra do samba “Essa tal de Felicidade” do Martinho da Vila.  O cantor havia trocado “Essa tal de liberdade” por Felicidade, exigência da censura, senão o disco não sairia. 

Se tivesse sorte, os tiras desistiriam de ficar de tocaia.  Afinal, tocaia dava muito trabalho e para quê? Ela era peixe pequeno, apenas estudante, e mesmo André era apenas da UNE; nenhum dos dois estava na luta armada…

Voltou a sentar e retomou o livro.  Estou igual ao Edmond, pensou…  Coitado, ainda estava bem pior, sem esperança de sair da masmorra… Mas já tinha encontrado o abade Faria na cela ao lado. Programou-se para, durante o dia, exercitar o corpo e ler até voltar a comer seu jantar de leite, biscoitos e goiabada.  Perto das 18 horas, apagou a lanterna e se deitou. Tentava não pensar em André, nem na sua situação, em nada. Difícil distrair a cabeça.  Rememorou uma viagem que havia feito há anos com as amigas Lara e Eneida para acampar em Ubatuba.  As duas tinham se mudado para a Bahia, queriam abrir um restaurante perto de alguma praia.   Adormeceu pensando em ir visitá-las, ainda tinha o telefone de contato.

Acordou com o ruído de passos e arrastar de móveis no andar de cima. Sentou-se na cama sem fazer ruído ou acender a lanterna.  Estavam arredando a estante de livros… Deve ser algum conhecido da turma, pensou… A porta do porão foi aberta e um jato de luz iluminou a escada.  Era um homem, o rosto não conseguia ver. 

― Boa noite, Celina. Não esperava me ver aqui…  Vim salvá-la… Ela logo reconheceu a voz.  Vinha prendê-la? O que queria?  Era então verdade que Nelson era um espião da repressão, pensou. 

― Veio sozinho?  Perguntou… 

Sim, ele viera sozinho.   Celina pegou automaticamente o casaco e o livro e subiu os degraus atrás de Nelson.  A luz acesa na sala momentaneamente a cegou. Deu alguns passos incertos até sentar-se numa cadeira da cozinha.  O rapaz colocou um copo de água à sua frente. Celina murmurou um obrigado.  Tentava focalizar o pensamento no que se seguiria ou aconteceria. Pediu para ir ao banheiro. 

Lavou o rosto e as mãos com sabonete. Um luxo, pensou… O que queria mesmo era tomar um bom banho de chuveiro, mas não era para agora. Refrescou a boca com os dedos e um resto de pasta de dente deixado na pia. Sentiu-se pronta a enfrentar o que viesse. 

― Sabia que encontraria você aqui, Celina. André não resistiu muito. Bastaram alguns socos e chutes e ele passou o endereço e os nomes dos contatos lá na PUC. Não, ele não falou que você estaria aqui, mas quando sumiu da faculdade e de seu estágio, era fácil deduzir.  Ele sabia que eu iria atrás de você…

Celina, perturbada, só conseguia pensar em André sendo espancado. 

― E onde ele está, Nelson?  Está bem? Perguntou com voz sufocada por soluços que tentava engolir. 

Foi informada de que o marido estava sendo mantido numa cela da OBAN até que verificassem as informações que ele passara.  Ela ainda não atinava o que o ex-namorado queria. 

― E o que vocês querem comigo?  Eu só conhecia o pessoal lá da PUC, não tinha contatos nem conhecia outros do grupo, argumentou a moça. 

― Sim, sabemos disso. Mas nos faltam dois nomes, dois da pesada, com quem seu maridinho ia se encontrar.  E não sabemos onde eles estão.  Até sabemos os codinomes, mas eles estão bem escondidos. E aí é onde você vai nos ajudar. 

Celina protestou: ― Não vou ajudar vocês, nunca! Torturadores, assassinos! 

― Não se exalte, querida.  Vou lhe dizer as condições e aí você resolve…

O plano é você encontrar o casal, o mesmo que André ia encontrar, agindo em nome dele. Em algum momento, você vai receber de um contato o quando e como deve se encontrar com o casal ou com um dos dois.  Aí você irá tranquilamente para onde indicarem. Estaremos a postos nas proximidades para agir. Se você nos ajudar, o André será libertado e vocês dois poderão viajar para a Bolívia ou para a Europa sem maiores problemas. 

― E se eu não aceitar sua proposta? Perguntou Celina, já imaginando a resposta.

― Você seria tola em não aceitar. O André estava mais envolvido do que você imaginava. Não sei o que aconteceria a ele.  E nem a você, para dizer a verdade. Não sou tão horrível quanto você me julga.  Saiba que fui eu que propus ao pessoal essa saída.  Sem tortura e sem eventuais mortes, vocês dois escapam.  Resolva agora, tenho que informar meu chefe.

Celina ainda perguntou qual garantia teria de que André seria liberado. Sem garantias, lhe respondeu Nelson, mas eles costumam cumprir, se a coisa der certo.  E, obviamente, silêncio absoluto de sua parte. 

Celina cobriu o rosto com as mãos e, após alguns segundos, ergueu a cabeça e respondeu que sim, ela faria o que era pedido. 

Nelson a levou de carro até o ponto de ônibus, de onde seguiu para a casa da mãe em Vila Mariana.  Ficou lá no final de semana e voltou para o seu pequeno apartamento próximo à PUC. Na segunda-feira, voltou às aulas.  Aos conhecidos, falava que André estava em Minas visitando a tia.  

Uma semana depois, recebeu um envelope pardo selado sem destinatário. Três dias depois, ao almoçar na padaria, encontrou sob o prato um   guardanapo com instruções, o lugar, a data e a hora do encontro. Foi para casa olhar no guia como chegar ao lugar.  Era no bairro da Penha, nunca havia estado lá, e era na própria igreja do bairro. Anotou o número do ônibus que a levaria, que passava pelo parque Dom Pedro que ela conhecia.  

No dia seguinte, ao descer do ônibus, ficou espantada. Era uma igreja enorme no alto de uma colina. Subiu a escadaria até atingir um pátio e, mais um lance de escada, chegou à entrada.  Na terceira fila a partir do altar, no lado direito, deixou o envelope conforme indicado abaixo do genuflexório. A imensa nave estava vazia. Em passo regular, sem olhar para os lados, desceu até a rua. Logo chegou um ônibus que a levaria de volta ao centro da cidade. Sentou-se próximo à janela. Começou a tremer e uma náusea intensa a acometeu.  O cobrador chamou-a oferecendo auxílio, mas Celina recusou e pouco a pouco se acalmou. Queria chegar logo em casa. 

Passaram-se dois dias. Celina ansiava por alguma notícia ou pela chegada de André. Na noite do segundo dia, ouviu baterem na porta.  Era André. Havia emagrecido quatro quilos em duas semanas.  Hematomas nas costelas, pernas e braços, marcas de queimaduras nos pulsos, pernas e no saco escrotal.  Celina chorava com André. Resolveram partir no dia seguinte.  Emprestaram algum dinheiro da mãe de Celina e voaram para o Equador, de onde conseguiriam o visto para a França.  Voltaram em 1986 ao Brasil após o final da ditadura militar.  


Conto Numérico - Yara Mourão

 



Conto Numérico

Yara Mourão


Acordar cedo sempre foi um transtorno para mim. Seis e meia é praticamente apenas 480 minutos depois que eu me deitei.

No primário, normalmente, a professora já estaria na classe e os 26 alunos já estariam prontos para a primeira aula, que seria justo matemática! Isso é 100% do meu desprazer!  Logo de início, ela daria o tema: frações! Aí penso: por que dividir em 2, 3, 10 partes um inteiro? E depois somar, diminuir ou multiplicar tudo de novo, e a 30 segundos do final da aula vir com aquele constrangedor c.q.d., isto é: como queira demonstrar?

Podem se passar 10, 100 anos que eu nunca vou gostar de matemática. Na verdade, não me dou bem com números. Nem sei como sobrevivi todos aqueles 8 anos de ensino primário, tendo tido aula de matemática 4 vezes por semana! Mas cheguei ao colegial nos idos de 1960.

Para fugir dos números, optei pelo curso clássico, em que não havia as 4 matérias complicadas: matemática, física, química e até biologia. Havia, ainda bem, outras 4 interessantes: português, inglês, francês e latim, além de mais 5 que eu também gostava: religião, história, geografia, filosofia e literatura.

Mas, para meu castigo, Arquimedes, Pitágoras e seus cento e tantos seguidores se vingaram do meu desdém pelos números, pois logo no primeiro ano do curso clássico trombei de frente com latim, até mesmo chegando a repetir de ano!

Até hoje, uns 50 anos depois disso tudo, os números ainda não são meus amigos, mas o latim ao menos enfeita minha missa de domingo com tantos Dominus vobiscum e et cum spiritu tuo. E, até mesmo depois de desligar o celular e antes de pegar no sono, arrisco uma Ave Maria gratia plena, dominus tecum…


O que seria de nós sem os números? - Sergio Dalla Vecchia

 



O que seria de nós sem os números?

Sergio Dalla Vecchia


Há 30 mil anos, o homem vem evoluindo do processo de contar quaisquer coisas, objetos e animais, até que os hindus, com os árabes, chegaram aos números indo-arábicos, tão conhecidos por nós.

Desde os 6 anos de idade, convivendo com a tabuada 1×1, 1×2, 1×3…, com as 2 rodas da bicicleta e as 3 do velocípede.

Decorando o endereço residencial para não se perder: número 700 da Rua Tal, telefone 72109 e acessível pela linha 28 do ônibus.

Aos 12 anos, envolvendo-se com os 3 ângulos do triângulo, com os 4 lados do quadrilátero até os N lados do polígono que sacudiam nossos neurônios.

Já com 18 anos, RG 1111111, CPF 222222222, CNH 33333333, 5 anos de faculdade, com 5 aulas diárias e 6 matérias por 6 meses. 

Adicionando ainda, surgiu o computador com combinações binárias, algoritmos e nuvens carregadas de números reais e imaginários.

Aos 26 anos, trabalhando num bom emprego das 8h até as 18h.

Aos 30 anos, casado, administrando 1 lar, números entrando pelo holerite e números saindo para contas a pagar.

Em meio a essa movimentação numérica da vida, chegaremos aos 80, 90… anos de vida, repletos de números e ainda com 3 a 4 filhos, 6 a 8 netos e 3 a 4 bisnetos.

Podemos concluir que foi uma vida numericamente exata, com plenitude e armazenada para sempre nas nuvens!


Um “réveillon” na praia - Ledice Pereira




Um “réveillon” na praia

Ledice Pereira


Tudo tem seu tempo certo. Quantas inúmeras vezes enfrentamos vinte ou trinta quilômetros de congestionamento e cinco ou seis filas de pedágio (naquele tempo não havia “sem parar” nem nada do gênero) para, com dois filhos e um amigo de cada um, passarmos férias no Guarujá.

Para distraí-los, inventávamos jogos, muitas vezes quem contasse mais números oito ou nove nas chapas dos carros que nos ultrapassavam. Isso os entretinha por alguns minutos até se cansarem. Aí, tínhamos que pensar em outro tipo de diversão.

Íamos, em geral, na segunda quinzena de dezembro, para passar na praia as festas de Natal e Ano Novo.

No Natal, juntávamos às vezes mais de vinte pessoas e nos divertíamos muito, preparando a ceia e escondendo os presentes das crianças, que, em número de sete, aguardavam ansiosas a chegada do bom velhinho, pontualmente à meia-noite, quando o relógio batia, uniformemente, suas doze badaladas.

Os dias eram muito bem aproveitados, com praia, jogos, muita cerveja e as crianças sujas de areia misturada com sorvete.

O “réveillon” era um espetáculo à parte: centenas de pessoas trajando branco, dirigindo-se em bando para a praia, onde esperavam o estourar dos fogos. Dúzias deles. E, depois de brindar com, ao menos, duas garrafas de “champagne”, ou algo parecido, pulávamos as sete ondas, pedindo graças a Iemanjá.

Quantas lembranças felizes de tempos que não voltam mais.

Hoje, os oitenta e um anos e a prudência pressionam para que não nos aventuremos mais. 

Tráfego intenso, jamais!


Voltando para casa - Isabella Brancher

 



Voltando para casa

Isabella Brancher


Era uma viagem de trabalho bastante rotineira. Eu já havia feito esse trajeto inúmeras vezes. O roteiro era sempre o mesmo. Saí do escritório às 15h de Boston, peguei o táxi; em 35 minutos estaria no aeroporto.

Caminhei diretamente em direção à imigração, como de costume. Dessa vez fui escolhida pela polícia para uma verificação de rotina. O teste consistia em esfregar um papel absorvente nos meus dois dedos indicadores e nos dois polegares a fim de detectar traços de pólvora. Como esperado, zero traços de pólvora foram encontrados.

Dirigi-me ao portão de embarque número 43, de onde sairia o voo LA453 para Nova York. Entrei na fila, entre os últimos passageiros. Tinha esse costume: esperar boa parte dos passageiros entrar para depois entrar. O atendente pegou o meu bilhete, colocou-o sobre o leitor e, curiosamente, gerou um erro. Eu já comecei a bater ritmicamente meu pé no chão. Uma segunda vez o atendente faz o mesmo procedimento e, novamente, um ruído sonoro de erro emerge do portão. Imaginando ser um erro do leitor, o atendente me libera para entrar no avião.

Era um Boeing 737–700 com duas fileiras de cadeiras, com três de cada lado. Sempre gostei de ficar à janela, na metade do avião. Dessa vez não teria sido diferente. Procurei a poltrona 22-A e fui em direção ao meu lugar. Pronta para guardar minha mala no compartimento sobre a poltrona, eis que chega outro passageiro com o mesmo assento que o meu. Nós nos olhamos preocupados e logo chamamos a comissária. Meu coração acelerou, senti minhas faces avermelhando. Poderia ter pulado no pescoço do outro passageiro caso a comissária não chegasse logo. 

Finalmente: agora ela terá que decidir qual de nós dois se sentará na poltrona 22-A. Ela avaliou o bilhete dele, depois o meu. Ao terminar, olhou-me de cima a baixo e disse: “O seu bilhete é para Washington, voo LA543, e este voo vai para Nova York.”

Habituada a estar com aquela rotina de voo, nem me dei conta de que o meu bilhete era para Washington. Desci, desembarquei e corri para o portão 44. A primeira etapa da viagem de volta que me levaria para minha querida casa, onde já vivia há 20 anos. Durante a viagem, peguei-me questionando não uma, nem duas, mas diversas vezes a conduta do atendente, e sobre a minha própria: quantas escolhas fazemos sem perceber, apenas no piloto automático?


DE REPENTE, DUBAI - Ledice Pereira

 




DE REPENTE, DUBAI

Ledice Pereira


A mulher despertou assustada ao perceber que estava sentada ao lado de um homenzarrão.  Por alguns segundos, não soube onde estava. Ajeitou-se na poltrona e olhou para a tela do sistema de entretenimento à sua frente. No mapa, um avião avançava lentamente sobre o oceano.

O homem, ao lado, percebeu sua confusão e comentou com naturalidade:

— Estamos sobrevoando o oceano agora. Vamos fazer uma escala aqui. — Ele apontou para um ponto luminoso no mapa, Doha, Qatar.

Ela franziu a testa — Doha? Por quê?

— Porque esta é a rota para Dubai — respondeu ele.

Ela ficou imóvel. 

— Dubai? — A voz saiu baixa, quase um sussurro. Em seguida, apertou o botão para chamar a comissária.

— Desculpe… deve haver algum engano. Por que este avião está indo para Dubai?

A comissária pareceu surpresa.

— Senhora, este voo sempre teve Dubai como destino. A senhora pensa que está indo para onde?

Ela abriu a boca, mas não conseguiu responder. Primeiro, vieram as lágrimas. Depois, os soluços. Por fim, o choro forte e descontrolado, como se, naquele instante, tivesse compreendido que alguma coisa estava terrivelmente errada.

Estava indo visitar os pais, no Pará. Eles estariam esperando por ela no aeroporto. Deviam estar preocupados e sem entender nada. 

Sentiu-se um pouco tonta. A boca seca e amarga. Tentou levantar-se. Precisava ir ao banheiro. Tudo rodou. Precisou ser amparada. A comissária a acompanhou. Ficou aguardando do lado de fora, preocupada.

Foi o tempo de fechar a porta e lançar tudo que tinha no estômago na bacia, como se tivesse ingerido uma feijoada para duas pessoas. No final, biles, aquele amargor horroroso. Um tremendo mal-estar.

A comissária percebeu tudo e ofereceu-lhe um chá que ela tomou avidamente. Foi levada para a primeira classe, onde puderam cuidar dela e acalmá-la.

Chamava-se Leonor. A família a chamava de Léo. Tinha vinte e oito anos. Há dois anos, fui trabalhar em São Paulo, onde achava que teria mais oportunidades. Com a cabeça atordoada, tentou lembrar-se de como chegara ao aeroporto. 

O motorista havia sido simpático, oferecera-lhe água que ela tomou apesar do gosto estranho que sentira. Alguém a acompanhara carregando-lhe a mala. Não se lembrava de ter ido ao balcão nem de despachar a bagagem. Foi cercada por pessoas que falavam à sua volta. Deram-lhe aquele comprimido para que ela melhorasse do mal-estar. Estava tudo muito confuso. Quem seriam aquelas pessoas? O que teriam lhe dado? Não se lembrava de ter embarcado. Onde estaria sua mochila? Estava levando encomendas para os pais. 

Chamou a comissária e contou-lhe tudo de que se lembrava. Concluíram que ela estava sendo sequestrada, raptada, sabe-se lá o quê. Talvez tráfico de mulheres. O medo se apossou dela sem conseguir parar de tremer. 

A comissária tentou acalmá-la. Iriam comunicar-se com a torre local, para a polícia estar presente no desembarque.

O homenzarrão estava inquieto. Ia toda hora ao banheiro. Tentava olhar o que acontecia na primeira classe. Fingia estar preocupado com a moça. A comissária sentia que ele estaria envolvido.

O comandante avisou que iniciaria a descida. Todos deviam apertar os cintos e ficar em seus lugares. 

A polícia, avisada, estava a postos. A tripulação estava atenta a qualquer movimento. 

O homem fechou-se no banheiro de onde não saía mais.

Chamaram.  Bateram à porta e nada. 

O avião aterrissou. O comissário utilizou a chave para abrir a porta do banheiro.

O homem estava caído sobre o vaso. Tinha uma cor azulada. Parecia desmaiado. O banheiro foi interditado e o comandante solicitou que, por motivo de força maior, todos permanecessem em seus lugares. 

Os policiais armados entraram. Constataram que o homem estava morto. 

A bordo houve um alvoroço. Todos perguntavam o que estava acontecendo. 

Leonor estava em pânico. Foi levada para o centro médico e teve todo o atendimento necessário. Conseguiu comunicar-se com os pais, que já haviam acionado a polícia local, tranquilizando-os. 

A equipe do aeroporto verificou que a bagagem da moça havia desaparecido. 

Após medicá-la e levá-la para um hotel, providenciaram um voo de volta para o dia seguinte. Além disso, providenciaram também algumas roupas para que ela pudesse se trocar e voltar.

Leonor ficou sabendo que o homem fazia parte de uma quadrilha que traficava mulheres para serem garotas de programa em Dubai. Quando percebeu que seria preso, suicidou-se, ingerindo uma pílula letal.

Ela nem acreditava ter vivido esse terror. Tinha a certeza de que seus pedidos de proteção a São Miguel Arcanjo a haviam salvado de viver uma experiência mais do que traumática.



Mapa mental de uma estranha viagem - Yara Mourão.

 



Mapa mental de uma estranha viagem

Yara Mourão.


Teodoro era um pesquisador que amava fazer biografias. Tinha muitos clientes entre amigos e conhecidos que eram fiéis adeptos de seus trabalhos. Isso era muito gratificante para ele, que buscava constantemente por novos desafios, que seria fazer a melhor de todas as biografias.

E esse desafio veio do âmbito familiar, para sua satisfação pessoal.

Foi um tanto casual o início dos trabalhos. Em meio aos seus papéis, ele encontrou o desenho de um mapa feito há alguns anos por sua sobrinha. Eram desenhos de lugares com símbolos e títulos muito sugestivos, a começar pelo principal: “Jornada pelos lugares surreais!”

Mas a visão desse mapa o impactou profundamente, projetando-o para um limbo onde ele se viu vagar como um viajante desnorteado, consumido no silêncio e numa dor difusa.

Teodoro tentou libertar-se da teia que o prendia, mas se viu preso nos recônditos de suas memórias e intuições. Sua mente se recolhia e abria espaço para mensagens que vinham de fora dele, trazendo um conhecimento que se insinuava à revelia de seu comando, ou ao redor de seu cérebro, se infiltrando em seu eu com uma solidez quase palpável.

Teodoro se percebia desconstruído.

Os desenhos em preto e branco sobre a superfície amarelada daquele papel eram testemunhas de uma história. Da sua história.

Dias, noites, madrugadas intermináveis consumiram sua razão. Ele perpassava cada figura com laivos de inconsciência, suores de medo, êxtase e agonia.

Não eram lembranças que o acometiam; eram resquícios de vivência. Talvez extracorpórea. Talvez ainda de outra vida.

E foi assim, nesse estranho ser ou não ser, que ele topou com o recorte de sua dor existencial. Sua dor cinzenta, incurável, por não enfrentar a verdade que subjugou sua existência, fazendo com que ele só se voltasse para as histórias de vida dos outros e nunca para a sua própria.

Teodoro viu ali, naquele mapa, o seu crime. Ou melhor, seu crime ali, naquele mapa, foi ao encontro de Teodoro, de seu corpo, de sua aura, de sua mente.

Toda a verdade emergiu de um pedaço de papel…

Ele havia assassinado, por ciúme, por um incontrolável ciúme, sua bela esposa dos olhos tristes! Estava tudo ali no mapa, tudo por onde ele passara em seu tormento: pela Cidade dos Sonhos, pelo Abismo das Sombras, pelas Vozes no Escuro e a Montanha de Silêncio. Até que no Labirinto da Perda ele se banhou no Rio do Esquecimento.

Não dava mais para fugir. Estava ali, no Deserto dos Espelhos, no fundo do lago, o corpo inerte de sua esposa!

Teodoro se viu trespassado pela realidade que rondou sua inteligência, sua memória, por anos! 

O mapa mental feito por sua sobrinha foi um julgamento e condenação de Teodoro.

Envolto pelo círculo etéreo da criação, ele compreendeu que a verdade vem e consome o que não é. E, tendo entendido isso, Teodoro fez, finalmente, a melhor biografia: a da sua própria vida.


O baú de lembranças - Ledice Pereira

 



O baú de lembranças

Ledice Pereira

 

O dia sombrio e chuvoso prendia Silvana, sem que pudesse se aventurar a sair. Precisava procurar algo para aplacar o tédio.

Terceiro dia de férias programadas com tanto cuidado. Em poucos dias, viajaria para Paris e ainda tinha que providenciar algumas compras. 

A Defesa civil, no entanto, aconselhava a não sair de casa. Ventos e chuva de granizo prometiam fazer um estrago.

Adiou a saída. Ainda teria uns dias pela frente. 

Café tomado, acendeu seu cigarro costumeiro e criou coragem, dirigindo-se ao quarto onde ficava o baú que a acompanhava desde que se casara com Alfredo, levando todo seu enxoval. Hoje, guardava ali recordações da vida inteira. Ele exalava cheiro de saudade. Às vezes, pensava em jogar tudo fora, mas apegava-se a olhar nostalgicamente e, sem coragem, fechava o velho amigo sem realizar a esperada desova.

Alfredo falecera há três anos e, só agora, ela se sentia em condições de realizar a sonhada viagem a Paris. Guardara ali, o mapa da cidade, que tanto tinham estudado e planejado conhecer. 

Abriu o baú que mantinha muito organizado, retrato de sua personalidade. Tudo ali, como na casa toda, era etiquetado. Dizia que não queria dar trabalho aos sobrinhos, quando se fosse, afinal, estava quase com setenta anos, embora não parecesse.

Acomodou-se na poltrona disposta ao lado e começou pela caixa que continha fotos antigas. Foi pegando e revivendo cada momento que elas retratavam. Almoço com a família, formatura do sobrinho, viagens feitas, amigos, Alfredo... Quantas saudades!

Como num filme, os acontecimentos iam passando. Podia sentir perfumes, sabores, frio, calor, através de cada foto que a aproximava das pessoas que nunca mais vira ou que já haviam partido deste plano. Não podia se queixar. Tinha sido feliz.

Sentiu a lágrima salgada que escorria. Vontade de voltar no tempo. O mapa estava ali ao lado daquela luva amarelada pelo tempo.

Acariciou aquela luva de seda, respingada de vermelho. Sorriu. Reproduzia em sua mente a cena vivida, marcada para sempre: 

“Sua formatura do colegial. Havia caprichado no visual. Adorara o penteado e a maquiagem feitos num salão, no centro da cidade, muito conceituado. O vestido então, feito por uma costureira de mãos de fada, ficara impecável e totalmente do seu gosto.

Os pais presentes e orgulhosos. Ele até havia mandado fazer um terno escuro, que o momento exigia, e ensaiara os passos da valsa que dançaria com ela. A primeira das três. A segunda, dançaria com seu primo e a terceira, destinada aos namorados. Aguardava ansiosa.

Estéfano, que estudava na outra classe, andava lhe paquerando, como se dizia à época. Ela descobriu-se apaixonada. Ele dera a entender que dançaria com ela.

A terceira valsa começou. Ela procurou os cabelos louros do alto rapaz. Colocou-se em posição de destaque para que ele a visse e nada. A valsa tão esperada, para a qual se preparara tanto, terminou sem que ela dançasse.

Então ele surgiu, com aquele sorriso que ela adorava, faces vermelhas e testa úmida de suor. Vinha de mãos dadas com Laura, sua melhor amiga, que também tinha a face mais rosada. Vinham dizer a ela, em primeira mão, que estavam namorando.

Silvana, surpresa e decepcionada, não teve dúvida. A taça de vinho tinto que o pai sorvia, estava ali pela metade, esquecida, enquanto ele valsava com sua mãe. Pegou-a, como se fosse brindar, arremessando o líquido na cara do rapaz, atônito. O vinho escorreu pelos óculos, rosto e camisa branca engomada com que ele, vaidoso, desfilava, respingando na luva que ela ainda trazia na mão esquerda. Em seguida, ela correu em direção às toilettes, para que ninguém visse os olhos molhados pelas lágrimas frustradas que brotavam.  

Laura tentou segui-la, mas o rapaz a impediu, retirando-se com ela do recinto.

Só saíra dali, depois que a mãe foi procurá-la, convencendo-a a voltar e participar do baile que acabara para ela.” 

Nunca mais soubera de Laura e Estéfano. Fora sua primeira decepção amorosa. 

Não sabia por que havia guardado, por tanto tempo, aquela luva respingada. Resolveu desfazer-se dela, dando risada da infantilidade da reação que tivera. 

No dia marcado, dirigiu-se com tempo de folga para o aeroporto. Estava animada com a viagem. Aquela fisionomia, na fila ao lado, chamou-lhe a atenção. Seria Laura? Com quatro jovens? O homem, que a abraçava, parecia um pouco mais velho. Os dois tentavam conter a risada e fala alta dos quatro, que se mostravam animados com a viagem que fariam em família. Netos, talvez.  

Silvana bem que teve vontade, mas não teve coragem, de se identificar. Procurou até disfarçar, olhando para o lado oposto. Tinha certa vergonha daquela atitude impensada da juventude. Não sabia como Laura reagiria. Melhor não deixar que nada atrapalhasse aquele momento tão aguardado. Deixou pra lá. 

Para o futuro! – pensou, enquanto se dirigia para o embarque – o que passou, ficou para trás! 


Henrique, nunca venda a casa! - Ledice Pereira

 



Henrique, nunca venda a casa!
Ledice Pereira

Quando Henrique recebeu a notícia de que seu tio avô havia falecido, viu um filme passar em sua mente.

Tio Arthur era temporão, contemporâneo de seu pai, com quem convivera muito. Colecionador ferrenho de carros, sempre aparecia para exibi-los. Aguardava o elogio e saía todo orgulhoso da aquisição. Alegre e cheio de vida, não havia se casado por ter tido algumas decepções amorosas das quais evitava falar.

Isso nunca o transformou num sujeito amargo, pelo contrário, era um bon vivant, gostava de viajar, principalmente se a viagem o levasse a esportes radicais, com trilhas, acampamento, tirolesa e até salto de parapente.

Quando resolveu mudar-se de cidade, isolou-se e os encontros com a família tornaram-se raros. Parecia preferir ficar distante.

— O que teria se passado para que ele se afastasse tanto?

Henrique pensava com seus botões, enquanto dirigia o carro a caminho da cidadezinha, onde tio Arthur resolvera esconder-se da civilização.

Após quatro horas e meia, avistou a rua principal da pequena cidade que devia ter, no máximo, uns cinquenta mil habitantes. Uma rua com, aproximadamente, quinhentos quilômetros de extensão.

Havia gente nas janelas, crianças brincando, carroças passando, mulheres conversando. Henrique pensou que jamais conseguiria viver naquele marasmo.

Seu Joel, o vizinho veio recebê-lo. Estava pesaroso. Contou que havia se tornado muito amigo do falecido, que morrera dormindo, segundo avaliação da equipe hospitalar a quem ele recorrera, quando o amigo não respondeu aos seus chamados. Levou-o a ver a casa que o tio havia deixado para ele, único sobrinho, assim como o velho Opala preto estacionado no quintal.

Henrique emocionou-se ao ver os pertences que adornavam a casa, muitos dos quais estavam vivos em sua memória: enfeites, taças, xícaras, quadros, porta-retratos. Tudo lhe era muito familiar.

Abriu o Opala preto com lágrimas nos olhos. Quanta recordação aquele carro lhe trazia! Via-se sentado no colo do tio, que fingia deixá-lo dirigir, ensinando-o a girar o volante para a direita e para a esquerda. No auge de seus onze anos, imaginava-se um piloto de fórmula I. Esnobava os colegas de escola, ao contar que havia dirigido o Opala do tio.

Queria voltar à sua infância, poder dizer ao tio como ele havia sido importante. Como o tinha feito feliz.
Seu Joel respeitou aquele momento íntimo e esperou para dizer que no porta-luvas havia algo a ele destinado.

Ao abrir, Henrique encontrou uma pasta velha e descascada onde havia recibos, fotografias de viagens e um envelope com seu nome escrito à mão. Lembrava muito daquela caligrafia inclinada, toda igual, desenhada, perfeita. Dentro, uma chave e um bilhete: “Henrique, nunca venda a casa”.

Voltou para o interior da casa que cheirava a tristeza, vazio, abandono.

E Henrique chorou. Chorou como há muito tempo não conseguia chorar. Deixou que o choro o dominasse. Um choro de saudade, de remorso, de tristeza.

No dia seguinte, soube pelos vizinhos que Arthur, ultimamente, andava muito esquisito. Havia nele um semblante de preocupação, um quê de mistério, talvez.

Ficou pensativo. O que o tio teria vivido, ou sofrido, que poderia preocupá-lo? Soube que ele nunca saiu dali depois que mudou para a cidadezinha. Contava de suas viagens como se as revivesse e dizia que já não tinha coragem de se pôr a caminho de aventuras.

O rapaz resolveu permanecer na cidade, pois sentia que precisaria tomar algumas providências. Descobrir, por exemplo, o que significaria aquela chave. O que abriria? Por que não deveria vender aquela casa? O que estaria por trás daquela frase? Tinha uma série de questões a resolver e descobrir.

O terceiro dia foi de investigação e tentativas. De posse da tal chave, passou, em vão, a tentar abrir portas, janelas, armários, baús, caixas.

Pensava consigo mesmo: “Tio, você não podia ter sido mais direto?” “O que será que você queria me dizer? Juro que estou tentando, de toda forma, entender seu recado, mas está difícil. O quebra-cabeça que você me deixou está me tirando o sono.”

Naquela noite, sonhou. Sonhou como nunca experimentara. Tão real o sonho: o tio lhe aparecia, jovem, alegre, trazendo o Opala preto ainda novo. Dava-lhe uma chave e mostrava-lhe o chão. Ali, onde havia aquele enorme tapete desgastado. E sorria. Aquele sorriso franco do qual ele se lembrava tão bem.
Acordou impressionado. Não costumava lembrar-se de sonhos. Nem mesmo sabia se sonhava. Mas aquele sonho era tão nítido que conseguia se recordar de cada detalhe.

Dirigiu-se à sala. Viu o tapete que, antes, nem havia notado. O que haveria naquele tapete? Afastou-o com dificuldade. Era bem pesado. A poeira subiu, provocando-lhe um acesso de tosse. No chão de madeira, sob o tapete, havia um quadrado que destoava sutilmente do restante do piso. Procurou uma fenda, uma abertura, algo que servisse para levantar aquele quadrado. Até que, após várias tentativas, ouviu um ruído e percebeu um leve movimento no assoalho. Procurou novamente a abertura, utilizando-se, agora, de uma lanterna que levava sempre consigo no carro. Ali embaixo, havia um ambiente todo mobiliado. Lembrava Henrique dos filmes que havia visto sobre guerra, nos quais as pessoas corriam para os bunkers existentes nos subsolos de casas e de prédios.

Uma escada o levou para o ambiente encontrado. Ele mal podia acreditar no que havia descoberto.

Estava exausto. Passava da meia-noite. Resolveu que investigaria o lugar de cabo a rabo no dia seguinte.

Apesar do cansaço, custou a dormir. A descoberta não lhe saía da cabeça.

Acordou com batidas na porta. Olhou o relógio. Passava das dez horas. Correu a atender. Seu Joel trazia um bolo que a mulher havia acabado de assar. Coisas do interior, pensou Henrique, convidando-o para tomar um café. Seu Joel entrou, percebendo a bagunça na sala com o tapete meio enrolado, mas não fez perguntas. Henrique, tampouco, explicou o que descobrira.

Enquanto a água esquentava, foi desembrulhando o bolo perfumado e, com água na boca, tratou de experimentá-lo. Preparou o café que tomaram conversando.

O rapaz esperou que Joel fosse embora para iniciar sua investigação.

Aquele porão, ou bunker, tinha umas pequenas janelas que permitiam a entrada tímida da claridade. Isso permitia que ele descobrisse coisas que, na noite anterior, não havia notado.

Uma enorme escrivaninha cheia de gavetas ainda tinha sobre ela papéis e canetas, como se estivessem sendo usados. Tio Arthur, provavelmente, usava o ambiente que não estava tão cheio de poeira como se fosse abandonado. Havia, no canto, um caderno de capa grossa que lhe causou curiosidade.

Abriu e estacou surpreso com o que leu, numa caligrafia irretocável: “Meu querido sobrinho Henrique. Eu tinha a certeza de que acharia este meu esconderijo. Você sempre foi muito esperto e determinado.

Pois é, meu querido, aqui tem sido o meu canto preferido da casa e é aqui que tenho guardado o que me é mais precioso. E que agora é seu. Deixei tudo registrado em cartório para que não houvesse nenhuma dúvida. Neste caderno, está o número da minha conta no banco, conta essa conjunta com você. Tudo que está lá agora lhe pertence. Nessa banqueta, à direita da escrivaninha, que possui um fundo falso, há moedas estrangeiras que sobraram das minhas inúmeras viagens. Pode ficar com o Opala preto, se quiser, mas deixei em seu nome, com meu advogado, a certidão de posse da Ferrari vermelha que adquiri naquele leilão, lembra? Acho que contei a você e a seu pai. A casa da praia também está em seu nome e meu advogado irá te dar os documentos. Por último, deixei também reservado, em seu nome, um roteiro de viagem com passagem de avião e um cruzeiro pela Grécia por ser um dos passeios mais lindos que fiz e creio que você vai curtir muito. Está tudo na agência de viagens, cujos dados estão a seguir. Fique tranquilo. Está tudo pago.

Por fim, meu sobrinho, eu te agradeço por ser sempre presente na minha vida. Eu que me afastei nos últimos tempos ao descobrir minha doença. Não queria que vocês sofressem por causa dela. Sinto que agora estou chegando ao fim. Seja muito, muito feliz!” Tio Arthur.

Henrique estava pasmo e não conseguia impedir que as lágrimas caíssem copiosamente sobre as páginas daquele caderno. O tio pensara em cada detalhe. Teve remorso por não o ter procurado mais, ele que havia feito parte de sua vida desde que nascera.

Prometeu a si mesmo que ficaria na cidade até que as cerimônias fúnebres e missa de sétimo dia se concretizassem. Só depois iria procurar o advogado, o gerente do banco e a agência de viagens.

Resolveu que não venderia aquela casa cheia de história. Mandou pintar, limpar e transformou-a num pequeno museu, que passou a ser uma das poucas atrações da cidade que acolheu, com amor, aquele homem tão especial.

E se…? - Carla Di Sessa

  


E se…?

Carla Di Sessa


Henrique recebeu a notícia de que seu tio Manoel, com quem quase não falava há anos, havia morrido e deixado para ele uma pequena casa da praia e um carro antigo, um Opala preto. Embora estivessem distantes ultimamente, Henrique se lembrava com carinho do tio e do carro, pois havia se imaginado muitas vezes dirigindo aquele Opala e conquistando o coração de todas as garotas do bairro. 

 No dia em que foi até a casa da praia para tomar posse da herança, encontrou uma pasta no porta-luvas do Opala preto. Havia recibos, fotografias de viagens e um envelope com seu nome escrito à mão. Lá, encontrou a chave da casa e um bilhete curto: “Henrique, nunca venda a casa.”  Ah, tio Manoel, isso eu não sei, pensou, essa casa iria render um dinheirinho que viria bem a calhar. 

Entrou na casa e viu que tudo estava meio empoeirado, mas em ordem. Pela janela, viu um casal se aproximando; eram os vizinhos que haviam sido atraídos pelo movimento. Henrique se apresentou e o casal contou que seu tio andava muito tenso nos últimos tempos, pois sabia que não iria durar muito e não conseguia resolver para quem deixar seus dois tesouros, a casa e o Opala preto.

Depois de mais um pouco de conversa, o casal se despediu e Henrique resolveu dar mais uma olhada na casa e descobriu que tinha um porão, vazio exceto por uma porta no lado esquerdo. Deveria ser uma espécie de armário, provavelmente também vazio. 

Resolveu ir até a cidade procurar ajuda, talvez um chaveiro para abrir aquela porta, mas ao voltar ao andar de cima notou um outro envelope em uma mesinha escondida ao lado de um sofá. Henrique abriu o envelope e encontrou mais um bilhete e outra chave. O bilhete dizia simplesmente “Divirta-se” e Henrique caiu na gargalhada, só podia ser brincadeira, quanto mistério, tio Manoel!

Foi de novo para o porão e conseguiu abrir a porta com aquela chave. Quando viu o que tinha dentro, quase caiu de costas: notas e notas de dinheiro arrumadas em pequenas pilhas em prateleiras. A maior parte eram dólares, mas também havia Reais.

Tio Manoel, no que o senhor estava metido!?!

Então, Henrique viu em cima de uma das pilhas de dinheiro um folheto de propaganda. Era de uma sorveteria, faziam entregas naquela praia todo dia 15. Só tinham três sabores: baunilha, chocolate e tutti-frutti. Entregavam em uma caixa de isopor que você devolvia no mês seguinte.  De fato, havia uma caixa de isopor em uma das prateleiras. 

Henrique não estava gostando nada daquilo, muito mistério, muito cheiro de ilegalidade. Apressado, largou tudo, trancou a porta do armário e decidiu sumir dali o mais rápido possível. Eis que escutou a campainha tocar e lá estava o vizinho novamente.

Oi, já soube da sorveteria? 

Henrique ficou em silêncio.

Pelo jeito, já. Eles vêm aqui todo mês fazer as entregas. Baunilha é para os estrangeiros, chocolate para os brasileiros, entendeu? E Tutti Frutti é para receber o recibo de pagamento de algum serviço prestado e não ficar parecendo que tem um pé de você sabe o quê no jardim, certo? Você escolhe o sabor na hora, entrega seu isopor e recebe outro com seu sorvete.

Henrique continuava em silêncio.

Hoje é dia 15, que sorte a sua, vai ter entrega de sorvete mais à noitinha. Tchau, cara, a gente se vê. Não se esqueça do isopor.

Henrique achou que era muito bom para ser só isso. O que teria que fazer para receber o sorvete? Saiu correndo atrás do vizinho e perguntou. Não tem que fazer nada, ele respondeu. 

Ah, tá, vai falando, o que vou ter que fazer caso aceite a entrega dos sorvetes? 

Nada, tô te falando, cara, pode acreditar. Não precisa fazer nada. Só não pode vender a casa.

Então ele se lembrou do que seu tio havia escrito: “Henrique, nunca venda a casa.”



UMA CURVA NA ESTRADA - Isabella Brancher







UMA CURVA NA ESTRADA

Isabella Brancher


Zico e Bruna cresceram juntos, eram vizinhos de casa em uma cidade pequena no interior de São Paulo. Muito ligados na infância sempre tinham algo para dividir. Ele gostava de fotografia, e sempre que podia tinha junto a sua câmera fotográfica. Parecia quase como uma parte inseparável do seu corpo. Saiam juntos para a escola, de um lado Zico tinha a sacola com os livros a tiracolo, do outro lado seu instrumento de registro. Gostava de fotografar de tudo, algumas vezes era apenas um detalhe de Bruna: um novo brinco, ou o botão da blusa. Tinha um olhar sobre o micro que intrigava Bruna, e ao mesmo tempo olhava o macro tirando fotos de lindas paisagens, dignas de cartões postais. Zico tinha um gosto refinado, gostava do luxo e de matemática. 

Bruna era uma garota sem tantos atrativos, seus ombros eram leves, ao andar flutuava. Nada a encantava em especial, aluna mediana, cumpria suas obrigações a contento, tinha até um certo desprezo por algumas tarefas. Gostava muito de artes, e tudo que envolvia explorar sua criatividade a deixava estimulada. As cores vibrantes em uma tela branca, os trabalhos com o barro construindo lindas peças de cerâmica a preenchiam de luz e significado. Bruna não tinha consciência, assim como Zico que a arte se fazia tão presente em suas vidas.

A faculdade chegou e os dois seguiram caminhos muito distintos. A vida na cidade natal foi se tornando distante. Ela havia se mudado para Nova York e Zico cada vez mais envolvido com o trabalho no banco. Os pais que ainda moravam na cidade da infância e estavam enfrentando alguns problemas com a prefeitura. A cidade crescera e as casas próximas a praça central estavam sendo desapropriadas. No terreno das casas seria criado um espaço multicultural com uma praça em frente à igreja matriz. Há anos Bruna e Zico não se viam. Tiveram que se mover até a cidade dos pais. A ideia era poder assessorá-los em todo o processo de indenização e encontrar um novo local para os pais morarem. Passados mais de 15 anos se encontrariam aonde a adolescência de ambos havia aflorado.

A cidade estava cheia de verde, como de costume, algumas casas agora tinham um aspecto mais contemporâneo. As ruas estavam mais largas. Um cheiro de modernidade pairava no ar. As casas dos pais pareciam um borrão na nova paisagem.

O pai de Bruna foi o mais resistente, a casa tinha sido de seu avô e imaginar que seria destruída lhe cortava o coração. Os demais, porém, também se recusavam a aceitar a mudança. O desconhecido assustava. Bruna e Zico se uniram na missão de acolher e convencer os pais que um novo ciclo havia chegado, e que eles também se beneficiariam com isso. 

Aos poucos Bruna e Zico foram relembrando do passado e aproveitando aqueles momentos juntos. A vontade de ficar juntos foi se intensificando à medida que os dias passavam. As risadas entre as discussões. As trocas de olhares como confidências, tudo isso foi criando espaço para um desejo de compartilhar mais. 

Um dia Zico convenceu Bruna a ir até aquele bosque distante que costumavam ir de bicicleta quando crianças, ela relutou. Depois de uma breve insistência Bruna cedeu. Pegaram seu carro e seguiram pela estrada sinuosa. Havia uma curva fechada naquele trecho da estrada. De um lado, o pinheiral escuro; do outro, a ribanceira que descia até o rio Arco. O rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia. Zico dirigia rápido demais. Não conhecia aquele caminho de carro, mas, sempre que eu reclamava, respondia do mesmo jeito:—Eu conheço meu carro, relaxa, Bruna. Relaxar era impossível. Eu apertava o cinto cada vez mais forte e olhava para a estrada, estreita e cheia de curvas. Naquele ponto, porém, senti um arrepio. A curva apareceu de repente, fechada, perigosa, quase escondida entre os pinheiros:—Zico, cuidado! —gritei. —Essa curva é traiçoeira! Mas ele apenas sorriu e virou o volante... Subitamente nada mais fazia sentido, todos aqueles momentos desconfortáveis, frios e sem proposito desapareceram junto com a esperança de uma vida nova com ele. Nada mais fazia sentido. Não seria mais preciso testemunhar nenhuma discussão. Tudo teria ficado para trás, pensou Bruna se vendo cair na ribanceira. Porém, para sua surpresa, depois daquela curva acentuada se abriu um lindo planalto totalmente arborizado. Se via um lago, uma cachoeira, e a poucos metros uma linda casa envidraçada. Tudo perfeitamente combinado preenchendo o espaço de uma beleza indescritível. Bruna ficou muda, sem movimento, apenas contemplando a magnitude do lugar.  Zico a admirava feliz!