ESCREVIVER - BLOG MAIS ANTIGO
BIBLIOTECA VIRTUAL ESCREVIVER
Henrique, nunca venda a casa! - Ledice Pereira
E se…? - Carla Di Sessa
E se…?
Carla Di Sessa
Henrique recebeu a notícia de que seu tio Manoel, com quem quase não falava há anos, havia morrido e deixado para ele uma pequena casa da praia e um carro antigo, um Opala preto. Embora estivessem distantes ultimamente, Henrique se lembrava com carinho do tio e do carro, pois havia se imaginado muitas vezes dirigindo aquele Opala e conquistando o coração de todas as garotas do bairro.
No dia em que foi até a casa da praia para tomar posse da herança, encontrou uma pasta no porta-luvas do Opala preto. Havia recibos, fotografias de viagens e um envelope com seu nome escrito à mão. Lá, encontrou a chave da casa e um bilhete curto: “Henrique, nunca venda a casa.” Ah, tio Manoel, isso eu não sei, pensou, essa casa iria render um dinheirinho que viria bem a calhar.
Entrou na casa e viu que tudo estava meio empoeirado, mas em ordem. Pela janela, viu um casal se aproximando; eram os vizinhos que haviam sido atraídos pelo movimento. Henrique se apresentou e o casal contou que seu tio andava muito tenso nos últimos tempos, pois sabia que não iria durar muito e não conseguia resolver para quem deixar seus dois tesouros, a casa e o Opala preto.
Depois de mais um pouco de conversa, o casal se despediu e Henrique resolveu dar mais uma olhada na casa e descobriu que tinha um porão, vazio exceto por uma porta no lado esquerdo. Deveria ser uma espécie de armário, provavelmente também vazio.
Resolveu ir até a cidade procurar ajuda, talvez um chaveiro para abrir aquela porta, mas ao voltar ao andar de cima notou um outro envelope em uma mesinha escondida ao lado de um sofá. Henrique abriu o envelope e encontrou mais um bilhete e outra chave. O bilhete dizia simplesmente “Divirta-se” e Henrique caiu na gargalhada, só podia ser brincadeira, quanto mistério, tio Manoel!
Foi de novo para o porão e conseguiu abrir a porta com aquela chave. Quando viu o que tinha dentro, quase caiu de costas: notas e notas de dinheiro arrumadas em pequenas pilhas em prateleiras. A maior parte eram dólares, mas também havia Reais.
Tio Manoel, no que o senhor estava metido!?!
Então, Henrique viu em cima de uma das pilhas de dinheiro um folheto de propaganda. Era de uma sorveteria, faziam entregas naquela praia todo dia 15. Só tinham três sabores: baunilha, chocolate e tutti-frutti. Entregavam em uma caixa de isopor que você devolvia no mês seguinte. De fato, havia uma caixa de isopor em uma das prateleiras.
Henrique não estava gostando nada daquilo, muito mistério, muito cheiro de ilegalidade. Apressado, largou tudo, trancou a porta do armário e decidiu sumir dali o mais rápido possível. Eis que escutou a campainha tocar e lá estava o vizinho novamente.
Oi, já soube da sorveteria?
Henrique ficou em silêncio.
Pelo jeito, já. Eles vêm aqui todo mês fazer as entregas. Baunilha é para os estrangeiros, chocolate para os brasileiros, entendeu? E Tutti Frutti é para receber o recibo de pagamento de algum serviço prestado e não ficar parecendo que tem um pé de você sabe o quê no jardim, certo? Você escolhe o sabor na hora, entrega seu isopor e recebe outro com seu sorvete.
Henrique continuava em silêncio.
Hoje é dia 15, que sorte a sua, vai ter entrega de sorvete mais à noitinha. Tchau, cara, a gente se vê. Não se esqueça do isopor.
Henrique achou que era muito bom para ser só isso. O que teria que fazer para receber o sorvete? Saiu correndo atrás do vizinho e perguntou. Não tem que fazer nada, ele respondeu.
Ah, tá, vai falando, o que vou ter que fazer caso aceite a entrega dos sorvetes?
Nada, tô te falando, cara, pode acreditar. Não precisa fazer nada. Só não pode vender a casa.
Então ele se lembrou do que seu tio havia escrito: “Henrique, nunca venda a casa.”
UMA CURVA NA ESTRADA - Isabella Brancher
UMA CURVA NA ESTRADA
Isabella Brancher
Zico e Bruna cresceram juntos, eram vizinhos de casa em uma cidade pequena no interior de São Paulo. Muito ligados na infância sempre tinham algo para dividir. Ele gostava de fotografia, e sempre que podia tinha junto a sua câmera fotográfica. Parecia quase como uma parte inseparável do seu corpo. Saiam juntos para a escola, de um lado Zico tinha a sacola com os livros a tiracolo, do outro lado seu instrumento de registro. Gostava de fotografar de tudo, algumas vezes era apenas um detalhe de Bruna: um novo brinco, ou o botão da blusa. Tinha um olhar sobre o micro que intrigava Bruna, e ao mesmo tempo olhava o macro tirando fotos de lindas paisagens, dignas de cartões postais. Zico tinha um gosto refinado, gostava do luxo e de matemática.
Bruna era uma garota sem tantos atrativos, seus ombros eram leves, ao andar flutuava. Nada a encantava em especial, aluna mediana, cumpria suas obrigações a contento, tinha até um certo desprezo por algumas tarefas. Gostava muito de artes, e tudo que envolvia explorar sua criatividade a deixava estimulada. As cores vibrantes em uma tela branca, os trabalhos com o barro construindo lindas peças de cerâmica a preenchiam de luz e significado. Bruna não tinha consciência, assim como Zico que a arte se fazia tão presente em suas vidas.
A faculdade chegou e os dois seguiram caminhos muito distintos. A vida na cidade natal foi se tornando distante. Ela havia se mudado para Nova York e Zico cada vez mais envolvido com o trabalho no banco. Os pais que ainda moravam na cidade da infância e estavam enfrentando alguns problemas com a prefeitura. A cidade crescera e as casas próximas a praça central estavam sendo desapropriadas. No terreno das casas seria criado um espaço multicultural com uma praça em frente à igreja matriz. Há anos Bruna e Zico não se viam. Tiveram que se mover até a cidade dos pais. A ideia era poder assessorá-los em todo o processo de indenização e encontrar um novo local para os pais morarem. Passados mais de 15 anos se encontrariam aonde a adolescência de ambos havia aflorado.
A cidade estava cheia de verde, como de costume, algumas casas agora tinham um aspecto mais contemporâneo. As ruas estavam mais largas. Um cheiro de modernidade pairava no ar. As casas dos pais pareciam um borrão na nova paisagem.
O pai de Bruna foi o mais resistente, a casa tinha sido de seu avô e imaginar que seria destruída lhe cortava o coração. Os demais, porém, também se recusavam a aceitar a mudança. O desconhecido assustava. Bruna e Zico se uniram na missão de acolher e convencer os pais que um novo ciclo havia chegado, e que eles também se beneficiariam com isso.
Aos poucos Bruna e Zico foram relembrando do passado e aproveitando aqueles momentos juntos. A vontade de ficar juntos foi se intensificando à medida que os dias passavam. As risadas entre as discussões. As trocas de olhares como confidências, tudo isso foi criando espaço para um desejo de compartilhar mais.
Um dia Zico convenceu Bruna a ir até aquele bosque distante que costumavam ir de bicicleta quando crianças, ela relutou. Depois de uma breve insistência Bruna cedeu. Pegaram seu carro e seguiram pela estrada sinuosa. Havia uma curva fechada naquele trecho da estrada. De um lado, o pinheiral escuro; do outro, a ribanceira que descia até o rio Arco. O rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia. Zico dirigia rápido demais. Não conhecia aquele caminho de carro, mas, sempre que eu reclamava, respondia do mesmo jeito:—Eu conheço meu carro, relaxa, Bruna. Relaxar era impossível. Eu apertava o cinto cada vez mais forte e olhava para a estrada, estreita e cheia de curvas. Naquele ponto, porém, senti um arrepio. A curva apareceu de repente, fechada, perigosa, quase escondida entre os pinheiros:—Zico, cuidado! —gritei. —Essa curva é traiçoeira! Mas ele apenas sorriu e virou o volante... Subitamente nada mais fazia sentido, todos aqueles momentos desconfortáveis, frios e sem proposito desapareceram junto com a esperança de uma vida nova com ele. Nada mais fazia sentido. Não seria mais preciso testemunhar nenhuma discussão. Tudo teria ficado para trás, pensou Bruna se vendo cair na ribanceira. Porém, para sua surpresa, depois daquela curva acentuada se abriu um lindo planalto totalmente arborizado. Se via um lago, uma cachoeira, e a poucos metros uma linda casa envidraçada. Tudo perfeitamente combinado preenchendo o espaço de uma beleza indescritível. Bruna ficou muda, sem movimento, apenas contemplando a magnitude do lugar. Zico a admirava feliz!
IRRADIAÇÃO - Sergio Dalla Vecchia
IRRADIAÇÃO
Sergio Dalla Vecchia
Henrique abriu a porta da casa de praia com um sentimento de curiosidade e ao mesmo tempo desconfiança.
A pequena casa cheirava a maresia misturada ao cheiro de tabaco, eram evidências físicas da casa fechada há algum tempo e da personalidade do tio apreciador de bons charutos.
Após descortinar cada um dos cômodos, logo chegou à porta dos fundos, ao abri-la, deparou-se com um gramado por aparar e, ao fundo, uma garagem.
Em poucos passos, chegou à garagem e lá se surpreendeu com a silhueta de um carro envolvido por uma lona repleta de pó arenoso.
A curiosidade masculina por carros logo o fez retirar a lona com muita cautela. Assim acordou um icônico carro Chevrolet Opala preto adormecido no tempo. Pintura conservada, abriu a porta e o interior mostrou-se em couro na cor bege, acariciou o assento como se fosse uma moça e ansioso sentou-se ao volante.
Henrique estava encantado naquela cabine, tato e visão a galope escanearam tudo até chegarem ao porta-luvas. Ato contínuo, ele abriu.
Dentre alguns objetos irrelevantes, destacou-se um envelope lacrado.
Nele havia uma chave e um bilhete contendo o seguinte: Não venda esta casa em hipótese alguma, Henrique. A sensação é que o próprio tio estava presente, ordenando!
Admirado com aquela incógnita surpresa, voltou para o hotel onde se alojou na pequena cidade das redondezas.
Eufórico, mal consegui dormir e logo cedo saí pesquisando pela vizinhança sobre os hábitos do tio falecido.
Após vários contatos, chegou à conclusão de que o tio era homem de poucos amigos, pouco falava sobre si e apenas saía de casa para compras de mantimentos.
Era um homem singular, misterioso e pomposo, dirigindo seu impecável Opala preto. Parecia um diplomata, oficial do exército ou coisa parecida.
Mais uma noite insone. Cedinho voltou para a casa a fim de examiná-la na busca de pistas para o aproveitamento daquela chave e o porquê de não poder vendê-la.
Assim, andando pela cozinha e batendo no piso com um cabo de vassoura, ouviu um som oco, sinal de algo solto. Parou e logo descobriu se tratar de um alçapão de entrada para o subsolo.
Sem pensar, com o coração a mil, desceu alguns degraus e chegou ao porão. Acendeu a luz e qual foi sua surpresa ao deparar-se com uma complexa estação de rádio. Não precisou olhar mais para perceber que ali era um bunker. Mas por quê? — Pensou Henrique - E a chave?
Com mais atenção, logo achou em um cantinho bem disfarçado um cofre. Sim, só pode ser a chave do cofre, pensou com seus botões!
Tremendo e com a chave em mãos, mirou na velha fechadura, algumas voltas e meias o mecanismo destravou e, zaz! A porta abriu-se!
Surpresa! Não havia nada de valor, apenas o boneco de um livro recém-acabado com o seguinte título: A Vida de um Radioamador.
Henrique sofreu um baque pela expectativa tão oposta ao que ali encontrara.
Aguardou um pouco, abriu o boneco e, com certo desinteresse, iniciou a leitura do prefácio.
O desinteresse inicial, como um passe de mágica, agora transformou-se em interesse total.
Já no texto, cada parágrafo que sorvia o tio solitário crescia.
Após o encantamento com o bem que seu tio fez, salvando vidas, avisando tormentas, buscando pessoas sequestradas, orientando navios à deriva e tantas outras benevolências, encerrou a leitura emocionado.
No quarto do hotel, usou a noite toda para filosofar e percebeu que o solitário era ele e não o tio.
Mudou-se para casa de praia, aprendeu a irradiar, tirou o Opala da garagem e viveu solitário dos presentes, mas feliz da vida prestando ajuda remotamente para os ausentes necessitados.
Uma curva na estrada - Carla Di Sessa
Uma curva na estrada
Carla Di Sessa
Havia uma curva fechada naquele trecho da estrada. De um lado, o pinheiral escuro; do outro, a ribanceira que descia até o rio Arco. O rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia. Zico dirigia rápido demais. Não conhecia aquele caminho, mas, sempre que ela reclamava, respondia do mesmo jeito:
— Conheço meu carro, relaxa, Bruna.
Relaxar era impossível. Ela apertava o cinto cada vez mais forte e olhava para a estrada, estreita e cheia de curvas. Naquele ponto, porém, sentiu um arrepio. A curva apareceu de repente, fechada, perigosa, quase escondida entre os pinheiros:
— Zico, cuidado! —Gritou. —Essa curva é traiçoeira! Mas ele apenas sorriu e virou o volante…
BRUNA
Vários meses antes, Bruna havia entrado correndo em um hospital veterinário, carregando seu cachorro no colo e pedindo ajuda. O bichinho estava engasgado com alguma coisa, mal conseguia respirar. A recepcionista chamou imediatamente o veterinário, que veio correndo, atendendo à urgência da voz dela. Ao vê-la, Bruna, a essa altura quase chorando, explicou novamente que seu cachorro estava engasgado com alguma coisa, mal conseguia respirar. O veterinário olhou o animalzinho no colo dela, o pegou sem a menor cerimônia e sumiu com ele para a outra sala. Aflita, Bruna fez menção de ir atrás, mas a recepcionista lhe ofereceu um copo de água, fez com que se sentasse e aguardasse um instante. O Dr. Paulo vai cuidar bem do seu cachorrinho. Aliás, qual é o nome dele? Idade? Raça? Bruna foi respondendo automaticamente enquanto olhava ansiosa na direção da outra sala. Passado algum tempo, o veterinário apareceu sorridente. Pronto, ele disse, seu cãozinho está bem, conseguimos tirar um brinquedinho que estava entalado na garganta, mas tivemos que sedá-lo levemente e agora ele precisa descansar um pouco. Foi então que os olhos deles se encontraram e tudo mudou. Até alguns meses antes, Bruna estava dividida entre a sensação de culpa e todas as outras que haviam entrado em sua vida com Paulo. Desde o momento em que seus olhares se encontraram, ela se sentiu como em uma montanha-russa cujo carrinho já tinha começado a se mover e ela não podia mais desistir, e então se deixou levar. Até algumas semanas antes, Bruna havia sido muito atenta aos detalhes, cuidadosa com os horários e com as desculpas. Mas, com o passar do tempo e o aumento da paixão, acabaria se descuidando. Para ela, havia sido só em coisas sem importância e por isso estava tranquila, quem iria ficar prestando atenção em detalhes insignificantes?
ZICO
Zico precisava de Bruna tanto quanto precisava de ar. Antes dela, sua vida era um eterno tom de bege e Bruna havia chegado como um arco-íris brilhando eternamente a seu lado. Além disso, ela também o amava profundamente, ele tinha certeza. No último Natal, ele adotou um cãozinho e fez surpresa dando de presente para ela. A melhor coisa para Zico era causar tanta alegria para a pessoa que ele mais amava no mundo. Porém, já há alguns meses, ele havia começado a notar coisas diferentes em Bruna. Eram tão sutis que pareciam sombras que a gente acha que viu, mas não, era só impressão. Acabou se convencendo de que estava imaginando coisas e procurou esquecer o assunto. Mas o alerta havia chegado algumas semanas atrás. Bruna havia ido ao clube para a aula de tênis e Zico saiu para trabalhar. Ao entrar no carro, viu a raquete dela no banco de trás e pegou o celular para avisar, mas alguma coisa o fez parar. À noite, durante o jantar, no meio da conversa, ele perguntou se a aula dela de natação foi boa. Natação? Ela respondeu: Não, hoje é quinta, tive aula de tênis. Zico só a olhou e sorriu. A partir daí, passou a prestar atenção e a verdade começou a aparecer diante de seus olhos. Detalhes como ela sair de cabelo preso em um coque todo arrumado e voltar com o cabelo solto, dizer que havia ido ao supermercado e ele reparar que a geladeira e a despensa continuavam com coisas faltando. Até que um dia ele a seguiu e a viu com outro homem, abrindo seu arco-íris para ele, exatamente como fazia anteriormente com Zico. Algo dentro dele se fechou ao mesmo tempo em que algo se abriu e de dentro saiu um ciúme pavoroso acompanhado de uma raiva cega. Aquela cretina! E agora estavam viajando juntos. Bruna, mal-humorada, concordou em ir visitar um amigo dele no feriado. Ela havia avisado Paulo, feito as malas e agora, tentando parecer animada, procurava em vão entabular uma conversa com Zico. Havia uma curva fechada naquele trecho da estrada. De um lado, o pinheiral escuro; do outro, a ribanceira que descia até o rio Arco. O rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia. Zico dirigia rápido demais. Não conhecia aquele caminho, mas, sempre que ela reclamava, respondia do mesmo jeito:
— Conheço meu carro, relaxa, Bruna. Relaxar era impossível. Ela apertava o cinto cada vez mais forte e olhava para a estrada, estreita e cheia de curvas. Naquele ponto, porém, sentiu um arrepio. A curva apareceu de repente, fechada, perigosa, quase escondida entre os pinheiros: — Zico, cuidado! —Gritou.
— Essa curva é traiçoeira! Mas ele apenas sorriu e virou o volante dizendo: Mais traiçoeira que você, Bruna? E abriu a porta, pulando para fora do automóvel. A última coisa que Bruna ouviu foi seu grito quando o carro despencou em direção ao rio. Zico havia se machucado bastante, tinha algumas fraturas e também escoriações, mas a ferida maior ninguém podia ver. O carro despencou pela ribanceira e afundou no rio Arco. Suas águas invadiram tudo e Bruna não conseguiu escapar. Zico sabia que a culpa era dele, tinha premeditado tudo e deveria estar satisfeito, afinal, atingira seu objetivo. No entanto, sentia-se vazio e tomado por um cansaço imenso. O arrependimento comia-lhe a alma e lágrimas por vezes escorriam pelo seu rosto. O que ia ser de sua vida sem Bruna? Quando os policiais vieram, confessou tudo, tendo sido surpreendido ao saber que, afinal, Bruna tinha conseguido escapar. Alguns motociclistas que estavam perto do rio viram o carro cair e conseguiram salvá-la. Bruna despertou assustada e, por alguns segundos, não soube onde estava. Ajeitou-se na poltrona e olhou para a tela do sistema de entretenimento à sua frente. No mapa, um avião avançava lentamente sobre o oceano. O homem ao lado percebeu sua confusão e comentou com naturalidade: “Estamos sobrevoando o oceano agora, vamos fazer uma escala aqui”, e apontou para um ponto luminoso no mapa. “Doha, Qatar.” Bruna franziu a testa, dizendo: “Doha, por quê?” “Porque esta é a rota para Dubai, lembra, estamos indo para Dubai, Bruna.” Ela ficou imóvel, “Dubai?” A voz saiu baixa, quase um sussurro. Então se lembrou de tudo: a queda no automóvel, a água fria envolvendo-a em um turbilhão e depois a escuridão. Acordou em um quarto, confusa e com muita dor. Havia pessoas à sua volta falando ao mesmo tempo, mas conseguiu distinguir uma voz, a de Paulo, ao longe: Bruna, Bruna, está me ouvindo? Agora, no avião, ela olhou para o homem a seu lado e o reconheceu, mas não conseguiu dizer nada. Primeiro vieram as lágrimas, depois os soluços e, por fim, o choro forte e descontrolado. Paulo a abraçou com força, dizendo palavras carinhosas, beijando seus cabelos, dando a ela a certeza de que estavam juntos e de que tudo ia ficar bem.
A CURVA TRAIÇOEIRA - Ledice Pereira
A CURVA TRAIÇOEIRA
Ledice Pereira
Aquelas férias tão esperadas, finalmente, aconteciam. Depois de nossa lua de mel, há dois anos, era a primeira vez que conseguíamos marcar o mesmo período para viajarmos juntos.
Combinamos que iríamos para algum lugar paradisíaco, daqueles que nos trazem paz. Onde a natureza nos acolheria com sua beleza, o canto dos pássaros, o cricri dos grilos, o silêncio da mata. Tudo que não encontrávamos na cidade grande.
Eu pretendia esquecer o celular, as redes sociais, tudo que me desgastava no meu dia a dia de trabalho, no qual os desagradáveis e inúmeros “call” tomavam conta de todos os horários. Estava esgotada e Zico também.
Àquela hora da manhã, a estrada ainda tinha um fluxo razoável, nada exagerado. Propositadamente, escolhêramos sair de casa antes do nascer do sol.
A viagem transcorreu relativamente tranquila até certo ponto, quando nós nos desentendemos porque Zico passou a me provocar, apertando cada vez mais o acelerador.
Eu conhecia aquela estrada. Havia uma curva fechada onde se avistava de um lado o pinheiral escuro, do outro, a ribanceira que descia até o rio Arco. O rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia.
Zico dirigia rápido demais. Ele não conhecia aquele caminho como eu, mas sempre que eu reclamava, respondia do mesmo jeito:
— Conheço meu carro, relaxa, Bruna!
Relaxar era impossível. Eu apertava o cinto cada vez mais forte e olhava para a estrada, estreita e cheia de curvas e penhascos.
De repente, a curva apareceu, fechada, perigosa, quase escondida entre os pinheiros.
— Zico, cuidado! — gritei — essa curva é traiçoeira!
Ele apenas sorriu e virou o volante.
O caminhão apareceu tão de repente, no sentido contrário, que nos arremessou penhasco abaixo, provocando inúmeras capotadas como se fôssemos bolas girando e girando, até parar definitivamente, ao bater numa enorme árvore.
Só então me dei conta de estar de cabeça para baixo, com o airbag me pressionando. Sentia o cinto apertando meu peito, que doía muito.
Zico estava desacordado. Tentei chamá-lo, tocá-lo. Ele não se mexia.
Eu precisava sair daquela posição. Sair dali, gritar por socorro. Alguém, talvez, tivesse visto o que nos acontecera.
Meus Deus, não estou sentindo meus pés.
Comecei a entrar em desespero.
Não sei por quanto tempo permanecemos ali, devo ter adormecido. Percebi certo movimento e vozes. Vi serem homens de uniforme. Consegui destravar a porta por onde supliquei que salvassem meu marido inerte. Não me recordo de mais nada.
.................................................................
Estava tonta, as imagens custaram a clarear. Vi o teto branco, as paredes brancas também. Tentei me mexer. Senti uma forte dor. Estava presa. Tinha fios ligados ao meu corpo. A moça de roupa branca sorriu, tentando me segurar com delicadeza.
— Procure ficar quietinha. Você quebrou alguns ossos da costela. Está sob efeito de medicamentos.
Aos poucos, caí em mim. Lembrei estarmos viajando. O caminhão. Zico.
— Onde está Zico? — perguntei, desesperada, com medo da resposta.
— Seu marido está passando por cirurgia. As costelas quebradas perfuraram o pulmão, quebrou um braço e teve a perna presa durante muito tempo nas ferragens que tiveram que ser serradas. Perdeu muito sangue.
Comecei a chorar, sentindo que tudo doía a cada soluçar.
— Que dia é hoje? — perguntei.
Estávamos há três dias no hospital. Levados pelos bombeiros.
— Nossas coisas, malas, documentos?
— Eles trouxeram tudo que encontraram. Pusemos no armário. Só pegamos os documentos para podermos dar entrada. Não conseguimos ligar para ninguém. Os celulares estão desligados.
Pensei que nossas famílias não sabiam de nada. Deviam estar nos procurando. Querendo saber notícias. Fiquei meio desesperada. Não sabia nem o que pensar. Nem que providência tomar. Estava ali, sem ação, sem poder me movimentar.
O médico veio me dar notícias de Zico. Havia sofrido uma cirurgia delicada. Era necessário aguardar setenta e duas horas. Só então saberíamos se ele estava fora de perigo.
Tive muito medo. As horas que se seguiram foram de muita oração.
Consegui pedir que pegassem meu celular e o pusessem para carregar. Precisava ligar para minha família urgentemente.
Eles estavam muito preocupados. Haviam tentado falar conosco e aguardavam que entrássemos em contato. Pensaram que estaríamos sem conexão. Havíamos dito que queríamos sair do mapa.
Choramos ao telefone. Pedi que avisassem os pais de Zico. Eu não conseguiria falar com eles.
Eu acordava rezando e dormia rezando. As setenta e duas horas pareceram uma eternidade. Finalmente, ele estava fora de perigo, mas teria que fazer muita fisioterapia.
Nossas famílias vieram e nos transferiram para um hospital ao qual tínhamos direito, onde morávamos. Ficou bem mais prático. Tive alta logo. Iria cuidar das costelas em casa. Não tinha muito o que fazer. Zico ainda permaneceu hospitalizado por um tempo maior. Até que conseguisse caminhar.
Nossas férias terminaram e tivemos que permanecer mais um tempo afastados do trabalho. Principalmente, Zico que, a duras penas, aprendeu que nossa vida é o bem mais precioso e temos obrigação de zelar por ela.
Não tivemos coragem de ir ver o nosso carro que teve perda total.
Esse foi um capítulo da nossa história no qual queremos passar uma borracha para sempre.
Depois da Curva - Adriana Frosoni
Depois da Curva
Adriana Frosoni
A estrada era sinuosa e estreita, mas a paisagem era de tirar o fôlego de tão bela. O destino prometia um final de semana de aventuras, com trilhas e cachoeiras praticamente inexploradas.
Um rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia.
Já era fim de tarde e uma garoa fina começava a cair.
Zeca, como sempre, dirigia acima da velocidade permitida. Apesar de não conhecer aquele caminho, sempre que eu reclamava, respondia do mesmo jeito:
— Eu conheço meu carro. Relaxa, confia em mim!
Naquele trecho da estrada, havia uma curva fechada. De um lado, a encosta íngreme; do outro, a ribanceira que descia até o rio. Quando vi a placa de curva fechada à esquerda, senti um arrepio. Ele não teve tempo de diminuir a velocidade.
— Zeca, cuidado! — gritei.
Mas ele apenas sorriu e virou o volante com uma confiança que beirava a imprudência.
O carro inclinou-se de leve; por um segundo, pareceu obedecer. Os pneus ainda se agarravam ao asfalto, e o mundo seguia inteiro. Então, veio o som: um chiado seco, arrastado, como um aviso tardio.
O volante tremeu. Vi quando o sorriso dele se desfez, não por medo, mas por súbita compreensão. Era tarde. Sempre é tarde quando compreendemos.
O carro deslizou.
Foi um deslocamento lento. Inevitável. A lateral gemeu ao raspar na defensa metálica, fina demais para conter qualquer coisa além de ilusões.
O metal cedeu na emenda. O carro derrapou mais ainda no pedregulho e rolou ribanceira abaixo. Depois, o silêncio. O rio, indiferente, repetia seu barulho cadenciado.
Quando abri os olhos, o mundo estava torto, o vidro estilhaçado e o painel esmagado. A mão dele, imóvel.
— Zeca?
Minha voz saiu baixa, estranha, sem corpo.
Nenhuma resposta. Apenas a sua mão inerte sobre o volante. Havia algo profundamente errado na quietude daquela mão.
O som do rio parecia mais alto, agora. A água batia nas pedras com um ritmo constante, quase hipnótico. Ou, talvez, fosse só a minha cabeça latejando.
Foi então que percebi um movimento na encosta. Aos poucos, a forma se definiu — uma mulher.
Vestia-se de claro, o cabelo era longo e, mesmo com o vento, nenhum fio saía do lugar. A chuva fina que caía enlameava a encosta, mas ela não hesitava nem escorregava. Descia como se conhecesse cada pedra e raiz, como se já tivesse feito aquele caminho antes, muitas vezes. Ela parou a poucos passos do carro, me olhou sem pressa, nem surpresa. Apenas reconhecimento, como se estivesse me esperando.
Ela me estendeu a mão e, quando meus dedos tocaram os dela, um entendimento percorreu meu corpo. Ele já tinha sido levado, agora, era a minha vez.
Não foi difícil me levantar, meu corpo estava leve. E mesmo caminhar sobre a lama era mais fácil do que me parecia.
Depois de alguns passos, olhei para trás. O carro, quase irreconhecível, permanecia torto entre as pedras. Pela janela, uma mão feminina pendia para fora. Reconheci o anel.
Agora, havia algo profundamente errado na quietude da minha mão.
Um achado no brechó - Isabella Brancher
Um achado no brechó
Isabella Brancher
Cristina acordou esperando por mais um dia sem muita emoção. O dia estava meio azedo, as nuvens estavam escuras, pesadas. Tinha receio de não poder passear como de costume. Tinha se mudado para o bairro recentemente. Ainda não conhecia bem a região. Queria continuar explorando. Olhando pela janela, viu ao longe um letreiro em que dizia: “O descarte de um pode ser o encanto de outro”. Intrigada com a frase no topo de uma casa foi na cozinha preparar seu café da manhã. Ainda havia muitos pequenos afazeres no novo apartamento para terminar, mas hoje não tinha vontade.
A frase voltava no seu pensamento, aderente. Decidiu encarar a possível chuva e foi caminhando em direção ao letreiro. Chegando na casa viu que era um brechó. Entrou. A primeira sala estava repleta de bolsas. O perfume era um misto de lavanda com lembranças. Era um aroma envolvente. As bolsas eram das mais variadas marcas, algumas eram precisamente novas. Escolheu algumas por diversão. Pensou, não preciso de nenhuma. Tornou a olhá-las e escolheu uma preta, era uma bolsa clássica, linda, mesmo sem muita utilidade no momento, decidiu comprá-la. Voltando para casa descobriu outros comércios interessantes pelo bairro, e tudo parecia mais acolhedor. Se sentiu mais leve, como se o céu tivesse tirado aquele manto cinzento das suas costas. Voltou cantarolando suavemente para casa.
Algumas semanas depois surgiu um convite de uma antiga amiga para a sua festa de 60 anos. Ficou surpresa com o convite, não se viam há anos. A vida as distanciara. Um misto de curiosidade e saudade a incentivou a aceitar o convite. Se preparou para a festa. Pensou: uma ótima ocasião para usar minha bolsa nova. Escolheu uma roupa, depois outra. Perdida nas escolhas, se atrasou. Vestiu o clássico pretinho, pegou a bolsa, jogou nela a carteira, as chaves e partiu afobadamente para a festa.
Que delícia de festa! Adorou rever os amigos, saber o que faziam. Reconectar com histórias antigas. As gordas risadas encheram a noite por completo. Os anos de faculdade haviam sido ricos em experiências. A descoberta na vida adulta, a liberdade. A construção de uma vida toda a partir das nossas escolhas. Voltava para casa realizada e pensando...fazendo uma retrospectiva dos anos.
Ao chegar em casa, abriu a bolsa e procurando pela chave encontrou um compartimento que não havia reparado antes. Uma surpresa! Dentro dele havia algo, sentia no escuro. Pegou a chave, entrou em casa. Agora, com luz, pode ver que era uma foto. Uma foto antiga. A foto trazia a imagem de vários jovens à beira de um rio, nadando, pescando. Subitamente, se lembrou da história de João, um amigo da faculdade, que lhe contara sobre o tio que pescava rãs no rio Pinheiros. João não foi à festa, por onde andaria? Teria gostado de revê-lo! Outras memórias daquele tempo emergiram como capim vibrante após a chuva. Nas aulas de química no laboratório se sentava ao lado de João e com ele trocava muitas confidencias. Nunca haviam passado de amigos, embora ela acreditasse que ele gostava dela. Se lembrou das tardes estudando ao seu lado, dos olhares furtivos. Sabia pouco sobre ele, ela falava mais, ele a ouvia. Ouvia com uma atenção acolhedora. Cristina se percebeu pensando em João com mais do que ternura. Um leve calor percorreu seu corpo. Nada mais parecia estar no lugar. Pensativa ainda com a foto na mão adormeceu.
PLOT DA VIDA - Sergio Dalla Vecchia
PLOT DA VIDA
Sergio Dalla Vecchia
Ele apenas sorriu e virou o volante diante daquela curva fechada e do grito de Bruna:
— Zico, cuidado, essa curva é traiçoeira!
O rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia.
Zico dirigia rápido demais. Não conhecia aquele caminho, mas, sempre que eu reclamava, a resposta era a mesma:
— Eu conheço meu carro, relaxe, Bruna.
Relaxar era impossível. Eu apertava o cinto cada vez mais forte e olhava para a estrada, estreita e tortuosa.
Naquele ponto, porém, senti um arrepio. A curva apareceu do nada: fechada, perigosa, quase escondida entre os pinheiros, e o reflexo de Zico não foi suficiente.
Volante e álcool são antagônicos!
A viagem pitoresca no meio rural transformou-se em viravoltas, ora céu, ora inferno! O carro rotacionava velozmente no movimento de translação pela órbita solar da vida.
Galhos robustos esforçavam-se em conter aquele carro desvairado. O estalar das madeiras quebrando-se somava-se aos gritos de Bruna.
Após o digladiar feroz entre as duas forças físicas, a natureza venceu e conseguiu conter aquele movimento suicida.
Agora, o silêncio era quebrado apenas pelo som harmônico da água deslizando sobre pedras ovaladas do rio que por ali serpenteava.
Devidamente atados pelos cintos de segurança, no banco da frente jaziam os dois corpos.
Ele sangrava pela boca e ela, com escoriações, desfrutavam a inconsciência dos semimortos.
Com respirações lentas, naquele estágio letárgico, eles aguardavam apenas o veredito de Deus: vida ou morte!
Vida foi a sentença!
Assim, Bruna, num repente, inspirou a vida com sofreguidão, acompanhada de um grito:
— Meu Deus, o que aconteceu?
Logo caiu em si e percebeu Zico ao seu lado. Não pensou duas vezes: posicionou o marido, iniciando imediatamente uma respiração boca a boca, com todo o amor que seu coração pudesse doar.
Uma vez, duas, três e nada; mas, na quarta, um soluço o devolveu à vida!
Assim, o passeio feliz numa tarde de domingo quase terminou em tragédia, não fosse a pronta ação de Bruna, com ajuda divina, para salvar o negligente marido.
Lição aprendida, Zico!
Será?
DE REPENTE, DUBAI - Isabella Brancher
DE REPENTE, DUBAI
Isabella Brancher
Maria vivia há muitos anos no Brasil, distante do seu país de origem sentia saudades de tudo e de todos. Em especial dos costumes, das festas, da comida. Lembrava dos motivos que fizeram deixar as suas tradições. Entendia, porém, que naquele momento era a única alternativa: fugir.
Os primeiros anos no Brasil foram muito difíceis, não sabia a língua, tinha muita dificuldade com os costumes, e as comidas eram muito distintas. Procurava em cada mercado aqueles temperos que usava na sua terra natal, mas tudo parecia muito descolorido. Precisava começar a se preocupar em como conseguir se manter no novo país. Havia trazido algum dinheiro e agora, hospedada na casa de parentes, sabia que a estadia seria provisória. A família do seu tio era gigante, ele e a mulher viviam com os seus sete filhos em uma casa com dois quartos. Ela certamente representava um peso e precisava se libertar: de ser inconveniente ou indesejada na casa do tio.
Os dias foram passando e Maria começou a compreender melhor a língua, e a se habituar com os usos e costumes da nova terra. A vida começava a ficar mais adocicada. Conseguiu um emprego como caixa em um supermercado. Era muito vistosa, com seus cabelos fartos em longos cachos, que agora ficavam a mostra, encantava homens e mulheres com sua beleza mais rustica.
Com muito cuidado e perseverança foi juntando recursos pensando no futuro. Voltar as origens era sempre seu primeiro e principal objetivo. Ao chegar no final do mês, quando recebia o salário, uma parte mandava de volta para parentes na terra natal, e outra parte guardava.
Procurava acompanhar as notícias, poucas, que recebia da situação política e social da sua terra. Algumas vinham de parentes. Com o passar dos anos conseguiu voltar a estudar e montou seu próprio negócio. Como era muito criativa usou da sua história para criar peças de roupas estilosas com uma personalidade muito marcante. A vida era solitária, não conseguia se preencher com nada, sentia um vazio constante que a amarrava por dentro.
Os anos se passaram como um relâmpago, e agora, depois de tanto tempo estava pronta para embarcar de volta e rever todos os amados que havia deixado para trás. Preparou as malas, juntou tudo que podia nas malas que levaria e se dirigiu ao aeroporto. Seu corpo vibrava por completo, as roupas pareciam justas demais como se precisasse de espaço para toda aquela sensação que estava sentindo.
Cansada, depois de todo o stress do embarque adormeceu.
Despertou assustada ao perceber que estava sentada ao lado de um homenzarrão. Por alguns segundos, não soube onde estava. Ajeitou-se na poltrona e olhou para a tela do sistema de entretenimento à sua frente. No mapa, um avião avançava lentamente sobre o oceano. O homem ao lado percebeu sua confusão e comentou, com naturalidade:
— Estamos sobrevoando o oceano agora. Vamos fazer uma escala aqui.
Ele apontou para um ponto luminoso no mapa: Doha. Qatar.
Ela franziu a testa: —Doha? Por quê?
— Porque esta é a rota para Dubai—respondeu ele.
Ela ficou imóvel:—Dubai?
A voz saiu baixa, quase um sussurro. Em seguida, apertou o botão para chamar a comissária:
—Desculpe... deve haver algum engano. Por que este avião está indo para Dubai? A comissária pareceu surpresa:—Senhora, este voo sempre teve Dubai como destino. A senhora pensa que está indo para onde? Ela abriu a boca, mas não conseguiu responder. Primeiro, vieram as lágrimas. Depois, os soluços. Por fim, o choro forte e descontrolado, como se, naquele instante, tivesse compreendido que alguma coisa estava terrivelmente errada.
Um achado no brechó - Yara Mourão
Um achado no brechó
Yara Mourão
Naquele sábado nublado, Lúcia acordou com uma energia diferente.
Na verdade, estava cansada de chorar pelo fim do casamento. Se Daniel foi
embora, melhor, ficava até aliviada. O amor acaba, a paciência se esgota, a
esperança se esvai. Lúcia agora queria era um sol, um céu azul, brisa de verão.
Mas já era outono e o universo não estava disposto a se modificar por causa
dela.
Assim sendo, ela decidiu seguir novos rumos: outras ruas,
roupas diferentes, comidas alternativas.
Levantou-se e saiu para o acaso das coisas. Andou uns
dois quarteirões e se viu em frente ao Brechó da Maria Peruana, lojinha bem
socialista, com um toque LGBT, que oferecia, em vez de cafezinho, chá de coca.
Entrou, entregue, intrigada. Rodou por todos os
corredores, sentou-se nos almofadões espalhados, tomou o chazinho e, depois que
passou o acesso de tosse, pegou de um cabide a primeira peça que viu. Deu
sorte. Era um lindo camisão branco, com um bordado bonito no decote, um bolso
pequeno do lado esquerdo.
Ela não hesitou. Vestiu a peça e o que viu no espelho
refletiu uma pessoa nova que ela gostou de ver. Passou no caixa e saiu da loja
vestida com ele.
Já na rua, remexendo no bolso do camisão, encontrou uma
tirinha de papel com um endereço. Para sua surpresa, era de um local bem
próximo dali. Ela achou por bem ir até lá. O que encontraria? A antiga dona da
roupa, de certo. Não seria engraçado ela chegar lá vestida com aquele camisão
branquinho e dar de cara com a antiga dona dele?
Animada com a possível travessura, Lúcia apressou o passo
até o endereço do papel. Chegando lá, viu que era uma casinha bem simpática,
adornada de plantas, espada de São Jorge por todo lado, portão aberto, gente
chegando. Entrou. Foi bem acolhida e logo recebeu o primeiro passe, para sua
surpresa e espanto. Era um terreiro de umbanda, com todos os pais, mães e
demais parentes dos santos e orixás.
Quando ela pensou em falar, disseram que poderia ficar
calada porque sim, eles eram perfeitos para reatar o amor e que certamente seu
companheiro iria voltar.
“Só me faltava essa agora!” pensou Lúcia. Mas a ciranda
que se fez à sua volta, a música, o batuque, tudo a envolveu e ela não teve
saída.
Estava feito. “Saravá!”
O anseio de liberdade de Lúcia se derreteu. Ela não teve
outra saída a não ser fugir daquele lugar. Voltou por onde veio, pela mesma
rua, até o malfadado brechó, maldizendo o camisão branco que comprara, com seu
lindo bordado no decote e bolsinho do lado esquerdo! “Maldito camisão!” pensou.
“E agora, será que Daniel voltaria para atormentá-la, e ela ia começar a chorar
de novo?”
Ao dar de cara com a loja da Maria Peruana, disse para si
mesma: “Culpa do brechó! Da próxima vez, eu preciso ir é para um shopping!”
O matchmaker do brechó - Carla Di Sessa
O matchmaker do brechó
Carla Di Sessa
Tempo atual:
Cláudio estava já há uns
bons 20 minutos no carro estacionado sem conseguir descer. Seu irmão ainda não
havia chegado e ele começou a temer que ele não viesse. Cláudio não sabia se
conseguiria entrar sozinho no brechó que o pai havia começado depois que Gilda,
sua eterna amada por mais de 30 anos, falecera. A mãe deles adorava aumentar o
guarda-roupa, mas não se desfazia de peça alguma. Ao longo dos anos, as roupas
foram sendo acomodadas em caixas, sacolas e araras, tudo mantido
meticulosamente limpo e organizado por ela.
A ideia foi de uma prima,
Maitê, garota descolada e ligada ao mundo da moda. Ao vê-los sem saber o que
fazer com todas aquelas coisas que eram de Gilda, ela sugeriu abrir um brechó.
Alguém tem uma ideia melhor para toda essa roupa que ninguém mais quer, coisas
antigas e fora de moda? Um brechó transforma tudo isso em vintage, dissera
ela para Ernesto. E assim começou o
negócio. A sobrinha passou a ajudar o tio, indo sempre à loja e trazendo peças
novas que conseguia entre seus conhecidos fashion. Os anos se passaram e
agora cabia aos filhos dar um destino a todas aquelas coisas.
Ernesto havia morrido há 3
semanas e Claudio ainda não havia processado de todo a ideia.
Como o pai, um homenzarrão
tão bem-humorado que cantava Sapore di Sale a plenos pulmões, para
desespero da mãe e deleite dos filhos, podia não estar mais ali com sua
gargalhada sonora?
Cláudio adorava ver o pai
seguindo a mãe pela casa enquanto cantava e ela fingia fugir, sorrindo e dando
bronca ao mesmo tempo. Sapore di mare, sapore di teeeeeee! Finalizava o
pai, enlaçando a mãe pela cintura e a beijando estalado na bochecha.
Cláudio reconheceu o carro
do irmão, Luís, se aproximando e estacionando atrás do seu. Vamos lá, pensou
Cláudio, cumprimentando o irmão e pegando a chave no bolso.
Cláudio destrancou a porta e
o cheiro conhecido os envolveu: uma mistura hippie de patchouli e incenso. Luís
se sentou na poltrona do pai e começou a mexer nas gavetas da escrivaninha.
Cláudio ficou andando a esmo, abriu a janela, foi buscar água para tentar
reanimar uma planta e recolheu alguns folhetos que alguém enfiara por debaixo
da porta.
Que álbum é esse?
A pergunta de Luís quebrou o
silêncio e Cláudio se aproximou.
Olha só, está cheio de
fotografias de gente sentada em plateias, parecem cinemas, ou serão teatros?
Coisa mais esquisita… E olha essa aqui, parece um estádio… é um estádio, dá
para ver um pedacinho da arquibancada aqui no canto da foto.
De fato, eram muitas
fotografias de pessoas sentadas, sempre de costas para a câmera, homens,
mulheres, jovens, idosos, às vezes conversando, às vezes não.
Será que o papai era tipo um
stalker? Ou então um detetive? Cara, o que ele fazia com tanta
fotografia de gente desconhecida? E tudo com data, está vendo? Meu Deus, ele
fazia isso há um tempão! Você sabia disso?
Os irmãos se olharam e
perceberam que o pai tinha uma dimensão totalmente desconhecida para eles.
Anos atrás:
Toda semana, Ernesto vasculhava
a seção de cultura do jornal de domingo à procura de espetáculos, shows ou
filmes de maior sucesso naquele momento, escolhia um e comprava sempre três
ingressos para dali a algumas semanas. Os lugares eram sempre bem localizados,
dois ao lado um do outro, o terceiro duas filas atrás. Uma parte do custo era paga pelo lucro do
brechó, o resto saía do bolso dele mesmo.
Pedia a entrega no endereço
da loja e era então que a diversão começava.
Ernesto observava cada
cliente que entrava, puxava conversa, oferecia água, chá ou café e depois ia
para sua escrivaninha e esperava aquela sensação que vinha quando a pessoa
certa estava ali na frente dele. Nessa hora, se a pessoa comprasse alguma coisa,
levaria também sem saber um dos ingressos. E assim as duplas eram formadas. O
terceiro ingresso era dele, Ernesto, e ele comparecia ao evento pontualmente,
ansioso para ver se as pessoas compareceriam, se conversariam e sairiam dali
não mais como estranhos. Ele sempre batia uma foto discretamente e, dessa
maneira, seu álbum ia aumentando.
Às vezes, alguém voltava ao
brechó com o ingresso na mão. Dizia haver achado na sacola, que havia voltado
para devolver. Ernesto examinava o ingresso e dizia que não, não era dele não.
E brincava, se foi parar na sua mão, é porque tinha que ser seu, aproveita! E
acrescentava um comentário do tipo “ouvi dizer que esse filme é imperdível” ou
“soube que esse espetáculo é maravilhoso!”
Ernesto torcia para que as duplas se conhecessem, conversassem e, quem
sabe, virassem amigos, namorados, amantes. Gostaria de saber o desenlace de
cada encontro, mas o máximo onde podia chegar era ver se saíam juntos,
conversando ou não.
Tempo atual:
Cláudio e Luís foram visitar
Maitê, pois a curiosidade sobre o misterioso álbum de fotos só fazia crescer.
Queriam saber se, por acaso, ela tinha conhecimento daquilo, se percebeu algo
anormal nas atitudes do pai deles, pois ter um álbum cheio de fotos de gente de
costas em plateias não era muito comum. Estavam preocupados, seria alguma tara
ou obsessão?
Maitê caiu na gargalhada.
Relaxem, meninos, o pai de vocês era um romântico incorrigível e gostava de
brincar de Cupido. Vou contar a história toda. Quando ela terminou, ambos os
irmãos estavam bem mais aliviados.
Mesmo depois de morto, ele
não para de nos surpreender, disse Luís.
E é a cara dele uma coisa
dessas, não é não? Acrescentou Cláudio, rindo.
Uma experiência transcendental - Ledice Pereira
Uma experiência transcendental
Ledice Pereira
Confesso que sempre tive certa resistência a visitar um brechó. Tinha a impressão de que o cheiro de mofo me afastaria imediatamente. Minha neta, no entanto, me convenceu a acompanhá-la a um desses da moda, que ela já havia visitado com as amigas.
Eu havia comentado que teria um casamento e não sabia o que usaria, já que era num local requintado.
Ainda tenho os vestidos que usei no casamento dos filhos e nunca mais os vesti. Mas não os usaria por serem mais sofisticados e por estarem um pouco fora de moda.
– Por que você não leva os seus pro brechó e talvez encontre algo lá que agrade, vovó?
– Só em pensar que vou usar algo que alguém já vestiu me dá uma comichão, querida. – Respondi-lhe, rindo e já sentindo coceira nos braços.
Júlia riu, sacudindo a cabeça como quem diria: Essa minha avó...
– Vou te levar num brechó encantador que você vai amar e duvido que saia de lá de mãos abanando.
E Júlia me arrastou para o carro sem que eu tivesse tempo de resistir.
O local era perto e, logo que cheguei, notei o cuidado no jardim que circundava a casa, cercada de bancos coloridos e gaiolas abertas por onde circulavam alguns pássaros à vontade, entoando seus pios, enquanto buscavam frutinhas espalhadas por toda a extensão, num convite a saboreá-las.
Ao entrar na sala, deparei-me com as araras repletas de roupas coloridas todas cobertas por uma capinha plástica, contendo etiquetas que as descreviam. O local exalava um suave perfume e a iluminação amarelada fazia com que o ambiente fosse muito acolhedor. Senti-me muito bem ali.
Júlia me abraçou e me dirigiu ao setor de vestidos próprios para cerimônias, que estavam dispostos em outra sala, seguindo as diversas numerações e estilos. A organização do lugar encantou-me.
A dona e demais atendentes atenciosas e incansáveis fizeram questão de nos mostrar as diversas alternativas.
Um dos vestidos chamou minha atenção, fazendo com que eu viajasse no tempo, chegando à minha formatura do colegial, que hoje corresponde ao ensino médio. Era inteiro plissado, num tom de azul furta-cor que ia até o marinho. Aquela visão me levou às lágrimas. Minha neta achou que eu devia experimentá-lo já que me trazia doces recordações.
Dentro dele, tive a sensação de já ter vivido aquele momento, aquela emoção. Ele me levava, não para a década de sessenta, mas, para outra dimensão, outra vida talvez, algo inexplicável que me emocionava sem saber por quê.
Ensaiei uns passos de dança como se estivesse sendo guiada por alguém, cujo rosto encoberto não me permitia definir. No meu inconsciente, ouvia o som longínquo de uma orquestra que tocava uma valsa, que cantarolei baixinho, como se a conhecesse de longa data.
Não sei por quanto tempo fiquei ali, parada, emocionada, em transe, revivendo algum momento mágico.
Sacudida por Júlia, que me trazia água e estava com os olhinhos assustados, saí daquele torpor.
Tomei a água e me sentei, sentindo um enorme cansaço.
Depois de tudo que senti, não poderia deixar de levar o vestido que havia ficado perfeito em mim, até no comprimento.
Voltamos em silêncio. Júlia ensimesmada. Eu tentando digerir o que acabara de vivenciar. Tendo a nítida impressão de ter revivido algo, que ocorrera comigo em alguma vida passada.
UMA TARDE DIVERTIDA NO BRECHÓ COM A TURMA ESCREVIVER
UMA ACHADINHO NO BRECHÓ
Esse tema rendeu até uma brincadeira, um mimo,
um álbum de fotos reunindo os atuais alunos EscreViver e alguns que que nos visitam às vezes. E, todos clientes do brechó: