Um achado no brechó - Yara Mourão

 



Um achado no brechó

Yara Mourão


Naquele sábado nublado, Lúcia acordou com uma energia diferente. Na verdade, estava cansada de chorar pelo fim do casamento. Se Daniel foi embora, melhor, ficava até aliviada. O amor acaba, a paciência se esgota, a esperança se esvai. Lúcia agora queria era um sol, um céu azul, brisa de verão. Mas já era outono e o universo não estava disposto a se modificar por causa dela.

Assim sendo, ela decidiu seguir novos rumos: outras ruas, roupas diferentes, comidas alternativas.

Levantou-se e saiu para o acaso das coisas. Andou uns dois quarteirões e se viu em frente ao Brechó da Maria Peruana, lojinha bem socialista, com um toque LGBT, que oferecia, em vez de cafezinho, chá de coca.

Entrou, entregue, intrigada. Rodou por todos os corredores, sentou-se nos almofadões espalhados, tomou o chazinho e, depois que passou o acesso de tosse, pegou de um cabide a primeira peça que viu. Deu sorte. Era um lindo camisão branco, com um bordado bonito no decote, um bolso pequeno do lado esquerdo.

Ela não hesitou. Vestiu a peça e o que viu no espelho refletiu uma pessoa nova que ela gostou de ver. Passou no caixa e saiu da loja vestida com ele.

Já na rua, remexendo no bolso do camisão, encontrou uma tirinha de papel com um endereço. Para sua surpresa, era de um local bem próximo dali. Ela achou por bem ir até lá. O que encontraria? A antiga dona da roupa, de certo. Não seria engraçado ela chegar lá vestida com aquele camisão branquinho e dar de cara com a antiga dona dele?

Animada com a possível travessura, Lúcia apressou o passo até o endereço do papel. Chegando lá, viu que era uma casinha bem simpática, adornada de plantas, espada de São Jorge por todo lado, portão aberto, gente chegando. Entrou. Foi bem acolhida e logo recebeu o primeiro passe, para sua surpresa e espanto. Era um terreiro de umbanda, com todos os pais, mães e demais parentes dos santos e orixás.

Quando ela pensou em falar, disseram que poderia ficar calada porque sim, eles eram perfeitos para reatar o amor e que certamente seu companheiro iria voltar.

“Só me faltava essa agora!” pensou Lúcia. Mas a ciranda que se fez à sua volta, a música, o batuque, tudo a envolveu e ela não teve saída.

Estava feito. “Saravá!”

O anseio de liberdade de Lúcia se derreteu. Ela não teve outra saída a não ser fugir daquele lugar. Voltou por onde veio, pela mesma rua, até o malfadado brechó, maldizendo o camisão branco que comprara, com seu lindo bordado no decote e bolsinho do lado esquerdo! “Maldito camisão!” pensou. “E agora, será que Daniel voltaria para atormentá-la, e ela ia começar a chorar de novo?”

Ao dar de cara com a loja da Maria Peruana, disse para si mesma: “Culpa do brechó! Da próxima vez, eu preciso ir é para um shopping!”

 

 

O matchmaker do brechó - Carla Di Sessa

 


O matchmaker do brechó

Carla Di Sessa

 

Tempo atual:

 

Cláudio estava já há uns bons 20 minutos no carro estacionado sem conseguir descer. Seu irmão ainda não havia chegado e ele começou a temer que ele não viesse. Cláudio não sabia se conseguiria entrar sozinho no brechó que o pai havia começado depois que Gilda, sua eterna amada por mais de 30 anos, falecera. A mãe deles adorava aumentar o guarda-roupa, mas não se desfazia de peça alguma. Ao longo dos anos, as roupas foram sendo acomodadas em caixas, sacolas e araras, tudo mantido meticulosamente limpo e organizado por ela.

A ideia foi de uma prima, Maitê, garota descolada e ligada ao mundo da moda. Ao vê-los sem saber o que fazer com todas aquelas coisas que eram de Gilda, ela sugeriu abrir um brechó. Alguém tem uma ideia melhor para toda essa roupa que ninguém mais quer, coisas antigas e fora de moda? Um brechó transforma tudo isso em vintage, dissera ela para Ernesto.  E assim começou o negócio. A sobrinha passou a ajudar o tio, indo sempre à loja e trazendo peças novas que conseguia entre seus conhecidos fashion. Os anos se passaram e agora cabia aos filhos dar um destino a todas aquelas coisas.

Ernesto havia morrido há 3 semanas e Claudio ainda não havia processado de todo a ideia. 

Como o pai, um homenzarrão tão bem-humorado que cantava Sapore di Sale a plenos pulmões, para desespero da mãe e deleite dos filhos, podia não estar mais ali com sua gargalhada sonora? 

Cláudio adorava ver o pai seguindo a mãe pela casa enquanto cantava e ela fingia fugir, sorrindo e dando bronca ao mesmo tempo. Sapore di mare, sapore di teeeeeee! Finalizava o pai, enlaçando a mãe pela cintura e a beijando estalado na bochecha.

Cláudio reconheceu o carro do irmão, Luís, se aproximando e estacionando atrás do seu. Vamos lá, pensou Cláudio, cumprimentando o irmão e pegando a chave no bolso.

Cláudio destrancou a porta e o cheiro conhecido os envolveu: uma mistura hippie de patchouli e incenso. Luís se sentou na poltrona do pai e começou a mexer nas gavetas da escrivaninha. Cláudio ficou andando a esmo, abriu a janela, foi buscar água para tentar reanimar uma planta e recolheu alguns folhetos que alguém enfiara por debaixo da porta.

Que álbum é esse?

A pergunta de Luís quebrou o silêncio e Cláudio se aproximou.

Olha só, está cheio de fotografias de gente sentada em plateias, parecem cinemas, ou serão teatros? Coisa mais esquisita… E olha essa aqui, parece um estádio… é um estádio, dá para ver um pedacinho da arquibancada aqui no canto da foto.

De fato, eram muitas fotografias de pessoas sentadas, sempre de costas para a câmera, homens, mulheres, jovens, idosos, às vezes conversando, às vezes não.

Será que o papai era tipo um stalker? Ou então um detetive? Cara, o que ele fazia com tanta fotografia de gente desconhecida? E tudo com data, está vendo? Meu Deus, ele fazia isso há um tempão! Você sabia disso?

Os irmãos se olharam e perceberam que o pai tinha uma dimensão totalmente desconhecida para eles.

 

 

 

Anos atrás:

 

Toda semana, Ernesto vasculhava a seção de cultura do jornal de domingo à procura de espetáculos, shows ou filmes de maior sucesso naquele momento, escolhia um e comprava sempre três ingressos para dali a algumas semanas. Os lugares eram sempre bem localizados, dois ao lado um do outro, o terceiro duas filas atrás.  Uma parte do custo era paga pelo lucro do brechó, o resto saía do bolso dele mesmo.

Pedia a entrega no endereço da loja e era então que a diversão começava.

Ernesto observava cada cliente que entrava, puxava conversa, oferecia água, chá ou café e depois ia para sua escrivaninha e esperava aquela sensação que vinha quando a pessoa certa estava ali na frente dele. Nessa hora, se a pessoa comprasse alguma coisa, levaria também sem saber um dos ingressos. E assim as duplas eram formadas. O terceiro ingresso era dele, Ernesto, e ele comparecia ao evento pontualmente, ansioso para ver se as pessoas compareceriam, se conversariam e sairiam dali não mais como estranhos. Ele sempre batia uma foto discretamente e, dessa maneira, seu álbum ia aumentando.

Às vezes, alguém voltava ao brechó com o ingresso na mão. Dizia haver achado na sacola, que havia voltado para devolver. Ernesto examinava o ingresso e dizia que não, não era dele não. E brincava, se foi parar na sua mão, é porque tinha que ser seu, aproveita! E acrescentava um comentário do tipo “ouvi dizer que esse filme é imperdível” ou “soube que esse espetáculo é maravilhoso!”  Ernesto torcia para que as duplas se conhecessem, conversassem e, quem sabe, virassem amigos, namorados, amantes. Gostaria de saber o desenlace de cada encontro, mas o máximo onde podia chegar era ver se saíam juntos, conversando ou não.

 

Tempo atual:

 

Cláudio e Luís foram visitar Maitê, pois a curiosidade sobre o misterioso álbum de fotos só fazia crescer. Queriam saber se, por acaso, ela tinha conhecimento daquilo, se percebeu algo anormal nas atitudes do pai deles, pois ter um álbum cheio de fotos de gente de costas em plateias não era muito comum. Estavam preocupados, seria alguma tara ou obsessão?

Maitê caiu na gargalhada. Relaxem, meninos, o pai de vocês era um romântico incorrigível e gostava de brincar de Cupido. Vou contar a história toda. Quando ela terminou, ambos os irmãos estavam bem mais aliviados.

Mesmo depois de morto, ele não para de nos surpreender, disse Luís.

E é a cara dele uma coisa dessas, não é não? Acrescentou Cláudio, rindo.

 

Uma experiência transcendental - Ledice Pereira

 

 


Uma experiência transcendental

Ledice Pereira

 

Confesso que sempre tive certa resistência a visitar um brechó. Tinha a impressão de que o cheiro de mofo me afastaria imediatamente. Minha neta, no entanto, me convenceu a acompanhá-la a um desses da moda, que ela já havia visitado com as amigas.

Eu havia comentado que teria um casamento e não sabia o que usaria, já que era num local requintado.

Ainda tenho os vestidos que usei no casamento dos filhos e nunca mais os vesti. Mas não os usaria por serem mais sofisticados e por estarem um pouco fora de moda.

— Por que você não leva os seus pro brechó e talvez encontre algo lá que agrade, vovó?

   Só em pensar que vou usar algo que alguém já vestiu me dá uma comichão, querida. —  Respondi-lhe, rindo e já sentindo coceira nos braços.

Júlia riu, sacudindo a cabeça como quem diria: Essa minha avó

— Vou te levar num brechó encantador que você vai amar e duvido que saia de lá de mãos abanando.

E Júlia me arrastou para o carro sem que eu tivesse tempo de resistir.

O local era perto e, logo que cheguei, notei o cuidado no jardim que circundava a casa, cercada de bancos coloridos e gaiolas abertas por onde circulavam alguns pássaros à vontade, entoando seus pios, enquanto buscavam frutinhas espalhadas por toda a extensão, num convite a saboreá-las.

Ao entrar na sala, deparei-me com as araras repletas de roupas coloridas, todas cobertas por uma capinha plástica, contendo etiquetas que as descreviam. O local exalava um suave perfume e a iluminação amarelada fazia com que o ambiente fosse muito acolhedor. Senti-me muito bem ali.

Júlia me abraçou e me dirigiu ao setor de vestidos próprios para cerimônias, que estavam dispostos em outra sala, seguindo as diversas numerações e estilos. A organização do lugar encantou-me.

A dona e demais atendentes atenciosas e incansáveis fizeram questão de nos mostrar as diversas alternativas.

Um dos vestidos chamou minha atenção, fazendo com que eu viajasse no tempo, chegando à minha formatura do colegial, hoje o nono ano do ensino médio. Era inteiro plissado, num tom de azul furta-cor que ia até o marinho. Aquela visão me levou às lágrimas. Minha neta achou que eu devia experimentá-lo, já que me trazia doces recordações.

Dentro dele, tive a sensação de já ter vivido aquele momento, aquela emoção. Ele me levava, não para a década de sessenta, mas para outra dimensão, outra vida talvez, algo inexplicável que me emocionava sem saber por quê.

Ensaiei uns passos de dança como se estivesse sendo guiada. No meu inconsciente, ouvia o som longínquo de uma orquestra que tocava uma valsa que cantarolei baixinho, como se a conhecesse de longa data.

Não sei por quanto tempo fiquei ali, parada, emocionada, em transe.

Sacudida por Júlia, que me trazia água e estava com os olhinhos assustados, saí daquele torpor.

Tomei a água e me sentei, sentindo um enorme cansaço.

Depois de tudo que senti, não poderia deixar de levar o vestido que havia ficado perfeito em mim, até no comprimento.

Voltamos em silêncio. Júlia ensimesmada. Eu tentando digerir o que acabara de vivenciar. Tendo a nítida impressão de ter revivido algo que ocorrera comigo em alguma vida passada.

 

UMA TARDE DIVERTIDA NO BRECHÓ COM A TURMA ESCREVIVER

 UMA ACHADINHO NO BRECHÓ


Esse tema rendeu até uma brincadeira, um mimo, 

um álbum de fotos reunindo os atuais alunos EscreViver e alguns que que nos visitam às vezes. E,  todos clientes do brechó:




Suzana

Isabella

Maria Luiza

Antonia

Carla

Ises

Paulo

Fernando

Adriana

Yara

Ana Maria

Silvia Vilac

Ledice

Sergio

Silvia Helena

Vera

Fernanda

Angela

Doris

Verônica

Jeremias

Carlos

Adolfo

Maria Helena


E, claro, cabe uma homenagem também aos que já estiveram conosco e deixaram saudade:

Primeira aula EscreViver em 2012



Festa de encerramento do ano 2015

Nossa festa de encerramento do ano de 2015

Festa de encerramento do ano 2016


Festa de encerramento do ano 2018


Uma tarde fotos


Nosso encerramento do ano 2017


Atentar para a mesa bem arranjada em 2017:











PRIMA DIMENSÃO - Sergio Dalla Vecchia

 

 


PRIMA DIMENSÃO

Sergio Dalla Vecchia

 

Após setenta anos, resolvi buscar o passado, rumando para a pequena cidade do interior de São Paulo, onde meus avós tinham uma fazenda.

Essa atitude surgiu em certo dia em que a gente amanhece se sentindo nostálgico e vai dormir filosofando. Daí a ideia de resgatar o muito que restou da minha infância.

Cheguei à cidade após horas de viagem, mesmo nos tempos modernos de infraestrutura compatível.

Por que me pareceu tão demorada? Será porque a paisagem lindeira à rodovia, antes pitoresca, misturou o verde com o cinza concreto, embaralhando o tempo!

A estrada, antes rápida, de terra cascalhada, não tinha a mesma rugosidade atual, onde a poeira juntava-se ao som dos pneus no cascalho, volatilizando o cheiro de terra ao som do veículo em movimento e as lamúrias de minha mãe pela poeira. Sinfonia única de lembranças!

Agora era uma via lenta de superfície lisa, sem os nuances do tempo e muito menos da minha infância. Contudo, dava-me a impressão de que o carro era mais veloz. Puro engano!

A terra continuava onde sempre esteve, o campo, as árvores e os rios sempre foram os mesmos e minhas lembranças eternas, então para que medir o tempo! Seria possível tal ousadia?

Continuei filosofando e, já na praça principal da cidadezinha, lá estava a mesma igreja. O mesmo jardim bem cuidado e a torre do sino. Logo lembrei-me das vigorosas badaladas diárias do sino, pontualmente às 18h. Elas proclamavam o povo para a Ave Maria até que o sineiro cansasse de tanto puxar e soltar a corda.

Olhei para o relógio e, coincidentemente, ele marcava 18h.

Então, blém, blém…! Não foi como antes, a sonoridade era frágil, parecia que o sineiro não tocava o sino e sim o sino era que o arrastava. Talvez porque o tempo passou e seus movimentos já não tinham o vigor necessário e ele quisesse mesmo era subir aos céus ao som místico do sino.

Confuso entre o passado e o presente, sentei-me em um banco do jardim próximo ao coreto. Lá fiz uma análise de minha vida e concluí que:

Das áureas recordações dessa minha infância, só me resta guardá-las com muito carinho e gratidão por vivenciá-la com plenitude.

Já não sou mais o mesmo, tudo ficou lento, os sentidos, os órgãos e as aspirações, porém insistirei em viver, pois convicto sei que minha infância não almeja que eu amadureça e caia como um fruto qualquer. Ela é minha energia!

Assim, o dia acordou com um longo suspiro.

Não sei se foi com o meu ou o de minha alma!

 

Bom mesmo é saber levar a vida. - Ledice Pereira

 


Bom mesmo é saber levar a vida.

Ledice Pereira

 

O toque do celular anunciava a Marcia que era hora de levantar-se. Escolhera uma música que lhe recordava a infância, quando sua mãe a acordava cantando. Muitas vezes, já acordada, esperava pelos acordes que soavam pontualmente às 6 horas.

Entrou no banho com os olhos semiabertos, acordando aos poucos e olhando pela janela para sentir como estava a temperatura daquele outono recém-chegado.

O banho quentinho a abraçava, revigorando-a. Tornando-a pronta para enfrentar a maratona diária.

Costumava deixar tudo pronto na cozinha para facilitar e agilizar a refeição que mais gostava de tomar. O cheirinho do café, passando no coador, alimentava-lhe a alma.

Café tomado, saía sorrindo para todos que encontrava e agradecia a Deus por mais aquele dia.

Duas quadras a separavam da estação de metrô. A rotina diária apresentara-lhe todos os metroviários que ali exerciam sua função. Ia distribuindo sorrisos para eles que lhe acenavam.

Acomodada, construía histórias sobre os usuários com quem dividia o percurso, muitos deles habituais.

Observava cada um com seus respectivos cacoetes: aquele senhor, que lembrava muito seu avô, ao bater longos papos consigo mesmo, sem se importar com os demais, gesticulando energicamente, à medida que conversava sozinho. Talvez estivesse treinando para enfrentar uma conversa séria, ou então resolvendo um assunto importante.

Havia o jovem que fingia dormir sempre que notava a entrada de um sessenta mais. Engraçado que nunca perdia o ponto de descida.

Conhecia bem a paqueradora, que suspirava, procurando chamar, em vão, a atenção de um bonitão ao lado.

Mas o que mais Márcia admirava eram as mães, que carregavam seus filhos no colo, ao mesmo tempo que equilibravam sacolas e brinquedos junto da bolsa que levavam rente ao corpo. Isso quando não levavam um bebê no colo e outro pequeno emburrado pela mão e todas as sacolas, bolsas e mochilas como se fossem um polvo com todos os seus tentáculos.

E “aquele” continuava fingindo que dormia;

Era tanta história a chamar a atenção que, quando percebia, já estava na hora de descer do vagão.

Assim, aquela rotina deixava de ser monótona e fazia com que ela chegasse ao trabalho lépida e de bom humor.

Fazia, como se dizia, de um limão azedo, uma deliciosa limonada!  

O Joaquim, motorista de ônibus - Isabella Brancher

 



O Joaquim, motorista de ônibus

Isabella Brancher

 

Eram 5h50 da manhã, o sol ainda não tinha se levantado e as nuvens baixas cobriam boa parte da cidade. Não havia escolha, Maria tinha que se levantar. O frio do chão percorreu a sua espinha quando se dirigiu ao banheiro. Ainda caminhava cambaleando, cheia de sono. A cidade começava pouco a pouco a acordar. Os sons dos automóveis, buzinas e freadas se faziam mais presentes. Os cachorros abanando os rabos vigorosamente passeavam pelo quarteirão. Era a revelação de que um novo dia se iniciava.

Tinha apenas 20 e poucos minutos para se aprontar; o café, já deixado pré-preparado na cozinha, agora enchia a casa de energia. Um despertar forçado. Saboreou, como de costume, deixou a caneca na pia e desceu. No ônibus, alguns rostos conhecidos faziam o mesmo percurso.

O motorista, Joaquim, a recebia sempre com um caloroso e sorridente bom dia no momento em que ela subia o primeiro degrau. Nesse momento, ela se sentia leve, como se flutuasse, e os degraus deixavam de ser tão altos.

Sentada, sempre nas primeiras cadeiras, observava com atenção os passageiros recorrentes. Procurava ser discreta, mas passava o percurso a explorar cada um dos companheiros de viagem. Imaginava a senhora que subia no ponto seguinte aonde  ela iria, o que faria. Tinha o rosto marcado pelo tempo, as costas levemente curvadas e sempre carregava uma sacola térmica.

Outro passageiro habitual era um jovem rapaz que carregava um instrumento musical em um case. Ele usava umas costeletas compridas, a barba maltratada, e suas roupas eram sempre largas. O tênis, um all star de cano alto, compunha o visual dele, parecia esquecido no tempo. Com um olhar perdido, passava o caminho a dedilhar alguma música sobre sua coxa.

Maria gostava mesmo de observar o motorista, tinha uma queda por ele. Aquele bigode farto preto, as meias alinhadas sob as calças, os sapatos sempre bem engraxados. A camisa, impecavelmente passada. Tudo isso a impressionava. Esbanjava cultura. Queria descobrir de onde vinha. Por que estaria dirigindo aquele ônibus? Quem cuidaria tão bem de sua roupa?

Maria seguia até o ponto final e, durante todo o trajeto, permanecia a observar os passageiros, os habituais, e também os aleatórios. O único momento em que parava de observar os passageiros era quando passavam pela rua que costeava o mar. O mar a fascinava, o azul profundo, a espuma branca ao bater nas rochas e a areia clara traziam serenidade. Muitas vezes pensou em ali descer e correr pela areia, mas sempre se deteve. Estava a caminho do trabalho e não poderia se atrasar.

Dias, semanas se passavam nessa rotina, em muitas viagens Maria se sentia pequena, às vezes invisível. O espaço a oprimia. Hoje se sentia diferente. A atmosfera parecia mais doce, colorida. Ao passar pela costa, o ônibus parou numa reentrância da orla. Joaquim desceu de seu posto, olhou para todos os passageiros. Pediu desculpas. Caminhou lentamente em direção a Maria. Suas pernas tremiam, seu rosto se iluminou. Maria, por sua vez, sentia um calor subir no seu rosto, um nó na garganta, um certo medo. Joaquim tirou do bolso uma pequena caixa, a abriu, nela continha um belo anel. Mostrou a Maria e, sem nunca ter dito mais que um bom dia, se dirigiu a ela e disse: Casa comigo? 

 

 

O som do sino - Carla Di Sessa

 



O som do sino

Carla Di Sessa


 

O sino da igreja batia pontualmente às seis da tarde todos os dias.

 

Marcelo ouviu e estranhou. O som parecia, assim, desanimado, não tocava com seu costumeiro entusiasmo. Normalmente tocaria imperioso, lançando seus acordes aos quatro cantos do bairro. Para Marcelo, aquele badalar sinalizava que o dia se encerrava, que ele havia cumprido suas obrigações e que podia ir para casa ver sua família. Começou a organizar suas coisas meticulosamente, pois Marcelo era um homem que valorizava ordem e disciplina, mas algo chamou sua atenção. Ele parou o que estava fazendo e prestou atenção no som do sino que pairava sobre todo o seu escritório. Naquele dia, pareceu a ele que o sino se entristecia ao sinalizar que sua vida monótona e rotineira, como a dele, havia atravessado mais um dia.

 

Joana ouviu o sino da igreja tocar e pensou: Graças a Deus, seis horas, posso ir embora. Guardou suas coisas e parou em frente ao espelho para checar o cabelo e o batom. Foi aí que notou algo diferente naquele som que escutava desde criança: estava mais austero, menos espalhafatoso. Mas a razão dessa diferença não era importante para ela. A única coisa que lhe interessava era que aquele som, alto ou fraco, desanimado ou escandaloso, marcava a hora em que, finalmente, podia ir se encontrar com Maurício e se perder com ele nas dobras do lençol da cama, sentindo seu cheiro e seu gosto.  Sem pensar duas vezes, pegou sua bolsa, apagou as luzes e saiu, trancando a porta atrás de si.

 

Ah, droga, disse Quinzinho ao ouvir o sino da igreja tocando. Aquele som sinalizava que ele devia se despedir de seus amigos e do futebol que estavam jogando para ir para casa ter aula de piano com Dona Glaucia, uma senhorinha simpática, mas rigorosa, que fazia Quinzinho repetir infinitamente as escalas e arpejos. Quinzinho percebeu algo diferente no som do sino naquele dia, parecia triste por encerrar a sua diversão. Se está arrependido, pensou Quinzinho mal-humorado, podia não tocar e me deixar aqui, feliz, jogando meu futebol. Despediu-se dos amigos e saiu correndo para sua casa.

 

Isabel ouviu o som do sino e pensou estar atrasada, logo a família estaria em casa e seu sossego acabaria. Precisava organizar o jantar, pôr a mesa e se arrumar para o marido, que gostava de encontrá-la linda, cheirosa e bem arrumada, como se ela fosse uma espécie de Cinderela que, cantando,  cuidava do lar ajudada por passarinhos e ratinhos. Isabel sentiu algo diferente no som do sino naquele dia, como se ele também estivesse com preguiça e não quisesse acabar com o próprio sossego. Logo ele, pensou, imperioso, pontual, infalível. Um chato de galocha que não podia deixar um único dia simplesmente passar sem bater seu ponto sonoro às seis da tarde.

 

Padre Rogério subiu lentamente os degraus estreitos da torre, seus joelhos já não eram o que costumavam ser há 20 anos, mas o sino andava estranho e precisava descobrir por quê. Há dias vinha adiando a expedição, apreensivo com a empreitada que seus joelhos enfrentariam e com o tamanho do problema que iria encontrar.  Assim que Padre Rogério chegou ao topo, olhou para o sino e a razão se mostrou: uma fina rachadura cortava o sino como uma cicatriz. O padre suspirou e, naqueles poucos instantes, percebeu que a rachadura simbolizava não só a fragilidade do sino, mas também a da fé daquela cidade.


O relógio cuco - Isabella Brancher

 


O relógio cuco

Isabella Brancher

 

João acabava de chegar do basquete. Suado, como de costume, jogou os tênis e a sacola no canto do quarto e sentou-se para ler mais um conto de Sherlock Holmes. Tinha um fascínio pela capacidade lógica de Holmes. Sabia que seu ídolo era apenas um personagem, mas, sempre que o tempo permitia, corria para devorar mais uma história.

 

Naquela tarde cinzenta de outono, tentando recuperar as energias enquanto lia, percebeu que algo faltava na prateleira sobre a mesa de estudos. Pensou consigo mesmo: o que estaria faltando? Teria sido apenas imaginação? Intrigado, levantou-se e notou a poeira intacta no local onde antes repousava um objeto. Sim, definitivamente algo havia sido retirado dali. Tentou puxar pela memória, mas nada lhe vinha à mente.

Desceu as escadas, serviu-se de um copo de leite e, subitamente, lembrou: era o relógio antigo que ganhara do avô quando ainda era pequeno. Quando funcionava, ao soar da hora cheia, uma pequena portinhola se abria e dela saía um pássaro que cantava. Agora, restava apenas a lembrança daquele som marcando o tempo.

Ao ouvir a porta da casa se abrir, correu ao encontro de quem chegava. Era o pai.

— Pai, você levou meu relógio para consertar? — perguntou, sem conseguir conter a ansiedade.

Surpreso, o pai respondeu:

— Não. Há semanas não entro no seu quarto.

Eles haviam discutido por causa da constante desordem no espaço do filho, e o pai prometera manter distância dali.

João começou então a vasculhar os armários da cozinha, na esperança de encontrar o relógio. Não satisfeito, procurou também no escritório do pai. Quando a mãe chegou, fez a mesma pergunta.

— Procure melhor — respondeu ela. — Se você fosse mais organizado, saberia onde está o relógio.

Inconformado, João decidiu tomar uma atitude. Recolheu as roupas sujas, guardou os objetos espalhados, arrumou a cama e sentou-se para observar o quarto com mais atenção. Ao pegar os tênis, percebeu restos de barro no chão.

— Teriam vindo dos meus tênis? — pensou. — Não é possível. São de basquete, nunca pisei na terra com eles.

Isso o levou a uma conclusão inquietante: alguém havia estado ali.

Ligou para a avó na esperança de encontrar alguma pista, mas sem sucesso. Restavam-lhe apenas os fragmentos de barro como indício. Quem teria entrado em seu quarto? E como? Exausto, física e emocionalmente, deitou-se e acabou adormecendo.

Na manhã seguinte, dia de escola, levantou-se e se aprontou. A luz do sol invadia o quarto, iluminando os cantos que a noite mantivera ocultos. Próximo à porta, algo brilhava. Engatinhando até o local, encontrou um brinco: uma argola dourada com um pequeno brilhante na ponta.

De quem seria?

Pensou, pensou, mas nada lhe ocorreu. Com o brinco na mão, correu até a mãe e perguntou se era dela. A mãe logo afirmou: não é meu. Eu os presenteei à sua prima no último Natal.

Foi então que se lembrou de que Priscila estivera em sua casa no aniversário do pai.

Após a escola, seguiu diretamente para a casa da prima. Ela ainda não havia chegado, mas a tia o deixou entrar para esperar Priscila. Dizendo precisar ir ao banheiro, João foi até o quarto de Priscila — e ali, sobre a mesa de cabeceira, estava o relógio cuco.

O coração disparou.

Por que Priscila teria feito aquilo?

Horrorizado, desceu correndo as escadas e deu de frente com a prima, que acabara de chegar.

João segurava o relógio com força. Precisava ficar com ele. Mas como pedir isso sem causar um escândalo na família? João respirou fundo. Não adiantaria gritar ou acusar. Lembrou-se de Holmes: acusar sem provas é perder a vantagem.

— Priscila… — disse, tentando manter a voz firme — posso te mostrar uma coisa?

Ela estranhou o tom sério, mas assentiu. João abriu a mochila e colocou o relógio cuco sobre a mesa da sala, entre os dois.

— Esse relógio era do meu avô. Ontem ele sumiu do meu quarto… e hoje eu o encontrei no seu.

O silêncio pesou por alguns segundos. Priscila empalideceu e, com a voz trêmula, disse:

— Eu… eu ia devolver — murmurou. — No dia do aniversário do tio, eu vi o relógio. Ele estava largado, sujo de poeira. Pensei que ninguém mais ligasse pra ele. Levei sem pensar… Depois me arrependi, mas não tive coragem de devolver.

João sentiu um misto de alívio e tristeza.

— Eu não quero que isso vire um problema na família — disse, com suavidade. — Só precisava entender. Esse relógio é importante pra mim, mesmo quebrado.

Priscila assentiu, com os olhos marejados.

— Desculpa, João. De verdade.

Ele fechou o relógio com cuidado e colocou de volta na mochila.

— Vamos deixar isso entre nós. Mas promete que, da próxima vez, pergunta.

Ela prometeu.

Enquanto saía da casa, João pensou que talvez Sherlock Holmes estivesse certo: às vezes, resolver um mistério não é sobre punição, mas sobre compreender as razões do ato.