O SONHO DE MARIA INÊS - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 


O SONHO DE MARIA INÊS

Antonia Marchesin Gonçalves

 

O sonho de Maria Inês era fazer uma viagem de férias num navio para as Ilhas do Caribe. Após alguns anos de economias, sempre separando uma quantia mensal, conseguiu finalmente a tão sonhada viagem, comprando roupas adequadas para quem sabe conhecer o seu príncipe encantado. Roupas esportivas para o dia e trajes mais elegantes para os jantares à noite. O primeiro dia foi para arrumar a cabine com varanda, outro privilégio que se deu, dormiu como um anjo.

Ao acordar, após uma ducha matinal, foi tomar o café da manhã. Ao chegar ao restaurante, quase caiu de costas tamanha quantidade de comidas no salão, não sabia por onde começar e nem o que escolher. Não sabia também que mesa escolher, viu uma mesa que parecia de pessoas solteiras e simpáticas e, com sua bandeja de frutas e bolo, sentou-se se apresentando. Todos corresponderam e se apresentaram. Após o café, resolveu ir tomar sol para se bronzear, se achando muito branca. Passou o dia na piscina, sempre se servindo dos coquetéis que os garçons serviam.

As horas passaram sem perceber. Ao se levantar, sentiu-se tonta, tentou andar e percebeu que o equilíbrio já não existia, tentou chegar até o corrimão do convés e viu dois e, ao tentar pegar, sentiu um vão enorme e sentia-se voar e veio em seguida o choque da água fria e barulhenta. Ela se via afundando com os olhos abertos, achando que estava sonhando de tão lindo que era o fundo do mar de um azul turquesa. De repente, o ar começou a faltar. Se sufocada pela água, teve a consciência de que tinha que subir, lembrou as palavras de sua mãe: num acidente, não entre em pânico, que ele te mata. Subitamente, ficou lúcida e foi subindo o mais rápido que pôde. Ao conseguir emergir, colocou a cabeça para fora e recuperou o ar. Ainda bem que sabia nadar e ficou na posição de boiar, assim pôde avistar o navio. Apesar de afastado, achou que conseguiria chegar até ele.

            

Não se canse, pensou ela, a distância não é pequena, o capitão já tinha sido avisado e parou o navio e mandou dois marinheiros com o bote a motor. Resgatada sem dificuldade, subiu e foi imediatamente levada para a enfermaria. O médico já a esperava, a enfermeira a examinou e tomaram todas as providências para que a temperatura do seu corpo não entrasse em colapso. 

Maria Inês, já com o humor restabelecido, notou a beleza do médico, percebeu a falta de aliança.  E, se encantou. Era o Dr. Rafael. Ele a tratou com respeito e foi cuidadoso ao dizer-lhe: vou te dar alta. Por sorte você soube tomar a atitude certa, mas cuidado com os aperitivos e o estômago vazio, por embriagarem mais rápido. Ela se sentiu envergonhada por ele perceber que era a sua primeira viagem, aprendeu a lição e pensava no ditado da avó: quem nunca comeu melado se lambuza toda.

O restante da semana resolveu passear pelo navio e descansar, aproveitando bem as refeições e fazendo amizades com seus colegas de mesa, todos muito alegres e bebendo moderadamente. Uma moça em especial, de nome Mercedes, teve mais afinidades. Passaram a fazer programas juntas, almoçavam juntas, iam para a piscina e, com isso, trocavam algumas confidências. Foi ela que a alertou sobre o médico Rafael, que todas às vezes que vem para o convés procura estar sempre por perto e te olha muito, disse. Ela passou a observar e realmente assim estava acontecendo. Mercedes, mais experiente em viagem de navio, disse que todos os marinheiros desse tipo de navio, mesmo os de patente, eram conquistadores, tipo um amor em viagem, e que ela ficasse atenta para não cair em roubada, tipo se apaixonar. Aproveite a viagem.

Maria Inês resolveu ficar alerta, fingia que não via o Rafael, mas se esmerava na produção do vestiário e maquiagem. Até o dia em que ele aproveitou que ela estava no convés, deitada numa chaise, e se aproximou, provocando sombra nela para que ela sentisse a sua presença. Ela abriu os olhos. 

 — Olá, disse ele, aproveitando o sol até o último minuto?

 — É verdade, disse ela, as férias estão acabando e logo votarei à rotina.

 — Posso me sentar ao seu lado? 

 — Pode, sim. 

E a campainha de seu cérebro já apitou alerta.

  — Querida, hoje você sabe que é o grande baile do término da viagem e, normalmente, o comandante escolhe uma passageira para a primeira dança. Sei que você será a escolhida. Mas, gostaria que a segunda dança fosse para mim, ficaria encantado. 

— Será um prazer, disse ela, mas não danço muito bem, prepare os seus pés para sofrerem. - Riram muito.

No dia seguinte, ela marcou massagem, limpeza de pele e fez o cabelo. Escolheu o melhor vestido. Preto e branco, um brinco dourado e o anel que ganhou dos pais na formatura. Olhou-se no espelho, gostou, passou perfume e a carteira preta, completando a toalete.

Foi uma noite encantada, ela se sentia a própria Cinderela e pensava: não quero que acabe. 

Dançou com ele não só a segunda música, como a noite inteira. No dia seguinte, não teve tempo de pensar em nada a não ser fazer as malas e, em seguida, desembarcar. Não viu Rafael, só o capitão e alguns da equipe estavam à postos para a despedida. Um táxi a levou para casa e no caminho só lembrava da aventura, fruto de suas economias, que valeu muito a pena. 

Logo voltou à rotina do seu trabalho, mas estava renovada e com o ego alimentado.

Quinze dias depois, ela estava fazendo o jantar e alguém tocou a campainha do pequeno apartamento. O porteiro não havia comunicado nenhuma visita. Ao abrir a porta, seus olhos arregalaram. Ainda tinha a mão na maçaneta. à sua frente estava Rafael. 

— Oi, disse ele, descobri seu endereço e vim fazer uma surpresa.  Ali mesmo, no corredor, antes de entrar, Rafael se ajoelha, tira do bolso uma caixa contendo um solitário maravilhoso. E então a pede em casamento e a beija. 

 — Sim, caso sim, amor da minha vida. 

 

SOBRE AS ONDAS - Yara Mourão

 




SOBRE AS ONDAS

Yara Mourão

I

 

A primeira impressão de Adèle ao chegar na sala VIP de embarque do porto foi de estar no limiar de uma grande aventura. A decoração do ambiente era deslumbrante, com uma luz feérica iluminando os móveis de rattan orientais. Havia imensas plantas verdejando soberbamente por todo o salão envidraçado, o qual se voltava para o cais. Ali, atracado bem junto ao muro de acesso, já se encontrava a majestosa estrutura do transatlântico ZODIAC.  “Uma obra de arte!”  pensou Adèle! “Um mergulho nos azuis do céu e do mar!”

Essa viagem era parte de seu presente pelo prêmio obtido na importante competição de natação, onde obtivera o primeiro lugar, além de uma significativa soma de dinheiro.

Os cruzeiros têm um horário de partida ao cair da tarde, quando o lusco-fusco das luminárias esboça sombras mágicas no céu, na terra, nas águas…

Adèle caminhou pelo salão mais uma vez, girando para a esquerda, para a direita, sorvendo o entorno como um gole de licor. Lentamente se dirigiu para fora e foi para a longa fila de entrada na lateral do navio.

Ah! Esse era o seu momento, a coroação de seus esforços e de seu sucesso no esporte que amava! Ia com o coração pleno, certa de que a polpuda carteira com os dólares do prêmio estava segura no cofre do navio.

À saída do cais, os navios mal se mexem e só quando atingem o alto-mar em velocidade de cruzeiro é que o movimento contínuo se instala. E Adéle sabia que esse marulhar era de dar enjoo em qualquer um. Para se precaver, logo após se instalar em sua cabine, subiu para o convés superior onde a brisa amainava a tontura e o mal-estar. Ali, sentou-se numa espreguiçadeira e, de tão serena, adormeceu.

Já a noite chegara em alto mar, com estrelas fugidias e horizontes perdidos. Mas o trajeto para o sul deixava à vista ilhas paradisíacas, uma próxima à outra, enfeitando a paisagem...Passaram-se horas… Adèle despertou sobressaltada, sem se dar conta do horário. “Não devia ser tão tarde, todavia passavam pelo convés funcionários apressados, murmurando baixinho, talvez pelo tardio das horas,” pensou ela. Então, levantou-se lentamente, meio zonza, meio adormecida ainda; viu que o céu estava lindo e se aproximou das grades para contemplá-lo. Olhou para cima, olhou para baixo.

Foi num átimo que tudo se deu; no balanço do navio, no balanço de Adèle, ela titubeou, escorregou, se ergueu em passos tortos e, sem mais, caiu no mar.

II

Os sistemas de segurança logo deram o alarme: as sirenes constantes puseram todos em alerta. Logo equipes de salvamento se agilizaram com holofotes, botes salva-vidas; homens prontos para resgatar quem quer que fosse, se atiraram ao mar. Mas nada foi possível fazer! E a tripulação inteira viu, de camarote, o desaparecimento da pobre náufraga…

Restava comunicar à Companhia de Navegação o ocorrido. O comandante ordenou a busca dos documentos da moça, que, como todos, estavam no cofre do navio.

Quando o suboficial abriu o cofre, recolheu papéis e uma carteira com muitas cédulas. Foi até o comandante e, entregando-lhe os documentos, disse: “Senhor, isso é tudo o que havia lá. Trata-se da senhorita Adèle Rennée, reconhecida esportista!”

Dois dias após o ocorrido, numa tarde cinzenta e chuvosa, de mar muito agitado e com uma tripulação mareada, assustada e temerosa, o Zodiac chegou a uma tal ilha de Endurodora, primeiro porto onde pôde finalmente aportar. Esse era o procedimento obrigatório em casos de acidentes durante o percurso de um cruzeiro. Ali, numa Delegacia de Assuntos Náuticos, o delegado à frente das investigações, analisando o caso e os documentos apresentados pelos oficiais do Zodiac, perguntou pelo dinheiro, cujo recibo estava na carteira da passageira Adèle. “Dinheiro? Qual dinheiro?”  Foi a resposta que obteve. “Não havia nada na carteira, só esses documentos!”

Mas o delegado tinha certeza de que um valor tão grande em dólares não sumiria assim. Onde estaria? Com quem?

III

Todos os funcionários foram intimados a depor sobre o desaparecimento de Adèle e dos dólares; desde os operadores técnicos até os funcionários das cozinhas, das lojas, dos estabelecimentos de lazer.

Nesses interrogatórios, muitas coisas vêm à tona: a vida privada das pessoas, as condições de trabalho, as motivações e ambições pessoais, os hobbies, etc. Aquelas eram geralmente pessoas vindas das classes trabalhadoras que precisavam muito dos empregos e de seus salários, ainda que quase insuficientes.

Mas nada de conclusivo se apurou. Onde teriam ido parar os milhares de dólares de Adèle?

Para o delegado, havia quatro suspeitos principais:

1-  O rapaz que trabalhava no banco do navio e que estava de plantão no momento de abertura do cofre. Ele se chamava Jonas, tinha os olhos amendoados e a fala mansa, apaixonado por Ana Clara. Era astrólogo amador e se pautava por tudo o que o zodíaco dizia e predizia.

 

2-  Ana Clara, que era a moça do cafezinho, falante demais, rodava o navio inteiro fazendo perguntas e comentários. Era apaixonada por Jonas, com quem fazia planos de fugirem para se casarem tão logo tivessem condições financeiras melhores.

 

3-  O suboficial encarregado dos registros de pessoal, que sabia um pouco da vida de cada um das centenas de passageiros e que, como fã de crimes sem solução, estava sempre pronto para participar em lances mirabolantes.

 

4-  A arrumadeira Luísa, que tinha livre acesso ao camarote dos viajantes para preparar os banhos, os quartos na hora de dormir, etc., e que em seus melhores sonhos um dia seria uma dessas viajantes ricas, de alta classe, e não uma mera camareira.

 

IV

Cada um desses estava na mira do delegado.

Mas um bilhete anônimo foi encontrado na biblioteca onde se lia:

 “O DESFECHO DESSE CASO ESTÁ ESCRITO NAS ESTRELAS!”

Nascido sob o signo de Aquarius, o delegado pode, por fim, relaxar.

VICTÓRIA E JORGE - Carla Di Sessa

 


VICTÓRIA E JORGE

Carla Di Sessa

 

Victoria e Jorge se apaixonaram à primeira vista, como se já se conhecessem há muito tempo, como se fosse uma continuação e não um simples começo.

Victoria sabia que era uma pessoa comum e sem grandes atrativos, a não ser os muitos dígitos no saldo da conta bancária, uma fortuna guardada com unhas e dentes pelo pai e seus advogados, protegendo-a de olhares interesseiros.

Já Jorge tinha todos os atributos que faltavam a ela e por onde passava causava um certo frisson. Além disso, também tinha uma conta bancária atraente, o que solucionava a desconfiança do pai dela, mas, não a curiosidade do mundinho ferino por onde o casal circulava e todos se perguntavam o que afinal ele teria visto nela.

Mas, ele havia escolhido a ela e a ela jurava eterno amor todas as noites e, Victoria estava embriagada de paixão. Desde que conheceu Jorge sua vida tinha se iluminado como uma árvore de Natal.

E chegou o dia em que aqueles olhos de veludo marrom a olharam e ele a pediu em casamento. E agora a seu lado no altar ele prometia ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

E veio a lua de mel em um navio que os levou por todas as ilhas e praias do Mediterrâneo. Tudo tão romântico, drinks à meia luz, passeios pelo convés ao luar, mais as coisas lindas que ele sussurrava o tempo todo em seu ouvido.

A viagem acabou, mas não a lua de mel. Os dois continuavam apaixonados e Victoria caminhava sem medo ao lado dele.

O primeiro aniversário do casamento deles se aproximava. Ele preparou a surpresa: uma nova viagem de navio. E lá foram os dois novamente viver seu romance embalados pelo oceano.

Uma madrugada Victoria acordou e percebeu que Jorge não estava a seu lado. Chamou por ele, mas não obteve resposta. Então se vestiu e saiu atrás dele. Procurou no bar, nos restaurantes, na piscina e finalmente o achou perto de uma escada que levava a outro deck.

Olhava embriagado para alguém e sorria apaixonado, como olhava e sorria para Victoria. Passava a mão pelos cabelos dessa pessoa e a beijava, como fazia com ela.

Victoria parou petrificada. De repente a outra mulher a viu e, assustada, se afastou de Jorge. Ele olhou para Victoria e o sorriso sumiu do seu rosto. Ele caminhou na direção de Victoria que o olhava confusa, mas subitamente ela entendeu.

Como pôde, Jorge, como pôde fazer isso?

Eu te amo, ele disse, mas os ouvidos dela estavam surdos pelo ódio e os olhos cegos de ciúme.

Eu te amo, ele disse novamente caminhando na direção dela. A mulher vinha com ele, segurando no braço dele firmemente e Victoria entendeu.

Eles a iam matar! Eles a empurrariam por cima da amurada, em dois seria fácil.  Victoria entrou em pânico e começou a correr. Os dois vinham atrás dela, mas de repente não havia mais saída, só a amurada e o oceano lá embaixo. Victoria se abaixou e Jorge tropeçou nela, e a empurrou contra algo de metal que a feriu na testa. Ele perdeu o equilíbrio, escorregou e caiu para o mar, levando a mulher ainda agarrada nele.

Victoria continuou no chão, consciente, mas com os olhos fechados e ficou ali, imóvel, por muito tempo, sem pedir ajuda ou gritar por socorro. Finalmente alguém a encontrou e pediu ajuda: havia uma mulher com uma contusão na testa aparentemente desfalecida no convés.

Victoria estava muito abalada, mas conseguiu contar aos oficiais que se lembrava de ter escorregado e que seu marido tinha tentado segurá-la, empurrando-a sem querer contra uma peça de metal da amurada, o que explicava o machucado na sua testa. Depois não sabia mais o que tinha acontecido, tinha desmaiado.

Uma tragédia. Uma viúva tão jovem, uma morte tão estúpida, tudo muito triste, ocupando todos os sites de notícias e as primeiras páginas dos jornais. Muitas fotos da viúva inconsolável chorando nas revistas de fofoca.

Primeiro eram lágrimas de raiva, depois de aflição de ser descoberta, e, por fim, de alívio. Nunca remorso.

 

MISTÉRIO NO NAVIO - Isabella Brancher

 






MISTÉRIO NO NAVIO

Isabella Brancher

 

Há muitos anos, Patricia vem explorando a ideia de fazer um cruzeiro ao redor do mundo. Ela quer se libertar das amarras, do seu passado sombrio e amargo. Assim, após passar anos enclausurada, decide partir em busca de novas aventuras. A ideia do cruzeiro lhe parece perfeita: conhecer novos locais, novas culturas, experimentar novos sabores e visitar lugares ricos em emoção e história.

O navio tem um roteiro espetacular, que poderá oferecer a Patricia a oportunidade de recuperar tantos anos perdidos. É 2018, a viagem inaugural do navio Royal World Classic, o que traz ainda mais glamour à viagem, deixando tudo mais fresco e vibrante.

Dez anos haviam se passado desde a falência do seu banco de investimentos em Nova York, devido à crise das hipotecas. Patrícia havia sofrido muito com as agressões e o desrespeito de seus clientes, mas suas investidas financeiras acabaram culminando na sua prisão. Seu sócio também havia cumprido pena de seis anos; sua detenção havia sido menor por causar menos prejuízo aos seus clientes.

Finalmente chegou o dia do embarque. Patrícia juntou suas melhores roupas, um pouco fora de moda, mas que ainda traziam a elegância do tempo em que era considerada uma executiva de sucesso. Agradecia aquela oportunidade fazendo uma silenciosa oração ao seu pai. Fuzileiro naval, seu pai havia recentemente falecido, deixando todas as suas economias para sua única filha. O porto de embarque era Miami. Uma emoção sem igual toma conta de Patricia; suas pernas parecem não conseguir sustentá-la em pé, ou talvez ela não consiga subir a rampa ricamente adereçada com um tapete vermelho, o que a faz se sentir ainda mais orgulhosa.

Na fila, enquanto aguarda o embarque, relembra os inúmeros livros que leu durante o período em que só lhe restava a leitura. Livros que traziam exatamente as experiências que estava prestes a começar a viver. Como aquele tempo a havia modificado: tornara-se mais amável, mais empática, olhando para as pessoas com mais ternura e menos interesse, especialmente financeiro.

Já era fim de tarde quando o navio começara a deixar o porto naquela linda primavera. Os próximos destinos seriam Bahamas, Cozumel e Costa Rica. Sempre teve o desejo de conhecer a vida marinha, muito por conta das histórias trazidas por seu pai nos retornos de suas viagens. Cozumel era um sonho: poder mergulhar, ver aquela diversidade de peixes… não via a hora de realizar esse antigo desejo.

Os dias de navegação passam calmos e rapidamente; há muitas oportunidades de diversão e entretenimento a bordo. Rapidamente, sendo Patricia uma pessoa de negócios, enturmou-se com outros passageiros, criando um círculo agradável de companhia.

Não há muitas pessoas no navio — cerca de duzentas —, o que torna ainda mais fácil conhecer, ao menos visualmente, a maior parte dos seus colegas de viagem. Percorrem o Canal do Panamá até se abrir para o Oceano Pacífico. Enquanto isso, os dias iam sendo regados por momentos de sol e piscina, acompanhados de uma boa leitura ou jogos de tabuleiro com os novos amigos.

Os jantares são momentos especiais; todos parecem felizes e tranquilos. Boas conversas sobre o dia, as experiências de viagem e, às vezes, até algo mais pessoal surgem nas amigáveis trocas.

Em uma noite mais chuvosa, deixou o restaurante em direção aos seus aposentos. Estava particularmente cansada naquela noite e decidiu se retirar mais cedo. Curiosamente, ao descer para o andar das cabines, viu de relance um homem que a observava. Ficou receosa, mas logo pensou que só poderia ser sua imaginação. Chegou ao quarto, trocou-se e, já deitada, pensava se seria possível que Sergio também estivesse no navio. Desfez aquele pensamento cinzento e aproveitou o movimento do navio para adormecer serenamente.

Sérgio havia sido seu colega de faculdade; havia estudado economia em Harvard. Ambos cresceram juntos profissionalmente e, por fim, acabaram se envolvendo emocionalmente. Sérgio era uma pessoa mais alegre, sempre tirando proveito das situações e apreciando a vida tranquilamente, mas também era muito ciumento e possessivo. Ao sair da penitenciária, havia tentado se recolocar no mercado financeiro, mas sem sucesso. Fez inúmeras tentativas em diversos setores da economia até conseguir essa posição na tripulação do cruzeiro. Também era um sonho antigo: trabalhar e viajar pelo mundo lhe pareceu uma boa solução para tentar recomeçar a vida.

Antes de conseguir esse emprego no navio, havia passado um tempo na casa de um velho tio, o qual ganhava a vida consertando de tudo um pouco. Foi por conta dessa experiência com o tio que conseguiu o emprego para trabalhar na manutenção do navio. Naquela noite em que Patricia havia visto Sergio de relance, ele havia ido aos aposentos do Sr. Otávio para verificar um problema em uma torneira.

Na manhã seguinte, já estavam chegando à costa da Nova Zelândia. A curiosidade de conhecer aquelas terras ainda parcialmente inexploradas a fez levantar tão logo percebeu o amanhecer. Preparou-se, desceu para tomar o café e pegar os primeiros barcos para desembarcar em Auckland. Ao entrar no restaurante, teve a confirmação de sua preocupação: havia visto novamente Sergio, que seguia pelo outro corredor. Ficou aflita com a constatação de que ambos estariam juntos, confinados no navio. Que surpresa o destino havia preparado para ela…

Passou o dia alegre em Auckland, explorando todos os locais no tempo que lhe era permitido. Esporadicamente, a imagem de Sergio retornava à sua mente. Havia preferido fazer essa visita à cidade sozinha, no seu ritmo, mas agora era hora de voltar ao navio e se preparar para o jantar. No jantar, todos compartilharam suas experiências. A maioria havia preferido visitar a Sky Tower e o museu da guerra; Patricia optara por uma caminhada até o Monte Eden.

Terminado o jantar, Patricia se recostou nas cadeiras do convés superior, apreciando a noite estrelada. Distraída, aproveitava o final do dia quando, ao olhar para o lado, percebeu que Sérgio a observava. Os últimos quinze anos percorreram sua mente. Um misto de angústia e tristeza logo invadiu sua tranquilidade. Sem pensar profundamente, levantou-se e dirigiu-se à borda do convés. Temendo a aproximação de Sergio, subiu na balaustrada e, subitamente, jogou-se ao mar.

Sérgio ficou desesperado ao ver a cena. Sem saber o que fazer, permaneceu imóvel, olhando a água remexida logo abaixo de si. Aflito com o que havia presenciado, retirou-se rapidamente para seus aposentos. Sucumbiu ao medo de ser considerado culpado por aquela queda; tudo o que menos queria naquele momento era arriscar ser preso novamente. Juntou-se a alguns tripulantes no restaurante da tripulação, na esperança de construir um álibi. Tomou um chá com alguns colegas, compartilhou atividades do dia e fez questão de contar um caso engraçado para que se lembrassem dele caso fossem questionados. Ficou momentaneamente mais tranquilo e se retirou para dormir.

Em seu quarto, voltou a rever a cena do salto de Patricia ao mar. Permaneceu abalado com a ideia do que poderia ter causado aquela reação quando ele se aproximou.

Patrícia, quando criança, havia praticado salto em piscina, outra herança do gosto do pai pelas águas. Fato que Sérgio desconhecia. Patricia sabia que o próximo porto seria Tauranga, a três horas de automóvel de Auckland. Assim, poderia nadar até a costa e, no dia seguinte, enquanto o navio fizesse a travessia de Auckland a Tauranga, alugar um veículo e seguir até lá, retomando a viagem no cruzeiro.

Agora completamente molhada, sentada à beira da praia, perguntava-se se aquela teria sido a melhor saída. Afinal, teria que voltar ao navio e não poderia se esconder pelo restante da viagem. Aquele mergulho inesperado ajudou Patricia a refletir sobre toda a situação. Não haveria outra alternativa senão enfrentar Sergio quando estivesse novamente no navio. Não o procuraria, mas também não o evitaria em uma próxima oportunidade.

Sentou-se em um bar na praia e pediu uma bebida enquanto esperava seu vestido secar um pouco. Por sorte, estava com seu cartão de crédito no bolso e pôde tomar a bebida, além de se hospedar em um hotel próximo ao porto. Na manhã seguinte, se preocuparia em como chegar a Tauranga.

O navio aportava em Tauranga. Patrícia o via do café onde estava sentada, a poucos metros do porto. Esperou que os passageiros descessem para a visitação da cidade e, assim que possível, retornaria ao navio. Os próximos dias seriam de longos períodos de navegação, com poucas descidas em terra. Uma leve frustração se instalou em Patricia; afinal, agora sabia que teria de enfrentar Sergio em algum momento.

A vastidão do mar durante aqueles dias serviu como um processo terapêutico. Refletira e sabia exatamente o que precisava fazer caso Sérgio a procurasse novamente. Pensara nas palavras e nas possíveis respostas às inúmeras perguntas que ele guardara ao longo dos anos.

Chegaram a Ho Chi Min, no Vietnã, e durante todo esse período não havia mais visto Sergio pelo navio. Ficou contente por serem dias tranquilos, sem nenhum tipo de confronto. Ao desembarcar em Valparaíso, encontrou Sergio logo ao descer do navio. Ele havia tirado o dia de folga para conhecer a cidade, um desejo antigo.

Patrícia não pôde evitar sua presença e, finalmente, decidiu encarar a conversa que tanto adiara. Seguiu em sua direção e caminharam em silêncio até a saída do porto. Ele pegou sua mão; ela aceitou. Continuaram caminhando silenciosa e calmamente pela praia.

 

 

UM ANJO BRONZEADO - Suzana da Cunha Lima

 

 


UM ANJO BRONZEADO

Suzana da Cunha Lima

 

O mar sempre esteve presente em minha vida. Nasci no Nordeste, nosso lindo litoral de águas mornas. Depois que a orla nordestina foi cedida para o esforço de guerra, minha família veio para o Rio, de navio, temendo que fôssemos bombardeados no longo trajeto. Ainda lembro de fazermos o mais absoluto silêncio à noite e apagarmos todas as luzes. O medo foi nosso companheiro constante, principalmente da parte dos meus pais.

Apesar de tudo, chegamos salvos. Eu, bem criança ainda, fiquei muito assustada quando entramos na baía da Guanabara. As ondas gigantescas vieram nos receber como muralhas nervosas e pareciam querer nos engolir, a nós, passageiros, e ao próprio navio. Foi algo terrificante, e até hoje tenho medo de ondas grandes, mesmo criada em praia, e conhecendo suas manhas.  

Mas sempre gostei de nadar no mar e naquele dia especial ele me pareceu muito convidativo. Ultrapassei a arrebentação e fiquei por lá, nadando, só que, quando quis voltar, não houve trégua. Ele se tornou mais volumoso e indócil e eu estava ali sozinha, tentando enfrentar aquelas ondas furiosas para chegar à praia. Não tinha como. Então resolvi nadar do Leblon para Ipanema, na esperança de que ele se acalmasse e eu pudesse chegar inteira na areia.

Porém, não surgiu uma brecha.   Quando cheguei perto do Arpoador, o jeito foi deixar as ondas me jogarem contra a pedra. Fiquei ali agarrada, toda esfolada e machucada, sentindo que as ondas me queriam de volta. Finalmente, um anjo bronzeado me puxou dali e meus pés tocaram solo firme. 

Hoje, viver a vida me parece navegar no mar.  O mar, essa força da natureza, hoje calmo e gentil, amanhã bravo e cruel; não é justo nem  tem piedade quando se enfurece e mesmo quando está manso, dali pode surgir um tsunami, sem nenhum aviso. Nem sempre aparece um anjo, bronzeado ou não, para nos livrar das encrencas.

Assim é a vida. Um presente que não pedimos, nem compramos e nem conseguimos desembrulhar por inteiro. Desse modo, nunca saberemos exatamente o que é  e para que serve. Mas é com isso que temos que conviver, porque não existe plano B para o ato de viver.

 

 

Julieta ou Júlia - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



Julieta ou Júlia  
Ises de Almeida Abrahamsohn


Julieta entrou no restaurante exatamente na hora marcada. Estava ansiosa.

Era o terceiro encontro que marcava pelo novo aplicativo. Os outros dois foram um desastre. Em um deles, na verdade, nem chegara a falar com o potencial par. De longe, já percebera o engano. Era um idoso, ela tinha horror à palavra velho, talvez já com uns setenta anos. Os sites de encontros permitem muitas mentiras. Ela mesma se apresentava como Júlia, o nome Julieta era antiquado, divorciada de 43 anos; na verdade tinha 58 anos, à procura de um companheiro com idade entre 45 e 55 anos, independente financeiramente, para um relacionamento baseado em amizade e interesses comuns como viagens, música e arte. E estava difícil. A questão principal, e ela tinha plena consciência disso, era a idade. Homens com sessenta anos queriam mulheres quinze ou vinte anos mais jovens. Nas primeiras experiências com aplicativos, havia colocado sua idade real e apresentaram-se candidatos com mais de 75 anos. Julieta sentia-se jovem, bem disposta e queria um parceiro de idade semelhante à sua. Não queria se atrelar a um companheiro que em breve precisaria de uma enfermeira.

 

Estava esperançosa. O contato pela internet fora excelente. Trocaram fotos. As de Julieta passavam bem por uma mulher mais jovem, graças a um amigo fotógrafo que caprichara na iluminação e dera alguns retoques no Photoshop. O “date” era Reinaldo, no site dera a idade de cinquenta e dois anos, também divorciado, tinha dois filhos adultos e interesses semelhantes aos seus.

 

Julieta se vestira com cuidado, vestido com mangas e decote discreto, comprimento mais curto do que costumava usar, saltos altos.  Os cabelos castanhos com reflexos, compridos, soltos e volumosos, associados à cuidadosa maquiagem, faziam-na passar facilmente  por mulher quinze anos mais nova.

Caminhou com passos seguros até a mesa onde Reinaldo já a esperava.

Parece mais velho que cinquenta anos, pensou, mas está bem conservado. E não tem barriga. Detestava homens desleixados que deixavam a barriga inchar como grávidas.

 Cumprimentaram-se, e Julieta, agora como Júlia, ia se animando com a conversa.  Reinaldo perguntou se ela tomaria vinho e encomendou uma garrafa de Chardonnay, escolhido entre os menos custosos. A conversa corria solta. Júlia se anima com a segunda taça de vinho. Contava episódios de sua adolescência e escola. Reinaldo se mostrava interessado e contava também sobre sua juventude vivida em Campinas. Pediram café para encerrar a refeição. Júlia estava esperançosa. Finalmente um date com potencial de se tornar um companheiro. Será que ele proporia um segundo encontro?

Foi quando Reinaldo falou:

 

— Júlia, preciso lhe contar uma coisa antes de nos despedirmos.

Pronto, pensou Júlia, aí vem… Vai dizer que é casado ou arrumar alguma desculpa.

Gostei muito do seu jeito, mas tenho que lhe dizer a verdade. Tenho 62 anos e não 52 anos. O resto que coloquei lá é verdade. Sou engenheiro de produção e ainda quero trabalhar uns bons anos. E eu suspeito que você também tem algo para me contar.

Julieta deu um sutil suspiro de alívio. Armou seu melhor sorriso e decidiu:

— Reinaldo, eu também não tenho 43 anos. Na verdade, tenho 58 anos e meu nome é Julieta. E gostaria de um novo encontro.  Eu também suspeitei que você tinha idade próxima à minha quando você usou as palavras bidú, bitolado, cafona, eu logo reconheci. São as gírias dos anos sessenta. Eu também uso essas mesmas palavras. Você deve ter percebido alguma outra que me escapou.

Ambos começaram a rir. Reinaldo propôs:

Vamos brindar então ao nosso encontro, afinal, beber umas e outras com um broto legal como você não acontece todo dia. 

 

O EXPLORADOR PERDIDO - YARA MOURÃO

 




O EXPLORADOR PERDIDO

YARA MOURÃO

 

 

1-  Explorador perdido

2-  Estação de trem

3-  Comparação

4-  Mapa antigo

5-  Colapso da humanidade

 

Alecxander caminhava cansado, a passos lentos, sentindo talvez o peso da mochila às costas. Era tudo o que lhe restava.

Como andarilho, percorrera todas as distâncias daquela parte do país, material à mão: celular, bússola e o precioso mapa antigo que lhe dava todos os dados de que precisava. Era já um senhor grisalho de olhar úmido, mas vivaz; assemelhava-se a um bicho da mata, que anda cuidadoso, perscrutando as trilhas em busca de uma presa.

Chegando à estação de trem, dirigiu-se ao balcão de informações. Perguntou pelos horários de partida, preços, acomodações da próxima saída. Para onde, não importava. Tudo era destino. Como explorador de lugares e de gentes, ele se recusava a se considerar perdido. Para ele, a humanidade era sempre a mesma, sem rumo e sem razão.

Sentou-se num banco de madeira perto da plataforma de embarque. Acendeu um charuto. Vestiu a jaqueta surrada, temendo o frio que se avizinhava, e, com o olhar perdido, entregou-se às suas considerações sobre o colapso da humanidade.

A história tinha datas, linha do tempo.

Em seu mapa antigo, a primeira referência eram os Assírios e Caldeus; mortes no leito dos rios Tigre e Eufrates. Segue o Vale dos Reis; pompa e desenganos ao longo do Nilo e o fim das dinastias. Na virada para o mundo helênico, quase nenhum ateniense ou espartano sobreviveu.

Alecsander parou de divagar para tomar um café; foi o tempo para cogitar o apogeu e a decadência dos Césares de Roma. Passou, pensativo, para os bárbaros, godos e visigodos, mouros, vikings… não havia diferença. Não quis nem cogitar o Novo Mundo, pois, para ele, estava ali bem explícito, todo o colapso da humanidade, envolto em um véu enevoado, frio como um sudário.

 


DILEMA - Sérgio Dalla Vecchia

 


DILEMA

Sérgio Dalla Vecchia

 

O relógio retrô da sala de jantar já havia tocado as doze badaladas, anunciando o falecimento do dia e brindando o nascimento de um novo. Acomodado na cama, eu acabara de assistir ao último telejornal do dia. Desliguei a luz do quarto e comecei a dialogar com o sono. Ele era difícil de conversar, mas, após algum tempo, acabava cedendo-me o prazer de dormir.

Ainda no primeiro estágio do sono, meus ouvidos captaram ruídos no andar térreo do sobrado. Logo passei para o modo alerta: respiração acentuada, ritmo cardíaco aquecendo-se para receber a adrenalina.

Daí a pouco, outro ruído — agora mais intenso — parecia que alguém estava mexendo em utensílios da casa.

Mais adrenalina, e o cérebro ordenou que eu pegasse uma arma.

Obedeci na hora. Com um porrete em punho, desci à caça dos ruídos misteriosos.

Pé ante pé, fui descendo cada degrau como se fossem feitos de ovos, acompanhado de um silêncio momentâneo, até chegar ao piso térreo. Nada!

Andei mais um pouco. Ouvi um barulho — e não um ruído. Coração a mil, dedo no gatilho... e lá estava ele: o assaltante!

Era o gato do vizinho! O boêmio que, além de pegar as gatas da região, ainda tinha tempo para bisbilhotar minha cozinha atrás de comida.

Quando me percebeu, fixou seus olhos felinos bem no porrete, depois os desviou para mim, exibindo os dentes afiados daquela boca escancarada. Eu não distinguia se era ataque ou conversa! Na dúvida, pró réu. Mantive-me estático, aguardando a reação do bichano.

De repente, manifestou-se com um miado desesperado: "Miauuu!" E veio em minha direção. Eu, ainda imóvel, o vi enroscar-se nas minhas pernas, carinhosamente, como se estivesse pedindo desculpas.

Assim, tomei uma atitude drástica: abri a geladeira e servi uma generosa porção de leite para o boêmio arrependido.

Dos males, o menor!

Decotes e acidentes de trabalho - Adriana Frosoni




Decotes e acidentes de trabalho

Adriana Frosoni

 

Furlan, o assistente do presidente da empresa, tentava equilibrar a xícara de café quando Doralice surgiu com aquele vestido que parecia ter sido feito apenas para desorganizar os pensamentos dele. O coração disparou; o suor escorria pelas têmporas e a razão falhava em assumir o controle da situação.

A mulher atravessou a sala, foi até a poltrona em que Olavo, seu marido, estava instalado e abaixou-se graciosamente para beijá-lo, sem o menor constrangimento diante do assistente. Tentando fingir naturalidade, Furlan tropeçou na ponta do tapete e lançou o café na direção do patrão, que urrou de dor e fúria.

— Furlan! O que deu em você?!

Doralice, aflita para resolver o problema, abaixou-se para recolher a xícara no mesmo instante em que Furlan também o fez, instintivamente. Acabaram ambos de joelhos, frente a frente, inclinados em direção à xícara. Foi então que o decote de Doralice se revelou traiçoeiro e capturou o olhar do assistente, deixando-o imobilizado.

O patrão, ainda ocupado em descolar a camisa do corpo para aliviar o calor do café, percebeu a cena e se indignou.

— Furlan! Hoje eu te mato…

Nesse momento, os olhos de Doralice e de Furlan se cruzaram e, naquele breve instante, tudo o que ele escondia há anos foi descoberto no susto. O destino, cruel, decidiu revelar o amor platônico no momento mais inoportuno.

E pensar que ele jamais teve intenção de se declarar… sentia-se indigno da atenção da patroa e se contentaria, pelo resto da vida, em apenas estar por perto, admirando-a em silêncio. Agora, porém, seu segredo estava exposto — e ele se via envergonhado por sentir qualquer coisa por ela. Não havia como reverter a situação, nem explicar que era somente um encantamento, sem esperança e sem querer ser atrevido.

Doralice levantou-se, recompôs o vestido e foi ajudar o marido a se livrar do incômodo. Antes de sair, lançou um olhar rápido para Furlan — o suficiente para ele entender que ela agora sabia. Ele pensou ter percebido também um leve sorriso de canto de boca, daqueles que as mulheres não conseguem segurar quando o ego está inflado por serem notadas e admiradas. Se isso fosse verdade, talvez seu amor não fosse tão platônico assim, e todo aquele rebuliço tivesse sido bom. Mas isso foi só um delírio momentâneo. Passou rápido e nem deixou vestígios.

Furlan não foi demitido e parou de tropeçar em tapetes. Mas nunca mais tocou em um café sem pensar em decotes.

Uma carta mágica - Suzana da Cunha Lima.

 


Uma carta mágica

Suzana da Cunha Lima.

 

O mar sempre esteve presente em minha vida. Nasci no Nordeste, nosso lindo litoral de águas mornas. Depois que a orla nordestina foi cedida para o esforço de guerra, viemos para o Rio, de navio, meus pais e quatro filhas, temendo que fôssemos bombardeados no longo trajeto. Ainda lembro de fazermos o mais absoluto silêncio à noite e apagarmos todas as luzes. O medo foi nosso companheiro constante, principalmente da parte dos meus pais.

Mas chegamos, salvos. Eu, bem criança ainda, fiquei muito assustada quando entramos na baía da Guanabara. As ondas gigantescas vieram nos receber como muralhas nervosas e pareciam querer nos engolir, a nós, passageiros, e ao próprio navio. Foi algo terrificante, e até hoje tenho medo de ondas grandes, mesmo criada em praia, sabendo nadar e furar onda.

Um dia, só para não ter que enfrentar isso, entrei no mar que estava calmo, logo passei da arrebentação e fiquei por lá, nadando. Mas, quando quis voltar, não houve trégua. As ondas se tornaram mais volumosas e eu estava ali sozinha, naquele mundão de mar impiedoso. Pois, fui nadando do Leblon para Ipanema, sem que surgisse uma brecha que me levasse para a areia. Quando cheguei perto do Arpoador, o jeito foi deixar as ondas me jogarem contra a pedra, fiquei toda ralada, machucada, mas finalmente meus pés tocaram solo firme. Trauma grande mesmo!

Viver a vida hoje me parece navegar no mar. O mar, essa força da natureza, indomável como cachorro no cio, hoje calmo e gentil, amanhã bravo e cruel; não tem dó nem piedade quando se enfurece e mesmo quando está manso, dali pode surgir um tsunami, sem nenhum aviso.

Viver a vida também me lembra jogar tarô. Coloque tudo nos montinhos: trabalho, família, dinheiro e AMOR. Qual a carta que nos virá e como reagiremos àquela que nos coube? Existe a carta mágica que nos forneça o segredo do cofre, a resposta para o enigma e acesso à felicidade.

Assim é a vida. Um presente que não pedimos nem compramos e não conseguimos desembrulhar por inteiro. Desse modo, nunca saberemos exatamente o que é e para que serve.

Mas é o que temos e com isso temos que conviver, porque não existe plano B para o ato de viver.

 

 

O alvoroço mental da Tina - Ledice Pereira

 

 


O alvoroço mental da Tina

Ledice Pereira

 

 

Tina, mulher de sessenta e poucos anos, aparentando muito mais, pele queimada pelo sol, devido ao trabalho na terra, analfabeta mora só em Minas Gerais, num pequeno sítio de onde nunca sai e reza para não sair.

Sua saga começa quando a filha a convence de vir a São Paulo resolver uma pendência com a prefeitura relativa ao irmão que aqui vivera e morrera.

Apesar de receber orientação para descer do ônibus na rodoviária e pegar o metrô em direção à Estação da Sé pedindo orientação para algum guardinha, Tina se atrapalha toda e seu pensamento fica a mil:

Bem que eu não queria vir devia ter batido o pé Manuela pensa que manda em mim agora tô eu aqui sem sabê pra onde ir é gente pra todo lado um povo sem iducação bate na gente nem pede disculpa  depois vem dizê que aqui é tudo iducado i a hora tá passano i eu nunca qui vô chega na hora manuela deve di tá pensano qui eu num vim e agora meu Deus qui é que eu vô fazê nem comunicá com ela eu posso tomara qui ela me espere sinão eu tô é ferrada esse pé doendo desse jeito devia de tê vindo com meu sapato véio mas fiquei cum medo qui Manuela ficasse braba ô Deus mi ajude num acho um raio di guardinha nem sei como achá um vô entrá nesse trem i seja o que Deus quisé.

Brigada, moço.

Inda bem que esse moço mi ajudô a descer na tar da Sé olha Manuela lá graças a Deus tomara que a gente consiga chegá na hora na prefeitura porque eu nunca mais vorto aqui Manuela que me descurpe.

 

 

 

A fábrica de robôs - Ises de Almeida Abrahamsohn

                                                        


                                    A fábrica de robôs

                                    Ises de Almeida Abrahamsohn


Júlio e Igor eram amigos de escola e moravam na mesma rua. Compartilhavam o mesmo entusiasmo por robótica. Passavam muitas horas na garagem da casa de Júlio montando circuitos, soldando cabos, instalando minúsculas lâmpadas de LED e criando robôs que executavam os mais diversos movimentos. Já tinham levado suas criações para competições e recebido um prêmio por seu robô ninja, capaz de lutar com espada e dar saltos como um guerreiro da época do Japão feudal. Porém, eram limitados pelos materiais disponíveis e os robôs tinham no máximo uns vinte centímetros de altura. O sonho dos garotos era construir um robô humanoide que executasse tarefas rotineiras na casa, como arrumar as camas, limpar o chão e os banheiros. Além de se livrarem dessas obrigações, imaginavam fundar uma Tech para desenvolver e vender os autômatos domésticos. Afinal, a Apple no início fazia as reuniões na garagem da casa do Steve Jobs.

Na sexta-feira à tarde Igor viu o recado de Júlio no celular. Era urgente. Ligou de volta. Júlio estava empolgadíssimo.


Cara, estava no carro na volta do dentista quando vi aquela nova construção do lado direito da avenida, sabe, aonde tinha a antiga fábrica de móveis. Reformaram e agora tinha uma placa “Robotech tecnologia robótica”. É lá que a gente pode conseguir material para o nosso robô.


Igor, que era mais sensato retrucou:


E aí, você acha que é só a gente chegar lá e eles vão nos receber sem mais nem menos?

 
Júlio não diminuiu o entusiasmo, queria ir até a Robotech de qualquer maneira.  Mesmo quando Igor argumentou que não daria certo. Até que Igor desistiu de convencer o amigo e aceitou de irem os dois até a empresa na segunda feira depois das aulas.


Foram de bicicleta pela rua de terra que saia da avenida principal até chegarem ao alambrado que cercava o prédio de blocos cinzento com uma única placa do nome da empresa. Uma guarita com roleta e câmara dava acesso ao entorno árido do prédio. Terra batida com algumas poças d’água. Prenderam as bicicletas a um poste de cimento e olharam pelo portão da guarita. Ninguém à vista. Estranho, pensaram, será que ainda não estão funcionando?  Porém viram duas caminhonetes brancas estacionadas do lado de dentro.


Quando estavam para ir embora, ouviram uma voz metálica.


Olá rapazes, boa tarde. O que desejam?

 
Júlio se apressou a responder que eram interessados em robótica, queriam visitar a fábrica e que estavam construindo um robô e precisavam de alguns materiais. Se tivessem alguns materiais para descarte eles podiam aproveitar.


A voz respondeu com:


  Um momento, preciso verificar.


Igor puxou o braço de Júlio. Vamos embora. Isto não está me cheirando bem. Mas o amigo insistiu. Vamos lá, Igor. É claro que se é uma fábrica de robôs não iam colocar gente para tomar conta da guarita. Tem a câmara filmando e a resposta é automática.

 
Alguns minutos depois o portão se abriu para os garotos. Chegaram à porta principal do edifício, ou pelo menos a única que viram. A enorme porta vidro gradeada por dentro com metal deslizou e eles estavam no que parecia o saguão principal, cimentado, de onde quatro rampas davam acesso ao andar superior. Nenhum ser humano à vista.


Igor, bastante nervoso falou:


Júlio, vamos dar o fora daqui. Você viu que não há janelas em lugar nenhum e nenhuma indicação escrita.

 
Eu li que onde eles fazem os chips para computador não tem janelas mesmo por causa da poeira e precisa ser tudo com ar condicionado e isolado. Então, fica frio, aí.


Foi quando ouviram por algum microfone de novo a voz metálica:

Subam pela primeira rampa do lado direito.



Ao subir, Júlio e Igor se defrontaram com três portas metálicas largas pareciam portas de elevador.

 
Sigam pela porta do meio, ouviram de novo a mesma voz com a instrução.

Você tá maluco, Júlio. Vamos embora. Isto tudo aqui tá muito estranho.


Mas Júlio não desistia. E ainda falou brincando:


Deixa de ser medroso, Igor. Você não leu? Agora com inteligência artificial as fábricas vão ser assim mesmo. Tudo eletrônico, tudo comandado por computador.


Igor, não estava convencido, mas calou-se.


Ao se aproximarem a enorme porta metálica abriu-se automaticamente.


Os garotos entraram e a porta fechou-se atrás deles sem ruído algum.

Era um enorme salão do qual nem se via o fundo. Ao longo da parede estavam presos por ganchos uns vinte robôs humanoides ainda inacabados, armaduras de metal faltando braços, ou pernas, outros sem cabeça ou tinham as cavidades dos olhos vazias.


No meio do grande salão duas esteiras com peças de metal. Havia braços, pernas, pés, mãos, tudo metálico e até olhos com cabos de conexão para serem instalados.  A um lado da esteira havia uma tela com projeções de corpos humanos com a musculatura exposta em movimentos diversos. Do outro lado havia outra tela com a imagem de um robô humanoide do tamanho de um adulto mostrada em três dimensões. O robô movia de maneira desengonçada pernas e braços. Os braços moviam-se em várias direções, a cabeça também e as pernas se dobravam e estendiam em ritmo automático. Era uma visão assustadora.


E não havia nenhum ser humano à vista!


Os dois olharam em volta e Júlio, com medo pela primeira vez, falou baixinho:


  Vamos dar o fora daqui, Igor!

 
Os dois garotos voltaram até a porta de entrada que permanecia fechada. Não havia maçaneta, trinco e nem mesmo um teclado numérico para acionar. Era controlada remotamente.

 
Estavam os dois presos ali. Ouviram de novo a voz metálica.
Como viram não conseguimos que os nossos robôs façam os gestos coordenados como os humanos fazem. Para aperfeiçoar os nossos amigos de metal vamos aproveitar que estão aqui para analisar os circuitos cerebrais de vocês enquanto fazem os movimentos. Vamos colocar os eletrodos em pontos do cérebro e dos membros e enquanto vocês andam, agacham ou pegam coisas com as mãos saberemos quais os circuitos cerebrais e nervosos são acionados e transferimos as informações para o computador e depois para os robôs. Não é genial?

 
Júlio e Igor, estavam apavorados. Como sair dali? Nem janela havia e a porta não se abriria para eles.


Temos que achar o computador que controla tudo isso, disse Igor. É a nossa única maneira de escapar daqui.


Dessa vez, Júlio concordou.

 
Deve haver uma outra saída daqui. Se achamos os cabos que controlam as portas, podemos tentar cortar. Você está com o seu famoso canivete suíço?

Foi quando viram, vindo do fundo da oficina dois robôs humanoides que se moviam na direção deles. Eram lentos e a cabeça se movia de um lado a outro, os olhos luminosos varriam o espaço para localizar os alvos.

Igor, falou.


— Eles têm sensores de laser nos olhos para nos localizar. Vamos pegar as peças do corpo dos robôs penduradas na parede e colocar na frente como escudo. São de metal, os lasers devem se desviar e eles vão se desorientar.

Dito e feito...

 
Júlio e Igor, cada qual segurando uma peça de metal à frente, foram acompanhando a parede lateral do enorme salão, movendo os escudos para despistar os humanoides que se deslocavam erraticamente pelo recinto.


De fato, havia uma outra porta metálica deslizante ao fundo do corredor. Estava aberta.


Uma rampa conduzia ao andar inferior. Chegaram a um enorme espaço pouco iluminado onde viram dois grandes computadores, Work Station, pareciam um armário com algumas luzes acesas.


E agora o que fazer?


O canivete suíço do Igor, não ia servir para nada.


Precisamos descobrir qual a fonte de alimentação para esta Work Station. Se cortarmos o cabo... disse Júlio.


—  E aí, seu sabichão como vamos achar o cabo? falou Igor. Além disso, se eu tentar cortar algum cabo de força vou levar um choque elétrico e posso até morrer.


O melhor é procurar uma porta de saída. Tem que ter. Afinal, eles recebem materiais aqui e algum técnico tem que mexer nos computadores.


Foi quando ouviram uma porta se abrindo no canto mais afastado.

É a nossa chance, murmurou Igor.


Vamos indo pra lá onde está mais escuro.

 
De novo foram se esgueirando pela parede. Ouviram duas pessoas conversando.
Os dois robôs grandes ficaram maluquinhos. Temos que ver o que aconteceu com eles.


Eu falei pro chefe que essa ideia de construir robôs para fazer serviços e depois assaltar os bancos não ia dar certo. Só tinha esses dois, que funcionavam mal e mal.


—  Preciso entrar no histórico gravado para ver o que aconteceu. O chefe disse que uns dois garotos entraram na sala de montagem. Devem estar ainda por aqui escondidos com medo.


Acho que vi duas bicicletas do lado de fora. O que fazemos com eles?


Cara! Não vamos fazer nada. Eu não quero me encrencar com a polícia. Nós só fazemos a parte de computador e tal. Nada de agressão. Não quero ser preso.

 

 

— Tá! E se o chefe perguntar? O que agente faz?
Esfria, cara. Entramos, não vimos ninguém. Desativamos os robôs e pronto.

Júlio e Igor estavam mais que apavorados, imóveis lá no canto mais escuro, respiraram para se acalmar. Ouviram os dois técnicos subirem a rampa e saíram porta afora. Correram como nunca, e saltaram a catraca. Ouviam a voz metálica repetindo para olharem para a câmara de identificação.
Soltaram as bicicletas e em minutos estavam pedalando para chegar na avenida. Para ficar o mais longe possível da tal Robotech.

No dia seguinte, ainda cogitaram em ir à polícia. Mas pra falar o que? A polícia não acharia nada lá. Era uma fábrica de robôs e eles tinham invadido a propriedade. Melhor ficarem calados foi a decisão.

Uns seis meses depois viram a notícia de um incêndio que destruiu completamente a fábrica. Ficaram aliviados.