DE REPENTE, DUBAI
Ledice Pereira
A mulher despertou assustada ao perceber que estava sentada ao lado de um homenzarrão. Por alguns segundos, não soube onde estava. Ajeitou-se na poltrona e olhou para a tela do sistema de entretenimento à sua frente. No mapa, um avião avançava lentamente sobre o oceano.
O homem, ao lado, percebeu sua confusão e comentou com naturalidade:
— Estamos sobrevoando o oceano agora. Vamos fazer uma escala aqui. — Ele apontou para um ponto luminoso no mapa, Doha, Qatar.
Ela franziu a testa — Doha? Por quê?
— Porque esta é a rota para Dubai — respondeu ele.
Ela ficou imóvel.
— Dubai? — A voz saiu baixa, quase um sussurro. Em seguida, apertou o botão para chamar a comissária.
— Desculpe… deve haver algum engano. Por que este avião está indo para Dubai?
A comissária pareceu surpresa.
— Senhora, este voo sempre teve Dubai como destino. A senhora pensa que está indo para onde?
Ela abriu a boca, mas não conseguiu responder. Primeiro, vieram as lágrimas. Depois, os soluços. Por fim, o choro forte e descontrolado, como se, naquele instante, tivesse compreendido que alguma coisa estava terrivelmente errada.
Estava indo visitar os pais, no Pará. Eles estariam esperando por ela no aeroporto. Deviam estar preocupados e sem entender nada.
Sentiu-se um pouco tonta. A boca seca e amarga. Tentou levantar-se. Precisava ir ao banheiro. Tudo rodou. Precisou ser amparada. A comissária a acompanhou. Ficou aguardando do lado de fora, preocupada.
Foi o tempo de fechar a porta e lançar tudo que tinha no estômago na bacia, como se tivesse ingerido uma feijoada para duas pessoas. No final, biles, aquele amargor horroroso. Um tremendo mal-estar.
A comissária percebeu tudo e ofereceu-lhe um chá que ela tomou avidamente. Foi levada para a primeira classe, onde puderam cuidar dela e acalmá-la.
Chamava-se Leonor. A família a chamava de Léo. Tinha vinte e oito anos. Há dois anos, fui trabalhar em São Paulo, onde achava que teria mais oportunidades. Com a cabeça atordoada, tentou lembrar-se de como chegara ao aeroporto.
O motorista havia sido simpático, oferecera-lhe água que ela tomou apesar do gosto estranho que sentira. Alguém a acompanhara carregando-lhe a mala. Não se lembrava de ter ido ao balcão nem de despachar a bagagem. Foi cercada por pessoas que falavam à sua volta. Deram-lhe aquele comprimido para que ela melhorasse do mal-estar. Estava tudo muito confuso. Quem seriam aquelas pessoas? O que teriam lhe dado? Não se lembrava de ter embarcado. Onde estaria sua mochila? Estava levando encomendas para os pais.
Chamou a comissária e contou-lhe tudo de que se lembrava. Concluíram que ela estava sendo sequestrada, raptada, sabe-se lá o quê. Talvez tráfico de mulheres. O medo se apossou dela sem conseguir parar de tremer.
A comissária tentou acalmá-la. Iriam comunicar-se com a torre local, para a polícia estar presente no desembarque.
O homenzarrão estava inquieto. Ia toda hora ao banheiro. Tentava olhar o que acontecia na primeira classe. Fingia estar preocupado com a moça. A comissária sentia que ele estaria envolvido.
O comandante avisou que iniciaria a descida. Todos deviam apertar os cintos e ficar em seus lugares.
A polícia, avisada, estava a postos. A tripulação estava atenta a qualquer movimento.
O homem fechou-se no banheiro de onde não saía mais.
Chamaram. Bateram à porta e nada.
O avião aterrissou. O comissário utilizou a chave para abrir a porta do banheiro.
O homem estava caído sobre o vaso. Tinha uma cor azulada. Parecia desmaiado. O banheiro foi interditado e o comandante solicitou que, por motivo de força maior, todos permanecessem em seus lugares.
Os policiais armados entraram. Constataram que o homem estava morto.
A bordo houve um alvoroço. Todos perguntavam o que estava acontecendo.
Leonor estava em pânico. Foi levada para o centro médico e teve todo o atendimento necessário. Conseguiu comunicar-se com os pais, que já haviam acionado a polícia local, tranquilizando-os.
A equipe do aeroporto verificou que a bagagem da moça havia desaparecido.
Após medicá-la e levá-la para um hotel, providenciaram um voo de volta para o dia seguinte. Além disso, providenciaram também algumas roupas para que ela pudesse se trocar e voltar.
Leonor ficou sabendo que o homem fazia parte de uma quadrilha que traficava mulheres para serem garotas de programa em Dubai. Quando percebeu que seria preso, suicidou-se, ingerindo uma pílula letal.
Ela nem acreditava ter vivido esse terror. Tinha a certeza de que seus pedidos de proteção a São Miguel Arcanjo a haviam salvado de viver uma experiência mais do que traumática.