O SEGREDO DE PAULO TOLEDO - Antonia Marchesin Gonçalves

 



O SEGREDO DE PAULO TOLEDO

Antonia Marchesin Gonçalves

 

NEM SEMPRE CONHECEMOS

A PESSOA COM QUEM DORMIMOS

 

 

             O telefone tocou às duas horas da manhã, Marilena atendeu assustada.

— É da residência do Dr. Paulo Toledo?

— Sim, disse ela. Quem fala?

— Aqui é o zelador do prédio do escritório. É melhor que a senhora venha para cá. Precisei chamar a polícia. Dr. Paulo foi encontrado morto com um tiro no peito no automóvel na garagem do prédio.

Marilena deixou o telefone cair na cama. Deve ser trote, pensou. Em seguida, chega uma ligação do filho Fernando:

— Mãe, aconteceu uma desgraça, papai faleceu. É verdade!

             Ela vestiu-se o mais depressa que pôde. Tremia tanto que mal conseguia calçar o tênis. Foi difícil chegar ao escritório, a noite parecia escura e sombria. Marilena se perguntava por que alguém mataria o Paulo. Só pode ter sido assalto.

Ao chegar, foi assustador ter que vê-lo ensanguentado, sentado no banco do carro do motorista, com um tiro no peito.

— Isso é um pesadelo! Gritou, recostada no ombro do filho.

A semana transcorreu cuidando de todos os trâmites legais, depois do velório e enterro. Tantos martírios. Em casa, sentia-se entorpecida, o médico da família havia dado um comprimido que tomara sem perceber e, sentada no sofá, dormiu.

             Ao acordar no final da tarde descansada, levou alguns minutos para se lembrar da desgraça. Levantou-se e se serviu de uma xícara cheia de café, preciso pensar. E foi o que fez, foi ao escritório e pensou nas prioridades de suas novas obrigações: missa de sétimo dia, inventário, reunião com o filho e advogado e o mais importante, contratar um bom detetive, sim, porque ela precisava saber a verdade. O próprio advogado indicou seu detetive de confiança. Naquela tarde, o zelador avisou que ela tinha visitas desejando vê-la.

             Ela tentou se negar a receber, no que o zelador avisou serem dois senhores bem vestidos e falaram ser de suma importância a reunião, sendo o assunto de total interesse dela. Marilena preferiu descer e recebê-los no salão do prédio. Encontrou-os já sentados no sofá à sua espera. Ao se apresentarem, foram muito educados e entraram direto ao assunto: o mais velho lhe disse que a conversa seria longa. Ela estava apreensiva e calada.  Ainda não havia mexido nos documentos do marido, nem havia aberto a maleta que ele tanto prezava. Não sabia o que eles queriam dela, imaginou que tratariam de negócios, sentia-se totalmente despreparada.

— Somos empresários numa empresa de investimentos e seu marido, Paulo, tinha negócios conosco. Gostaríamos que a senhora localizasse as apólices que estão agora em poder  da senhora. Sabemos da dor que está passando, mas negócios são negócios e não podemos perder tempo, disseram.

             —Eu, eu ainda não tive tempo de examinar nenhum dos documentos dele. Solicito que me deem seus cartões de contato. Avisarei assim que localizar. E, se for o caso, enviarei por Sedex.

No elevador, Marilena se criticava por nunca ter interesse em saber sobre o lado profissional do marido. Ao chegar em casa, ela ligou para o filho solicitando que ele fizesse uma varredura nos papéis do escritório. Em casa, ele nada deixava e no cofre ela sabia ter poucas joias e alguns dólares, mas ela não acessava o cofre há alguns anos.

No dia seguinte, ansiosa, não tinha ideia por onde começar.

             Mexeram e remexeram, sem nada encontrar.  Até lembrarem do cofre.

Aí sim, o lado desconhecido de Paulo se abriu: notas promissórias, contratos assinados por ele até com folhas soltas, empréstimos altos, dívidas com cassinos clandestinos em vários lugares. E, até gastos exorbitantes em Punta del Leste.

— Meu Deus, quem era esse Paulo?

Foi aí que eles entenderam tudo.

Marilena conseguiu acertar com os agiotas e acabou ficando sem a casa da praia e do escritório, vendeu também as poucas joias. O importante é que conseguiu manter o seu apartamento.

             Nem sempre conhecemos a pessoa com quem dormimos.

 

Rastros do Passado – caso Isabela - Isabella Brancher

 


Rastros do Passado – caso Isabela

Isabella Brancher

 

O telefone toca insistentemente: uma, duas, três vezes. Eu dirigia pela costa Amalfitana; era final de setembro, final de tarde. O sol se punha lentamente no mar, colorindo o céu de alaranjado. Nessa época, a estrada já estava um pouco mais tranquila, mas me senti obrigada a encontrar um local seguro, parar o automóvel e atender o telefone.

Eu já havia ouvido muitos comentários sobre aquela pessoa do outro lado da linha. Tinha uma personalidade marcante, era relativamente indiscreto e não me inspirava nenhuma confiança. Era um amigo de infância do meu avô paterno. Seu nome era Giuseppe. Sobre os dois havia inúmeras histórias. As peripécias que fizeram e como foram felizes quando jovens, solteiros e despreocupados. As histórias que meu avô contava eram sempre cheias de mistérios. Algumas vezes pareciam não ter um final, ou simplesmente descreviam cenários ou situações cujo enredo parecia esburacado. Faltava um fechamento. Ficava sempre no ar a sensação de que havia um segredo, uma revelação a ser feita. Assim, parte da história era contada, parte era deliberadamente omitida. Eu percebia que, quando meu avô contava as suas façanhas, permanecia nos ouvintes um semblante intrigado. No rosto deles se viam as perguntas: como eles chegaram até esse momento? O que aconteceu depois? Eu também tinha essa sensação. Havia uma descontinuidade, uma ausência. Porém, sendo muito jovem, ainda não conseguia expressar nem compreender plenamente aquelas sensações.

Aquele telefonema me inquietou; pensei imediatamente no meu avô, falecido alguns meses antes. A saudade ainda era intensa. Meu avô sempre foi um exemplo de bondade, uma pessoa correta, sempre disposta a auxiliar os outros. Era tudo para mim. Criou-me como sua filha; talvez, no seu íntimo, eu fosse a filha que ele sempre quis e não conseguiu ter. Ao estar perto dele, eu me sentia acolhida, amada e, sempre que possível, queria ficar com ele. Perdi a conta de quantos fins de semana passei em sua casa. Eram momentos maravilhosos, junto dos meus avós, que às vezes eram perturbados pela presença de Giuseppe. Não gostava de ter seu amigo por perto, apesar de entender e respeitar a amizade que tinham. Nunca pude compreender o mal-estar que a presença de Giuseppe me causava.

Desde a morte do meu avô, aquela não era a primeira vez que Giuseppe me procurava. Já no funeral, ele havia se aproximado com o mesmo convite. Em outras ocasiões, voltou a me procurar com o mesmo discurso: tinha algo importante a me dizer. Ao ouvir sua voz naquela tarde, todas as histórias contadas floresceram na minha mente. Devagarzinho, fui lembrando uma a uma; algumas me faziam sorrir, outras me traziam ternura. Duas histórias vibraram mais fortemente na minha memória. Uma delas, tragicômica, foi quando resolveram pregar uma peça no professor de física do ensino médio e colocaram sardinhas cruas nas calotas do veículo. O professor fez de tudo para tirar o cheiro, até que terminou por vender o automóvel; não conseguia suportar o odor impregnado. A outra, menos dramática, era intrigante e envolvente. Meu avô, minha avó e Giuseppe foram acampar na ilha de Capri. Naquela época, ir até a ilha era uma aventura sem igual. Ainda com poucos recursos e poucas casas, o local trazia, naquela atmosfera rude e campestre, um misto de romantismo e aventura. Passaram uma semana na ilha durante umas férias de verão. Sempre me perguntei se não teria faltado uma quarta pessoa nessa viagem ou sobrado alguém…

Giuseppe insistia: queria marcar esse encontro comigo para me contar um segredo há muito tempo guardado. O segredo perseguiu Giuseppe por toda a sua vida e, agora, com a morte do seu grande amigo, parecia mais fácil de dizer. O momento havia chegado. O segredo poderia, enfim, ser revelado.

Essa pressão para se encontrar comigo estava me deixando muito aflita. Não conseguia compreender por que Giuseppe queria tanto me ver. O que teria ele de tão importante para me contar? Envolvida por essa névoa de tensão e mistério, acabei cedendo. Marquei o encontro para a semana seguinte.

 

 

Rastros do passado - Quem teria matado João? - Isabella Brancher

 



Quem teria matado João?

Isabella Brancher



João era um empresário rico e extremamente carismático. Conquistava as pessoas com sua maneira doce de falar e demonstrava uma paciência quase inesgotável, sempre empenhado em agradar aos outros. Era assim que Marilena via o marido: um homem bem-sucedido, carinhoso e encantador.

Sua morte a deixara perplexa. Quem iria querer ver João morto? Nada daquilo fazia sentido.

Para além do círculo familiar, porém, João tinha seus dilemas. Podia ser visto como um grande homem e também como um covarde. Dono de uma inteligência acima da média, liderava seus executivos com facilidade, mas era igualmente capaz de crueldade. Sua baixíssima tolerância a erros o irritava profundamente e, quando isso acontecia, tornava-se quase indomável.

Sozinha na sala, Marilena lembrava-se das últimas semanas, quando João passou a chegar em casa mais tarde do que o habitual. Havia sempre tensão em seu semblante. Após alguns dias observando aquele desconforto, conseguiu que ele lhe contasse que a situação na fábrica estava muito complicada: sucessivas quebras de produção vinham ocorrendo. Marilena percebia a preocupação do marido e tentava ajudá-lo, embora desconhecesse a real profundidade do problema.

A campainha tocou. Era o investigador da polícia. Ele entrou, conversou com Marilena, trouxe as últimas notícias e voltou a interrogá-la. Ela repetiu tudo o que sabia, o que, de fato, era muito menos do que a realidade. Ainda havia muito mistério.

O investigador descobrira que João havia repassado uma quantia considerável de dinheiro a Pedro, seu diretor financeiro. A razão daquela transferência permanecia desconhecida. Pedro era amigo de João desde os tempos de faculdade; as famílias se frequentavam semanalmente. Eram quase irmãos. Marilena não tinha qualquer indício do motivo que levara o marido a fazer tal repasse.

Sempre fora uma mulher calma, organizada e disciplinada, mas agora Marilena decidira acompanhar de perto as investigações. Mais do que tudo, queria encontrar o assassino do marido e, sobretudo, compreender a motivação por trás de um ato tão cruel.

Inconsolada, resolveu vasculhar o escritório de João. Nada encontrou de suspeito no cômodo da mansão onde viviam. A angústia começou a dominá-la, fazendo seu corpo tremer de raiva, até que, em um rompante, abriu energicamente a última gaveta da escrivaninha. A gaveta se projetou para fora e o fundo falso se abriu, espalhando o conteúdo pelo chão.

Marilena ficou estática, observando os objetos caídos: pequenas caixas, envelopes com cartas ou cartões, fotografias.

De onde teriam vindo aqueles objetos? Quem eram as pessoas nas fotos? Com um misto de curiosidade e medo, pegou um dos envelopes. Nesse momento, o telefone tocou. Marilena correu apressadamente para a outra sala em busca do celular. Atendeu.

Era o investigador. Sentada na sala da mansão, Marilena ouviu, em silêncio, tudo o que ele havia desvendado. Pedro já não dormia. Evitava os encontros semanais entre as famílias, temendo que algum comentário escapasse. Exigira que João contasse a verdade; João se recusara.

Marilena não chorou. Ao término da ligação, recostou-se no sofá e abriu o envelope que ainda segurava nas mãos. Quem teria matado João? Marilena acreditava que a resposta fosse simples.

 

Saga de família - Isabella Brancher

 




Saga de família

Isabella Brancher

 

Apenas duas semanas haviam se passado desde a morte de seu marido quando Anna recebera a visita de um oficial de justiça. Tratava-se de um volume considerável de dinheiro, ouro e joias. Anna, ainda abalada pela perda recente, não conseguia assimilar tudo o que estava acontecendo. Quem lhe teria deixado aquela herança? De onde teria vindo tanto dinheiro? Essas perguntas percorriam sua mente sem encontrar resposta.

As semanas de luto levaram Anna a reviver toda a sua vida. Agora, aos 80 anos, refletia sobre tudo o que havia vivido. Emergiram em sua memória a paixão por Matteo Trentini e os maravilhosos primeiros meses juntos. A paixão, o segredo e o medo daquela convivência proibida pareciam tornar ainda mais intensa a vontade de estarem juntos. Matteo Trentini era um pequeno agricultor que produzia mudas de videira para a família de Anna Castellani.

A família Castellani possuía uma vinícola tradicional, com vastas propriedades na Toscana. Lorenzo Castellani herdara a vinícola de seu pai e, com trabalho e dedicação, conseguira triplicar tanto a área plantada quanto a produção. Sua filha Anna, uma jovem mulher de rara beleza, estava prometida em casamento a outro grande viticultor da região. Os preparativos para a união dos jovens herdeiros já haviam começado. Anna, porém, continuava a se encontrar às escondidas com Matteo Trentini. Amedrontados com a possibilidade de o casamento se concretizar, fugiram para Nápoles.

Anna e Matteo passaram a ser perseguidos por Lorenzo Castellani, que não se conformava com a desobediência da filha e jurara matar Matteo se o encontrasse. Cientes disso, o casal decidiu embarcar rumo à América, onde poderiam recomeçar a vida.

Anna relembrava os dias de sofrimento a bordo daquele navio, repleto de imigrantes em busca de uma nova vida. Pensava constantemente na família, na casa e no conforto que havia deixado para trás, mas tudo perdia o sentido quando olhava para Matteo: era um amor inigualável.

Os primeiros meses em Jundiaí, no interior de São Paulo, foram maravilhosos. Junto de outros imigrantes, formaram uma colônia que produzia vinhos e diversas hortaliças. Tinham uma casa confortável, comida farta e um filho a caminho.

Matteo, porém, não se tranquilizava com a ideia de ter deixado tudo para trás na Itália. Queria vender a pequena propriedade que possuía na Toscana para investir na produção da colônia. Convenceu Anna de que retornaria à Itália, venderia as terras e voltaria antes do nascimento da criança.

Os meses de espera pela volta do marido pareceram intermináveis. A cada semana, a angústia aumentava. Finalmente, Anna recebeu uma carta de Matteo, na qual ele descrevia que conseguira vender as terras e que embarcaria na manhã seguinte rumo ao Brasil.

Em uma manhã fria, o pequeno Enzo veio ao mundo. Poucos dias depois, Anna recebeu a notícia de que Matteo havia morrido durante a viagem. A morte de Matteo a deixou sem forças, mas ela precisava se recompor: o pequeno Enzo dependia dela. Assim, aos poucos, com a ajuda de outros colonos, foi mantendo as terras e os cultivos.

Alguns anos depois, Anna casou-se com outro imigrante, também oriundo da Toscana. Com Luigi, teve duas filhas, Elisa e Carla. Quem poderia imaginar tudo o que ela havia passado ao longo daqueles anos? Foram tempos difíceis no início, mas a vida se acomodou com o passar dos anos e com a chegada de Luigi à sua vida. Luigi foi um bom marido e um ótimo pai para Enzo e para as meninas.

Luigi mantivera contato com seus parentes na Toscana e, por vezes, recebia cartas com notícias da região. Essas cartas sempre despertavam em Anna curiosidade e também angústia. Cheia de coragem e medo, se sentou no escritório de Luigi para ler as inúmeras cartas do passado e encontrar as respostas que tanto precisava.

Seria Anna capaz de encontrar essas respostas?

 

Número desconhecido - Carla Di Sessa




Número desconhecido

Carla Di Sessa 


Eu nunca deveria ter atendido o telefone, pensou Laura assim que ouviu a voz animadíssima do outro lado da linha. Estava na padaria, tinha acabado de comprar pão e frios e estava louca para ir para casa fazer um sanduíche e tomar com café.

— Parabéns! Soubemos que você acaba de ser oficialmente responsável pelo evento de hoje!

— Evento, que evento? — ela perguntou

— O aniversário surpresa! Chegaremos às ...

A ligação caiu.

Laura ficou parada no meio da padaria.

Aniversário. Surpresa. Responsável.

Não era aniversário dela. Não conhecia ninguém que fizesse aniversário naquele dia. E definitivamente não era responsável por nada além do lanchinho que iria tomar no lugar do jantar.

O telefone vibrou com uma mensagem:

“Estamos chegando em 30 minutos. Não esqueça do bolo e dos balões!”

— Eu não tenho bolo algum! — ela sussurrou para o celular.

Em pânico, sentindo-se ridícula, mas sem poder evitar, voltou correndo para o balcão da padaria.

— Um bolo. Qualquer bolo. Rápido!

— De que sabor? — perguntou o atendente, calmo demais para aquela emergência.

— O que combina com desespero?

Saiu de lá com um bolo de chocolate, velas coloridas e um pacote de balões que ela mesma teve que encher no meio da sala, ficando com aquele gosto esquisito de borracha na boca.

De repente a campainha tocou.

Quando abriu a porta, encontrou oito pessoas sorridentes segurando presentes.

— SURPRESAAAAA!

Eles entraram antes que ela pudesse explicar que não fazia ideia do que estava acontecendo.

— Onde ele está? — perguntou uma senhora animada.

— Ele quem? — Laura respondeu.

Silêncio.

Todos se entreolharam.

— O Rafael. Ele disse que você era a organizadora!

— Eu não conheço nenhum Rafael!

Mais silêncio.

Foi quando um rapaz no fundo do grupo olhou o celular.

— Gente… acho que ele errou o número do celular e mandou a mensagem para a pessoa errada.

Alguém começou a rir.

Depois outro.

Em menos de um minuto, a sala de Laura  virou cenário de gargalhadas.

— Bom — disse a senhora — já que estamos aqui…

Eles acabaram cantando parabéns para “Rafael, onde quer que esteja”. Comeram o bolo. Contaram histórias absurdas sobre o aniversariante distraído que provavelmente estava esperando os convidados em outro endereço.

Eventualmente, todos foram embora, ainda rindo.

Laura fechou a porta, exausta.

O celular vibrou novamente.

Mensagem nova:

“Desculpa!!! Passei a mensagem para o número errado! Onde vocês estão???”

Laura olhou para a própria sala e sorriu.

Digitou apenas:

“Feliz aniversário, Rafael” e bloqueou o número.

Enquanto recolhia os balões murchos, rindo sozinha da situação mais improvável da sua vida, pensou:

“Eu nunca deveria ter atendido o telefone.”

 

 

ANTOLOGIA 2026 - RUMORES DO PASSADO

 







RUMORES DO PASSADO

Antologia EscreViver 2026

Desde já vamos preparando nossos textos para a antologia 2026.
Como podem ver, o título do livro já serve de tema para os contos que serão criados.
Esta antologia é aberta aos associados em geral.


Boa escrita!








Homem ao mar ou o cruzeiro interrompido - Ises de Almeida Abrahamsohn

 




Homem ao mar ou   o cruzeiro interrompido

Ises de Almeida Abrahamsohn

 

       O som penetrante da sirene, três toques estridentes seguidos por três longos, acordou Jorge na sufocante cabine do navio. Desorientado, esticou a mão para o celular. Eram três horas da manhã. A outra mão apalpou o travesseiro ao lado.  Vazio...   ― Marilda, Marilda, o que foi?  Levantou-se até a porta do minúsculo banheiro.  Ainda tonto do sono e do vinho da véspera, vestiu a roupa largada na cama e saiu para o corredor.  Outras pessoas também saíam das cabines procurando informações.

Aglomeravam-se à porta do elevador   ― O aviso da sirene, três toques, parece que alguém caiu no mar!  O navio parou....

Chegando ao primeiro deck, Jorge viu o tumulto.  Grande número de pessoas, algumas de roupão sobre a roupa de dormir, se empurravam em torno de um oficial. Este confirmou que houve um sinal de que uma pessoa havia caído ou se lançado ao mar. E que as buscas já haviam começado.  Porém os curiosos não arredavam o pé dali por mais que funcionários tentassem fazê-los voltar às cabines. 
 — Marilda deve ter ouvido a sirene antes de mim e saído para investigar.  Por que não me acordou?  Ela sempre faz isso...  Sabe que tenho insônia e fica com pena de me acordar. 

Jorge metodicamente procurava a noiva entre os curiosos. Nada.  Talvez tenha voltado para a cabine, pensou.  Mas estava vazia. Mais uma vez subiu ao primeiro convés e depois ao segundo, terceiro e quarto decks que estavam vazios.  Agora algumas centenas de pessoas ocupavam o primeiro convés.  Ansiosas, conversavam, faziam hipóteses e olhavam o mar iluminado por potentes holofotes. Dois botes motorizados barulhentos circundavam o navio à procura do acidentado.  Mas muitos sabiam que a chance de encontrar alguém era pequena.  Era uma queda de cerca de 9 metros, e o impacto fazia a pessoa desmaiar e afundar.  Apenas nadadores experientes conseguiriam retornar à superfície. Depois de muito insistir, Jorge conseguiu falar com o imediato e reportar o desparecimento de Marilda.   O homem não parecia muito convencido. Tentou acalmar Jorge dizendo que a noiva provavelmente tinha tomado mais um aperitivo e devia estar dormindo em alguma poltrona. Afinal, tinha visto tantas escapadas noturnas de homens e mulheres nos seus dez anos de mar.  Prometeu que de manhã ordenaria uma busca sistemática no navio. Agora era impossível

Jorge não se conformou com o descaso do oficial. Continuou a procura pelo navio, deck por deck, todos os bares, restaurantes, salas e antessalas, banheiros quando encontrava abertos, cozinhas...  Nem vestígio de Marilda. Exausto voltou à cabine, tomou um chuveiro, vestiu-se e foi cobrar do capitão uma busca minuciosa por todo o navio. O capitão pediu um documento de Marilda e uma foto. Jorge voltou à cabine e pegou a carteira de motorista na bolsa de mão. Entregou ao capitão e   ao retornar olhou de novo a bolsa. Estranhou, estava quase vazia. Tinha as chaves de casa, alguma maquiagem, pente, a carteira com algum dinheiro, mas, e a carteirinha azul onde ela guardava os cartões de crédito?  E o relógio de pulso e o celular? O celular ele achou perto da cama, não sabia a senha para abrir. Mas o relógio que ela prezava tanto não estava lá.  Estranho colocar o relógio para passear no navio à noite.  E os cartões?  As lojas estavam fechadas de madrugada e os bares só aceitavam dólares.

O rapaz se forçou a ir ao restaurante comer alguma coisa. A busca mencionada pelo capitão já estava em curso.  Começariam pelos andares inferiores nas alas ocupadas pelos funcionários do navio, seguindo-se as outras dependências cozinha, lavanderia e depósitos. Depois indagariam, os passageiros, cabine a cabine. Iria demorar.  E às 11:30 o navio iria atracar em Montevidéu para os passageiros descerem.

O que não descia para Jorge era o café com leite e a inocente torrada à custo mastigado. Encolhido num canto do restaurante ele tentava raciocinar.   Certamente Marilda não pulara no mar. Ninguém leva cartão e relógio para se suicidar. Por que então sumira e quem teria acionado o sinaleiro na madrugada?  E por quê?  Alguém deve tê-la visto no deck ou conversado com ela.  Parecia normal na noite anterior, alegre e encantada com a viagem até Buenos Aires. Era a viagem para comemorar o noivado selado com o lindo anel de safira e minúsculos brilhantes. Safira azul como seus olhos, lembrava Jorge. E continuou ali a pensar, a matutar hipóteses malucas que rodopiavam na mente para serem logo afastadas.   Estava claro, concluiu, ela o abandonara, como e por quais razões ele não atinava. Devia estar escondida no navio, ajudada provavelmente por alguém que ela conseguira convencer.  Sim, Marilda era insinuante, convincente e sabe-se lá que história teria tecido. Na verdade, se deu conta que sabia pouco sobre ela. Disse que seus pais haviam falecido, que crescera em Mato Grosso, criada por uma tia que também já morrera.  Era real ou ela criara essa fábula para ele?

Essas constatações fizeram Jorge sentir-se ainda mais desalentado. Devagar, cambaleando chegou à cabine.  Olhou em volta, a mala de Marilda com as roupas e sapatos estava lá e o celular que ele iria entregar ao capitão.  Nada mais. Então lembrou. Claro. O cofre, tinha esquecido de verificar...  Apenas os dólares tinham sumido, seus próprios documentos lá estavam.  Bem lá no fundo viu o estojo vermelho do anel de noivado e um papel dobrado. Um bilhete... Finalmente!
― Querido Jorge.  Perdão, eu não sou alguém com quem você gostaria de casar. Não sou Marilda. Tenho outro nome e profissão.  Gostei muito de você, cheguei a me enganar acreditando que poderia abandonar a minha profissão. Desaparecerei em Montevideo. O anel está aí. Nosso tempo juntos foi maravilhoso. Obrigado por tudo.  Os dólares lhe serão reembolsados quando chegar ao hotel em Buenos Aires.  Mais não posso falar. Adeus!

 

Segredo de Família - Yara Mourão

 




Segredo de Família

Yara Mourão

 

Cinquenta anos é muito pouco para a alma ferida.

O tempo que corre de dia está sempre parado na hora de adormecer. Assim, Antonieta marcava, entre sonhos e sobressaltos, sua cronologia do desespero.

Foi um acidente, sabiam todos. Tenório Trindade morreu matado de tiro no curral de sua fazenda. Foi uma tragédia premeditada, uma perda lamentável. O homem era justo, esforçado. Lutara anos para ter aquelas terras fecundas e seu gado premiado. Quando pensou em herdeiros para seus bens, escolheu a moça mais bonita da cidade para ser sua esposa.

Tudo começou quando o tiro do velho Alvelim, no meio da discussão, jogou por terra anos de esforços, de benfeitorias, de felicidades.

Na família de Antonieta, ninguém falava do ocorrido; todos se calavam quando o assunto chegava às portas da fazenda do velho Alvelim. Ela guardava os fatos e as dores nas profundezas de seu coração. Um coração acostumado aos revezes da vida, ao exercício ingrato de criar, com seus filhos, um filho intruso pelo acaso. Todo dia, ela amaldiçoava os céus por isso.

Antonieta vivia suas emoções embalada pelos caprichos da natureza: nos invernos longos e secos, os sentimentos como que hibernavam e ela dava rumo aos seus afazeres; nos outonos coloridos e primaveras sossegadas, ela plantava e colhia, cuidava da criação. Mas era quando os dias tórridos e longos chegavam, assolando a vida com lembranças e pressentimentos, que tudo vinha assombrar Antonieta: aquele acidente horrível com o Trindade… o desamparo da viúva às vésperas de parir um filho… o inusitado acolhimento da criança por Antônio, seu marido, como que para mitigar o crime cometido por seu pai.

Por que isso foi tido como necessário naquele tempo? Eles já tinham três filhos e a viúva de Trindade era jovem e de boas posses. À época, Antonieta sabia, ela também se apiedara. Só anos depois, após suas cismas e desconfianças, juntando fatos, encontros e desencontros, é que a semelhança se instalou.

Antônio era o pai da criança.

Essa foi a pedra que selou os lábios de Antonieta, secou seus olhos, gelou seu coração.

Haroldo, Simone e Lauro cresceram soltos pela fazenda, ao lado dos peões e do pequeno Edgard. Só tardiamente frequentaram a escola do lugarejo. Os quatro estavam sempre juntos, envolvidos na lida do campo. O trabalho era muito, mas a falta de condições era maior. Muitas dívidas acometiam Antonieta. Também por isso ela se maldizia e blasfemava.

Então, houve um dia em que dois cavaleiros chegaram às portas da fazenda, buscando por Antônio Alvelim.

Ela recebeu-os à porta com sua habitual tristeza: “O que queriam? De onde vinham, tão sem saber da vida dela e da morte de Antônio?”  Temia que viessem cobrar dívidas não pagas e negócios por terminar.

Os dois homens se achegaram educadamente. Falaram que ela não temesse, não era nada sobre dinheiro nem papéis. Era sobre gente.

Antonieta sentiu-se levada por um pé de vento. Sua cabeça rodeou, as pernas estremeceram. Ela intuiu. Pressentiu algo perturbador, mas se fez altiva.

Os homens tinham um ar severo. Eles só perguntaram uma vez:

— Onde está o filho de Trindade?

— Aqui só estão meus quatro filhos, — disse ela. Não temos nada a ver com Trindade. Deixem-nos em paz!

Mas eles não se foram. Queriam o rapaz que agora, disseram, era o herdeiro da fazenda mais rica e produtiva da região.

Antonieta já não aspirava a mais nada. Sua propriedade estava empobrecida, não havia como cuidar da criação, da plantação, da casa. Ela necessitava de ajuda, pois se perdera em negócios com os bancos, em empréstimos e dívidas impagáveis. Dizia sempre que Deus não lhe era em nada favorável…

Os homens se foram naquela tarde. Mas disseram que voltariam, pois sabiam que o rapaz que buscavam estava ali naquela casa  e tinham de levá-lo para sua real propriedade que a rica herança lhe dava por direito.

Antonieta sentiu partir-se o coração outra vez. Edgard, o filho bastardo que ela criara como um próprio filho, seria hoje um homem rico. O que ela deveria fazer para sanar tantos anos de um amor dúbio, de dor incontida? E sua urgência em ter um apoio financeiro para passar por tantas necessidades, seria isso uma ajuda? Não sabia… devia entregá-lo ao seu destino ou manter o segredo de que ele era filho de seu marido e não de Trindade? Edgard, que ela sempre chamara de filho, poderia ter um destino brilhante: dono de uma propriedade rica, com uma vida sem dificuldades como a que até então ele enfrentava, e ainda dar a Antonieta o suporte que ela necessitava.

Mas ela sabia que, se revelasse qualquer indício de sua angústia, seria um desastre. Edgard perderia o direito à herança, certamente. Um direito que na verdade ele não tinha. Como ela poderia revelar um segredo guardado por anos que a protegera de expor a vergonha por ser traída? Por esconder o constrangimento de criar como filho aquele que não era sangue do seu sangue? Como roubar a Edgard a chance de ter uma vida farta e produtiva, ainda que sob o véu da inverdade? Ela conseguiria conviver com mais esse segredo?

Passaram-se semanas. Ela mirava a estrada poeirenta com os olhos secos, vendo miragens, sofrendo as horas.

Um dia os homens voltaram. Ela os recebeu à porta. Perguntaram pelo filho de Trindade. Disseram que não sairiam dali sem ele. Antonieta sorriu entre lágrimas. Pediu que aguardassem. Chegando mais perto da cerca, chamou por Edgard. Ele veio, altivo em seus trajes de labuta no campo.

Os homens se entreolharam e perguntaram com voz firme:

— Quem é você?

— Sou Edgard, filho de D. Antonieta.

— Você é um Trindade! Viemos te buscar para tomar posse da fazenda que seu pai deixou para você.

— Meu pai está morto e essa é a nossa fazenda.

— Você tem de vir conosco, rapaz!

Edgard passou os fortes braços pelos ombros de Antonieta e respondeu:

— Minha mãe, meus irmãos e eu não sairemos daqui. Esse é o lugar que meu pai verdadeiro me deixou. Aqui me criei, aqui fui feliz. Voltem para onde vieram, porque  essa é a minha família e esse é o meu lugar!

Os homens custaram a crer. Tinham certeza de que aquele era o filho de Trindade. Mas a convicção de Edgard acabou com as dúvidas e com as certezas daqueles homens.

Antonieta se viu perdida num universo de sentimentos… mas então Edgard sabia de seu segredo? Que agora trazia um resultado tão inesperado, como a gratidão de toda a vida daquele rapaz, um menino que lhe caiu nos braços como um presságio de infelicidade?

Antonieta reconsiderou seu sofrimento de anos e anos e se viu imersa na paz que agora sentia. A verdade calada no coração de Edgard foi um bálsamo para ela. Foi o fim de um áspero amor trancafiado há décadas em seu coração. Deu graças aos céus porque agora se dera conta de que seu segredo lhe trouxera, enfim, o prêmio mais esperado nessa vida: o da sua reconciliação com Deus!

 

 

O avô - Sulcos de um passado - Carla Di Sessa

 

 




O avô

Sulcos de um passado

Carla Di Sessa

Pina estava com o coração apertado, mas, mesmo assim, tinha distribuído as tarefas: os filhos iriam cuidar das roupas, ver o que queriam ou que os netos queriam e o resto deveriam encaminhar para o dr. Macedo. Gustavo e ele eram tão amigos, Pina sabia que Gustavo ajudava o dr. Macedo em suas obras assistenciais e, portanto, ela achava que Gustavo gostaria de ver suas coisas indo parar nas sábias mãos do amigo. A ordem era deixar os armários vazios. Perguntaram se ela não queria guardar alguma coisa de lembrança do marido e ela respondeu que já havia separado o que queria.

A filha, Antônia, advogada, se encarregaria da escrivaninha e da estante: deveria separar a papelada, os documentos, guardar o importante, descartar as bobagens, escolher os livros. E deveria designar alguém para cuidar dos remédios e coisas de higiene pessoal. Talvez o Dr Macedo também tivesse um bom destino para aquelas coisas.

Ela, Pina, ia cuidar das caixas de fotografias, das cartas e das bugigangas acumuladas ao longo dos anos.

Os filhos perguntaram se ela não gostaria de esperar um pouco mais para fazer aquilo, mas Pina sabia que tinha que fazer logo ou começaria a perder a coragem de mexer nas coisas de Gustavo. Além disso, queria aproveitar a ajuda dos filhos que logo iriam embora, de volta às suas vidas.

Abriu uma caixa qualquer para começar e se deparou com centenas de fotografias: de Gustavo no colégio Arquidiocesano onde havia estudado, fotos da família dele, fotos da época do CPOR, convites de bailes de formatura, fotos dos pais dele no dia do casamento. A mãe dele, Dona Elvira, tinha sido muito bonita, tinha muitos pretendentes, mas os pais dela a casaram com um homem baixinho, gordinho, nato in Italia e 17 anos mais velho que ela chamado Enrico. Ele era muito vivo, alegre, rico e pelas histórias que contavam, havia conquistado a todos, menos aquela mocinha que deveria se casar com ele e que, vestida de noiva ao estilo dos anos vinte, olhava da foto direto para quem olhasse para ela, um olhar duro e frio.

O sogro, oriundi como ela, Pina, Giuseppina. Juntos, cantavam antigas canções da Bella Italia e ele adorava quando Pina ia para a cozinha preparar orichietti ou Zeppole di San Giuseppe (*) para o dia dos pais. Pina adorava aquela proximidade com o sogro, mas tinha que reconhecer, aquilo não ajudou muito na relação com a sogra.

Passou para a próxima foto. Bene, guarda questo, espantou-se. Era uma foto de uma mulher fazendo pose de Femme Fatale e vestida ao estilo de Hollywood dos anos 30 / 40: o vestido bem colado ao corpo acentuando todas as curvas, um turbante na cabeça, uma das mãos no quadril e um sorriso iluminado no rosto. Atrás da foto estava escrito: Al mio caro amore, Elena.

Então quella era a tal Elena. A sogra, D. Elvira, nem podia ouvir falar naquele nome. Mas não devia ser por ciúme, já que a convivência di quelli due incluía tudo menos amor. Quando o assunto era Elena, as pessoas se calavam, sorriam sem jeito e alguém desviava a atenção para outro assunto qualquer. Mas a história que se contava a meia voz pelos cantos era que uma noite um homem tinha aparecido alta madrugada e chamado por Enrico. Desculpou-se e disse que havia uma mulher insistindo muito em falar com ele. Enrico saiu para a escuridão junto com o tal homem e foi resolver o assunto. Voltou algum tempo depois e chamou Elvira. Ela se levantou assustada, Enrico nunca a envolvia nesses momentos. Foi até o vestíbulo. Enrico e o homem estavam lá e este tinha nos braços uma criança, enrolada em trapos.

Chame Das Dores e mande que cuide da criança, disse Enrico.

Mas quem é, o quê..., ela começou.

Domani, ele disse, domani.

Das Dores foi chamada e se ocupou da criança. Elvira foi para o quarto.

Você pode me explicar o que está acontecendo?

Domani, ele disse novamente.

Mas, na verdade, Elvira sabia que provavelmente nunca mais conversariam sobre aquilo novamente.

 

Na semana seguinte Enrico mandou preparar um quarto para aquela criança, que passou a viver ali com Das Dores.

Alguns dias depois entregou uma certidão para Elvira: a criança, um menino, era agora filho deles, como estava escrito no papel e não se falava mais nisso.

Chamava-se Gabriel Pedro Henrique João.

Nome de príncipe para uma criatura que chegara enrolada em trapos na calada da noite.

 

 

Al mio caro amore, Elena.

 Mas quem seria o tal amore, seu sogro?  Ora mai, que importância tinha aquilo agora? D. Elvira e o sogro já tinham morrido e provavelmente a tal Elena também. E o filho deles se chamava Gustavo, seu marido recém falecido, e não Gabriel Pedro Henrique João. Cada coisa que o povo dali inventava...

 

Eventualmente todas as coisas de Gustavo foram organizadas e encaminhadas. Dele ficaria a saudade, a lembrança do cheiro de cigarros e do som das botas no chão de madeira.

 

 

Algum tempo depois, de novo na calada da noite, alguém chamou do lado de fora da casa. A voz chamava por ela. D. Giuseppina, D. Giuseppina!

Ela se levantou, vestiu o peignoir e foi ver o que estava acontecendo.

Que succede, quem está aí?

Sou eu, Torquato. D Giuseppina, desculpe, seu Gustavo... não estando, a senhora entende, só me ocorreu chamar pela senhora.

Mas o que foi?

Mandaram chamar porque tem uma senhora já nas últimas querendo ver o seu Gustavo. Ela está insistindo muito.

Dio Santo, uma sensação de déja vu esfriou o coração de Pina.

Una donna? Quem?

Não sei, não senhora. Só mandaram dizer para ir logo, ela é muito velhinha. É melhor a senhora ir, pode ser importante.

Onde é? Onde está essa pessoa?

Na casa do dr. Macedo.

Está bem, eu vou. Espere um instante que já volto.

 

 

Chegaram à casa do Dr Macedo que os recebeu na porta.

Pina, ele disse, é Elena, você sabe quem é, não? Ela pediu para ver Enrico, ela há anos está perdida dentro das próprias memórias, alienada de tudo. Bem, pensei que talvez você não se importasse de vir até aqui e dar um pouco de conforto...mas, se não quiser, tudo bem. Pode ir embora, eu vejo aqui como encaminho as coisas...

No, va bene, vou entrar, decidiu Pina.

No quarto, Dr. Macedo colocou uma cadeira ao lado da cama e pediu para Pina se sentar.

Quando Pina se sentou, a senhora agarrou a mão dela e disse: il bambino, come sta il bambino?

Criança? Que criança?

A que Enrico levou embora. Il mio bambino, mio tesoro, mio amore.

O coração de Pina deu um pulo! Então era verdade! Pina olhou para o médico pedindo ajuda para entender o que estava acontecendo.

A mulher olhou para ela e disse: Elvira, ele não é filho de Enrico, você sabe, não é? Ele disse que ia te contar. Mas é meu filho, mio bambino. Elvira, ele te contou, não é?

Pina ficou olhando para a parede atrás da cama da mulher e não respondeu.

Dio Santo, cosa faccio adesso? O que devo fazer agora?

Olhou para o Dr Macedo e perguntou baixinho: é Gustavo, não?

O médico balançou a cabeça.

Então Gustavo não era filho de Elvira e Enrico? Elvira sabia? E mais importante, Gustavo sabia?  Dio Santo!

Elena, Pina disse suavemente, il bambino sta bene, stai tranquilla. Ora riposati.

A senhora fechou os olhos e pareceu adormecer.

Dr. Macedo fez sinal para ela.  Saíram do quarto e foram para a sala.

 

Gustavo e Pina foram para a cozinha. Ali, ele preparou café e os dois sentaram-se à mesa.

Sabe Pina, naquela época Enrico mandava e desmandava nestas paragens e ajeitava a realidade à sua volta da maneira que melhor lhe aprouvesse. Ninguém questionava, pois sabiam que, bem... Enrico não mantinha nenhuma pedra no próprio sapato, você me entende, não é?

Dr. Macedo estava mesmo falando de seu sogro? Aquele homem que cantava com ela e comia a pasta que ela preparava? Aquela pessoa alegre e sorridente que cativava a todos?

Dr. Macedo continuou: Elena e ele tiveram um caso, mas ela conheceu um outro homem e foi embora com ele. Alguns anos depois apareceu por aqui, totalmente dependente do álcool e sabe-se mais o quê e ainda por cima grávida.

Enrico ficou furioso.

Stupida, stupida! Ele repetia.

Internamos Elena em uma clínica e ela ficou ali em tratamento até ter o bebê. Depois do nascimento, Enrico disse que ia arrumar um outro lugar para ela ficar, mas ela fugiu e passaram-se algumas semanas até ser encontrada novamente em um estado lamentável, junto com o tal homem com quem tinha fugido.

Foi então que mandaram chamar Enrico naquela noite. Quando a viu novamente naquele estado disse para ela sumir, que não queria mais saber dela, não queria nem ouvir falar seu nome. O homem que acompanhava Elena ficou furioso, foi atrás de Enrico e o atacou mas, estava muito bêbado e Enrico se livrou dele facilmente. O homem então puxou uma faca e correu na direção de Enrico que sacou uma arma e o matou.

Enrico mandou que levassem Elena embora, não queria saber para onde, qualquer lugar servia desde que fosse bem longe dali, deu dinheiro para que todas as providências em relação a ela e ao morto fossem tomadas, pegou o bebê e o levou para casa.

Elena quase enlouqueceu com tudo aquilo e sumiu. Ninguém mais soube dela até agora, até aparecer por aqui desse jeito que você viu hoje. Umas pessoas a trouxeram, eu não estava em casa quando isso aconteceu de modo que não falei com eles, não sei quem são.

O que vamos fazer Pina?

Pina pensou por alguns instantes.

Nada, não vamos fazer nada, Dr. Macedo. Enrico, Dona Elvira, Gustavo, estão todos mortos. Elena, bem, está como está, então o que poderíamos fazer? Contar essa história agora, depois de todos esses anos? Para quê? Vivemos até agora sem saber de nada e vamos continuar assim.

Estava na hora de ir embora, na verdade Pina queria ir embora. Despediu-se do Dr. Macedo e saiu para ir para a sua casa, onde tinha passado quase a vida inteira e onde estavam a maior parte de suas lembranças. Queria sair dali e ir ao encontro da tranquilidade.

Mas quando chegou lá um outro sentimento de perda, além daquele que vinha da perda de Gustavo, apertou seu coração. Pina olhou para os retratos, viu os rostos e pensou que não sabia quem eram aquelas pessoas de fato.

Uma tristeza a invadiu e olhando ao seu redor ela percebeu que nada mais era como havia sido até então.

(*) Zeppole di San Giuseppe

são doces tradicionais italianos, típicos do sul da Itália (especialmente Nápoles), preparados em celebração ao Dia de São José (19 de março), que também é o Dia dos Pais na Itália. São pequenas roscas de massa leve — semelhante à massa choux (pâte à choux) — fritas ou assadas, recheadas e cobertas com creme de confeiteiro, finalizadas com cereja em calda e açúcar de confeiteiro.