DOMINGO CONVIDATIVO
Sergio Dalla Vecchia
Rodrigo pulou da cama às 5h da manhã daquele domingo tão esperado. Eufórico, sugou um copo de leite gelado, engoliu um pão com queijo, juntou a mochila montada na véspera e partiu para aproveitar o domingo que tinha previsão de tempo bom. O plano era percorrer uma trilha na reserva florestal próxima à sua cidade. Havia promessas de cachoeira para lavar a alma, vista de macacos pulando em bando pelas copas das árvores, cigarras cantando e pássaros colorindo o ambiente.
Nessa expectativa, chegou ao ponto de partida da trilha, onde havia um estacionamento e um barraco chamado de bar.
Enquanto olhava a placa com o mapa, não percebeu a presença de uma moça, que logo fez-se notar pelo perfume e magnetismo vibrante.
─ Oi, bom dia, você vai encarar a trilha?
─ Sim, já estou de partida e você também vai?
─ Pretendo, mas agora bateu um medo de enfrentá-la sozinha.
─ Ora, se for só por isso, venha comigo. Tenho experiência em trilhas e posso ajudá-la.
Após titubear por instantes, pensando com prudência, mas o espírito da aventura soprou nos seus ouvidos e a induziu a abrir um largo sorriso e dizer:
─ Se você me aceitar, irei com você, não poderia perder essa oportunidade.
─ Que legal então, meu nome é Rodrigo e o seu, qual é?
─ Muito prazer, Mariana.
─ Já que agora nos conhecemos, vamos para a trilha de uma vez!
Rodrigo partiu à frente, seguido de perto por Mariana.
A manhã saiu das cobertas e logo mostrou toda sua luz.
Os sons vivos da floresta substituíam em muito para melhor as músicas urbanas dos celulares.
O casal recém-formado entrou em sintonia em marcha cadenciada.
Rodrigo tinha como principal objetivo chegar ao lago da cachoeira. Isso era fácil pela sua experiência. O difícil, idealizava ele, era como convencer Mariana a nadar com ele.
Já os pensamentos dela eram receosos, embora ela tenha tido uma boa impressão dele durante diálogos pela trilha. Entretanto, ele era bonitão e lhe causava atração física, podendo interferir na balança do bom senso.
Sol quase na vertical indicava que era perto de meio-dia e significava, pelo planejamento de Rodrigo, que a cachoeira estava próxima, dava até para ouvir o som das águas em queda.
Enfim chegaram.
Rodrigo logo escolheu um lugar adequado para descansarem, nadarem se fosse o caso e depois comerem os suprimentos das mochilas.
Já fazia calor e os dois, ainda ofegantes, transpiravam hormônios. Rodrigo propositalmente pediu licença para tirar a camisa e ela, também acalorada, embora inibida, resolveu tirar a blusa, ficando de bustiê.
Assim, o casal se hidratou enquanto degustava uma barra de cereais.
Já descansados, Rodrigo criou coragem e disse para Mariana que estava muito calor, que iria dar um mergulho, enquanto esperava ansioso uma resposta dizendo que também iria.
Ela ficou pensativa e respondeu que ele fosse e ela ficaria tomando sol.
Não era bem o que Rodrigo esperava, então apelou para o plano B. Causar medo!
─ Mariana, não é seguro você ficar sozinha, há relatos de ataques de javaporcos andando por aí e eles são muito ferozes.
─ Eles podem nos atacar? Perguntou ela, assustada.
─ Sim, acho melhor você entrar no lago comigo, lá dentro fica mais difícil para eles, caso apareçam. Também há uma pedra alta, onde poderemos nos abrigar, pois eles não conseguem escalar.
O plano deu certo!
Entraram no lago, ela assustada não desgrudava dele e assim foram se abraçando, ela se acalmando e logo surgiu a primeira carícia.
Aconteceu que Mariana, abraçada, percebeu por sobre o ombro de Rodrigo um movimento atrás de uma moita nas margens.
─ Rodrigo tem alguma coisa se mexendo atrás de uma moita lá na beira do lago. Será o javaporco, disse ela assustada e se apertando mais no abraço. Estou com medo!
Ele virou-se e não viu nada. Convicto de que não era nenhum javaporco, pois nunca houve nenhum relato deles por ali. Foi uma inocente tática de guerra para uma bela conquista.
Não deu atenção ao fato e logo recomeçaram as carícias até que Mariana percebeu novamente o movimento da moita.
─ Olhe aí, de novo, tem alguma coisa lá na moita.
Agora Rodrigo se preocupou. Virou-se rápido e também percebeu a moita mexendo.
Nesse momento, eram dois corações acelerados no meio do lago.
Que será isso, uma pessoa, um bicho? Pensava Rodrigo, preocupado.
O que fazer? Sairiam da água e enfrentariam seja lá o que fosse ou aguardariam mais um pouco!
Optaram por ficar ali, com olhos nas margens e ouvidos atentos.
Mariana, apavorada, jurava que era um javaporco, chegou até a descrevê-lo, tamanha a imaginação sob pressão.
Assim ficaram quase uma hora no lago, mãos enrugadas e frias.
O movimento na moita pareceu sossegar, daí criaram coragem e saíram da água tremendo de frio e medo. Chegaram ao local do acampamento e só aí perceberam que as mochilas haviam sumido!
E agora, os dois seminus, ele de cueca, ela de calcinha e bustiê, sem nada para comer ou vestir. Nem os celulares ficaram!
─ Fomos roubados, como pode isso acontecer num parque estadual? Chorava e esperneava Mariana.
Rodrigo, supreso e inconformado, saiu em busca de vestígios. Coração pulsando forte, mente a mil, esperando uma surpresa a cada moita que vistoriasse e nada de vestígios pelos arredores!
Achou por bem desistir da aventura, pegar Mariana e voltar o mais rápido para o estacionamento do início da trilha.
Assim foram voltando, cada ruído, cada galho mexendo era mais um susto nos aflitos corações.
Logo escutaram um barulhão, gritos, chiados nas agitadas copas das árvores. Mais assustados ainda por presenciar uma briga de bandos de macacos. Estavam alucinados, pareciam estar disputando algo importante, tamanha confusão. Caíam galhos e coisas lá do alto.
Os dois saíram correndo, protegendo as cabeças com as mãos, até tropeçarem numa mochila aberta esparramada pela trilha.
Atordoados com a situação, logo pegaram a mochila e identificaram como sendo de Mariana. Menos mal, pensou ela, mas cadê o resto, seus macacos ladrões, joguem o resto. Gritou desesperada, já entendendo que foram os macacos que os roubaram.
Mais adiante surgiu o celular do Rodrigo, vidro quebrado, mas funcionando.
Continuaram voltando, recolhendo cacos dos objetos descartados na briga do bando.
Cansados e conformados com o infortúnio da aventura, foram se aproximando do barraco bar do estacionamento, quando de trás do bar surgiu um porco diante deles, mostrando aqueles dentes afiados com aquele ronco típico dos porcos.
A única reação do casal foi a de se jogar para o interior do bar pelo balcão que dava para o estacionamento, fugindo do ataque iminente.
Caíram de qualquer jeito no bar e deram de cara com seu Antônio gritando:
O que é isso, vocês são malucos?
Mariana logo explicou que fugiram do ataque do javaporco que estava lá fora, por isso se atiraram para dentro do bar para se protegerem.
─ Que javaporco que nada, vocês viram um leitão que encomendei de um sitiante para comer no Natal. Ele está amarrado pela pata traseira no poste e não poderia morder vocês. Ah! Esses jovens metidos a aventureiros deveriam ficar em casa namorando em vez de me causar aborrecimento. Vamos, levantem logo daí, ordenou o Sr. Antônio!
Rodrigo e Mariana levantaram-se envergonhados pela nudez e pela decepção. Se abraçaram como se namorassem há tempos e choraram pelo controverso final daquele domingo convidativo.