UM PADRE SABICHÃO - Isabella Brancher

 



UM PADRE SABICHÃO 
Isabella Brancher


Um padre mineiro, homem bonito, bem apessoado, chamou a atenção das beatas, de todas elas, até mesmo das casadas. E choviam momentos íntimos no confessionário, onde elas se derramavam de charme para cima do padre. Ele, cansado de tantas confissões, de tantas “cantadas”, estabeleceu normas que puseram ordem na cidade:

“Minhas devotas, é um prazer trazer paz ao coração de todas vocês. Mas, estou ficando cansado com o excesso de trabalho. Por isso, de agora em diante, resolvi seguir para as confissões este roteiro sempre após as missas, quando vocês e seus familiares ainda estão na igreja: aos domingos, confessarei as preguiçosas, aquelas que se irritam com a pia cheia de louças e o tanque cheio de roupas. Às segundas, as maldizentes, fofoqueiras, rogadeiras de praga, pessoas que acham que somente elas são boazinhas. Às terças, as ladras, aquelas que tiram dinheiro da carteira do esposo, que escondem dinheiro pela casa. Às quartas, as hipócritas, que se fazem de santas, que auxiliam nas feiras sociais, que fazem doações, mas que levam uma vida que ninguém sabe como chegou ao topo financeiro. Às quintas, as bêbadas, mulheres que acreditam que “mais uma” não vai alterar seu casamento. Às sextas, as feiticeiras, aquelas que vão a outros cultos diabólicos por não estarem satisfeitas com o benefício da crença católica. E, aos sábados, as comilonas, as que fingem fazer dieta, mas que comem escondido. Já as traideiras de marido, receberei sempre após a missa de sexta-feira, terminada a missa, permaneçam na igreja para confessar os pecados“. 

Naquela sexta-feira, terminada a missa, uma perplexidade geral se instalou entre os beatos. Várias famílias permaneceram sentadas, ainda tentando entender o que havia acontecido. Aos poucos, a igreja foi se esvaziando e nenhuma mulher se dirigiu ao confessionário.

Nas semanas seguintes, o assunto principal na cidade era a escala de atendimento do padre. Algumas mulheres, especialmente as que deveriam se confessar às segundas, passavam horas rondando a praça a vigiar quem entraria na igreja para se confessar, ou mesmo quem tardasse a sair da igreja após a missa. 

Em seus lares, os maridos interpelavam as esposas vigorosamente na tentativa de descobrir em qual dia da semana elas iriam à missa. Elas se mantinham caladas. Um clima de inconformismo se apoderou dos maridos, que juntos foram ter com o padre.

Elegeram três ou quatro maridos mais influentes e marcaram um horário com o padre para juntos relatar a ele o caos que havia se transformado a vida de muitos casais na cidade.

Mario, o prefeito, falou primeiro:

— Padre, por favor, poderia eliminar essa escala de atendimento? Isso vem causando um desconforto entre nossas esposas e não se fala em mais nada além disso. 

O padre prontamente o responder: 

— Calma, Sr. Mario, logo as beatas se acostumam e tudo volta ao normal. 

O Dr. João, médico antigo na cidade, que havia ajudado a dar à luz a inúmeras crianças dessas famílias, contestava a decisão do padre, dizendo: 

— Padre, não é possível, o senhor precisa mudar isso. Poderia criar uma escala aleatória sem essas adjetivações e limitar o número de confissões diárias, isso diminuiria seu volume de atendimento e a vida voltaria ao normal.

O padre permanecia inabalável, só escutava. Ao que o dono da venda, Joaquim, relatou, o seu comércio havia sido impactado, pois as mulheres não cuidavam mais dos afazeres domésticos e deixavam de ir às compras diárias. 

Mas nada do que diziam afetava o padre. 

O padre, até então silencioso, suspirou.

— Senhores… vocês deveriam se preocupar menos com a cidade… e mais com suas próprias casas. 

E continuou: 

— A sua mulher, Mario, vem agora às confissões às terças. 

— A sua, Dr. João, fica para as sextas. 

— E a sua, Joaquim… me visita às quintas.

Todos, sem saber o que dizer, se entreolharam, cumprimentaram o padre e deixaram a igreja.






O sacerdote bonitão - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



O sacerdote bonitão

Ises de Almeida Abrahamsohn   


Era um jovem padre inconformado com o celibato obrigatório imposto pela Igreja Católica Apostólica Romana.  Por que ele, másculo, atraente, com os desejos carnais normais da espécie humana, deveria se sujeitar às leis de um grupo de cardeais vetustos e impotentes sediados em Roma? 

Gostava de seu ofício, prezava sua habilidade de conselheiro, considerava-se mesmo um psicólogo.  Não havia escolhido a vida religiosa.  O destino o havia empurrado para o orfanato e depois para o seminário.  Lúcio era filho bastardo colocado numa família pobre e piedosa para ser criado.  Era grato ao casal idoso que o abrigara e amara até os seis anos.  Aos sete, morreu-lhe o pai adotivo e a mãe, impossibilitada de o manter, enviou-o ao internato católico.  Aos doze anos, faleceu a mãe, deixando o imóvel onde morava à Cúria em troca do compromisso de manter e educar o jovem até a idade adulta. Acabou optando pela facilidade de continuar os estudos no seminário.   Faltou-lhe coragem de abandonar antes da ordenação. 

Como padre, Lúcio levou a sério a profissão.  Aconselhava jovens, apaziguava famílias, aliviava os pecadores. Enfim, cuidava de seu rebanho e era apreciado especialmente pelas paroquianas do sexo feminino. O que constituía um problema para o bom padre Lúcio, que gostava das mulheres e, principalmente, gostava de sexo.  

Procurar profissionais de sexo, nem pensar.  Tinha pavor de doença venérea. Impossível também, naquela pequena cidade, ir a um prostíbulo ou receber visitas femininas.  Atrair alguma moça bonita solteira entre as fãs paroquianas também estava fora de cogitação.  Primeiro, o medo de engravidar e, segundo, porque preferia uma parceira que tivesse alguma experiência e que, de fato, apreciasse as volúpias do ato sexual. 

Estava cansado das confissões.  Muitas mulheres frequentavam as missas atraídas pelo jovem e belo padre.   O confessionário era disputadíssimo  , algumas mesmo ousavam insinuações. Como achar uma parceira experiente e discreta para suas noites?

 Veio-lhe a ideia de chamar para confissão num dia determinado aquelas que costumavam trair os maridos.  Ele as chamava de “traideiras”.  Confessavam, ouviam os conselhos, faziam a penitência, e na semana seguinte lá estavam elas de novo, relatando o mesmo pecado e seguindo a mesma penitência.  Era entre essas que faria a seleção. Eram cerca de dez senhoras que, confiantes no segredo da confissão, haviam exposto seus pecados de adultério. Padre Lúcio descartou aquelas de adultério ocasional. 

Procurava as pecadoras contumazes a quem habilmente perguntava sobre os pecados de volúpia e luxúria. Restaram-lhe três candidatas a sondar. Decidiu-se por Rita. 

Rita era uma linda morena de trinta e cinco anos, casada há 15, sem filhos. Era infértil.  

Melhor assim, a candidata ideal, não haveria complicações. 

Padre Lúcio chamou Rita para uma confissão de fim de tarde, num sábado com a igreja vazia.  Sugeriu mostrar-lhe um livro ilustrado na sacristia. Ao que Rita aceitou entusiasmada. 

Da sacristia à cama do sacerdote que morava na casa ao lado foram apenas doze passos. 

E assim Lúcio e a bela Rita se encontraram ardentemente por vários meses. 

Rita se divorciou, Padre Lúcio resolveu abandonar a batina e o casal mudou-se para outra cidade. Ele passou a dar aulas de português e história, e Rita se tornou corretora de imóveis.  E foram muito felizes, ou tanto quanto é possível ser.  


Tradição x Novos Tempos - Sergio Dalla Vecchia

 



Tradição x Novos Tempos

Sergio Dalla Vecchia


Por fim, o pároco idoso da pequena cidade do interior aposentou-se. Não a seu pedido, e sim uma imposição do bispo. É o que comumente acontece com os velhos de casa. Na fábrica, nas grandes corporações e até na igreja.

Quando a notícia veio a público, a cidade ficou em polvorosa.

Quem será o seu substituto? Será simpático ou linha dura? Nosso padre, há tantos anos, não poderia ter feito isso com a comunidade. Já conhece cada um de nós. Criamos um vínculo de amizade e respeito, como nos adaptaremos ao novo padre?

Eram as perguntas que perambulavam pelas ruas da cidade!

Após uma semana de ansiosa espera, eis que ele chega, o novo padre!

Jovem, bonitão e com jeito inovador, foi a impressão que causou nas pessoas.

Após as boas-vindas, com mimos e muita demonstração de acolhimento, o padre iniciou os trabalhos.

Nas primeiras missas e conversas na sacristia, foi conhecendo os paroquianos, principalmente as mulheres penitentes que praticamente ali moravam.

Assim, as pessoas foram adquirindo confiança, se desinibindo e, com isso, a fila do confessionário aumentou.

O padre não dava conta de tantos pecados. Pensando na melhor eficiência, resolveu escalonar as beatas nos dias da semana e conforme o tipo de delito.

Nas segundas-feiras, as fofoqueiras; nas terças-feiras, as que tiravam dinheiro às escondidas da carteira do marido; às quartas-feiras, as hipócritas; nas quintas-feiras, as que bebiam além da conta; nas sextas-feiras, as diabólicas; nos sábados, as gulosas; e finalmente, aos domingos, as traidoras de maridos.

Esse calendário inovador afetou muito o cotidiano da pequena paroquia.

As beatas, rangendo os dentes, pareciam sem rumo, circulando aleatoriamente pelas ruas.

─ Como conseguiremos cumprir o cronograma? Ficaríamos rotuladas pelos nossos pecados, agonizavam elas!

─ Lá vêm as ladras das terças. Lá vêm as hipócritas das Quintas e assim por diante! 

É o que gritaria o povo!

─ Preferimos morrer, cogitavam algumas desesperadas.

Entretanto, o grupo que menos se preocupou foi o das traidoras de maridos. Não viam a hora de se abrirem para aquele bonitão. 

Animadas com a ordem do Padre para que o aguardassem na sacristia para confessarem e que em seguida ele ajudaria uma a uma no pagamento da penitência.

─ Tem coisa melhor? Agora, além de gostarmos, ainda receberemos o consolo do padre bonitão! Expressou seu contentamento em voz alta à mais animada das beatas.






O OUTRO LADO DO CONTO DO VIGÁRIO - Yara Mourão

 



O OUTRO LADO DO CONTO DO VIGÁRIO 

Yara Mourão



É muito próprio dizer que “ser mineiro é ter vida interior”, e que isso se manifesta em diferentes graus de criatividade.

 Certa vez, um padre mineiro, percebendo a pressão que as mulheres exerciam sobre ele, tentando acabar com as digressões no confessionário, estabeleceu interessantes critérios para a confissão das beatas; cada dia da semana era para um determinado tipo de pecado.

Entretanto, não contava com a marotice das mais jovens frequentadoras da igreja, que encontraram brechas para contornar a estratégia do vigário bonitão.

Elas, as jovens, sabiam que as mulheres são de tudo um pouco: preguiçosas, fofoqueiras, surrupiam os trocados dos maridos, se fazem de santas, apreciam vários goles de vinho, acendem uma vela a Deus, outra ao diabo e fingem com perfeição que fazem dieta. Por isso mesmo, a turminha do fundão das missas, a fim de testar a força dos ditames do padre, resolveu ir ao confessionário todos os dias da semana, configurando-se, assim, como pecadoras contumazes.

Para elas era uma contínua emoção! Elas trocavam entre si as penitências recebidas, avaliando qual pecado era mais grave que outro! Até rezavam com fé, mas com pouca convicção de que seriam perdoadas.

Iniciaram-se às segundas-feiras, e tudo foi normal; às terças, o padre pareceu estranhar a presença das meninas. Quarta, o vigário quase se recusou a permanecer no confessionário. Na quinta, ele já tinha certeza de que aquilo era uma coisa de satanás. Sexta-feira, estava a ponto de chamar um exorcista. 

Mas quando chegou a noite de sexta-feira, terminada a missa, o padre bonitão se surpreendeu ao ver a igreja praticamente vazia, sem beatas, sem os maridos. E, sentadas nos primeiros bancos da igreja, estavam aquelas jovens que se confessaram a semana toda de todos os pecados listados pelo vigário!

Ele, então, se dirigiu a elas e, em tom severo, passou-lhes um sermão cheio de mineirices!  

Mas elas, em tom sereno, explicaram que as mulheres não são pecadoras eletivas e sim pessoas que amam o adorável caos de viver! E que o Senhor saberia entender o recado em sua infinita misericórdia!

O padre, meio que possuído, meio que iluminado, só conseguiu abençoá-las e dizer: 

“Ide em paz, o Senhor vos acompanhe!”

E até hoje as beatas agradecem às meninas por livrá-las de confissões tão reveladoras!


A grande onda - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



A grande onda 

Ises de Almeida Abrahamsohn  


Helena abriu os olhos bem devagar. Deitada, sentia o corpo balançar em todas as direções. Estaria deitada na prancha de surf, embalada pelas ondas?  Pouco a pouco, percebeu as paredes brancas que se moviam, iluminadas pela intensa luz branca, e ouviu o apitar constante de algum equipamento que não conseguia enxergar.  Sim, era um quarto de hospital.  A cabeça doía-lhe muito e, com esforço, conseguiu levantar a mão direita. 

Que horror, rasparam minha cabeça… percebeu enquanto os dedos apalpavam os vários ferimentos suturados.  Quis virar-se na cama, mas uma perna e um braço engessados a impediram.   Algumas imagens surgiram nebulosas: o rosto da mãe, seu gato preto e branco, o mar e uma praia…  Exausta, adormeceu… 

Ao acordar, tudo lhe veio à mente. 

A praia em Honolulu. Bem que lhe avisaram do perigo. 

O rapaz havaiano carregando a prancha profissional advertindo:

― Lady… Lady é palavra que ele usara.  Cuidado, essa praia é para profs. Profissionais! 

Olhei incrédula e respondi que eu já tinha surfado muitas ondas altas no Brasil.  Não devia ser muito diferente.  Ele me irritou repetindo para tomar cuidado.  Devia ser daqueles que pensam que mulheres não sabem surfar!

O mar de um azul profundo com ondas de porte médio a intervalos regulares era convidativo.  Peguei algumas boas ondas.  Talvez umas seis voltando cada vez mais confiantes com braçadas fortes até um pouco além da arrebentação. Eu estava ali deitada, deixando as marolas passarem, olhando à frente à espera de uma boa.  Havia outros surfistas perto da praia que vi, alguns agitando os braços e gritando, porém, estavam distantes. 

E foi então que ela veio, de repente… Enorme, impossível, um paredão azul com sete metros de altura se erguia à minha frente.  Tinha que me encaixar no bolso da onda antes que arrebentasse sobre mim.  Movia os braços com toda força para chegar ao tubo.  Não deu… Ainda consegui direcionar a prancha para o fundo para escapar da fúria que se abateria sobre meu corpo. Enchi os pulmões e mergulhei, arrastando a prancha.  O empuxo me jogou ao fundo.   Eu sabia o que tinha de fazer, era rolar no fundo, protegendo a cabeça, até que a onda passasse. 

Acho que desmaiei. Não sei de mais nada. Acordei aqui no hospital.  Não sei como saí, nem se alguém me salvou. 

Mais tarde, Helena soube que devia a vida àquele rapaz da praia.  Ao ver que ela sucumbira à enorme onda, entrou no mar com um colega, ambos em jet-ski, levando um colchão salva-vidas.  Quando a onda estourou, viram o corpo da moça aflorar à superfície antes de ser de novo empurrado para o fundo.  Conseguiram assim localizar onde se encontrava, mergulhar e puxá-la para o colchão.  Estava desmaiada, porém na praia, com as manobras necessárias, expeliu a água dos pulmões e voltou a respirar. 

Tinha várias fraturas e foi levada de ambulância ao hospital. 

Se vou surfar de novo? Me perguntaram várias vezes após o acidente.  Por enquanto, não. Mas sei que, logo que ficar curada das fraturas, vou voltar ao mar.   Mais experiente e sem me arriscar.


FOFOQUEIRA - Sergio Dalla Vecchia

 



FOFOQUEIRA

Sergio Dalla Vecchia


Lá estava Mafalda debruçada sobre a janela da viela quando surgiu uma moça grávida. Feliz da vida, acariciava o ventre com as mãos, mostrando aquele sorriso típico de grávida, suave e pleno.

Foi o suficiente para Mafalda iniciar o ataque:

 ─ Creuza, como vai você com essa linda barriguinha?

 ─ Ah, Mafalda, estou ótima e já de três meses!

─ Nossa, que rápido, hein! Você não tinha nenhum noivo e agora está grávida. Com todo o respeito, mas você já sabe quem é o pai?

 ─ Claro que sei, é o Roberto, meu noivo.

 ─ Que rápido, hein, agora do nada apareceu um noivo!

 ─ Será que o pai é ele mesmo? Emendou Mafalda com um sorriso irônico.

 ─ Você está me ofendendo, é o que o Roberto já disse, sua maldosa.

 ─ Creuza, Creuza, e o Antenor que você saiu num sábado. Passaram juntinhos aqui na frente, conversando animadamente, e no domingo cedinho você retornou toda descabelada!

 ─ Você está inventando coisas, por ser uma solteirona com inveja. 

─ Ah, é, e o Clodoaldo das terças-feiras, esqueceu-se dele?

 ─ Você é mesmo maluca, Mafalda, passe muito bem que vou embora. Fique aí com seus rancores!

  Mafalda engoliu em seco e, justificando a si própria, resmungou.

─ Não tenho culpa de me atualizar no dia a dia pelo jornal da minha janela, portanto sei de tudo e não controlo essa minha boca santa, afinal sou Mafalda, a fofoqueira. Doe a quem doer!





OLHA A ONDA! - Sergio Dalla Vecchia




OLHA A ONDA!

Sergio Dalla Vecchia A alegria transmitida através do ritmo axé à multidão de jovens energizados pelas ondas, mesmo fora do mar, produz euforia, onde corpos contorcem-se como serpentes, malham como atletas e transpiram amarguras.
Esse potencial que as ondas carregam pode induzir a felicidade pela música, da mesma forma que estimulam os desafios de bravura pelos surfistas e equipes, imersos no mar das ondas gigantes.
O fotógrafo, na busca da onda perfeita em Nazaré, arrisca-se temeroso, mas com mãos firmes na câmera fotográfica, almejando a foto da capa na revista especializada.
É de se admirar a bravura desse profissional em sobreviver em meio às paredes sequenciais das ondas gigantes.
A desproporção é muito grande, ele, um nada perante a força do mar, ora submerge, ora lépido aflora, parece brincar com a vida.
Assim preparado, aguarda o momento exato para a foto; luz, movimento e o clique do sucesso final.
Entretendo concentrado, pode deixar passar o momento exato para furar a onda e Zaz! Rolar, rolar como nunca no turbilhão desvairado de energia dissipada.
Sair do mar inconsciente a bordo de um jet ski salva vidas.
Já na maca, abrir vagarosamente os olhos e deparar com o sorriso da sua eterna companheira, conhecida por todos como Iemanjá.

A onda - Carla Di Sessa

 


A ONDA
Carla Di Sessa

Carlos saiu de casa com a cabeça girando, o coração aos pulos e os pés sem rumo.

Após 23 anos juntos, Aline havia pedido o divórcio, dizendo que não era mais tão jovem e queria ser feliz. Como assim ser feliz? E ela havia sido o quê até agora? 

Carlos continuou andando e se viu no mirante onde as pessoas costumavam se reunir para admirar as ondas gigantes, mas, naquele momento, ele não enxergava nada.

Ele sabia que o começo brilhante de um casamento se dissolvia com o passar dos anos, dando lugar a outras emoções que podiam ser tão bonitas quanto. Ele olhou as ondas e finalmente pôde vê-las se formando, crescendo até arrebentarem em uma confusão de água e espuma. 

Quais os sinais que ele havia ignorado? As pistas que não havia entendido? Aquela ideia não podia ter surgido do dia para a noite, Aline devia ter deixado que crescesse e se espalhasse, feito erva daninha.

As ondas caíam com força, explodiam, mas não conseguiam deixar marcas permanentes no mar embaixo. Aquela água toda se movia junto. Talvez um dia ele poderia fazer o mesmo: se juntar à dor e à raiva e deixar que explodissem, tomando conta de tudo. Uma hora elas perderiam força e, então, quem sabe, seu coração poderia seguir em frente.


Uma Onda Insuperável - Yara Mourão




 Uma Onda Insuperável

Yara Mourão Phillip não tinha grandes recordações de sua jornada de vida. Era um coração instável, uma mente inquieta. Mas o ponto de contato dele com a terra era estar na água. Por isso nunca se afastava dos grandes lagos, rios turbulentos, oceanos infinitos.
Havia sido um surfista em sua juventude e agora, às portas dos cinquenta anos, lutava para ficar de pé, preso a uma cadeira de rodas; alimentava sua existência mirando as ondas nas costas mágicas do Havaí. Eis que ao entardecer do solstício daquele ano, Phillip se ancorou no patamar mais alto do belvedere da praia central, para observar o por do sol. Mas foi ficando inebriado pela vista do mar turbulento e, ainda que imóvel em sua cadeira de rodas, ia surfando no barulho das ondas.
Sabia se conduzir: primeiro, sentia o vento; vinha de leste para oeste crispando o topo das ondas. Era um bom vento, embaralhava seus cabelos e respingava agua salgada em seu rosto. Depois, sentia a temperatura da água num arrepio intuído; água fria mas sempre dominável.
Phillip se moldava ao movimento da maré, girando sua cadeira de um lado para o outro, imaginando o ângulo certo para entrar no tubo e sair do outro lado. Ele quase nem abria os olhos e se projetava pelo espaço, mergulhando no turbilhão das emoções inesquecíveis.
Sempre, a água, a dádiva preciosa.
Ele sabia amar aquela fonte de beleza e perigo. Lembrava de quando surfava e que, ao se atirar ao encontro de uma onda abraçava a criação e agradecia aos céus.
Até que, sob os últimos raios de sol, surgiu aquela onda magnifica! Enorme, densa. Phillip a encarou como um caçador que encara sua presa feroz. O ruído da queda na água remetia a trovões. Ele quis muito estar numa prancha! Não havia mais. Ele quis muito um equilíbrio. Não o encontrou. E a grande onda veio, altiva, insuperável, tapando o horizonte do entardecer.
Ele se projetou à frente num esforço para ficar de pé e estar, de novo, surfando. Ele conseguiu se apoiar no parapeito do belvedere e ver toda aquela fúria se transformar em marolas aos pés da areia.
Caiu a noite.
Phillip sentiu, no fundo do peito, a natureza imitando sua vida, que agora, como a maré, estava se amainando sobre a terra.

A terrível criatura - Isabella Brancher

 



A terrível criatura

Isabella Brancher


O torneio começaria em alguns dias, eu havia decidido chegar antes para me ambientar. 

O tempo estava ótimo, ensolarado, poucas nuvens e uma vibração amena preenchia o espaço, agora ainda vazio. 

A brisa marinha era doce e aveludada. Sentado na areia, bem próximo da rebentação, observava as ondas que vinham deslizando pela costa até espumarem na praia. Junto aos meus pensamentos, questionava-me. Como me sentiria abraçado por aquele mar de água? Permaneci horas ali, olhando. Algumas pareciam criaturas sinistras, enigmáticas, capazes de calar o mais corajoso dos homens. Outras eram crianças inocentes buscando espaço para brincar.

Fiquei me imaginando a flutuar sobre essas criaturas, tentando dominá-las. Conhecia a minha capacidade de lidar com elas, mas ainda assim seguia me perguntando.  Devo mesmo participar desse torneio?

Nos dias seguintes, segui o mesmo ritual, tomei o meu café da manhã e, sentado na areia, passei horas a observar. A lembrança do acidente no torneio de Nazaré ainda me atormentava. Aquela imagem do meu colega abatido turvava minhas ideias. Não havia como me furtar, amanhã teria que enfrentá-las.

A tão inesperada manhã chegou, dirigi-me até a praia, não como o espectador dos outros dias, mas como protagonista. Meu papel, o mais importante de todos: era sair vivo.

Surfei a primeira, depois a segunda onda, desci a terceira como se bailasse num salão, meu domínio era total. Ainda precisava descer uma onda perfeita, um tubo redondo e bem alto para poder ganhar o campeonato. 

Ela vinha se formando e, enquanto crescia, aumentava em paralelo a minha incerteza. 

— É agora! 

Entrei na onda com a mesma certeza das anteriores. Ela me engoliu. Fui sugado para dentro daquela criatura feroz aquilina que me consumia, foram minutos intermináveis, a prancha de um lado, eu do outro. Nos misturávamos naquele infinito de água. 

Felizmente, como todas as anteriores, ferozes ou dóceis, cuspiam seus invasores na areia, misturados com uma montanha de espuma. Finalmente, me vi inteiro, esparramado na praia. Tossindo as entranhas da criatura que insistira em me possuir.


Como uma onda no mar... - Ledice Pereira



Como uma onda no mar...

Ledice Pereira


Vendo um vídeo de uma onda gigante, a princípio, escura, transformando-se num túnel majestoso, de um azul turquesa ou verde intenso, penso como é grande o poder da natureza que, ao mesmo tempo que nos amedronta, nos impacta.

Como Ítalo Ferreira e Gabriel Medina devem se sentir hipnotizados por essa força misteriosa que, desde a infância, os atrai tão fortemente, fazendo-os enfrentar corajosamente, qualquer que seja o tamanho e a violência delas.

Ao mesmo tempo, essa imagem me remete à adolescência, quando convidada a passar férias em Ubatuba, na casa de uma amiga e sua família.

Muitas são as lembranças boas daqueles momentos, cinema, footing na praça, as peripécias vividas com aquela família grande, a amiga, as irmãs, os pais, tão diferente da minha realidade de filha única.

Mas a imagem mais marcante que ficou foi da onda que me dominou totalmente, levando-me a sentir, acho que, o maior medo de toda minha vida, tentando vencer aquela inimiga forte e poderosa pronta para me derrubar. 

Foram longos minutos de terror, lutando com as forças que eu tinha para subir e respirar. Momentos que ficaram para a vida toda e me impedem, até hoje, de superar a dificuldade de enfrentar o mar e até uma piscina.

Fico com a imagem maravilhosa da foto e a admiração pelos intrépidos surfistas. Mas me dou o direito de admirar tudo de longe e sem qualquer envolvimento.


3 continhos: Carinho - Lauto - Cobiça/Preguiça - Ledice Pereira




 Carinho

Aquelas crianças ficavam ali, tão sedentas de carinho, que nos causavam grande comoção.

Ao mesmo tempo, uma enxurrada de perguntas povoava nossa mente: conseguiríamos adotá-las? Estaríamos preparados para esse desafio?

Os olhinhos tristes, ao mesmo tempo esperançosos, pareciam pedir que os levássemos dali. Precisavam tanto de amor!


Lauto

Nosso grupo jovem foi convidado para a festa por um dos organizadores.

Estávamos todos sem programa mesmo. Resolvemos aceitar.

Ao chegar, já percebemos que estávamos no lugar errado. Todos de jeans, camiseta básica, enquanto os convidados desciam de seus carrões, elas de longo, eles de terno e gravata.

Nós ali, a pé com nossos tênis sujos e velhos.

O jantar foi servido, sem que pudéssemos fugir dali. Um lauto jantar. Nem sabíamos como nos portar.

Tratamos de engolir rapidamente e nos safamos dali. Já havíamos pagado o mico.


Cobiça / Preguiça

Sinval era aquele cara que não queria nada com a vida. Não tinha trabalho fixo. Vivia de um bico aqui, outro ali.

Não que fosse burro, mas vivia com muita preguiça. Preguiça de andar, de comer, até de falar. 

O que não lhe faltava era querer o que os outros possuíam. A cobiça era uma constante em sua vida.

Queria o que os outros tinham mas a preguiça o impedia de ir atrás de seus desejos.


UMA MULHER DESCONFIADA - Suzana da Cunha Lima

 



UMA MULHER DESCONFIADA

Suzana da Cunha Lima


Palmira sabia de tudo que se passava na vizinhança. O peitoril da janela já tinha até a marca de seus cotovelos. Cada atitude fora do comum já lhe parecia suspeita e digna de uma investigação.

Agora ela estava se especializando em relações humanas, ou mais explicitamente “quem está com quem?” e por que “aquele alguém não fica com ninguém”? Esta última questão lhe requeria mais atenção do que as costumeiras.

Naquela tarde preguiçosa, onde parecia que o mundo, os carros na rua e as pessoas na calçada, se moviam em câmera lenta, ela observou um casal se dirigir para a pracinha sem pressa, de mãos dadas.

Ela já ia fechar a janela e encerrar o expediente do dia, quando estacou subitamente.  Conhecia aquele casal, ora se conhecia… Eles eram casados, mas não um com o outro. Aí tem… pensou alegre, levando sua xícara de café para a janela e retomando seu posto de observação.

— Raul e Alice, hein? Que fingidinha…

Ora, Raul sempre posava de bom moço, bom marido, cumpridor de seus deveres. E Alice, então? Vai à missa todo domingo, reza como uma condenada e faz de tudo para ser notada como boa esposa e boa cristã. E agora? Ali, na cara de todos, agarrada a Raul.

— Será que liberou geral? O que deixei escapar? Correu célere para telefonar para a comadre que morava em frente à pracinha, num local privilegiado para testemunhar aquela obscenidade.

— Rute, espia aí para a pracinha, logo! Raul e Alice agarradinhos… Cristo! Onde vamos parar se as safadezas vão ser agora a céu aberto?

— Palmira, para de pensar mal dos outros. Alice é prima de Raul e teve uma torção no tornozelo. Coisa séria. 

— E daí? Tem salvo-conduto para primagem agora? Primo pode?

— Para, mulher, ele deve estar levando Alice para o postinho. Eles moram perto e o marido dela está viajando.

— Viajando nada… Daqui estou vendo ele sair de casa pela porta dos fundos.  Quem te disse que ele ia viajar?

— Como é? Nestor está na cidade? Espantou-se a comadre, indignada. — Ele mesmo me avisou que ia passar a semana fora. Ah, aquele sacripanta me paga! Ah, se paga… Não se pode confiar em ninguém mais nesta vida. Credo!


A Revanche - Ledice Pereira

 



A Revanche

Ledice Pereira


Eram duas horas da manhã, quando Rafael entrou pé ante pé, depois de custar a achar o buraco da fechadura.

Nem acendeu a luz. Foi andando devagar, tentando não trombar em nada para não acordar Palmira. Mas a mulher estava com o olho mais que aberto. Esperou que o marido entrasse no quarto e gritou:

– Isso são horas?

Rafael tentou, em vão, inventar uma desculpa esfarrapada. Primeiro, que estava fazendo hora extra.

– Sei, sei – ela murmurou, franzindo a testa – e esse bafo de bebida que está chegando até aqui?

Apesar da raiva, sabia que não conseguiria manter qualquer tipo de conversação porque Rafael estava mais pra lá do que pra cá.

Mandou-o dormir no outro quarto.  Não suportaria aguentar aquele odor de bebida misturado a um perfume barato.

Estava muito brava! Estava puta mesmo! Custou a dormir. Perguntava-se por onde andara aquele sem vergonha.

Dia seguinte, Rafael acordou cedo. Deixou que a água caísse sobre a cabeça esperando que a ressaca passasse. Tinha consciência de que dessa vez havia se excedido.

Entrou na cozinha, onde Palmira passava o café e tentou dar-lhe um beijo, mostrando seu melhor sorriso, procurando não demonstrar a dor que sentia na cabeça pesada.

– Não me venha com beijinho.

Ele pediu desculpas. Jurou que não aconteceria mais.

– Ah tá, agora você é um santo! Ela já o havia perdoado em outras vezes.

– A turma resolveu beber para aliviar o dia que foi pesado – explicou com cara de cachorrinho magoado, os olhos baixos, fingindo arrependimento.

– Hã, hã, e esse perfume horroroso que não saiu nem com o banho? Não me diga que é do Jorge.

– Ah, meu amor, não é nada disso que você tá pensando.

Ela, levantando a sobrancelha, descrente, – sabe que estou ficando com pena de você. Seu chefe o está explorando muito, acho que vou ter uma conversinha com ele. Quando ela pegou o telefone, ele gritou:

– Desliga esse telefone, mulher! Prometo que isso não vai acontecer de novo! Juro!

– Jura mesmo? Vou sair. Quando voltar quero encontrar as camas arrumadas, a louça lavada, o banheiro enxuto e limpo. Faça isso antes de ir para o seu pesado trabalho. E pegue um táxi, ou ônibus, metrô, que hoje quem vai usar o carro sou eu. Vou fazer umas comprinhas. Não se assuste se receber notificação do meu cartão de crédito.

Rafael teve a certeza de que a farra não valera a pena. Sabia que teria que fazer muita hora extra, de verdade, para conseguir pagar o cartão de crédito. 


Medonho - Isabella Brancher

 



Medonho
Isabella Brancher

Manuel viveu na mata fechada por muitos anos, o ambiente sombrio e isolado trazia paz ao seu coração.
 Nunca havia se sentido tão bem. O contato diário com a natureza, a conversa dos pássaros e o crepitar das folhas eram seus companheiros de jornada. Muitos dias se perdia nos seus pensamentos, caminhando pela mata. Tudo aquilo contrastava com a vida que ele levava antes. Uma vida que agora lhe parecia distante, quase irreal… e sem valor.

Seus passeios seguiam por horas em busca de alimento. Havia se estabelecido próximo a uma formação rochosa que lhe dava abrigo, em um canto desse espaço se abria uma pequena cavidade, semelhante a uma caverna. Foi ali que estabeleceu residência. Para comer, costumava seguir pelo aqueduto que rasgava a floresta. Nunca havia entendido por que aquela construção, aparentemente bem antiga, ainda estava ali. Parecia em total desuso. Para ele, a serventia era levá-lo com segurança até o rio onde pescava, com abundância, peixes para a sua alimentação. 

No começo da sua vida na floresta, fazia um risco na parede da caverna toda vez que o sol se punha. O entardecer para ele era mágico, capaz de transformar até o mais rotineiro dos dias em encanto. As cores alaranjadas brilhavam entre as nuvens, refletindo muitas vezes as emoções que sentia. A natureza o abraçava, lhe trazia um acalento quase maternal.

Perdeu a conta dos dias quando se adoeceu e, sem saber ao certo quantos, passou dias e noites dormindo. Percebendo que as marcações não iriam mais refletir a realidade, as abandonou.

Na cidade, há apenas poucos quilômetros dali, circulavam boatos da presença de uma estranha figura na mata. As histórias eram confusas, mas todas relatavam algo ou alguém perdido, vivendo isolado na mata.

João, após ouvir os comentários de seu avô, chamou Pedro para explorar essa área da floresta que nunca haviam visitado. Afinal, era proibido. A curiosidade juvenil, aliada ao fascínio pelo desconhecido, os levou cada vez mais para o interior da mata. De repente, avistaram uma fumaça vinda da região das rochas. Uma área considerada sombria pelos moradores da região. Sem pensar, se entreolharam e seguiram naquela direção. 

— Quem será que acendeu essa fogueira? Perguntou Pedro, preocupado. 

— Será que ainda existem povos que vivem aqui?

— Imagina, respondeu João. — Deve ser algum lenhador. Talvez tenha acendido o fogo para afastar animais.

— Não sei não, retrucou Pedro. — Isso está me parecendo muito estranho, bem que o xerife nos alertou para não irmos muito na mata.

Continuaram a discutir sobre se deveriam ou não seguir em frente quando ambos se calaram subitamente. Diante deles, uma figura hirsuta emergia das sombras. Tentaram gritar, mas a voz falhou.

— Medonho… sussurraram.




A mãe desconfiada Ises - Almeida Abrahamsohn




A mãe desconfiada

Ises Almeida Abrahamsohn  


Palmira tinha fama de botar defeito em tudo . Porém não era verdade. Desconfiada,  era o que de fato era.  O neto Artur a chamava  de  vó  São Tomé.  Para quem não sabe, Tomé era aquele apóstolo que duvidou da ressureição. Até que o Mestre o fez tocar sua ferida de lança. 

Bem, Palmira não chegava a desconfiar das escrituras, mas de tudo e de  todos que a cercavam, sim. E deixava sua filha Anita desesperançada.  

Esta era jovem, tinha apenas 30 anos, viúva há seis  anos.  Era mãe de Artur, agora com sete anos. O marido falecera num acidente de automóvel. Viviam mãe e filho na casa de Palmira, um arranjo que de início parecia cômodo, mas que agora perturbava Anita. Trabalhava como contadora num escritório de advocacia. Quando fez  vestibular para a Faculdade de Direito há dois anos, Palmira se sentiu ameaçada. 

― Minha filha, tem certeza de que essa faculdade é boa? Você vai dar conta?

Demorou um ano a litania de Palmira...

Atacou em seguida o flanco de possível dano à educação de Artur.  “Vai se ausentar demais, sem pai, ele vai sofrer com sua ausência, você  toda noite fora!

Anita retrucava que o filho estava bem, afinal  ela o punha na cama e ele dormia tranquilo a partir das  oito  quando ela estava em aula.  E nos fins de semana ficavam sempre juntos. 

Porém Anita se sentia só.  Com o trabalho, a faculdade e cuidados com o filho ela  não tinha amizades estreitas, apenas colegas e primas, ninguém realmente próximo. Desejava encontrar um parceiro que, além de bom marido se tornasse amigo do filho. Alguém que fosse seu  parceiro nos gostos por música, viagens, leituras e bons filmes. As colegas lhe diziam que era um sonho irrealizável. 

“Os homens solteiros na  idade  que você quer só desejam se divertir”, você verá,  repetiam.

Depois de alguns relacionamentos  que duraram poucos meses, Anita ia se convencendo  disso.  A alternativa eram homens vinte anos mais velhos à procura de mulheres jovens que os cuidassem na velhice. 

Mas então apareceu Eduardo.  Era advogado, 38 anos, divorciado com dois filhos adolescentes . Era pessoa interessante. Teria dado certo, não fosse a interferência de Dona Palmira. Começou a minar o namoro assim que percebeu possibilidades mais sérias.  

― Anita, será que ele vai deixar de ver a ex? Afinal, ele a encontra todos os finais de semana ! A moça retrucou que  ele visitava os filhos e se importava com eles.

Palmira em seguida revidou que Eduardo não tinha bens outros além do automóvel. Tanto fez  e questionou  que a relação esfriou e o rapaz desistiu, 

O segundo namorado, Rodolfo, nem teve chance. Era alto, muito magro e corredor de final de semana. E era solteiro aos quarenta e dois anos. 

Dona Palmira desconfiou logo.

― Será que é doente? Tão magro.

― Claro mãe, ele é corredor de meia maratona!  Tem que ser magro ! 

A megera não se deu por vencida e atacou. ― Solteiro nessa idade?  Não será bissexual ? Ainda pode passar HIV para você!

A gota d´água foi quando o rapaz chamou Artur para treinar corrida.

― Cuidado Anita, vai ver que é pedófilo. Cuidado... muito cuidado  com  Artur.

Agora Anita tinha encontrado Vitório, advogado no fórum, dois anos mais velho que ela. Estava à procura de um relacionamento sólido.  E se deu bem com Artur. Os avós dele eram italianos.  Iam a concertos, a parques e livrarias. Adorava ler e trazia para Artur os livros de aventuras de sua infância.  Ajudava o menino nas leituras de Júlio Verne, Emilio Salgari, Karl May e  outros.

Dessa vez Anita não ia deixar a mãe se intrometer.  Ameaçou a mãe:

―  Se você perturbar  vamos eu e o Artur embora daqui! 

Meio ano depois Vitorio lhe trouxe um belo anel. Era um anel de noivado. Anita radiante aceitou.

O rapaz quis encontrar a futura sogra. Veio almoçar no domingo. Palmira o olhou desconfiada e lançou uma saraivada de perguntas.  Depois da quinta pergunta o rapaz deu uma risada, avisado que já estava do caráter da mulher. 

Dona Palmira, a senhora é igual à minha avó. Bem desconfiada! Anita me contou . Vou me casar com sua filha e seu neto vai morar conosco,

Palmira engoliu em seco. Não tinha o que responder.  Vitorio tinha se revelado. Era um esgrimista à altura das suas estocadas! 

Derrotada, só  lhe restava propor um brinde ao noivado.  Até Artur ganhou um copinho  do champagne misturado com água.

Mais tarde Vitorio explicou para Artur que observara tudo  com olhos arregalados.

― Às vezes  temos que ser como os mosqueteiros do livro, Artur, saber esgrimir e desviar!  Sua avó é meio difícil, mas tem bom coração!


UM ESTRANHO EM MINHA SALA - Sergio Dalla Vecchia

 


UM ESTRANHO EM MINHA SALA
Sergio Dalla Vecchia

Tereza concentrada em seu texto, cabeça baixa, debruçada sobre a escrivaninha não percebeu a entrada sorrateira de Clovis em sua sala.
Um leve cutucão, o susto, levantou-se lepidamente e deu de cara com o sorridente Clovis.

Desconsertada tentou se inteirar no contexto. Encarou-o fixamente e não o reconheceu. Era um estranho a sua frente.

Clovis totalmente desconfortável pela péssima acolhida apenas silenciou-se tendendo sair da sala.

Tereza percebendo a desilusão do homem, baixou a guarda e logo perguntou.

─ Não o conheço, como conseguiu entrar com essa facilidade em minha casa?

─ Professora Tereza, foi a Da. Natalina sua cozinheira que abriu a porta para mim. Ela pensou um pouco, mas logo me reconheceu. Sou o Clovis, fui seu aluno por um tempo. Não se recorda, tinha dezessete anos e iria prestar vestibular e a sra.me ajudou muito, tanto que passei no vestibular. Agora após vinte anos vim para cá a trabalho e resolvi procurá-la. Sou advogado e vim resolver um litígio no Fórum.

Tereza ainda confusa conseguiu aos poucos atiçar a memória e logo a imagem do jovem aluno Clovis foi-se delineando e Zaz! Uma emoção tomou conta da velha professora.

─ É você mesmo meu garoto brilhante! Por que nunca me deu notícias, esqueceu-se da professora? Que alegria ver um homem feito e ainda advogado, parabéns!

Agora dois pares de olhos estavam marejados e somados ao da Natalina que escutava atrás da porta plagiavam a Fontana di Trevi, transbordavam amor.

Sentindo o coração resfriado por anos pela falta de reconhecimento das autoridades, um caloroso abraço fraternal com Clovis foi o bastante para descongelar o coração da cansada docente.

Professora é assim, se mantém imortal por que recebe em troca a energia pura dos carinhos e considerações dos alunos, que espiritualmente valem mais do que qualquer salário.

 


FOFOQUEIRAS - Sergio Dalla Vecchia




FOFOQUEIRAS

Sergio Dalla Vecchia


Ao iniciar esse texto com o título de fofoqueiras, logo surgiu uma cena que assisti em um programa humorístico de televisão. Ela me fez rir muito.

Tratava-se de uma mulher que ficava debruçada sobre a janela em uma casa de subúrbio e sabia de todos que passavam à sua frente. Era impertinente, sarcástica e contundente. Tinha vontade imensa de criar cizânia.

A minha personagem é baseada nisso e chama-se Mafalda.

Lá estava Mafalda debruçada sobre a janela da viela quando surgiu uma moça grávida, feliz da vida, acariciando o ventre com as mãos, mostrando aquele sorriso típico de grávida, suave, terno e pleno.

Foi o suficiente para Mafalda iniciar o ataque:

— Oi, Creuza, como vai você com essa linda barriguinha.

— Ah, Mafalda, estou ótima e já de três meses!

— Nossa, que rápido, hein! Você não tinha nenhum noivo e agora está grávida. Com todo o respeito, mas você já sabe quem é o pai?

— Claro que sei, é o Roberto, meu noivo.

— Que rápido, agora, do nada, apareceu um noivo!

— Será que o pai é ele mesmo? Emendou Mafalda com um sorriso irônico.

— Você está me ofendendo, já disse, é o Roberto, já disse.

— Creuza, Creuza, e o Antenor com quem você saiu num sábado. Passaram juntinhos aqui na frente, conversando animadamente, e no domingo cedinho você retornou toda descabelada!

— Você está inventando coisas, por ser uma solteirona que tem inveja. 

— Ah, é, e o Clodoaldo das terças-feiras, esqueceu-se dele?

— Você é mesmo maluca, Mafalda, passe muito bem que vou embora. Fique aí com seus rancores!

  Mafalda engoliu em seco e, justificando a si própria, resmungou.

— Não tenho culpa de me atualizar no dia a dia pelo jornal da minha janela, portanto sei de tudo e não controlo essa minha boca santa, afinal sou Mafalda, a fofoqueira. Doe a quem doer!


Muito além do olhar - Yara Mourão

 



Muito além do olhar
Yara Mourão

Ainda que permanecesse parada junto às janelas, Palmira tinha um olhar oblíquo que perpassava toda a sala.  Girava a cabeça para os lados, para cima e para baixo, procurando sinais. Uma câmera, talvez, ou um microfone, algo que a pusesse num foco involuntário.

Falava baixinho para si mesma: “Será possível? Terei errado de lugar?” Ousou tocar nas altas estantes, buscando pistas, forçando o olhar entre os livros cujos títulos muito aleatórios sugeriam casos desastrosos.

Sentiu as pernas bambas só de lembrar das expressões de Lucinda, a bela secretária de seu marido. Um certo torpor, pelo abafado do lugar, talvez, a envolveu. Palmira sentiu arrepios ao se lembrar do convite para aquela visita: “Venha desarmada, querida, física e espiritualmente!”

Por que Lucinda a chamaria ali? De certo não era para uma festa. O fato é que só ela estava ali, intrigada e assombrada pelo silêncio inusitado daquele escritório de advocacia de seu marido.

Perdidos nos contornos, nos detalhes do ambiente, seus olhos pousaram num porta-retrato dourado sobre a escrivaninha: era a foto de uma bela mulher sorrindo para alguém. “Seria ela, Lucinda?”

O ambiente suntuoso fazia Palmira se sentir frágil, diminuída. Arrepios passavam por seus braços, enrijecendo seu corpo. Sentou-se no couro frio do sofá ao lado da mesinha com um abajur inglês. Seus dedos irrequietos tamborilavam sua irritação pela falta de informações, de notícias, ou de alguém que significasse algo naquele momento.

Silenciosamente, um criado entrou e colocou na mesa um jogo de chá servido para quatro pessoas. O homem abriu as cortinas, acendeu as luzes e saiu nos mesmos passos lentos com que entrara.

Palmira sentiu um frisson muito ruim, talvez pelo roçar das cortinas em seu braço. Cismou sobre as quatro xicaras: “Para quem seriam? Será que há mais convidados? Ou mais prisioneiros? Mais vítimas, sei lá? Talvez sejam para alguma testemunha, meu marido, Lucinda e eu?”

Tentando manter-se `a tona, repassou em segundos toda a história de seu casamento conturbado, os indícios de tramas e traições.

Sentiu-se num limbo. Quis fugir. As portas estavam trancadas, e as janelas fechadas com cadeados. Procurando chaves, suas mãos trêmulas abriram as gavetas da escrivaninha. “Será que aqui encontrarei algo útil?” pensou.  Mas ali não havia chaves. Ali havia um revólver! “Ah! Será que essa deverá ser minha companhia?”  pensou.

Então, voltando-se sobre suas próprias suposições, sentou-se junto às janelas com a arma na mão, tomou um chá, “estaria envenenado?” pensou, quase marota, e ficou esperando até o sono chegar, até o pesadelo terminar.

Ainda viu o empregado entrar, retirar as xícaras, fechar as cortinas. Sentia-se anestesiada. Ainda pode ver Lucinda sair do retrato, sorrindo, e abraçar seu marido que surgira sabe Deus de onde…

Palmira revirou os olhos, saboreou uma lágrima e, sem se dar conta do tempo, do lugar e da vida, deixou-se levar para um mundo que ela nem desconfiava que existia…


Sentinela do Bexiga - Adriana Frosoni

 



Sentinela do Bexiga

Adriana Frosoni


Florinda desconfiava até de elogio gratuito. Quando o padeiro lhe desejava “bom dia” sorrindo demais, ela apertava os olhos e respondia: “Hum… sei não”. Aos 57 anos, morava há décadas na mesma rua do Bexiga, conhecia o barulho dos portões, os horários dos vizinhos e até o humor com que saíam para trabalhar. Por isso estranhou quando viu Clóvis — marido de Celeste — sair de camisa azul-marinho nova, perfume forte e cantarolando. Homem casado há trinta anos não cantarola à toa, pensou. 

Na manhã seguinte, Florinda o seguiu e percebeu outro detalhe: ele atravessou a rua no meio da tarde e entrou numa floricultura. Aquilo bastou para deixá-la alerta.

— Tem coisa aí, não tem?... — murmurou.

Nos dias seguintes, a rotina dela virou uma investigação silenciosa. Quase perdeu o ar ao ver Clóvis saindo de uma joalheria enquanto guardava um volume pequeno no bolso do casaco. Viu também quando ele voltou à floricultura e saiu com uma orquídea enfeitada com laços.

Resolveu então “proteger” a amiga. Naquela tarde, foi até a casa dela levando um bolo simples — porque notícia ruim combina com café fresco — e lançou suas dúvidas devagarinho, como quem não quer nada, medindo o efeito de cada palavra.

— Ih… não sei não… teu marido anda diferente.

Celeste riu. Disse que era impressão. Ainda assim, houve um vacilo mínimo no sorriso dela enquanto girava a aliança no dedo. Aquilo bastou para que Florinda continuasse.

— Quem garante que não é amante? — sussurrou. Depois disso, contou tudo, aumentando cada detalhe para sustentar sua teoria. 

Celeste empalideceu. Tinham acabado de passar uma fase difícil, é verdade, mas ele estava tão mudado que essa notícia parecia fora de contexto. Inclusive, ele foi muito carinhoso no jantar do último sábado, quando comemoraram o aniversário dele. 

Celeste chorou. Passou o resto do dia ensimesmada tentando encaixar os acontecimentos e preferiu esperar o fim de semana. Talvez, com mais calma, conseguissem conversar sem transformar tudo num dramalhão.

No domingo, depois de ir à missa, ele chegou em casa com a orquídea. Estavam fazendo trinta e cinco anos de casados e ele preparara tudo com o maior zelo para esta comemoração. Ele pediu para ela se arrumar e foram ao mesmo restaurante onde ele a pedira em casamento. Chegando lá, ele tirou uma caixinha de veludo do bolso e lhe deu uma aliança nova.

Na segunda-feira, Florinda voltou para o café da tarde: desta vez com pães de queijo ainda quentes, ensaiando o que diria para consolar a amiga. Foi recebida com frieza e soube dos detalhes do domingo. Quando questionou sobre o perfume forte e a camisa azul, descobriu que ambos foram presentes da família.

Sentada na ponta do sofá, ela ouviu tudo segurando a bolsa contra o peito. Ao final Celeste perguntou, magoada:

— Por que você sempre pensa o pior das pessoas?

Florinda não encontrou resposta pronta.

— Ah… não sei! Parecia tão óbvio. Já vou indo, então.

À noite, em casa, onde morava sozinha, olhou a janela escura, a rua quieta, as sombras imóveis da noite. Não tinha feito aquilo por maldade. Realmente acreditava no que disse à Celeste — que agora não seria mais sua amiga. Intimamente, aquela pergunta ainda ecoava. Ela percebeu seu reflexo na janela e, agora, sua imagem parecia menos esperteza e mais solidão.


A fofoqueira sem limites - Isabella Brancher

 



A fofoqueira sem limites

Isabella Brancher

Palmira era uma mulher magra, alta, de ombros levemente curvados para a frente. Tinha um sorriso enigmático: às vezes acolhedor, outras, quase de repulsa. Costumava usar vestidos que pareciam gastos, embora fossem novos.

Morava sozinha em um condomínio vertical. Seu apartamento, no primeiro andar, dava para o pátio interno, onde a vida alheia passava diante de seus olhos como um espetáculo silencioso. Pouco tinha para fazer. Ficara viúva havia muitos anos, e os filhos, com o tempo, tinham se afastado. Evitavam sua companhia sempre que possível — bastava Palmira abrir a boca para um comentário atravessado surgir, desconfortável, quase sempre inoportuno.

O pátio era um constante vai e vem de pessoas. Palmira passava horas sentada na varanda, observando. Havia rostos que lhe interessavam mais do que outros — principalmente a família do 22 e a nova vizinha do 11.
A família do 22 parecia tradicional: pai, mãe e dois filhos. Ainda assim, brigavam com frequência, quase sempre por motivos pequenos demais para justificar o tom exaltado. Era impossível não ouvir. Discussões sobre o filho que se metera em confusão na escola, sobre o carro que precisava de manutenção, sobre planos frustrados do fim de semana… Coisas banais, repetidas, previsíveis.

Já a vizinha do 11 era recente no prédio. Discreta, entrava e saía em horários irregulares. Mais de uma vez, Palmira notou o homem do 22 ir até seu apartamento. Não era sempre, nem parecia demorar muito — mas o suficiente para plantar uma dúvida. Ele olhava para os lados antes de entrar? Ou era apenas impressão? Palmira não saberia dizer. Ainda assim, guardou aquilo.

Até então, tudo não passava de fragmentos soltos.

— Aquele short que ela usa, muito justo… você ia querer que a sua filha se vestisse assim? — perguntou a mulher do 22, em tom carregado.

— Deixa ela — respondeu o marido. — É jovem, bonita… logo aprende, se veste melhor.

— Não entendo essa sua postura. Muito permissivo.

Palmira se ajeitou na cadeira, inclinando-se discretamente para frente. Havia algo no tom dele — leve demais, talvez. Ou apenas cauteloso.

“Será?”

A lembrança das visitas rápidas ao 11 voltou-lhe à mente.

Olhou para o pátio vazio por um instante. “Não sei… mas… e se…?”

A ideia surgiu quase pronta. Em poucos minutos, já ganhava forma: encontros discretos, olhares trocados, coincidências convenientes. Quando percebeu, Palmira já havia construído uma história inteira — um caso extraconjugal cheio de tensões, riscos e inevitáveis escândalos.

No dia seguinte, ao encontrar outras moradoras no prédio, deixou escapar comentários carregados de insinuação. Não disse tudo de uma vez — preferia semear. Bastavam sugestões, pausas bem colocadas, olhares significativos. O resto crescia sozinho. Entre aquelas mulheres, conversas assim encontravam terreno fértil: pequenos episódios do cotidiano ganhavam contornos mais dramáticos a cada repetição, como se precisassem de certo exagero para se manterem interessantes. Em pouco tempo, a história já circulava com detalhes que Palmira sequer havia mencionado.

Em pouco tempo, o boato corria pelo condomínio.

O homem do 22 e a vizinha do 11 começaram a notar os olhares. Alguns curiosos, outros claramente acusatórios. Havia frieza nos cumprimentos, uma estranheza difícil de ignorar. Sem entender exatamente o motivo, passaram a evitar conversas no pátio.

Até que, numa manhã cedo demais para suspeitas, conversavam sem cautela. Palmira, como de costume, estava na varanda.

A voz dele vinha tranquila, quase afetuosa:

— Você se adapta rápido, né? Quando cheguei aqui, estranhei tudo. Estudar longe de casa não é fácil.
— Ainda bem que você está por perto — respondeu a moça do 11. — Mamãe ficou mais calma sabendo que eu não estava sozinha na cidade grande.

Ele riu, baixo.

— Sou seu irmão mais velho, ora. É o mínimo que posso fazer.

Palmira permaneceu imóvel na cadeira.

Por um instante, o pátio pareceu silencioso demais.