UMA ACHADINHO NO BRECHÓ
Esse tema rendeu até uma brincadeira, um mimo,
um álbum de fotos reunindo os atuais alunos EscreViver e alguns que que nos visitam às vezes. E, todos clientes do brechó:
UMA ACHADINHO NO BRECHÓ
Esse tema rendeu até uma brincadeira, um mimo,
um álbum de fotos reunindo os atuais alunos EscreViver e alguns que que nos visitam às vezes. E, todos clientes do brechó:
PRIMA DIMENSÃO
Sergio Dalla Vecchia
Após
setenta anos, resolvi buscar o passado, rumando para a pequena cidade do
interior de São Paulo, onde meus avós tinham uma fazenda.
Essa
atitude surgiu em certo dia em que a gente amanhece se sentindo nostálgico e
vai dormir filosofando. Daí a ideia de resgatar o muito que restou da minha
infância.
Cheguei
à cidade após horas de viagem, mesmo nos tempos modernos de infraestrutura
compatível.
Por
que me pareceu tão demorada? Será porque a paisagem lindeira à rodovia, antes
pitoresca, misturou o verde com o cinza concreto, embaralhando o tempo!
A
estrada, antes rápida, de terra cascalhada, não tinha a mesma rugosidade
atual, onde a poeira juntava-se ao som dos pneus no cascalho, volatilizando o
cheiro de terra ao som do veículo em movimento e as lamúrias de minha mãe pela
poeira. Sinfonia única de lembranças!
Agora
era uma via lenta de superfície lisa, sem os nuances do tempo e muito
menos da minha infância. Contudo, dava-me a impressão de que o carro era mais
veloz. Puro engano!
A
terra continuava onde sempre esteve, o campo, as árvores e os rios sempre foram
os mesmos e minhas lembranças eternas, então para que medir o tempo! Seria
possível tal ousadia?
Continuei
filosofando e, já na praça principal da cidadezinha, lá estava a mesma igreja.
O mesmo jardim bem cuidado e a torre do sino. Logo lembrei-me das vigorosas
badaladas diárias do sino, pontualmente às 18h. Elas proclamavam o povo para a
Ave Maria até que o sineiro cansasse de tanto puxar e soltar a corda.
Olhei
para o relógio e, coincidentemente, ele marcava 18h.
Então,
blém, blém…! Não foi como antes, a sonoridade era frágil, parecia que o sineiro
não tocava o sino e sim o sino era que o arrastava. Talvez porque o tempo
passou e seus movimentos já não tinham o vigor necessário e ele quisesse mesmo
era subir aos céus ao som místico do sino.
Confuso
entre o passado e o presente, sentei-me em um banco do jardim próximo ao
coreto. Lá fiz uma análise de minha vida e concluí que:
Das
áureas recordações dessa minha infância, só me resta guardá-las com muito
carinho e gratidão por vivenciá-la com plenitude.
Já
não sou mais o mesmo, tudo ficou lento, os sentidos, os órgãos e as aspirações,
porém insistirei em viver, pois convicto sei que minha infância não almeja que
eu amadureça e caia como um fruto qualquer. Ela é minha energia!
Assim,
o dia acordou com um longo suspiro.
Não
sei se foi com o meu ou o de minha alma!
Bom mesmo é saber levar a vida.
Ledice Pereira
O toque do celular anunciava a Marcia que era hora de levantar-se. Escolhera uma música que lhe recordava a infância, quando sua mãe a acordava cantando. Muitas vezes, já acordada, esperava pelos acordes que soavam pontualmente às 6 horas.
Entrou no banho com os olhos semiabertos, acordando aos poucos e olhando pela janela para sentir como estava a temperatura daquele outono recém-chegado.
O banho quentinho a abraçava, revigorando-a. Tornando-a pronta para enfrentar a maratona diária.
Costumava deixar tudo pronto na cozinha para facilitar e agilizar a refeição que mais gostava de tomar. O cheirinho do café, passando no coador, alimentava-lhe a alma.
Café tomado, saía sorrindo para todos que encontrava e agradecia a Deus por mais aquele dia.
Duas quadras a separavam da estação de metrô. A rotina diária apresentara-lhe todos os metroviários que ali exerciam sua função. Ia distribuindo sorrisos para eles que lhe acenavam.
Acomodada, construía histórias sobre os usuários com quem dividia o percurso, muitos deles habituais.
Observava cada um com seus respectivos cacoetes: aquele senhor, que lembrava muito seu avô, ao bater longos papos consigo mesmo, sem se importar com os demais, gesticulando energicamente, à medida que conversava sozinho. Talvez estivesse treinando para enfrentar uma conversa séria, ou então resolvendo um assunto importante.
Havia o jovem que fingia dormir sempre que notava a entrada de um sessenta mais. Engraçado que nunca perdia o ponto de descida.
Conhecia bem a paqueradora, que suspirava, procurando chamar, em vão, a atenção de um bonitão ao lado.
Mas o que mais Márcia admirava eram as mães, que carregavam seus filhos no colo, ao mesmo tempo que equilibravam sacolas e brinquedos junto da bolsa que levavam rente ao corpo. Isso quando não levavam um bebê no colo e outro pequeno emburrado pela mão e todas as sacolas, bolsas e mochilas como se fossem um polvo com todos os seus tentáculos.
E “aquele” continuava fingindo que dormia;
Era tanta história a chamar a atenção que, quando percebia, já estava na hora de descer do vagão.
Assim, aquela rotina deixava de ser monótona e fazia com que ela chegasse ao trabalho lépida e de bom humor.
Fazia, como se dizia, de um limão azedo, uma deliciosa limonada!
O Joaquim, motorista de ônibus
Isabella Brancher
Eram 5h50 da manhã, o sol ainda não tinha se levantado e as nuvens baixas cobriam boa parte da cidade. Não havia escolha, Maria tinha que se levantar. O frio do chão percorreu a sua espinha quando se dirigiu ao banheiro. Ainda caminhava cambaleando, cheia de sono. A cidade começava pouco a pouco a acordar. Os sons dos automóveis, buzinas e freadas se faziam mais presentes. Os cachorros abanando os rabos vigorosamente passeavam pelo quarteirão. Era a revelação de que um novo dia se iniciava.
Tinha apenas 20 e poucos minutos para se aprontar; o café, já deixado pré-preparado na cozinha, agora enchia a casa de energia. Um despertar forçado. Saboreou, como de costume, deixou a caneca na pia e desceu. No ônibus, alguns rostos conhecidos faziam o mesmo percurso.
O motorista, Joaquim, a recebia sempre com um caloroso e sorridente bom dia no momento em que ela subia o primeiro degrau. Nesse momento, ela se sentia leve, como se flutuasse, e os degraus deixavam de ser tão altos.
Sentada, sempre nas primeiras cadeiras, observava com atenção os passageiros recorrentes. Procurava ser discreta, mas passava o percurso a explorar cada um dos companheiros de viagem. Imaginava a senhora que subia no ponto seguinte aonde ela iria, o que faria. Tinha o rosto marcado pelo tempo, as costas levemente curvadas e sempre carregava uma sacola térmica.
Outro passageiro habitual era um jovem rapaz que carregava um instrumento musical em um case. Ele usava umas costeletas compridas, a barba maltratada, e suas roupas eram sempre largas. O tênis, um all star de cano alto, compunha o visual dele, parecia esquecido no tempo. Com um olhar perdido, passava o caminho a dedilhar alguma música sobre sua coxa.
Maria gostava mesmo de observar o motorista, tinha uma queda por ele. Aquele bigode farto preto, as meias alinhadas sob as calças, os sapatos sempre bem engraxados. A camisa, impecavelmente passada. Tudo isso a impressionava. Esbanjava cultura. Queria descobrir de onde vinha. Por que estaria dirigindo aquele ônibus? Quem cuidaria tão bem de sua roupa?
Maria seguia até o ponto final e, durante todo o trajeto, permanecia a observar os passageiros, os habituais, e também os aleatórios. O único momento em que parava de observar os passageiros era quando passavam pela rua que costeava o mar. O mar a fascinava, o azul profundo, a espuma branca ao bater nas rochas e a areia clara traziam serenidade. Muitas vezes pensou em ali descer e correr pela areia, mas sempre se deteve. Estava a caminho do trabalho e não poderia se atrasar.
Dias, semanas se passavam nessa rotina, em muitas viagens Maria se sentia pequena, às vezes invisível. O espaço a oprimia. Hoje se sentia diferente. A atmosfera parecia mais doce, colorida. Ao passar pela costa, o ônibus parou numa reentrância da orla. Joaquim desceu de seu posto, olhou para todos os passageiros. Pediu desculpas. Caminhou lentamente em direção a Maria. Suas pernas tremiam, seu rosto se iluminou. Maria, por sua vez, sentia um calor subir no seu rosto, um nó na garganta, um certo medo. Joaquim tirou do bolso uma pequena caixa, a abriu, nela continha um belo anel. Mostrou a Maria e, sem nunca ter dito mais que um bom dia, se dirigiu a ela e disse: Casa comigo?
O som do sino
Carla Di Sessa
O sino da igreja batia pontualmente às seis da tarde todos os dias.
Marcelo ouviu e estranhou. O som parecia, assim, desanimado, não tocava com seu costumeiro entusiasmo. Normalmente tocaria imperioso, lançando seus acordes aos quatro cantos do bairro. Para Marcelo, aquele badalar sinalizava que o dia se encerrava, que ele havia cumprido suas obrigações e que podia ir para casa ver sua família. Começou a organizar suas coisas meticulosamente, pois Marcelo era um homem que valorizava ordem e disciplina, mas algo chamou sua atenção. Ele parou o que estava fazendo e prestou atenção no som do sino que pairava sobre todo o seu escritório. Naquele dia, pareceu a ele que o sino se entristecia ao sinalizar que sua vida monótona e rotineira, como a dele, havia atravessado mais um dia.
Joana ouviu o sino da igreja tocar e pensou: Graças a Deus, seis horas, posso ir embora. Guardou suas coisas e parou em frente ao espelho para checar o cabelo e o batom. Foi aí que notou algo diferente naquele som que escutava desde criança: estava mais austero, menos espalhafatoso. Mas a razão dessa diferença não era importante para ela. A única coisa que lhe interessava era que aquele som, alto ou fraco, desanimado ou escandaloso, marcava a hora em que, finalmente, podia ir se encontrar com Maurício e se perder com ele nas dobras do lençol da cama, sentindo seu cheiro e seu gosto. Sem pensar duas vezes, pegou sua bolsa, apagou as luzes e saiu trancando a porta atrás de si.
Ah, droga, disse Quinzinho ao ouvir o sino da igreja tocando. Aquele som sinalizava que ele devia se despedir de seus amigos e do futebol que estavam jogando para ir para casa ter aula de piano com Dona Glaucia, uma senhorinha simpática, mas rigorosa, que fazia Quinzinho repetir infinitamente as escalas e arpejos. Quinzinho percebeu algo diferente no som do sino naquele dia, parecia triste por encerrar a sua diversão. Se está arrependido, pensou Quinzinho mal-humorado, podia não tocar e me deixar aqui, feliz, jogando meu futebol. Despediu-se dos amigos e saiu correndo para sua casa.
Isabel ouviu o som do sino e
pensou estar atrasada, logo a família estaria em casa e seu sossego acabaria.
Precisava organizar o jantar, pôr a mesa e se arrumar para o marido, que
gostava de encontrá-la linda, cheirosa e bem arrumada, como se ela fosse uma
espécie de Cinderela que, cantando, cuidava do lar, ajudada por passarinhos e
ratinhos. Isabel sentiu algo diferente no som do sino naquele dia, como se ele
também estivesse com preguiça e não quisesse acabar com o próprio sossego. Logo
ele, pensou, imperioso, pontual, infalível. Um chato de galocha que não podia
deixar um único dia simplesmente passar sem bater seu ponto sonoro às seis da
tarde.
O relógio cuco
Isabella
Brancher
João acabava de
chegar do basquete. Suado, como de costume, jogou os tênis e a sacola no canto
do quarto e sentou-se para ler mais um conto de Sherlock Holmes. Tinha
um fascínio pela capacidade lógica de Holmes. Sabia que seu ídolo era apenas um
personagem, mas, sempre que o tempo permitia, corria para devorar mais uma
história.
Naquela tarde
cinzenta de outono, tentando recuperar as energias enquanto lia, percebeu que
algo faltava na prateleira sobre a mesa de estudos. Pensou consigo mesmo: o
que estaria faltando? Teria sido apenas imaginação? Intrigado, levantou-se
e notou a poeira intacta no local onde antes repousava um objeto. Sim,
definitivamente algo havia sido retirado dali. Tentou puxar pela memória, mas
nada lhe vinha à mente.
Desceu
as escadas, serviu-se de um copo de leite e, subitamente, lembrou: era o
relógio antigo que ganhara do avô quando ainda era pequeno. Quando funcionava,
ao soar da hora cheia, uma pequena portinhola se abria e dela saía um pássaro
que cantava. Agora, restava apenas a lembrança daquele som marcando o tempo.
Ao
ouvir a porta da casa se abrir, correu ao encontro de quem chegava. Era o pai.
—
Pai, você levou meu relógio para consertar? — perguntou, sem conseguir conter a
ansiedade.
Surpreso,
o pai respondeu:
—
Não. Há semanas não entro no seu quarto.
Eles
haviam discutido por causa da constante desordem no espaço do filho, e o pai
prometera manter distância dali.
João
começou então a vasculhar os armários da cozinha, na esperança de encontrar o
relógio. Não satisfeito, procurou também no escritório do pai. Quando a mãe
chegou, fez a mesma pergunta.
—
Procure melhor — respondeu ela. — Se você fosse mais organizado, saberia onde
está o relógio.
Inconformado,
João decidiu tomar uma atitude. Recolheu as roupas sujas, guardou os objetos
espalhados, arrumou a cama e sentou-se para observar o quarto com mais atenção.
Ao pegar os tênis, percebeu restos de barro no chão.
—
Teriam vindo dos meus tênis? — pensou. — Não é possível. São de basquete, nunca
pisei na terra com eles.
Isso
o levou a uma conclusão inquietante: alguém havia estado ali.
Ligou
para a avó na esperança de encontrar alguma pista, mas sem sucesso.
Restavam-lhe apenas os fragmentos de barro como indício. Quem teria entrado em
seu quarto? E como? Exausto, física e emocionalmente, deitou-se e acabou
adormecendo.
Na
manhã seguinte, dia de escola, levantou-se e se aprontou. A luz do sol invadia
o quarto, iluminando os cantos que a noite mantivera ocultos. Próximo à porta,
algo brilhava. Engatinhando até o local, encontrou um brinco: uma argola
dourada com um pequeno brilhante na ponta.
De
quem seria?
Pensou,
pensou, mas nada lhe ocorreu. Com o brinco na mão, correu até a mãe e perguntou
se era dela. A mãe logo afirmou: não é meu. Eu os presenteei à sua prima no
último Natal.
Foi
então que se lembrou de que Priscila estivera em sua casa no aniversário do
pai.
Após
a escola, seguiu diretamente para a casa da prima. Ela ainda não havia chegado,
mas a tia o deixou entrar para esperar Priscila. Dizendo precisar ir ao
banheiro, João foi até o quarto de Priscila — e ali, sobre a mesa de cabeceira,
estava o relógio cuco.
O
coração disparou.
Por
que Priscila teria feito aquilo?
Horrorizado,
desceu correndo as escadas e deu de frente com a prima, que acabara de chegar.
João segurava o
relógio com força. Precisava ficar com ele. Mas como pedir isso sem causar um
escândalo na família? João respirou fundo. Não adiantaria gritar ou acusar.
Lembrou-se de Holmes: acusar sem provas é perder a vantagem.
— Priscila… —
disse, tentando manter a voz firme — posso te mostrar uma coisa?
Ela estranhou o
tom sério, mas assentiu. João abriu a mochila e colocou o relógio cuco sobre a
mesa da sala, entre os dois.
— Esse relógio
era do meu avô. Ontem ele sumiu do meu quarto… e hoje eu o encontrei no seu.
O silêncio pesou
por alguns segundos. Priscila empalideceu e, com a voz trêmula, disse:
— Eu… eu ia
devolver — murmurou. — No dia do aniversário do tio, eu vi o relógio. Ele
estava largado, sujo de poeira. Pensei que ninguém mais ligasse pra ele. Levei sem
pensar… Depois me arrependi, mas não tive coragem de devolver.
João sentiu um
misto de alívio e tristeza.
— Eu não quero
que isso vire um problema na família — disse, com suavidade. — Só precisava
entender. Esse relógio é importante pra mim, mesmo quebrado.
Priscila
assentiu, com os olhos marejados.
— Desculpa,
João. De verdade.
Ele fechou o
relógio com cuidado e colocou de volta na mochila.
— Vamos deixar
isso entre nós. Mas promete que, da próxima vez, pergunta.
Ela prometeu.
Enquanto
saía da casa, João pensou que talvez Sherlock Holmes estivesse certo: às vezes,
resolver um mistério não é sobre punição, mas sobre compreender as razões do
ato.
PRIMOS MUY AMIGOS
Sergio
Dalla Vecchia
Lucas,
adolescente vidrado em fatos e histórias misteriosas, ocupava um aconchegante
quarto no sótão da casa da família. Por opção, pediu aos pais para ter aquele
lugar como seu, embora o sobrado possuísse mais quartos. Foi atendido e a
decoração saiu ao seu gosto. Cortinas escuras limitavam a entrada de luz,
pôsteres de filmes policiais desalinhavam-se pelos cantos. Revistas e livros
adormeciam esparramados. Já no banheiro, a pilha era menor e como recheio
algumas revistas masculinas, que não poderiam faltar para o adolescente.
Certo
sábado, a família recebeu como hóspede um casal de tios vindos do interior,
trazendo o filho da mesma idade de Lucas para passarem ali o fim de semana.
Logo
os tios foram acomodados no quarto de hóspedes e o filho foi para o sótão com
Lucas.
Os
primos pouco se conheciam. A última vez que se encontraram tinham uns sete anos
de idade.
Assim,
Lucas, com cara de poucos amigos, acolheu o primo no seu intocável reduto em um
colchão improvisado.
Ariscos
ensaiaram um diálogo.
O
cenário sinistro causou estranheza no recém-chegado, causando-lhe um impasse.
Fugir para a segurança dos pais no quarto abaixo ou engolir em seco, evitando o
vexame.
Encheu-se
de coragem, contou até dez e resolveu ficar enfrentando o companheiro
excêntrico.
Foram
se entrosando até esboçarem alguns tímidos sorrisos e abriram a porta para a
desconfiança ir se despedindo.
Hora
de dormir! Pijamas novos de visita, vice-versa para o convidado, é o que reza o
protocolo de boa anfitriã e de visita bem-educada.
Proibido
celulares no quarto, normas da casa!
Assim,
não tiveram outra escolha senão conversarem. Lucas, entusiasmado por ter quem
dar-lhe atenção, tomou a iniciativa e em monólogo desfilou suas histórias de
mistérios, assombrações, assassinatos que pareciam não ter mais fim, causando
constrangimentos para o assustado ouvinte.
O
primo, exausto da viagem e após absorver tanto medo, não se conteve e, com os
olhos arregalados, gritou:
—
Chega de tantas lorotas e arrogâncias. Você só conta histórias que outros
vivenciaram. Você não tem a mínima noção do que é ser o protagonista de um
fato. Uma hora ainda te ensinarei como ser um. Virou-se no colchão e rosnou um
até amanhã!
O
domingo acordou e os primos foram até jogar bola na grama, mas logo foram
chamados para o almoço, não deu nem tempo para se desentenderem pela disputa de
bola.
Após
o lauto almoço, os visitantes despediram-se e embarcaram no automóvel de volta
para o interior.
Pelo
vidro de trás do veículo via-se a silhueta do primo com olhar fixo no Lucas,
fazendo aquele sinal característico com uma mão fechada, outra aberta e uma
batendo na outra. Top, top e top!
Pego
de supetão, Lucas ligou no automático e devolveu o cumprimento com o dedo médio
em riste.
Assim,
cada um foi para seu lado após uma despedida pouco diplomática.
Logo,
o domingo cansou e lá se foi Lucas para o sótão dormir.
Ainda
com a imagem do primo caipira na cabeça, levantou a coberta da cama e deparou
com uma caixinha de presente muito bem arrumada contendo um bilhete. Tratou de
lê-lo e dizia:
“Você
que gosta de mistérios, adivinhe quem foi o fabricante desse mimo?”
Lucas,
curioso, tateou a caixinha, era pesada, não fazia barulho e estava muito bem
lacrada. Buscou um estilete e, curioso, rasgou o invólucro, pressentiu algo
estranho, não deu tempo de reagir e um fedor tomou conta do ambiente. Tapou as
narinas, virou rapidamente o rosto com náuseas e logo entendeu o recado.
O
primo lhe ensinou como ser protagonista, conforme havia dito.
—
Lição aprendida, juro que vai ter volta, seu merdinha, praguejou Lucas, fedido
e vermelho de raiva!
SATURAÇÃO
Sergio Dalla Vecchia
Havia
uma pequena cidade. Pitoresca, o pouco que cresceu foi se afastando do rio que
lhe deu guarida desde pequena vila. Assim foi se expandindo, pequenas ruas
foram surgindo, dando início a uma urbanização improvisada.
Habitavam
ali trabalhadores do meio rural utilizados no agronegócio da região.
Aconteceu
que o modesto rio que ali coabitava já não era mais o mesmo que tanto colaborou
para a formação da cidade.
Mostrava-se
ranzinza, por vezes inflava-se de orgulho ferido, mostrava os dentes através de
pequenos transbordos nas margens para defender seu território.
Era
evidente seu desconforto com o crescimento atabalhoado de ruas sem critério,
bem como o desmatamento de áreas lindeiras ao seu leito visando a ampliação da
cidade.
Quando
chovia forte na região onde a mãe terra lhe deu à luz, seu sangue cristalino
aumentava muito, borbulhava de ansiedade. Porém, já não era mais puro como
antes e sim barrento.
Com
o passar do tempo, a cidade resolveu cerceá-lo dos seus direitos, confinando-o
entre muros, formando um canal áspero, sem poesia, retificando suas curvas e
travando sua cintura. Além disso, os dejetos das casas foram lançados sem o
mínimo pudor no seu sangue barrento, tornando-o cinza esgoto.
Sem
jogo de cintura e sem perspectivas, a paciência o abandonou!
Assim,
em certo mês de março, ele, não aguentando mais tanto desaforo, rebelou-se!
Aproveitou
o ritmo das águas de março, levando o verão do Jobim, alastrou todo seu sangue
ora impuro por toda a cidade.
Não
sobrou nem pau, nem pedra, só restos de tocos por todos os caminhos!
A AMIGA
Carla Di Sessa
O lugar não era muito grande, cheirava a fechado, livros velhos e umidade.
Sentada no chão frio, ela olhava fixamente para um abajur, único ponto de luz disponível, como se sua luz pudesse aquecê-la.
Ela não sabia ao certo há quanto tempo havia sido levada para lá pelos vizinhos que a estavam ajudando.
Você vai ficar aqui por alguns dias, disseram, até conseguirmos uma maneira de você fugir.
Eles também explicaram que havia um banheiro e que trariam comida e água, mas ela precisava ser cuidadosa e economizar no caso de, por qualquer razão, eles não conseguirem fazer a entrega.
Conseguia perceber cheiros que normalmente a agradariam, como o dos livros antigos espalhados nas prateleiras em uma das paredes. Mas, nessa situação, eles só conseguiam despertar nela a sensação de abandono.
Havia quadros também: uma natureza morta, morta no estilo e no esquecimento, e outro, pequeno, de uma dama antiga sentada segurando um leque. Talvez por causa desse detalhe a imagem trouxesse alento e frescor. Olhou atrás desse quadro e encontrou um nome: Senhorita Amélia Fernandes.
Havia encontrado uma amiga nesse lugar sombrio como um pesadelo.
“Amélia”, ela começou, fitando a figura no quadro, “olha, não quero te assustar, mas preciso te avisar. Acho que tem perigo escondido embaixo de cada pedra do chão, atrás dessa porta, enfiado no meio dos tijolos das paredes. E ainda por cima, ainda tem o perigo que mora dentro da nossa cabeça e que estende seus tentáculos, como um polvo, por todo lado. A gente não pode deixá-lo tomar conta, entende? Você entende, Amélia?”
E continuou, mais tarde:
“Aí, Amélia, temos de estar o tempo todo em alerta. Temos que dar a cada coisa uma defesa, mesmo que seja frágil e que precise de reparos a toda hora”.
“Se há esperança, você quer saber? Sei lá, eu diria que sim, embora eu sinta que nossas vidas estão, como vou te explicar, na corda bamba, sabe?”
Respirou fundo e continuou:
“Você está com medo, Amélia? Eu também estou, mas vou tentar manter esse medo submerso à força. Você deveria tentar fazer a mesma coisa. Sim, Amélia, é mesmo uma solidão sem fim, um passo antes do desespero”.
Nesse momento, a porta se abriu e alguém entrou apressado dizendo:
Rápido, vamos embora, rápido, vem!
Ela olhou para Amélia na parede e, sem pensar, pegou o quadro e saiu.