A companhia inesperada - Isabella Brancher

 




A companhia inesperada
Isabella Brancher

Dora se mudou para aquela casa no dia anterior. Três dormitórios, duas salas. “Casa grande demais para quem vive sozinha”, pensou.

Àquela hora da noite, estava exausta depois de tantas arrumações. O imóvel, adquirido em leilão, estivera desocupado por anos. Do mobiliário que permanecera nos cômodos, algumas peças seriam aproveitadas. Outras, muito antigas, seriam descartadas. Carregavam histórias que lhe pareciam pesadas demais para serem mantidas.

A casa ainda precisava de muitos reparos. Algumas janelas não se mantinham fechadas porque as travas estavam quebradas. As torneiras pingavam sem parar. A eletricidade, ainda precária, fazia as lâmpadas oscilarem entre o claro e o escuro. “Amanhã vejo tudo isso.”
Olhou para a cama, já arrumada com lençóis e travesseiros novos. Parecia confortável. Dora não tinha forças nem para divagar. Deitou-se e logo pegou no sono.

Passado aquele sono profundo, oriundo do cansaço extremo, acordou. A luz do corredor havia ficado acesa e projetava sombras tremulantes pela parede. Queria se levantar para apagá-la, mas ainda se sentia muito cansada para sair da cama quentinha. A temperatura na casa havia abaixado consideravelmente e, assim, queria evitar o choque com o frio. Virou-se de costas para a luminosidade e procurou retomar o repouso interrompido. Quieta, no silêncio da noite, começou a escutar ruídos que haviam passado despercebidos durante o dia.

Algo ressoava incessantemente no quarto ao lado: parecia uma janela que batia; o ritmo irregular não combinava com uma janela batendo ao vento. Por vezes era mais forte, outras vezes parecia apenas um rangido. Não conseguia perceber o que era… julgou ser uma janela que se abrira com o vento. Tentando se concentrar no primeiro ruído, percebeu outro vindo do banheiro. Esse ela reconheceu imediatamente: gotas de água caíam do chuveiro e ressoavam na banheira de metal.

O conjunto de sons foi se intensificando e, cada vez que tentava se distrair da pequena banda que a acompanhava, acabava por identificar um novo som. Agora ouvia pequenos passos que pareciam vir do teto. Será que teria um sótão na casa? Ninguém lhe havia falado sobre isso. Não se contentou em tentar espantar mais essa inquietação, virou-se e observou o teto do quarto com atenção. Percebeu que o forro era de madeira e que, em alguns pontos, parecia estufado. Nesse exato momento, novos passos foram escutados, algo raspava com fúria a madeira. Dora percebeu que estava prendendo a respiração. Seus dedos apertavam o lençol sem ela perceber. O arranhar frenético sobre sua cabeça fez seu estômago se contrair.

Sobressaltada pelo susto, levantou-se com a intenção de verificar o que estava acontecendo. Temia que permanecer na cama só faria seu corpo enrijecer ainda mais.

Vestiu o penhoar e caminhou lentamente em direção ao barulho, que vinha do corredor, que agora iluminado parecia menos assustador. O ruído a fez olhar para cima e assim percebeu um alçapão. Suas pernas pareciam ainda mais flácidas, com pouca sustentação. No alçapão havia um gancho e, atrás da porta, uma haste de metal comprida que julgou servir para abrir o alçapão. O tremular de suas mãos dificultava o encaixe da ponta da haste no gancho do alçapão. Queria se livrar daquela angústia o mais rápido possível; na terceira tentativa, conseguiu. Puxando o alçapão, uma escada desceu e uma passagem para o sótão se abriu. A escada escura à sua frente parecia exigir uma decisão imediata. Subo ou não subo? Aquela dúvida invadia seu íntimo. Possuída por essa incerteza, mantinha-se paralisada, olhando o sótão. O silêncio que se instalou pareceu ainda mais perturbador. Mais uma vez tomada pelo medo, pisou no primeiro degrau; a madeira rangeu. A escuridão acima não era convidativa; recuou, buscou uma lanterna e voltou a subir. Degrau a degrau, entre cada um, respirava fundo, procurando forças para continuar a subida. Chegando ao topo, ouviu novamente o som. Não era um arranhar furioso como imaginara. Era breve, irregular. Algo se movia. O local estava coberto por poeira e velhos caixotes abandonados. Entre duas malas, viu um pequeno vulto se encolher. Dora congelou, ouviu um miado. Curto e fraco, depois outro.

Percebeu os olhos brilhantes da gata que a encarava. Abaixou a lanterna e percebeu cinco gatinhos aninhados em uma manta. Logo pensou: então, era você! A gata permaneceu alerta, mas não recuou.

Lá embaixo, as torneiras continuavam pingando e as janelas ainda batiam com o vento. A casa permanecia velha, fria e cheia de reparos por fazer, mas já não parecia vazia.

Uma casa velha demais - Yara Mourão




Uma casa velha demais

Yara Mourão


Dora passou por cada cômodo, entre satisfeita e incerta. O ar antigo do mobiliário enchia os ambientes de uma certa familiaridade, lembranças da infância, túnel do tempo. Sabia que a casa precisava de reparos, mas isso ficaria para os dias seguintes, pois tudo o que queria agora era descansar da mudança.

Retirou-se para o quarto, aconchegante e silencioso. Acendeu o abajur, a lâmpada bruxuleou; ela arrumou o criado, a jarra de água, o porta-retrato.  Olhou longamente a fotografia. Um conhecido estremecimento a percorreu, vendo o sorriso esmaecido de seu filho que se fora, há anos, no fundo de um lago lamacento. Cerrou os olhos. Melhor dormir, pensou.

Mas, por alguma fresta, entrou um vento frio que, roçando as cortinas, levantou um ruído úmido e distante. “Talvez chova; já ouço uns pingos no telhado.”

Ao fechar a porta do banheiro, viu que era o vazamento de um cano que, gota a gota, lavava o piso de registros tão antigos.

Dora se deitou. O sono se esvaiu por debaixo da porta. Ela ansiava pela manhã. Mas um ruído se espalhou pela sala, pelos móveis, tapetes. Tateando pelas paredes, foi até o hall de entrada, buscando coragem na penumbra desconhecida. “De certo este ruído vem daqui de dentro.” Presságio e medo levaram suas mãos até a porta da cozinha e, abrindo-a num movimento brusco, ouviu-a ranger num miado embargado.

Não vendo nada ali, voltou rapidamente para o quarto. Assim que deitou de novo, um som mais forte junto à porta de entrada a fez tremer e suar frio. “Certamente há alguém lá fora querendo entrar aqui!”

Considerou as chances de haver alguém que precisasse de ajuda, àquela hora da noite, naquele lugar distante e sem respaldos.

Dora buscou coragem entre medos ancestrais e pesadelos antigos. Cobriu-se com um xale, calçou as pesadas botas e, apesar da pouca luz, esgueirou-se até a entrada. Abriu a porta de um lance rápido e foi logo dizendo: “Me perdoe, senhor ou senhora, mas eu estava quase dormindo e mal a escutei, arranhando a minha porta como um pássaro ferido, ou batendo compassadamente, fugindo da noite fria!”

 Ninguém lá fora…

Dora voltou-se trêmula, sem saber mais. No quarto, bebeu da jarra quase toda a água, molhou o rosto. Mirou o retrato do filho, fez uma prece.

O ruído continuava. Ela retornou à sala e, ligando os passos aos espaços da tarde da mudança, chegou frente a um armário de portas pesadas, o qual ainda não havia arrumado.

Quando puxou um dos ferrolhos, a portinhola de baixo se abriu e de lá saíram, famintos e agitados, dois grandes animais de olhos negros, fucinhos longos e rabos rajados, rosnando, rastejando ruidosos pelo piso irregular da casa. Rapidamente se acomodaram no tapete em frente à lareira, grunhindo estranhamente.

Dora se esquivou, subiu num móvel e encarou os bichos à meia-luz: “que seriam? De onde vieram?” 

Buscou as bolachas na gaveta do móvel e atirou o pacote para os bichos. Enquanto se entretinham comendo, ela correu até a porta, abriu-a totalmente e, atirando-se aos berros sobre o sofá ao lado dos bichos, conseguiu espantar os invasores.

“Nada mal para uma primeira noite!”, pensou.

Voltou para o quarto, deu um beijo no retrato; Dora soube, então, que esta casa velha seria uma caixinha de surpresas.

Deitando no silêncio que se fez, agora, então, como há tempos não acontecia, Dora pode dormir em paz.


HERANÇA QUE CAI DO CÉU OU NÃO! - Sergio Dalla Vecchia





HERANÇA QUE CAI DO CÉU OU NÃO!

Sergio Dalla Vecchia


A noite espreguiçou-se lentamente. Era hora da troca de turno com o dia!

Dora foi bruscamente despertada pelo canto de um galo. Aquele som desafinado bateu como um martelo nas bigornas delicadas dos seus ouvidos, habituados a músicas seletas. Assim terminou a primeira noite na casa herdada do tio, por conta de seu falecimento repentino.

Enquanto esfregava os olhos, ansiosos pensamentos invadiram seu cérebro.

Que fazer com torneiras pingando, portas sem tranca e a arrumação interna daquela casa desabitada, não se sabe há quanto tempo.

Ela, desenrolada que era, não pensou duas vezes, pôs-se em pé e saiu em busca de encanador, chaveiro e diarista.

No mesmo dia, conseguiu pôr em ordem as pendências de manutenção, com muito esforço da equipe liderada por ela.

Enfim, casa limpa e corpo moído. Era hora do banho reconfortante.

Nua dentro do box, agasalhou-se com o manto de água quente formado por gotas espargidas pelo chuveiro recém-instalado.

Olhos cerrados, prazer e mente limpa aproveitavam aquele momento terapêutico.

Eis que, do nada, o deleite foi cortado pela interrupção repentina da água.

Dora, ainda ensaboada, embrulhou-se rapidamente na toalha e saiu em busca da causa da pane hidráulica.

Não entendia, pois o encanador, antes de sair, fez todos os testes necessários e tudo funcionava.

Já saindo pela porta do banheiro, de súbito a água voltou ao normal!

Aliviada, voltou para o box e, mal retomou o banho, e lá se foi a água novamente. 

Desesperada, entrou enrolada na toalha, casa adentro.

Foi para a cozinha direto na torneira da pia, abriu e zás. Água jorrando!

Não é possível, pensou ela!

Esperta, acabou tirando o sabonete do corpo na canecada, ali mesmo. 

Durou pouco tempo e o jato logo foi interrompido.

Verificou registros em outras torneiras e acontecia o mesmo: no início, água; depois, secura!

Pensando em algo, resolveu ligar o som do minissistema que existia na sala e que também foi testado pelo eletricista e funcionava bem na véspera.

Apertou o botão on e logo ouvia-se o Fantasma da Ópera. Justine; tan, tan, tan, tan!

Mas como? O CD estava na minha mala, dentre outros. Alguém o colocou! Mas não entrou ninguém na casa desde ontem.

Conforme Dora foi ficando nervosa, mais o volume crescia. Justine; tan, tan, tan, tan!

Agora, já não era mais o som; sim, quadros que se mexiam nas paredes e portas que batiam!

Dora não suportou, acabou surtando, fugindo em desespero e nunca mais voltou!

Vendeu a casa e não soube de nenhum relato do novo morador sobre os eventos ocorridos com ela.

Com o tempo, ela foi esquecendo e, ao mesmo tempo, pesquisou e descobriu que existe o fenômeno paranormal ou psicológico chamado de Poltergeist, caracterizado por perturbações físicas inexplicáveis, como movimentação ou arremesso de objetos, ruídos altos, luzes e portas batendo. A palavra vem do alemão e significa espírito que faz barulho. Muitas ocorrências podem estar ligadas ao estado emocional de um indivíduo específico no local.  

Dora também entendeu que pode ter sido ela o canal para a ocorrência dos fenômenos, pois na época estava emocionalmente instável.

Nunca mais teve problemas.


O buquê do noivo 1948 - Carla Di Sessa

 


O buquê do noivo

1948


— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto…

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não…

— A mim e a elas — explicou vivamente ele.

A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.

— Vejo fortuna, dinheiro… Mas, ainda vejo… Poder!

Camilo olhou firme para a cartomante e disse:

— Isso vale para qualquer um, fama, poder, fortuna! Muito vago, a senhora vai ter que ser mais específica.

A cartomante olhou bem para ele, começando a se irritar. Galinho pomposo, como ousava duvidar de suas cartas?

Embaralhou as cartas novamente, pediu que Camilo cortasse o monte em três, transpôs os montes, juntou tudo e começou a estendê-las novamente. 

— Aqui, está vendo? Novamente, fama, poder, muito dinheiro.

Mas, desta vez, algo chamou a atenção da cartomante.

— Mas, vejo aqui — continuou ela, batendo com o dedo em uma das cartas —, há uma condição.

Camilo riu, claro, não podia deixar de haver um porém…

— Prossiga — disse ele.

— Você recebeu uma proposta que, se aceitar, lhe trará tudo o que já lhe disse: fortuna, poder, etc. 

— Sim, sim, que mais?

A cartomante olhou bem as cartas e finalmente disse:

— As cartas estão dizendo que a condição é você se esquecer de suas flores… Estranho, mas é isso mesmo, você vai ter que abrir mão de suas flores, completamente e para sempre.

O coração de Camilo deu um salto e se encolheu dentro do peito. Suas flores… nunca!

Camilo foi embora andando vagarosamente. O Barão iria à sua casa naquela noite com o contrato do casamento. Camilo se casaria com a filha dele, Angelica, uma moça sem graça, meio ausente, um tanto confusa, cercada de muitos mimos e atenção. O pai a cercava de cuidados, ciente de que sua filha possuía limitações, e se preocupava com o que aconteceria a ela quando ele faltasse. Os horrores da guerra começavam a tenuemente se dissipar, mas haviam mostrado a ele que a vida é imprevisível e impiedosa. Por isso decidira que Angelica deveria se casar e seu marido receberia muitas benesses em troca de cuidar sempre dela, com gentileza e carinho. Depois de muito procurar, decidiu-se por Camilo. O contrato foi redigido e, naquela noite, Camilo iria assiná-lo para então o casamento poder acontecer. 

Mas, pensou Camilo, sem suas flores?

Begônia e Petúnia, suas paixões. 

Begônia, delicada e pequena, carnuda e aveludada, discreta e sedutora. Petúnia, grande e angulosa, olhos de gata faminta, espalhafatosa e exigente. 

Como abrir mão de um paraíso?

No entanto, naquela noite, durante a visita de seu provável futuro sogro, ao ler o contrato, Camilo se deparou com a seguinte cláusula: 

“Como condição para a celebração do matrimônio, a parte beneficiária fará jus, nos termos da legislação aplicável e dos instrumentos patrimoniais que vierem a ser formalizados, à fruição e aos benefícios decorrentes do patrimônio, dos bens e dos direitos de titularidade da outra parte.

Em contrapartida, a parte beneficiária compromete-se a cessar, de forma definitiva, quaisquer relações de natureza afetiva, amorosa ou íntima mantidas com as Sras. Begônia Dalle e Petúnia Gris, abstendo-se, igualmente, de estabelecer ou manter com ambas qualquer vínculo de qualquer natureza durante a vigência do matrimônio.”

Camilo leu o contrato de cabo a rabo duas vezes e se esforçou muito para manter o semblante neutro. Por fim, falou:

— Muito bem, vamos assinar.

E assim Camilo se tornou o poderoso marido de Angelica Buonaventura e, como diziam as cartas, recebeu fama, poder e muito dinheiro.

Todas as semanas, quando visitava ora uma, ora outra de suas flores, Camilo cumpria à risca a cláusula que o proibia de ver Begônia Dalle e Petúnia Gris. Essas mulheres não existiam, Begônia era, na verdade, Greta Weber e Petúnia, Raquel Memetz, um segredo guardado a sete chaves desde os tempos em que a guerra trazia pessoas que deveriam passar a ser sombras e viver apagadas, sem chamar a atenção. Seus registros e documentos estavam muito bem escondidos, mas poderiam aparecer no caso de Camilo ter que provar ao sogro que não havia descumprido o acordo.

E assim Camilo continuou cuidando de suas flores com paixão e sofreguidão enquanto cuidava de Angélica com muito desvelo. 

 


(Releitura com emprego de trecho do conto “A cartomante” — Machado de Assis)


DOMINGO MÍSTICO - Sergio Dalla Vecchia

 



DOMINGO MÍSTICO

Sergio Dalla Vecchia


Sandro, homem vivido de experiências materiais, umas assertivas, outras infrutíferas, convidou sua solidão para passear num domingo no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Quando chegou ao Ibirapuera, observou, próximo ao obelisco, uma série de tendas brancas arranjadas em torno da área destinada ao aeromodelismo.

Curioso, logo estacionou o carro. Foi se aproximando e deparou-se com um cartaz dizendo: “Feira Mística”. 

Transpassou o pórtico de entrada e, deslumbrado com um mundo díspar, foi se encantando ao passar por cada tenda.

Passou pelas mágicas, depois pela bruxaria, na sequência dos ciganos, até que deparou com a da cartomante. Ali estacou, parecia ter sido sugado pelo tempo. Do nada veio a lembrança dela! O amor da sua vida que o deixou há anos arrastando com ela sua alegria de viver.

Olhou para dentro e viu a cartomante, que, com um gesto de dedo indicador enrolando, o convidava a entrar.

Quando percebeu, já estava diante daquela mulher, olhos negros firmes que o fitavam como flechas.

— Como posso ajudar?

Ainda anuviado de ideias, respondeu:

— Por onde anda Rosângela, o amor da minha vida?

A cartomante, ardilosa, respirou fundo e lentamente virou as cartas.

Sandro, vidrado, não desviava a atenção e, quando descuidava, deparava-se com o olhar penetrante da mulher. Era um olhar diferente, uma mistura de força, astúcia e carência.

Enfim, ela levantou os olhos e disse, sem rodeios:

— Desculpe-me, ela está em outro país e formou família, portanto está claro que ela não quer saber mesmo de você.

Sandro engoliu em seco o ar que lhe escapou naquele momento!

Ainda assim, a cartomante continuou.

— Agora, não compreendo como você, um homem bem-apessoado, tão amoroso, pôde se deixar levar por um amor tão mal correspondido, a ponto de me procurar em busca do paradeiro da ingrata. 

Após dizer isso, ela passou a mão nos cabelos, suspirou discretamente e, olhando agora com mais meiguice, disparou:

— Sandro, existem mulheres mais interessantes nesse mundo, sabia? 

Não sei se foi carma ou não, mas Sandro permaneceu horas dentro da tenda, de onde se ouvia uma conversa para lá de animada.



O segredo das três cartas - Isabella Brancher

 





O segredo das três cartas

Isabella Brancher


— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto…

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não…

— A mim e a ela — explicou vivamente ele. — Rita quis me acompanhar nessa visita.

A cartomante não sorriu: disse-lhes só que esperassem. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso. Rita divagava.

Enquanto ela baralhava as cartas, Camilo roía as unhas vigorosamente, aqueles minutos de espera o estavam consumindo. Vários pensamentos preenchiam a sua mente.

A sala tinha um aspecto sombrio que causava ainda mais apreensão em Camilo e Rita. As cores, apesar de vivas, preenchiam tanto o ambiente que deixavam em ambos uma sensação de falta de ar. Aquelas últimas semanas, marcadas por tantos acontecimentos inesperados, tornavam tudo ainda mais desconfortável.

A cartomante começou a balbuciar algumas palavras e a mente de Camilo começou lentamente a se acalmar. 

Começou a dispor as cartas sobre a mesa. Surgiu a primeira: a imperatriz. Ela arqueou as sobrancelhas e soltou uma interjeição leve: “ohhh”. Veio a segunda: a sacerdotisa, uma nova interjeição escapou de seus lábios. Então apareceu a terceira: a estrela. A mulher congelou. Perplexa, ficou algum tempo a observar essas três cartas juntas e, num leve sobressalto, como se surpreendentemente fosse algo quase impossível de acontecer, murmurou: 

— Não!

Camilo, que já estava assustado o suficiente, com o coração disparado, perguntou: 

— O que foi? O que aconteceu?

A face da vidente empalideceu e ela permaneceu pensativa, como se estivesse buscando a melhor forma de transmitir o que via. Camilo sentiu um leve tremor percorrer seu corpo, a mente voltou a turbinar pensamentos. Rita levou a mão à barriga, não vinha se sentindo bem havia alguns dias. A ansiedade, os bilhetes, tudo a fazia sentir-se profundamente enjoada.

Ela continuou a apresentar as cartas na mesa, mas a cada carta a tensão crescia. 

Seu semblante tornava-se cada vez mais estranho, como se aquilo desafiasse toda a experiência adquirida em anos de ofício.

Camilo sentiu a boca secar.

— Pelo amor de Deus, mulher, diga logo o que viu!

Finalmente, como num vômito, a cartomante, rindo de nervoso, diz: — Ela está grávida de trigêmeos! 


Nota:

A Imperatriz: é o símbolo máximo da fertilidade, da criação e da gestação próspera.

A Sacerdotisa: indica o início de tudo, o momento misterioso da concepção e do desenvolvimento interno.

A Estrela: traz esperança, renovação e a bênção de uma nova vida.



(O texto acima é uma releitura do conto A CARTOMANTE/MACHADO DE ASSIS, com aproveitamento do primeiro parágrafo do autor)


FLAGRANTE DO COTIDIANO - Sergio Dalla Vecchia



 FLAGRANTE DO COTIDIANO

Sergio Dalla Vecchia
Já há algum tempo Henrique mascava sua relação com Laura. A conexão com a esposa estava bloqueada. O que ia não voltava e o que vinha dela também não entrava. Além disso, a amizade exagerada com a vizinha Cremilda o incomodava bastante. A sintonia entre as duas era para lá de ajustada. A desarmonia do casal crescia cada vez mais ao ritmo de insultos e blasfêmias, a ponto de Laura ligar para a mãe em prantos e derramar sobre ela toda sua desventura. Entretanto, para aquela madrugada fatídica, Henrique tinha tudo planejado. Não poderia mais suportar tal situação. Com sutileza, induziu Laura a ir para casa da mãe, mesmo naquela hora da noite. O conhecido taxista Hilário foi chamado para fazer o translado com segurança. Avisou a Cremilda que Laura estava partindo e que seria bom ela se despedir. Foi o castigo sentenciado para a protagonista. A participação do evento no meio da rua. Assim, Henrique, com tudo correndo como o planejado, impassível, apenas observava da janela a cena trágica da despedida das duas, tendo como plateia os vizinhos atônitos.

As amigas - Ises de Almeida Abrahamsohn

  



As amigas 

Ises de Almeida Abrahamsohn


Foram os cães e o motor de um carro que a despertaram.  Inusitado, àquela hora da madrugada de quarta-feira, pensou Cremilda.  As noites eram calmas naquela viela de sobradinhos idênticos para onde se mudara há um ano e meio.  Levantou-se e olhou pelas frestas da veneziana. A luz crua do sensor de presença iluminava um táxi e sua amiga Laura arrastando uma pesada mala. Cremilda, aflita, desceu de roupão e a chamou do portão: 

— Laura, querida, o que houve? O que aconteceu? Espere que eu te ajudo… Posso ir com você! Mas ficou sem resposta enquanto Laura entrou na traseira do carro, sem sequer acenar. 

Olhou para cima e, na semiobscuridade, viu Henrique, imóvel, debruçado na janela, observando a cena. Nem uma palavra ou gesto de mão que denotasse seu espírito. Permanecia ali, petrificado, enquanto o carro desaparecia da vista.  Cremilda olhou algumas vezes para a janela na esperança de que ele se manifestasse.  Nada!  A luz do sensor se apagou e ele permanecia ali, apenas a brasa acesa do cigarro denotando a presença. 

Nunca soube que ele fumasse, pensou enquanto subia as escadas de volta ao quarto de dormir.  Também não havia esperado que Laura se decidisse a abandonar Henrique tão cedo. E ainda assim, sem avisá-la.  Mas não ficou surpresa. Apenas magoada por ela não ter avisado e não ter se despedido. Talvez um impulso. Depois de ontem…

Tinha uma boa ideia de onde poderia encontrá-la e, certamente, ela enviaria logo uma mensagem. Já tinham conversado sobre a possibilidade de morarem juntas.  Porém, Laura hesitava em abandonar o marido de sete anos. Afinal, se davam bem. Ele era educado, afável e, segundo Laura, viviam agora um casamento morno. A admiração que sentira por ele desapareceu com o tempo, assim como deixaram de compartilhar interesses e objetivos. Laura era arquiteta, gostava de viajar, conhecer o mundo e pessoas. E gostava e entendia de música clássica, sempre   assistindo a concertos e recitais. 

Henrique, entretanto, aos poucos foi se acomodando a uma vida rotineira e confortável, sem se animar a viajar mais longe que algumas centenas de quilômetros no próprio país.  Não gostava de música clássica e, pior, segundo Laura, seu gosto musical era deplorável.  

Cremilda lembrou quando elas se encontraram pela primeira vez.  Laura foi visitá-la assim que viu o caminhão de mudança descarregar no sobrado em frente ao seu.  Ofereceu-se logo para ajudar na instalação na nova residência.  Fora simpatia à primeira vista.  Cremilda era violoncelista na orquestra sinfônica e havia viajado por vários países a trabalho ou como solista. Tinham tantos interesses em comum!  Passaram a se ver frequentemente quando Laura, após o trabalho, passava para um café e um papo.  A amizade foi ficando mais estreita. Com o tempo e algumas observações de Laura, ficou clara a monotonia da sua vida com o marido.  De fato, ao ser convidada para jantar na casa por Laura, percebeu que Henrique simplesmente não tinha assunto para conversa.  Era absolutamente focado em seu trabalho na área de informática, e os seus divertimentos eram futebol e assistir a filmes policiais americanos ou shows de música sertaneja na televisão.

Cremilda compreendeu a atração que sua própria vida e atividades tinham para Laura.  Lentamente surgiu um afeto crescente por essa mulher de 30 anos, oito anos mais jovem que ela.  Sim, Laura ansiava por uma relação verdadeiramente compartilhada, mas não tinha coragem de se separar e viver a própria vida.  

Cremilda havia tido uma intensa paixão por Joana, um misto de sexo e amizade, que durara dos vinte aos vinte e sete anos.  Terminaram há dez anos; ela sofreu demais com a separação e demorou a se recompor.  Desde então não tivera ninguém.   Agora, encontrara   Laura.   Não era uma paixonite.  Tinha verdadeiro afeto pela amiga, talvez alguma pena e o desejo de que fosse feliz.  E, sim, reconhecia sentir-se atraída pelo rosto juvenil, pelo sorriso franco e pela energia que se desprendia do corpo flexível e ágil. Mas e Laura, o que sentiria? 

Ao falar de si mesma, Cremilda contara da sua intensa ligação com Joana.  Laura a escutou com curiosidade e depois a abraçou com carinho.  Um carinho de amigas… Cremilda não sentiu mais que isso na reação da amiga. Talvez com o tempo, pensou…

E o tempo passou rápido.  Seis meses durante os quais Cremilda e Laura se encontraram frequentemente para longas conversas e idas a concertos e passeios. 

O marido, este devia estar enciumado, porque passou a ignorá-la, não respondia à mínima cortesia e desviava o andar na calçada. 

A música agora deixara de ser o primeiro amor de Cremilda.   Ansiava pelo encontro com Laura, pelas conversas, pela jovialidade e pelos abraços carinhosos e beijinhos a cada despedida.  A imagem da jovem amiga aparecia-lhe enquanto tocava seu instrumento em devaneios sobre carícias mútuas a serem trocadas.  Seus companheiros de orquestra sentiam que andava mais distraída e, às vezes, sorria sem razão aparente. 

Cremilda decidiu dar o primeiro passo.  Era uma tarde de terça-feira quando Laura bateu à porta para o costumeiro papo e café após chegar do escritório de arquitetura.  Ansiosa, Cremilda sentia  coração bater aceleradamente.  Depois de alguma conversa, Cremilda propôs a Laura morarem juntas.  Delicadamente, contou o amor e amizade que sentia por ela e ficou esperando a reação.  Laura apenas a abraçou, dizendo:

— Eu suspeitava, eu suspeitava, minha querida amiga.  Por que tudo na vida tem que ser tão difícil?  

E levantou-se com um breve: 

― Ainda nos falamos!  

Na mesma noite, madrugada de quarta-feira, à uma da manhã, Laura abandonou o marido, carregando sozinha a enorme mala.  O destino era o aeroporto.  A passagem era para Paris, onde viveria os próximos três anos trabalhando na restauração de esculturas.  

Enviou uma mensagem para Cremilda, agradecendo a amizade,   mas que não se sentia à altura para corresponder.

Cremilda e Laura nunca mais se encontraram.


A cor do céu - Carla Di Sessa

 


A cor do céu

Carla Di Sessa


Quando Cecília começou a chorar, uma atendente se aproximou e perguntou se ela não gostaria de tomar um chá, um café ou água. Enxugando as lágrimas do rosto, Cecília sorriu e perguntou:

— Você não teria nada, assim, como vodca, uísque ou um Lexotan?

 A atendente riu, dizendo: 

— Vai passar, vai passar, ela vai se recuperar.

Cecília ouviu aquelas palavras como se fossem vento dissipando nuvens negras de tempestade.

E escolheu acreditar nelas com todas as forças.


Aquela terça-feira havia começado como todas as outras: primeiro a checagem da lição de casa com Isabel, depois a aula de natação, banho e almoço. Cecília checou o relógio e avisou Isabel:

— Ainda dá para você brincar um pouco antes de ir para a escola.

— Então vou até a casa da Mari devolver o estojo que ela me emprestou — disse Isabel.

Mari morava do outro lado da rua e as duas meninas sempre brincavam juntas.

Isabel saiu e Cecília começou a checar a despensa e a geladeira para fazer uma lista de supermercado. Seu celular tocou e ela foi até o quarto para atender.


Há mais de quatro horas, Cecilia estava sentada em uma cadeira dura e desconfortável no corredor de um hospital. Quando indagadas, as assistentes na recepção só diziam que ainda não havia nada a informar e por isso Cecília se dirigiu àquele corredor e sentou-se ali. Ele terminava em duas portas e, acima delas, o luminoso indicava: Centro Cirúrgico. 


Cecília ouviu o barulho da freada enquanto ainda estava no celular. Desligou às pressas e olhou pela janela. Um grupo de pessoas começava a se juntar na rua. Um carro estava parado, um homem, provavelmente o motorista, estava em pé, muito agitado, falando e gesticulando, mas Cecília não conseguia entender as palavras. De repente seu coração se apertou: Isabel!

Do momento em que chegou ao hospital em diante, o tempo havia perdido sua lógica e significado. Uma eternidade havia se passado desde que entrara aos gritos na ala de Emergências. 

Sentada na cadeira dura do corredor inóspito, Cecília revivia o pesadelo: o barulho da freada, o baque surdo, os gritos. Depois, a urgência para chegar ao hospital, seu coração aos saltos, as meias de Isabel manchadas de sangue. A correria no setor de emergência, o barulho da maca rolando pelo corredor e as perguntas sem fim no setor de internações.


Cecília correu para a rua, sentindo uma mão de ferro apertando seu pescoço, a respiração travada, o coração aos pulos. Isabel!

Alguém havia chamado uma ambulância.

— Você é a mãe? Venha conosco, por favor.


Finalmente as portas do Centro Cirúrgico se abriram e a equipe médica apareceu. Um deles foi até ela e informou: estava tudo bem, haviam operado o braço esquerdo e o pé direito, a menina passava bem, mas, por precaução, ficaria na UTI até o dia seguinte. Não havia hemorragias incontroláveis, órgãos perfurados, massa encefálica perdida e mais tudo o que a imaginação e aflição de Cecilia haviam imaginado.


A atendente voltou com um chá e disse:

— Viu? As coisas vão melhorar. Por enquanto só posso te oferecer um chá. A vodca, o uísque e o Lexotan vão ter que esperar. 

Cecília sorriu um pouco e agradeceu.

Olhou pela janela e o céu de outono estava azul, sem nuvem alguma. Bom presságio, pensou Cecília, bom presságio.



De peito aberto - Carla Di Sessa

 


De peito aberto

Carla Di Sessa


Germano ia ser operado, uma cirurgia de coração com o tórax aberto.

Bianca trabalhava para Germano e Juliana há anos. Quando ele deu a notícia, não pôde evitar e pensou: que coração? Aquilo não tinha coração; agir daquela maneira com a esposa, todo mundo sabia e comentava, só Cecília permanecia na ignorância. Diz o ditado: a ignorância é uma bênção. Bênção, uma ova. A fofoca rolando solta e o ignorante em questão com nariz de palhaço. Mas, aqui se faz, aqui se paga, e o desgraçado ia para a mesa de operação. Imagino que deva estar apavorado e, com a culpa pesando nos ombros, devia estar imaginando se havia chegado ou não a sua hora de acertar as contas com Deus…


Juliana andava sem parar, indo e vindo pelo estacionamento do prédio onde ela e Germano tinham um escritório de advocacia. Permanecia alheia aos olhares curiosos enquanto os saltos de seus sapatos batiam no chão de cimento, marcando a sua aflição.  Germano ia ser operado, e agora? Meu Deus, e agora? E se ele morresse? Com que cara iria ao velório e ao enterro? Com cara de quem é a outra, lógico, todo mundo já sabia. Até Cecília, com aquela placidez, devia saber que Germano não era lá muito cuidadoso e devia ter deixado escapar alguma coisa aqui e ali. 


Sentiu o medo apertar o coração e gelar suas mãos. E o que iria fazer com todo aquele amor se ele não estivesse mais ali? Fechou os olhos e pediu: “Meu Deus, protege, cuida, acompanha!”


Cecília recebeu a notícia e se levantou para preparar bebidas para os dois. Ficou em dúvida entre vinho ou uísque e achou que a situação estava mais para um uísque. Germano continuou a falar, explicando o procedimento, os preparos, a data e o pós-operatório. Estava nervoso, torcendo as mãos. Bem-feito! Ela pensou, sentindo um certo prazer em ver o estado dele. Então parou e pensou o impensável: tomara que morra! As pedras de gelo caíram, fazendo barulho nos copos. Seria uma solução, não seria? Haveria o velório, o enterro, muitas lágrimas, de alívio ou de tristeza, tanto faz, e depois ela se veria livre desse aborrecimento. Ela entregou a bebida para Germano e tomou um gole da sua. Seria perfeito. Mas vaso ruim não quebra, pensou, já meio arrependida. Não queria que seus filhos perdessem o pai, não queria uma mudança desse calibre na sua vida. É preciso enfrentar certas ondas para a embarcação continuar no seu rumo. Suspirou e tomou um bom gole do seu uísque.


Germano saiu do consultório do médico um tanto abalado. Seu coração nunca havia sido assim uma maravilha, mas cirurgia? De peito aberto? O médico havia afirmado que “uma cirurgia assim, hoje em dia, era consideravelmente segura devido aos avanços da medicina moderna”. Tá bom, vai nessa, pensou Germano. Mas não tinha escolha; se não operasse, ia ser Game Over, como dizem os adolescentes. Pensou em Juliana, tão suave e sensível; ela ia arregalar os olhos e se fazer de durona, mas ele sabia que, por dentro, estaria sendo engolida por um turbilhão. Tão valente!  Já Cecília iria imediatamente começar a organizar as coisas, assegurando que ele fizesse tudo direito, providenciando para que tudo fluísse com precisão. Sempre podia contar com ela em momentos assim, uma rocha.  Mas, em outros momentos, ele bem que gostaria que ela fosse menos rocha.


Bianca desligou o telefone e continuou o seu trabalho. Enfim, a operação havia sido um sucesso e o safado estaria de volta em algumas semanas. 


Juliana desligou o telefone e agradeceu baixinho: “Meu Deus, obrigada, obrigada!”


Cecília ouviu o médico dar a boa notícia, tendo sido abraçada pelos filhos, que comemoravam o sucesso da cirurgia. Tudo estava sob controle, como ela gostava.


Diferentes pontos de vista - Yara Mourão

 


Diferentes pontos de vista

Yara Mourão


Laura

Há muito o cotidiano lhe causava estranheza. Não era algo em particular, mas uma sensação contínua de “déjà vu”; os mesmos tons e os mesmos sons do dia, da noite, da vida insossa e congelada.

Não houve muitos planos nem cálculos rabiscados numa folha de papel. Houve uma certeza de partir, deixar para trás tudo o que não fosse ela mesma, suas mágoas, seus anseios.

Laura partiu de madrugada para não fazer alarde; com um destino incerto, para longe de casa, de Henrique, de anos de uma clausura interior.

Ninguém para se despedir; ninguém para encontrar. Só ela. Ela só.


Henrique

Henrique, da janela, viu os passos do adeus. Laura, assim silenciosa, partia sem volta; ele bem o sabia.

Apesar de buscar pistas e provas, sem nunca encontrar nada, ele tinha certeza de que ela o traía. Certamente havia um amor escondido que a levava para longe dele.

Tantos foram os momentos desperdiçados, as emoções abortadas, tudo de que se compõe uma traição amorosa. Agora ele tinha certeza. Ela partia para os braços de outro alguém, no meio da noite, noite estranhamente gêmea de sua alma infeliz.


Dona Clarinha 

Mãe não dorme quando o filho chama, e também não dorme quando o filho não chama. E dona Clarinha sabia que sua filha estava no limiar do bom senso, do autodomínio, cheia de mágoas que a sufocavam há tempos.

Por isso ligou para ela naquela madrugada quente, sentindo o que toda mãe sente longe do filho: que ele está precisando de cuidado, de socorro, da sua presença. Por isso ligou para ela.

Mas nem sempre os filhos respondem às mães.


Cremilda

O que não apareceu nas mensagens do celular deixou Cremilda muito ansiosa. Laura andava lacônica. Não era o melhor perfil de sua amiga. Devia haver algo que só poderia ser dito pessoalmente.

Pelo que sabia, Laura tinha saúde frágil, lutava contra repetidas infecções.

Nessa noite, Cremilda acordou sobressaltada: e se Laura estivesse com uma doença incurável? Teria tido um diagnóstico maligno? 

Sentiu uma urgência em estar com a amiga, ainda que fosse de madrugada.

Levantou-se, correu à janela e viu Laura saindo para um táxi. “Meu Deus!”, pensou. “Estaria indo para o hospital?” Sem pestanejar, desceu rápido à rua para falar com a amiga.


Hilário

Hilário era um taxista da madrugada. Adorava trabalhar nos horários improváveis. Conversador, gostava de falar durante o trabalho, fazendo perguntas aos passageiros, pois isso o tornava, depois, um grande contador de casos.

Nessa madrugada, indo pegar uma passageira para o aeroporto, costurou os detalhes de uma cena para formar sua próxima história.

Enquanto Laura se dirigia para o carro, percebeu um homem na janela com os olhos voltados para a mulher. “Amantes!”, pensou. E ela saindo entre culpada e aliviada, enquanto reparou uma pessoa correndo em direção a ela. “É a esposa traída!” concluiu.

E, convicto de que teria uma bela história para contar no dia seguinte, entrou no carro e acelerou para o aeroporto.


O destino de Rute - Isabella Brancher




O destino de Rute

Isabella Brancher


Até que, em um dia em que finalmente Rute teve coragem de entrar na casa. “É ele mesmo.” O retrato dele estava na parede.

Dias antes dessa descoberta, Rute estava passeando pela cidade onde sua mãe havia nascido e encontrou na rua principal vários carros de polícia e uma ambulância em frente à casa amarela com 7 janelas. A casa amarela com 7 janelas havia sido tema de muitas histórias que a mãe de Rute lhe contara na sua infância. Essas narrativas despertaram nela uma curiosidade sombria, daquelas que desabrocham em um interesse, mas ao mesmo tempo mantêm uma distância, pelo medo do desconhecido. 

Os policiais e paramédicos estavam ali, pois o Comendador Freitas havia sido encontrado sem vida em seus aposentos no terceiro andar. Seu criado José, fiel mordomo de muitos anos, o havia encontrado caído sobre uma poltrona a caminho do banheiro. Rute, surpresa com a movimentação, pergunta a um dos policiais:

 — O que aconteceu? 

O homem que deveria regular em idade com sua mãe se engasga ao observar Rute; sua semelhança com Maria era surpreendente, responde após um breve silêncio:

— Você não o conhece? 

O policial pareceu estudá-la por alguns segundos antes de completar: 

— O Comendador Freitas morreu.

Comendador Freitas era um fazendeiro riquíssimo, praticamente dono da cidade. Um homem mau, sem escrúpulos, que havia trazido tristeza até para a sua família. A sua filha, Maria, que se apaixonara por Rafael, um capataz, sofreu por anos com a pressão do pai, que a submetia a todo tipo de humilhação. Várias vezes Rafael tentara interceder, mas o Comendador usava todo o seu poder para segurar seu capataz e sua filha sob seu impiedoso domínio.

Um dia, Maria, sabendo que estava grávida do capataz, fez uma pequena mala, juntou alguns objetos e umas poucas lembranças da casa e sumiu. Havia fugido por puro desespero, preferia abdicar do luxo e conforto. Não queria que seu filho crescesse e vivesse sob a influência doentia do avô.

Quando o Comendador se deu conta da ausência da filha, chamou Rafael. Ele estava nas cocheiras, mas largou imediatamente o que fazia e foi, prontamente, ver o que o patrão queria. Rafael jurou por sua mãe que não sabia do paradeiro de Maria, e não sabia mesmo, pois se a filha o tivesse informado, saberia que o pai a encontraria.

— Rafael, como você não sabe onde foi Maria? Perguntou Freitas

— Não sei mesmo; se soubesse, já teria ido buscá-la.

Um clima de tensão e revolta se instalou na sala. Rafael sentiu um frio percorrer o corpo. Conhecia o temperamento do patrão e sabia que aquela conversa não terminaria bem. A raiva do patrão percorrendo seu ventre. Ele havia crescido na fazenda. Agora, com a mãe doente, estava totalmente aprisionado, pois o Comendador, sabendo da condição da sua mãe, o mantinha ainda mais tensionado. 

A ausência de Maria ao seu lado fazia a convivência com o Comendador um martírio; os dias eram longos, e as solicitações inúmeras desgastavam Rafael ao extremo. Tanto Comendador quanto sua mãe estavam envelhecendo e, em Rafael, os cabelos grisalhos já traziam as marcas do tempo. 

Um dia, desencantando-se com a vida, tomou a decisão de terminar seu sofrimento; queria encontrar a qualquer custo uma saída razoável para a sua vida. Ainda tinha alguns anos pela frente e o que mais queria era reencontrar Maria, seu grande amor. 

Naquela manhã, após voltar da cavalgada com sua égua, decidiu que pediria demissão de seu cargo, já que agora não tinha mais sua mãe a acorrentá-lo na fazenda. Chegando à casa amarela de sete janelas, encontrou aquele movimento em frente à rua. 

Entrou e soube do acontecido. Agora estava livre, precisaria apenas ajudar a organizar as atividades da casa e dar continuidade ao pedido do Comendador de abrir a casa para visitação.

Semanas depois da morte do Comendador, Rute decide conhecer o interior da casa amarela, tão presente nas histórias que sua mãe lhe contava. O corredor estava exatamente como ela imaginara. As paredes escuras, a escadaria central, as janelas altas. Era estranho visitar pela primeira vez um lugar que parecia já habitar sua memória. Naquele dia, não precisou perguntar quem era o homem retratado. Reconheceu imediatamente os traços de sua mãe e se deu conta de que o Comendador Freitas era, na verdade, seu avô.


Até que, em um dia em que finalmente Rute teve coragem de entrar na casa. “É ele mesmo.” O retrato dele estava na parede.

Dias antes dessa descoberta, Rute estava passeando pela cidade onde sua mãe havia nascido e encontrou na rua principal vários carros de polícia e uma ambulância em frente à casa amarela com 7 janelas. A casa amarela com 7 janelas havia sido tema de muitas histórias que a mãe de Rute lhe contara na sua infância. Essas narrativas despertaram nela uma curiosidade sombria, daquelas que desabrocham em um interesse, mas ao mesmo tempo mantêm uma distância, pelo medo do desconhecido. 

Os policiais e paramédicos estavam ali, pois o Comendador Freitas havia sido encontrado sem vida em seus aposentos no terceiro andar. Seu criado José, fiel mordomo de muitos anos, o havia encontrado caído sobre uma poltrona a caminho do banheiro. Rute, surpresa com a movimentação, pergunta a um dos policiais:

 — O que aconteceu? 

O homem que deveria regular em idade com sua mãe se engasga ao observar Rute; sua semelhança com Maria era surpreendente, responde após um breve silêncio:

— Você não o conhece? 

O policial pareceu estudá-la por alguns segundos antes de completar: 

— O comendador Freitas morreu.

Comendador Freitas era um fazendeiro riquíssimo, praticamente dono da cidade. Um homem mau, sem escrúpulos, que havia trazido tristeza até para a sua família. A sua filha, Maria, que se apaixonara por Rafael, um capataz, sofreu por anos com a pressão do pai, que a submetia a todo tipo de humilhação. Várias vezes Rafael tentara interceder, mas o Comendador usava todo o seu poder para segurar seu capataz e sua filha sob seu impiedoso domínio.

Um dia, Maria, sabendo que estava grávida do capataz, fez uma pequena mala, juntou alguns objetos e umas poucas lembranças da casa e sumiu. Havia fugido por puro desespero, preferia abdicar do luxo e conforto. Não queria que seu filho crescesse e vivesse sob a influência doentia do avô.

Quando o Comendador se deu conta da ausência da filha, chamou Rafael. Ele estava nas cocheiras, mas largou imediatamente o que fazia e foi, prontamente, ver o que o patrão queria. Rafael jurou por sua mãe que não sabia do paradeiro de Maria, e não sabia mesmo, pois se a filha o tivesse informado, saberia que o pai a encontraria.

— Rafael, como você não sabe onde foi Maria? Perguntou Freitas

— Não sei mesmo; se soubesse, já teria ido buscá-la.

Um clima de tensão e revolta se instalou na sala. Rafael sentiu um frio percorrer o corpo. Conhecia o temperamento do patrão e sabia que aquela conversa não terminaria bem. A raiva do patrão percorrendo seu ventre. Ele havia crescido na fazenda. Agora, com a mãe doente, estava totalmente aprisionado, pois o Comendador, sabendo da condição da sua mãe, o mantinha ainda mais tensionado. 

A ausência de Maria ao seu lado fazia a convivência com o Comendador um martírio; os dias eram longos, e as solicitações inúmeras desgastavam Rafael ao extremo. Tanto Comendador quanto sua mãe estavam envelhecendo e, em Rafael, os cabelos grisalhos já traziam as marcas do tempo. 

Um dia, desencantando-se com a vida, tomou a decisão de terminar seu sofrimento; queria encontrar a qualquer custo uma saída razoável para a sua vida. Ainda tinha alguns anos pela frente e o que mais queria era reencontrar Maria, seu grande amor. 

Naquela manhã, após voltar da cavalgada com sua égua, decidiu que pediria demissão de seu cargo, já que agora não tinha mais sua mãe a acorrentá-lo na fazenda. Chegando à casa amarela de sete janelas, encontrou aquele movimento em frente à rua. 

Entrou e soube do acontecido. Agora estava livre, precisaria apenas ajudar a organizar as atividades da casa e dar continuidade ao pedido do Comendador de abrir a casa para visitação.

Semanas depois da morte do Comendador, Rute decide conhecer o interior da casa amarela, tão presente nas histórias que sua mãe lhe contava. O corredor estava exatamente como ela imaginara. As paredes escuras, a escadaria central, as janelas altas. Era estranho visitar pela primeira vez um lugar que parecia já habitar sua memória. Naquele dia, não precisou perguntar quem era o homem retratado. Reconheceu imediatamente os traços de sua mãe e se deu conta de que o Comendador Freitas era, na verdade, seu avô.


Sala de Operações - Carla Di Sessa

 



Sala de Operações

Carla Di Sessa


Há mais de quatro horas, Cecília está sentada em uma cadeira dura e desconfortável no corredor de um hospital. Quando indagadas, as assistentes na recepção só dizem que ainda não há nada a informar e, por isso, Cecília se dirigiu àquele corredor e sentou-se ali. Ele termina em duas portas e, acima delas, o luminoso indica: Centro Cirúrgico. Atrás daquelas portas, em alguma das salas, está a menina que Cecília havia trazido inconsciente e ensanguentada para o hospital.

Do momento em que chegou ao hospital em diante, o tempo perdeu sua lógica e significado. Uma eternidade havia se passado desde que entrara aos gritos na ala de Emergências. 

No corredor inóspito, Cecília revivia o pesadelo: o barulho da freada, o baque surdo, os gritos. Depois, a urgência para chegar ao hospital, seu coração aos saltos, as mãos do motorista agarradas ao volante. A correria no setor de Emergência, o barulho da maca rolando pelo corredor e as perguntas sem fim no setor de internações.

Finalmente, as portas se abriram e a equipe médica apareceu. Um deles foi até ela e informou: estava tudo bem, haviam operado o braço esquerdo e o pé direito, a menina passava bem, mas ficaria na UTI até o dia seguinte, por precaução. Não havia hemorragias incontroláveis, órgãos perfurados, massa encefálica perdida e mais tudo o que a imaginação e aflição de Cecília tinha imaginado.

Ela começou a chorar e uma enfermeira se aproximou, levando-a para longe da equipe médica. Solícita, a enfermeira ofereceu chá, café, água, mas Cecília pediu vodca, uísque, Lexotan. A enfermeira riu e disse que às vezes ela também queria. 

Vai passar, ela disse, vai passar, ela vai se recuperar.

Cecília ouviu aquelas palavras como se fossem vento dissipando nuvens negras de tempestade.

E escolheu acreditar com toda força nelas.


C’est la vie… - Carla Di Sessa

 



C’est la vie…

Carla Di Sessa


A vida sabe se divertir, Cecília pensou enquanto esperava pacientemente na fila do caixa do supermercado. Tinha dois carrinhos abarrotados enquanto seu marido cuidava de mais dois e o filho mais velho deles se apoiava em um quinto, cheio de produtos de limpeza.

Cecília e Artur se conheceram no clube, na piscina infantil. Ele, viúvo e pai de 3 filhos, ela separada, mãe de dois. Acabaram se casando e ela engravidou, aumentando de 5 para 6 o número de crianças que amavam e tentavam levar no morde/assopra. Era preciso ter regras, impor limites, fazer cara feia, mas também abraçar, consolar, conversar e tentar entender. 

Seis filhos já eram mais do que suficientes. Artur brincava que todo mundo pensava duas vezes antes de convidar a família deles para jantar. Mas a vida tem muita imaginação e adora reviravoltas.

O segundo filho de Artur queria um cachorro e conseguiu a adesão de todos os irmãos na empreitada. Após muita negociação para distribuir as tarefas que esse pet traria, foram todos a um abrigo e se apaixonaram por um desses vira-latas pretos de pernas finas e rabo comprido. Cecilia reparou que duas meninas observavam de longe seus filhos brincando com o cachorro e perguntou para a atendente quem eram. 

— Aquelas garotinhas são a Mara e a Rafa. São irmãs e sempre vêm aqui brincar com esse cachorro enquanto ele não é adotado.

Cecilia e Artur olharam para as duas meninas, uma agarrada à outra.

— Onde elas moram? Artur perguntou.

— Em uma Casa de Acolhimento. Eles sempre trazem as crianças aqui, é bom para elas e para os bichinhos.

— Vocês vão levar o Tufão embora?  Perguntou uma delas.

A vida já devia estar com a pipoca pronta, esperando os próximos capítulos, pensou Cecília.

Mara e Rafa passaram a frequentar a casa deles depois que Tufão foi morar lá. No começo, se mostravam retraídas, só se soltavam quando viam Tufão e começavam a brincar. Com o tempo, foram ganhando confiança e ficando à vontade com as outras crianças, mas ainda guardavam alguma reserva com Cecília e Artur. Um dia, Mara não veio, estava gripada, com febre e dor de garganta, contou Rafa. 

— Então ela deve estar precisando de bolo de cenoura, disse Artur e chamou a criançada para a cozinha.

— Operação Bolo de Cenoura Cura Tudo! Gritaram.

E o delicioso caos de cozinhar com todas aquelas crianças começou. Rafa participou de tudo, quebrando um dos ovos, revezando para mexer a massa e jogando farinha na forma untada de manteiga.

Depois do almoço, levaram Rafa de volta para a Casa de Acolhimento e aproveitaram para entregar o bolo. Queriam ver Mara, mas a coordenadora disse que ela estava dormindo. 

— Ela está precisando descansar, explicou.

— Pode deixar, eu entrego o bolo para ela, disse Rafa, e digo que vocês todos vieram aqui para visitar.

Naquela noite, Cecília e Artur conversaram longamente, fizeram contas, repensaram o espaço da casa e decidiram.

E assim, após cumpridas todas as formalidades, Mara e Rafa entraram para a família, subindo para 8 o número de filhos.

— Agora é que ninguém convida a gente nem para um café! Comentou Artur, abraçando Cecília enquanto olhavam as oito crianças brincando juntas no parque com Tufão.

Pois é, pensou Cecília. Eu adorava assistir “Doze é Demais” e “Os Seus, Os Meus e os Nossos” quando era adolescente, mas eu sempre quis ser um dos filhos, mas a vida, com seu senso de humor duvidoso, me colocou neste outro papel.  Tudo bem, divirta-se, Dona Vida, que eu, além de ocupada e às vezes estressada, com certeza vou me divertir!



CHICOTE - Sergio Dalla Vecchia

 



CHICOTE

Sergio Dalla Vecchia


É a designação de um artefato feito com uma trança de tiras de couro atadas a um cabo de madeira ou couro, utilizado para causar dor, quando aplicado no corpo do homem ou animal, desde 3000 AC.

Os homens inventaram tal instrumento como ferramenta no auxilio nas obrigações e deveres de sobrevivência.

Mas provocar dor é auxilio para a sobrevivência? 

Aí é que pode existir um paradigma!

Depende de quem manuseia o chicote.

Cada criatura carrega seu DNA que a induz à certos comportamentos enraizados no seu modo de viver. Umas proativas, outras nem tanto, muitas rebeldes e outras com mau caráter nato.

Pensando no conjunto e no bem das comunidades, a produtividade foi essencial para o progresso dos povos.

Os governantes assim entenderam e desde os primórdios buscaram o progresso com disciplina e ordem, daí o emprego até hoje da ferramenta chicote!

A mão detentora do chicote, dependendo da sua índole, pode aplicar o açoite direto na carne, como apenas ameaçar e ou apenas mantê-lo, para que todos saibam que tem o poder e com isso utiliza-lo como moeda de troca nos seus objetivos.

Sabendo-se que o artesão que o confeccionou, o homem que o manuseia e o corpo que será chicoteado fazem parte da mesma comunidade que sobreviveu socialmente até hoje, com suas falhas e seus méritos.


Coruja - Sergio Dalla Vecchia

 



CORUJA

Sergio Dalla Vecchia


O dia cansou, e a noite, espreguiçando-se, abriu os olhos.

Uma coruja, empoleirada em um mourão de cerca, mostrava-se em postura soberba. Penas cinzas e amarelas mescladas camuflavam a hábil predadora. Escondiam as garras afiadas e um bico curvado para baixo, típico das aves de rapina que perfuram e arrancam nacos do corpo da presa.

Olhos grandes, em constante vigília, rastreavam o ambiente, enquanto a cabeça girava de um lado para o outro, chegando a uma torção de até 240 graus. Nada escapava daquela varredura, ainda mais com a aguçada sensibilidade auditiva das corujas.

Assim foi dada a partida para mais uma sessão de caça da faminta ave.

Após algum tempo em busca de comida, os olhos fixaram-se em uma direção e... Zaz!

Asas silenciosas bateram em direção à vítima. Era um pequeno rato do mato.

O pequenino não teve tempo para nada. Apenas sentiu as garras cravarem-se em seu dorso. Já com o ratinho preso, a coruja logo alçou voo de retorno ao mourão onde estivera.

Certificada de que não havia nenhum inimigo por perto, iniciou a refeição com uma forte bicada e engoliu a pequena presa quase de uma só vez.

Engolir pequenos animais inteiros é uma característica das corujas. Os restos que o estômago não consegue digerir são posteriormente regurgitados, encapsulados em pequenas bolas.

Satisfeita, retomou sua postura altiva, observando, ociosamente, o mundo da sobrevivência.


MÃE E FILHO TORCENDO PELO BRASIL - Suzana da Cunha Lima

 




MÃE E FILHO TORCENDO PELO BRASIL

Suzana da Cunha Lima


(A mãe teve um ataque cardíaco e não pode se emocionar.)

— Oi filhote. Já estou sentada e com a TV ligada para ver o jogo. Ainda estou com a pressão 18/6, mas medicada. Como é?

— Vou ver o jogo sim senhor, e o coração que se dane!

— Mãe... Fica tranquila aí e qualquer coisa me chama. 

(Jogo se arrasta – só chutinho pra lá e pra cá)

— Nunca vi o Brasil jogar tão mal... O Marrocos acabou de fazer um gol. O gol vazio, acho que o goleiro foi tomar um cafezinho, hahaha.

— Mãe, não é hora de graça. Goleiro tomar cafezinho em pleno jogo, é F...  Pelo visto o Brasil se esqueceu de entrar em campo. Marrocos não perdoou. Gol sem ninguém marcando dá até vergonha. Eu estou P....

— 1 a zero nos primeiros minutos...Por isso é que sempre fui marroquina, desde menina.

— Desde menina... Está explicado então. Mas com esse futebol, estou quase trocando de lado.  Marrocos jogando sério e o Brasil dormindo. Se continuar assim vai ser teste pro coração mesmo, hein, mãe? Mas no fundo a gente sabe que você sofre é pelo Brasil.

— Estou tentando controlar as emoções, mas daqui a pouco vou soltar todos os palavrões que sei. Opa! Opa! Não acredito... É GOL! GOL! GOLLLLL!!!!

— GOLLLLLL  GOLLLL! Me segura, é do Vini Jr.!!!

— Aí Vininho!  Aí, garoto ! Acho que meu coração entrou em estado de euforia letal.

— De onde você tirou isso?  Ainda bem que o Vininho nos salvou. Sabia que o garoto ia resolver. 1x1, o jogo voltou. Agora o coração bate mais aliviado. VAMO BRASIL!

— Pois é, antes do gol, ia sair BASTARDOS... mas ficou na garganta.

— Ainda bem que ficou na garganta. Melhor soltar um Gooool do que palavrão, não é mãe? E aí, que acha? O Brasil acordou depois do empate ou voltou pro cafezinho?

—  Ainda está uma M...

— Putz, voltou pra M... então. Vivi Jr  deu esperança mas o resto do time não entendeu o recado né? Paciência, mãe. Respira fundo e guarda os palavrões para o segundo tempo. Quem sabe sai mais um gol e salva a noite.

— Os caras nem falam mais português, só Dollaresh. Estou guardando os palavrões porque sou uma dama.

— Hahahaha... Dollaresh é ótima. Jogar bola que é bom nada, mas o Pix cai no holerite,  bonitinho,  né mãe?  Tá difícil ser elegante com esse futebol.  Guarda esse vocabulário bem guardado que o jogo ainda não acabou. 

— Aí meu coração sai do peito e você vai ter que andar de ambulância comigo. De onde eles cataram esses jogadores? Do time de golfe?

— Hahaha Só pode ser. Só dão toque de ladinho e nada de correr. Se seu coração sair do peito avisa que eu já ligo pra ambulância aqui. Mas tenta manter ele no lugar até o apito final, tá?  Nada de palavrão! Sofra, mas com elegância!

— Olha lá, olha lá! Nosso goleiro bonitão fez uma bela defesa! Suspira: mas acabamos de perder um escanteio.

— Pelo menos o goleiro bonitão tá trabalhando, né? Fazer defesa bonita e perder escanteio besta: resumo da seleção hoje. E aí, o coração tá aguentando?

— Está aguentando na base daquela Novalgina de grife que você comprou em boa hora. Mas confesso que olhar o Allyson jogando é o melhor remédio. O homem hoje está lindo com aqueles cabelos esvoaçantes.  Mas, pera aí, ele não era louro?

— Sei, lá, mãe...Sou lá de ficar olhando cabelos esvoaçantes de homem? Já vi que a Novalgina de grife está fazendo efeito. Toma mais uma dose por precaução que agora vem o intervalo. Capaz do Lancelotti pegar o chicote e colocar esta turma nos eixos. Mas ainda tem uns minutos pra passar raiva.  Segura aí.

— Tenho esperanças que as chicotadas do técnico resolvam. Vão de bunda quente, mas façam gol.

— Hahaha tomara que as chicotadas funcionem mesmo. Pelo menos que faça eles correrem mais.  Do jeito que tá, parece que tão de chinelo no domingo de folga.  Acorda, turma, isso aqui é a Copa do Mundo!

— Agora no replay é que vi de perto o gol do Vininho. Uma obra de arte!  Desde menino que eu sabia que ele ia dar para o ofício.

— E, Vininho era do seu tempo? Você sempre foi vidente? Vininho sempre deu pro ofício mesmo e ainda salva a gente de enfartar no sofá.  O resto que aprenda com o menino. A Novalgina de grife foi boa, mas gol do Vini Jr é remédio melhor ainda né?  Sofre não, mãe.  Temos um craque no campo!

— Graças a Deus e não fica caindo toda hora que nem manga madura.  Time sem craque é como pelada em periferia.

— Falou tudo, mãe.   Time sem craque vira pelada mesmo.  Só chutão e gritaria.  Ainda bem que a gente AGORA tem o nosso. 

— Que sufoco ... E esse jogo não acaba nunca?

—  Pronto, acabou. Empate de 1x1, com este time? Acho que Deus é brasileiro mesmo...


FIM


 


TEXTO ESCRITO DURANTE O JOGO pela Copa – 13/06/2026 (nos EUA)

 BRASIL X MARROCOS QUE FICOU 1 X 1

Suzana da Cunha Lima e sua IA (Lia)