As caixas douradas - Isabella Brancher

 



As caixas douradas

Isabella Brancher


Minha mãe era uma pessoa que vivia cheia de compromissos. Trabalhava em uma empresa multinacional, e só adulta entendi, de fato, o que ela fazia. Cuidava de nós e da casa e ainda gostava bastante de fazer trabalhos manuais. Lembro claramente que, quando éramos pequenos, ela fazia nossos casacos de lã. As agulhas de tricô faziam parte do cenário enquanto brincávamos. Com os anos, o tricô foi dando lugar a outras coisas: bordado, cerâmica, aquarela. Chegava do escritório de blazer e salto e, meia hora depois, estava de avental, com tinta no cabelo.

Em casa, era uma mulher daquelas que se admira. Gostava de manter a casa florida e repleta de pessoas. Todo começo de abril, papai trazia flores e as arrumava em um vaso perto da janela. Sinto que nós a decepcionamos um pouco, pois teria gostado que tivéssemos trazido mais nossos amigos para a nossa casa. Aos domingos, logo cedo já a víamos na cozinha, e, assim que nos levantávamos, ela, sorrindo, nos dava alguma tarefa. Ao meio-dia, a mesa já estava farta de risadas e histórias, sempre regada com um bom vinho.

Ela também tinha seus mistérios. Perdi a conta das tardes em que a vi sentada na varanda do seu quarto, observando o que guardava em duas caixas de metal dourado. Em geral, era ao pôr do sol. Imagino que a luminosidade rosada do momento trouxesse lembranças que a levassem para aquelas caixas. Havia um pouco de tudo ali. Coisas aparentemente sem nenhum valor, mas que refletiam episódios mágicos do passado. Ela pegava um objeto, virava-o, olhava de novo. Muitas vezes nem ouvia nosso chamado. Parecia conversar com seus pensamentos. Nunca nos atrevemos a questionar esses seus momentos.

Algumas semanas após a sua morte, comecei a organizar os seus pertences. Encontrei as caixas douradas, ambas amarradas com uma fita nas cores da bandeira da França. Abri uma delas e encontrei um pequeno caderno amarelado repleto de poemas. Era sua caligrafia com os erros de ortografia vindos de quem falava quatro idiomas latinos. Li até a luz da janela dar a vez ao abajur. Percebi que lia em voz baixa, temendo que ela pudesse me ouvir. Dormi com o caderno aberto sobre o meu peito.

No dia seguinte, movida por uma curiosidade incansável, voltei ao seu quarto e abri a segunda caixa. Havia cartas do meu pai de quando ele fazia pós-graduação no exterior. Cartas de amigas, de primos, de um tal Carlos, mas a pilha mais grossa, presa por um elástico já ressecado, era a de Nuno. Comecei lendo as cartas de papai. Suas cartas eram como um diário. Contavam os experimentos do dia, os livros que comprara, e terminavam sempre do mesmo modo: saudades, beijinhos. Depois comecei a ler as de Nuno. As cartas traziam frases como: “A tarde vai caindo devagar e deixando o céu rosado como naquele dia em que nos entrelaçamos sem fim. É nessa hora, quando essa luz se intensifica, que mais penso em você.”

Quem teria sido esse Nuno?  O nome não me despertava qualquer lembrança. Mamãe nunca havia comentado uma palavra sequer sobre ele. Mamãe falava de antigas amigas, de colegas da faculdade, de primos espalhados pelo mundo. Nuno, onde estaria? O que faria? Continuei a ler as suas cartas: em cada uma surgia uma revelação. As cartas foram me entregando o que ele não precisava explicar a quem já sabia. Numa, ele contava que a mãe dele ainda cantava em português enquanto cozinhava. Lembrei-me da minha avó ouvindo notícias em italiano diante da massa fresca. Em outra, as tardes depois das aulas na orla de Barcelona eram cuidadosamente descritas. As longas caminhadas imaginando o apartamento com varanda para o poente. Onde viveriam? Na França, onde passaram a infância, ou no Brasil, para onde mamãe se mudara a trabalho depois da faculdade em Barcelona?

Perdi a hora e, quase na penumbra, li a última carta. Nela, Nuno contava os dias: já tinha a passagem e prometia que, na chegada, a levaria para ver o poente da varanda nova. As cartas de Nuno, incluindo essa última, de 29 de março, eram todas anteriores às cartas de papai, e essa informação adicional me tirou o fôlego. O que teria acontecido? Com as mãos trêmulas, tateando, peguei o telefone e liguei para papai. Sem imaginar como meu pai reagiria, achei melhor identificar Nuno como um amigo de mamãe.

— Você conhece um tal de Nuno, amigo de mamãe de longa data? — Perguntei logo após ele dizer “alô”

— Sim. — Ele pigarreou e ficou alguns segundos em silêncio, como quem revê uma lembrança antiga. — Nuno foi um namorado que sua mãe teve antes de me conhecer.

Para alguns segundos e continua: — Ele faleceu em um acidente de carro no dia 8 de abril, antes de chegar ao Brasil. E por isso, todo dia 8 de abril, eu lhe trazia um maço de flores.

Por alguns segundos fiquei muda do outro lado da linha. 

— Filha? Está aí? — Perguntou papai. 

— Sim, pai. Obrigada! Beijos

Desliguei. Fui até a varanda e acendi a luz. Lembrei das flores colocadas por papai todo começo de abril no vaso perto da janela. Sempre supus que fosse uma mania dele. Juntando os objetos na caixa, folheei o caderno e percebi vários poemas escritos no dia 8 de abril.


Gotas de Amor - Yara Mourão


 Gotas de Amor
Yara Mourão

As horas quietas são cheias de ruídos que a memória guarda no fundo da nossa essência. É quando os silêncios mais antigos afloram, impiedosos, imprecisos, mas tão carregados da vida que passou.

Era nesses momentos que Helena se recolhia na penumbra de suas lembranças e, entre doçuras e amarguras, criava suas cartas de amor endereçadas ao universo paralelo de sua vida real.

Havia tempos a filha de Helena se dera conta dessas mensagens de amor. Ela achou uma caixinha decorada que a mãe guardava como um tesouro, cheia de delicados papéis escritos à mão; havia neles também notícias, comentários, indagações sem respostas, que alguém, do outro lado desse mundo, receberia quase diariamente.

Helena abraçava aquela lembrança querida desde que o acaso desviou os rumos de dois corações apaixonados, e a história mudou o que o amor havia traçado.

As mensagens começavam sempre assim: “Meu muito querido”. E eram sempre alegres, otimistas, que, apesar de não esperarem por respostas, terminavam em agradáveis cumprimentos. Continham confissões de amor eterno, mas também os fatos dos dias das pessoas, quem chegava, quem havia dito o quê, a roupa nova, a chuva que não parava e também o que acontecia na escola dos filhos, as notas, as faltas… 

O além se incumbia de registrar tudo e, às vezes, parece que até respondia, à sua maneira, fazendo cessar a chuva, melhorando as notas dos meninos, predizendo notícias.

Rute se deleitava com muitas dessas mensagens de Helena, que nem suspeitava que a filha sabia disso tudo.

Um dia ela notou que sua mãe passou a escrever mais sucintamente, quase lacônica. Foi rareando seu recolhimento, seus escritos.

Um dia, quando viu a notícia mais estranha em uma das cartas, Rute entristeceu; era assim: “Meu muito querido, breve nos encontraremos.”

Seguiu-se um tempo sem nenhuma mensagem, até que Helena enviou ao universo sua última gota de amor: “Meu muito querido, hoje parto em paz. Você está ai?”

Foi quando Rute compreendeu, se recolheu e deixou o tempo se encarregar da vida, da saudade e do amor que não acaba nem depois da morte.

O Homem do boné preto - Ledice Pereira

 



O Homem do boné preto

Ledice Pereira


A viagem naquele trem, que saía pontualmente, às 16:00 horas, de São Luís do Maranhão, tinha tudo para oferecer muito conforto. Vagões com ar-condicionado, poltronas reclináveis, lanchonete, restaurante, banheiros, vários, todos muito limpos. É verdade que dezesseis horas de viagem, sentado, não é brincadeira. Era a primeira vez que eu me metia numa enrascada daquelas. 

De São Paulo a São Luís fui de avião. Quase quatro horas de voo tranquilo. Mais traslado de quatro horas de carro até Atins, minha primeira parada. A pousada ficava de cara para o Rio Preguiça.

Tudo que eu queria, naquelas férias, era esquecer.

Esquecer o fora que levei da namorada.

Esquecer o que me consumia no meu trabalho na cidade de pedra.

 Há tempos, eu queria conhecer os Lençóis Maranhenses.  E foi muito acima da expectativa. Foram dez dias de pura magia e conexão com a natureza, que revelou paisagens de tirar o fôlego. Uma mais incrível do que a outra. As pousadas, todas simples mas super bem cuidadas, onde comi muito peixe, comidinha caseira, que me fez sentir o carinho familiar que acaricia. A segunda parada foi em Santo Amaro. Outras dunas, outras lagoas, outras maravilhas.

Passados dez dias, soube pelo guia, que me ciceroneou durante a estada, do trem da Estrada de Ferro Carajás que vai de São Luís até Parauapebas, no Pará, passando por mais de vinte municípios, com umas quinze paradas.  Curioso, topei enfrentar o desafio, eu, meu violão e minha pequena bagagem.  

Logo, conheci um vaqueiro da região, com quem dividi o assento. Chapéu característico, apresentou-se como “Ciço”. Homem, acostumado ao campo, reclamava daquele confinamento, a que teria que se submeter durante todas aquelas horas. Mas viajava a negócio. 

Passei os olhos pelo vagão. Chamou-me a atenção, um sujeito que se sentou só, na última fileira, com a cara encoberta por um boné preto. Numa das vezes em que se levantou, notei que vestia uma camisa social, com vincos de dobras, calça jeans e sapatos de couro nada confortáveis para uma viagem daquelas. Parecia não querer levantar o rosto, protegido pelo boné. 

Ciço também o notou, comentando comigo, intrigado, que conhecia quase todo mundo da região e não se lembrava de ter visto aquele forasteiro esquisito, que passou a ser motivo de nossa observação dali por diante.

Nas paradas, pra passar o tempo, além de jogar conversa fora, esticávamos as pernas, caminhando pelos vagões, lambiscando na lanchonete, tomando muito café. Eu carregava sempre meu violão e alegrava os passageiros, tocando algumas canções regionais. Aproveitávamos esses momentos para xeretar os tipos estranhos que desciam e subiam nas estações.

Numa dessas ocasiões, subiu uma mulher jovem, que chamou a atenção de todos pelas roupas espalhafatosas que vestia.  Foi ela entrar e todas as cabeças se viraram em sua direção. Ciço me cutucou, achando que teríamos mais assunto.

Vimos a mulher se aboletar ao lado do forasteiro de boné com quem procurou puxar prosa. O homem demonstrava certo mau humor. De cara amarrada, ajudou a colocar a mala da passageira no espaço acima do banco, sentando-se carrancudo e enterrando mais o boné, o que demonstrava não estar a fim de papo.

Quando nos encaminhamos para jantar, cruzamos com alguns policiais no balcão. Atentos ao cardápio, escolhiam o que comer, ao mesmo tempo em que nosso forasteiro, que adentrava ao local, dava meia volta, rapidamente, chamando nossa atenção. 

Ciço me olhou firmemente e falou: – Aí tem!

Depois de nos fartarmos com a nossa janta, Ciço me ofereceu um cigarro, que recusei, e me disse, com seu sotaque: – Bora voltá pro nosso posto de observação!

A mulher falava sem parar, sem nem dar atenção à cara do sujeito, que se pudesse a esganava. 

Ao perceber que os policiais se dirigiam para o nosso vagão, o homem levantou-se prontamente, dirigindo-se, cabeça baixa, à lanchonete, seguido da jovem que não parava de falar e parecia nem perceber que era persona non grata. 

De repente, fomos surpreendidos por gritos que vinham do vagão restaurante:

– Quer parar de me seguir, mocinha! 

– Não deu pra perceber que tá me enchendo o saco?

Quando chegamos lá, o misterioso indivíduo estava descontrolado, empunhando uma arma, apontada em direção à jovem, que tremia dos pés à cabeça.

Tentamos acalmá-lo, mas o cara estava com o diabo no corpo, girando-se pra cá e pra lá, ameaçando cada um dos presentes. A sorte foi que os policiais, que estavam de olho nele, conseguiram desarmá-lo, algemando-o. Tinham sido chamados pelos seguranças do trem e, embora fingissem estar a passeio, estavam alertas. O homem era procurado por um assassinato cometido em São Luís.

Felizmente, a viagem terminou sem mais intercorrências e conseguimos tirar um cochilo até chegar ao nosso destino, Parauapebas, município de mais ou menos 310.000 habitantes. Despedi-me de Ciço, dirigindo-me à pousada indicada pelo guia e que ficava a treze quilômetros dali.

Depois de conhecer A Floresta Nacional dos Carajás e o Bio Parque Vale Amazônia, após uns cinco dias no local, informaram-me que poderia pegar um avião em Parauapeba para Belém.

Em Belém, cheguei a tempo de participar do Círio de Nazaré, uma das manifestações religiosas mais emocionantes que eu já vivi.

Voltei para minha São Paulo, de alma lavada, com muita coisa pra contar, tendo a certeza de que nosso país tem uma riqueza natural da qual devemos nos orgulhar muito.

Hoje, recebi um telefonema de Ciço. Convidou-me para passar as próximas férias em São Luís do Maranhão. Hummm! Quem sabe...


CORRENTINHO - Carla Di Sessa

 


CORRENTINHO

Carla Di Sessa


Imagine um lugar onde o vento passa vagaroso entre as folhas das árvores, espalhando a preguiça de todas as horas. Um lugar onde o sol passeia sem pressa pelo céu, requentando a vida.  Imagine que um compasso moroso arrasta os pensamentos de tal maneira que o tempo se torna elástico e viver é quase um bocejo. Desse jeito, devagar e silenciosa, a vida escorre em Correntinho.

Mas, todos os anos, essa sonolência é dispersada com a chegada do projeto VIVA CORRENTINHO, evento que acaba por atrair até a população das cidades vizinhas. Durante uma semana, há shows, apresentações teatrais e de gastronomia, feira de artesanato e de produtos orgânicos, entre outras atrações. 

Mas, para algumas pessoas, é mais do que isso. Elas se soltam dos laços aconchegantes de uma vida suave, porém letárgica, e por uma semana se deixam levar por algo que as habita no fundo de suas almas.

Dona Hermínia se esquece do terço e de apoquentar o padre a respeito de temas adequados para os sermões. Notável dançarina de tango em sua juventude, ela abre sua casa à espera de casais, de qualquer tipo, desde que entusiasmados para aprender as nuances e o calor da dança porteña. E assim, D. Hermínia pinta os olhos e a boca, veste-se de cores vibrantes, coloca brincos, colares, pulseiras, abre seu melhor sorriso e celebra o amor em todas as suas formas.

Nessa época, Correntinho também recebe a visita muito comemorada de seu mais eminente filho, bispo Dom Geraldo. Afilhado e sobrinho de D. Hermínia, logo ao chegar vai saudar a tia. Em seguida, em sua casa, despe-se do título e das vestes eclesiásticas e volta a ser o grande amigo de pescarias e partidas de futebol. Também volta a ser o ex-amor que ainda lhe provoca suspiros, mas que ele mantém estritamente no nível platônico. Às vezes ele se pergunta o que poderia ter acontecido caso não tivesse ido embora e sente um arrependimento sutil resvalar em seu coração.

O açougueiro, seu Jorge, passa o avental imaculadamente branco e as facas afiadas para o ajudante e, por uma semana, desfila pelas ruas com roupas atléticas. Embora já tenha perdido de vista seus 50 anos, seu Jorge exibe uma excelente forma física conseguida com muito treino depois do expediente do açougue. Por onde passa, atrai a admiração tanto de homens como de mulheres. Isso causa uma certa tensão entre os casais, justamente o objetivo de Seu Jorge. Por uma semana, ele se sente um galã, o Cristiano Ronaldo de Correntinho.

Tia Docinho, a professora da escola Lisieux para meninas, aposenta o giz e os óculos e se transforma em La Divina Dulce. Monta uma barraca na praça central e lê a sorte da cidade em borra de café, folhas de chá e nas palmas das mãos. Uma comprida fila se forma em frente à barraca, onde homens e mulheres esperam, todos ansiosos em ouvir sobre o futuro. Também estão ali muitas de suas alunas, mas, para elas, La Divina Dulce evita falar de amor, casamento ou príncipe encantado. Prefere falar dos desejos que elas acham ser secretos, mas que Tia Docinho, com um sexto sentido afiado, percebe em suas alunas. Ela entende seus anseios e La Divina Dulce os desvenda para elas. Fala de lugares longínquos, de estudos em terras estrangeiras e em trazer de dentro de si a própria bússola. Discorre sobre possibilidades como se fossem sonho e destino. Torce para que ao menos algumas entendam a mensagem e acreditem em si próprias.


CORRENTINHO - Yara Mourão




CORRENTINHO

Yara Mourão


— Tem a montanha que circunda a cidade, lá pelas bandas das fazendas do Sinhozinho Tenório; tem o vale todinho cheio de sempre-vivas e que abre espaço para esse tantinho de água doce que é o rio Correntinho. Está aí todo o retrato da nossa cidadezinha, sossegada e adormecida nesse canto das Minas Gerais.

Assim, D. Esperança começava todo dia sua palestra aos viajantes que se amontoavam na porta da igreja, querendo conhecer a cidade. Ela era a sacristã que Don Geraldo abrigava carinhosamente, orgulhosa de sua terra e de seus costumes.

Entre um queijo e broinhas de fubá, o café na sacristia era também a hora de conversas com o padre, o dono da quitanda e sua mulher, D. Esperança, e Tonho, o jovem motorista do micro-ônibus.

Eis que um dia Don Geraldo trouxe a novidade: um plano para agitar a cidade, com eventos esportivos e culturais!

Dona Esperança se abespinhou feito gata n'água fria!

— Uai, gente! Pode isso, não! Vai juntar um tanto de povo desnorteado, zanzando pra cima e pra baixo, fazendo um furdunço aqui em Correntinho!

Mas Tonho logo se animou, achando que, enfim, algo interessante podia acontecer naquele finzinho de mundo. Até mesmo se prontificou para organizar um arrasta-pé na praça em frente à igreja.

D. Esperança não aceitava essa novidade. Resolveu chamar Don Geraldo às falas:

— Meu filho, você me escute, porque fui eu que te batizei e pedi a Deus por sua proteção e discernimento! Olhe bem o que esse trem todo vai causar a Correntinho! Pode isso, não! Gente de todo esse mundão detrás da cidade, vai invadir nosso pedacinho de terra e acabar com o sossego do povo daqui. Isso é um desatino!

Don Geraldo até se comoveu. Mas o progresso tinha que chegar ali, doesse a quem doesse. Não, ele não ia desistir; espalhou seu plano pelo povoado, falando nas missas, nas visitas às casas dos fiéis. Dizia sempre que era preciso modernizar os pensamentos e adoçar o coração.

Até que a ideia vingou e um tanto de entusiastas pôs mãos à obra e se dedicou à realização da Festa Popular de Correntinho. 

Foi assim, da noite pro dia.

D. Esperança se amofinou. Rezou pra todos os seus santos, falou com suas comadres.  Mas, mineirinha que era, deu um jeito para se sair bem no meio daquela história toda.

O fato é que ela andava um tantinho em falta com as contas e o gerente do banco já estava indócil.   Lembrou do que Don Geraldo dizia: ”Era preciso modernizar os pensamentos e adoçar o coração.” Por isso, explicou ao padre seu plano econômico-cristão:

— Don Geraldo, estou modernizando os pensamentos, por isso vou ter de concordar com esse trem todo; vou até trabalhar para o bom resultado de toda essa festa. Ficarei na frente da praça, vestida de domingo, cobrando uma entrada baratinha de quem for chegando. Quem for de Correntinho paga meia; quem for de fora paga inteira. A Igreja vai ter uma parte boa para a água benta, que não é cara; o senhor, Don Geraldo, pode ficar com uma partezinha também pra dar a esmola pros pobres, que são bem poucos por aqui, e eu, pelo meu trabalho na festa, fico com um tantão maior, pra adoçar meu coração! Uai, gente, isso tá bom demais da conta, né, não?


UM JANTAR EM FAMÍLIA - Sergio Dalla Vecchia

 



UM JANTAR EM FAMÍLIA 

Sergio Dalla Vecchia


À cabeceira da mesa, cercado pela esposa e os três filhos, o patriarca saboreava a primeira colherada de um minestrone fumegante, preparado com esmero para aquela noite. A sopa estava sublime. De olhos cerrados, ele se entregava ao deleite da degustação. Suas papilas gustativas operavam como enólogos minuciosos, decifrando e catalogando as nuances complexas daquela mistura, tal qual se aprecia um corte de vinho nobre. O adocicado sutil das cenouras, a textura exata das abobrinhas, a densidade das batatas e o equilíbrio dos temperos esculpiam uma expressão de puro contentamento em sua fisionomia. Um justo prêmio para um homem exausto após um longo dia de trabalho.

O jantar transcorria em absoluta harmonia até que a primogênita, de espírito contestador, rompeu a paz. A partir de uma frivolidade qualquer, desatou a lançar farpas, atacando a irmã caçula sem pretexto. Foram uma, duas alfinetadas certeiras. Não satisfeita, voltou suas baterias contra o próprio pai. Ele, que até então flutuava em um estado de graça gastronômica, viu-se alvejado por palavras ásperas e grosseiras, que questionavam a sua neutralidade diante do embate entre ela e a irmã.

Enquanto a jovem esbravejava em tom desafiador, o pai manteve uma calma imperturbável. Mergulhou a colher no prato e levou-a à boca, como se o mundo ao redor permanecesse intacto.

Contudo, a calmaria era apenas superficial. Sua fisionomia transfigurou-se; os olhos, outrora semicerrados, abriram-se, e o sabor da sopa tornou-se subitamente amargo. A filha persistia no tom altivo, ignorando os sinais, até que o olhar antes sereno do pai converteu-se em uma linha de fogo, uma metralhadora invisível apontada para um único alvo: a audácia da filha. Havia um gatilho emocional prestes a ser acionado, aguardando apenas o comando cerebral para o disparo definitivo.

Um silêncio desceu sobre a mesa. Ninguém ousava respirar ou quebrar a rigidez daquele instante. Sem proferir uma única palavra, o pai sustentava o olhar fixo e penetrante nos olhos da filha. Era um duelo silencioso. A atmosfera pesava, prestes a faiscar, até que a jovem começou a ser esmagada pelo peso daquele olhar firme. O ímpeto dela desmoronou; o tom de voz declinou gradativamente até sumir por completo em um mutismo.

Em poucos instantes, a iminência do disparo se desfez. A tensão que sufocava a sala começou a dissipar-se. Rendida e desconsertada, a filha balbuciou um pedido de desculpas ao pai e à irmã, sufocada por um choro convulsivo, antes de se retirar da mesa às pressas.

Novamente em paz, o pai recuperou a serenidade.

Sem que uma única palavra tivesse escapado de seus lábios durante todo o episódio, ele buscou a colher e retornou calmamente ao deleite de sua sopa.

Quando saiu do transe, apercebeu-se de que estava no ano de 2026 e que, nessa época, alunos agridem professores, filhos batem nos pais, avós são colocados em casas de repouso e tantas outras atitudes negativas com o próximo. Assustado, pediu para repetir a sopa!


MEUS OITENTA - Antonia Marchesin Gonçalves

 




MEUS OITENTA
Antonia Marchesin Gonçalves


Nunca pensei que eu chegaria aos oitenta anos, muito menos com três filhos e cinco netos homens, inclusive dois netos chilenos.
Quando jovem, enxergávamos as pessoas com setenta como sendo bem velhas. Estou casada com o mesmo homem, numa convivência de sessenta e um anos, entre namoro e casamento, lógico, entre altos e baixos, como todo casal saudável.
Após uma turbulência bem grande, agora estamos tentando resgatar o encanto que quase se esvaiu. Estamos superando os sufocos, dia a dia. E, aí, chego aos oitenta!
Para mim, uma data marcante. Vamos fazer uma bela festa? — propôs o marido, convidando amigos e parentes, que não são tantos, pois não tenho mais os pais, nem meu irmão mais velho e nem minha irmã caçula.

O meu núcleo familiar do início, quando de minha chegada ao Brasil, quando éramos cinco, agora sobrou apenas eu. E os parentes de sangue mais próximos (tios e primos) todos vivem na Itália.
Voltando aos oitenta, este ano resolvi comemorar viajando com o marido para a Inglaterra, especialmente Londres. Pensei que esse dinheiro que seria gasto em festa preferia gastá-lo aproveitando essa cidade que admiro muito. Seria um retorno, pois já a conhecia.
Comuniquei à família, que estava com a certeza da festa, que meu presente era a viagem. Todos concordaram e apoiaram. Adoro essa viagem para observar as pessoas locais, seus costumes, suas atitudes no dia a dia, sendo que sempre tem umas mais pitorescas que outras. Nessa tivemos várias; três delas vou contar para não esquecer.
Três mulheres: a primeira, nós estávamos esperando um táxi quando vejo um casal de mãos dadas, aparentavam seus quase sessenta. Ela, mais alta, o segurava como uma criança puxando, igual a um filho, indo na frente e ele sendo levado. Ela falava o tempo todo com pressa no comando; deduzi estarem atrasados para algum compromisso. Um dia fomos almoçar num pub e o gerente era italiano. Conversamos e, a dada altura, perguntei se era casado com inglesa e aí, para a minha surpresa, ele respondeu que nunca casaria com inglesa, pois eram muito mandonas. Aí entendi aquele casal.
Passei a observar os casais no hotel; estava lotado de casais aposentados e era feriado nacional na segunda, e muitos emendaram para passear na capital. Reparei que eles se vestiam melhor, elas, a maioria, com roupas de domingo para missa, e da mesma forma via-se nelas atitudes de comando, principalmente no café da manhã; elas faziam o prato deles.
O segundo casal, com um filho adulto, já no restaurante da sala VIP no aeroporto. Sentaram os três com o cardápio nas mãos e me pareceu que o filho queria algo do cardápio, talvez fosse caro e a mãe chamou atenção do rapaz, que imediatamente ele fechou e o largou e nada pediu. A partir daí, só ela falava, enquanto o casal comia um prato de saladas, ele, hambúrguer com batatas fritas.
O terceiro foi o que mais me impressionou na sala VIP. Nós já tínhamos almoçado, estávamos à espera do voo e, à nossa frente, havia outro casal perto dos sessenta e tantos, comendo de tudo. Ela retirava os copos e pratos e levava no carrinho de recolher, mesmo havendo o funcionário que fazia o serviço. Sentava-se novamente, limpava a mesa enquanto o marido pegava nova leva de frutas, sacos de salgadinhos e latas de suco, que eram colocados dentro de uma sacola grande dela. Comiam e bebiam, e ela limpava a mesa. O mais impressionante é que até o chão em volta da mesa limpava; eram ingleses, foi muito bizarro.
Fomos a vários pubs, sempre a pé, conhecendo os bairros. Chegava a hora de almoçar; entrávamos no que mais nos agradava. Lógico que fizemos o sacrifício de tomar as várias e deliciosas cervejas locais. Onde houvesse muitos clientes, era um bom sinal. Em especial, voltamos uma ou duas vezes, bem frequentado, e, segundo o atendente, existia há quase trezentos anos. Era aconchegante, restaurado, mantendo a originalidade. Me encantei com um espelho original todo decorado.
Descobrimos igrejas medievais e chegamos a assistir à missa de domingo em uma delas. Encontramos uma mais contemporânea que emanava uma espiritualidade dentro dela; havia muita paz.
Uma coisa pitoresca: havia muitas flores decorando as entradas dos bares e lojas, nos postes da rua e nas varandas e portas das casas, por ser início de outono. Estranhei e, curiosa, passei a mão num ramalhete e descobri que a grande maioria era falsa; poucos eram naturais.
Conhecemos também Canden, o bairro das embaixadas, com grandes casas todas brancas e hasteadas as bandeiras dos seus países. Também havia ruas e moradias de pequenos prédios, as entradas com degraus na calçada, típicas da arquitetura inglesa. E algumas com segurança de ternos pretos, guardando, andando de uma esquina a outra, sempre em frente a pequenos parques do outro lado da rua, com espaços ao meio com cadeiras para tomar sol ou leitura; era o bairro nobre.
Outro amor que tenho são as livrarias; encantam-me os livros e o cheiro deles. Encontramos uma livraria enorme com três andares de livros do mundo inteiro; lá comprei vários exemplares. Um sobre os vinte anos da primeira-ministra Margaret Thatcher. Outro com muitas fotos sobre os setenta anos do reinado da rainha Elizabeth II. Um livro em italiano, um romance de Marina Marazza chamado (La moglíe di Dante) A mulher de Dante, que chamou minha atenção pelo comentário de Gemma Donati que diz: “Uma donna non vive nell´ombra, conquista La luce. (Uma mulher não vive na sombra, conquista a luz). E o último, um mais vendido no país e nos Estados Unidos, um Best-seller com o autógrafo da Patti Smith (Bread of Angels) a Memoir em português Pão dos anjos, a história da minha vida. Este já tem à venda na Amazon.
Outra livraria menor, quando entramos, tinha um escritor se preparando para o lançamento do seu livro, já antecipando o autógrafo antes dos convidados chegarem, com duas secretárias lhe ajudando. Concluí que ele deveria esperar um número grande de amigos e fãs, interessados em sua obra.
Fomos também jantar em vários restaurantes renomados, bem cotados pela mídia especializada. O ápice em restaurante foi o do meu aniversário. Era o Ritz, um duas estrelas Michelin, só com reserva, e claro que conseguimos. Traje obrigatório: gravata, que tivemos que comprar uma. Verdadeiro luxo, desde a decoração, os espaços que eram vários, o atendimento, todos de fraque, a comida deliciosa, mas não para matar a fome, regados ao bom vinho Pino Grigio do Veneto, com música ao vivo, pianista e depois um pequeno conjunto tocando músicas clássicas e pista de dança. Aproveitamos para desenferrujar, culminando com um espaço especial para fumar charutos com atendimento personificado.
Foram duas semanas sem stress, sem correria, com a temperatura agradável, só dois dias de chuva, um foi no Soro com a sua feira de antiguidades, que adoro, e a rua principal de Notting Hill, lotada de gente, principalmente turistas.
Foram duas semanas incríveis com o marido.
Ah, ganhei um cartão carinhoso de uma garçonete do café da manhã do hotel, que era muito grande, com muitos corredores, antigo, reformado. Tão grande que demoramos dois dias para aprender a não se perder.

Só um pequeno contratempo que me deixou nervosa: as malas não chegaram junto, ficaram retidas em Madri, chegando um dia e meio depois aqui em casa.
Mas isso não vai apagar as queridas e lindas lembranças do meu aniversário de oitenta anos.

Cara Metade - Sergio Dalla Vecchia

 

Cara Metade

Sergio Dalla Vecchia


No auge dos seus 40 anos, Antony um cidadão norte-americano acabou conhecendo a brasileira Paula no Hard Rock Café, durante o torneio de tênis Miami Open. A atração foi imediata, a cara metade que ele tanto buscava estava ali, sorrindo, exibindo um belo corpo dinamizado pelo esvoaçar dos cabelos castanhos.  Daí em diante, assistiram aos jogos juntos e aproveitaram as atrações turísticas da cidade.

Foi uma semana encantadora para o casal. Carinhos e brincadeirinhas não faltavam. 

Tudo ótimo até que as férias acabaram e Paula teve que retornar ao Brasil com direito a uma despedida chorosa no aeroporto internacional de Miami.

Foi uma paixão súbita e bonita de se ver. 

Ela embarcou levando o coração dele na bagagem.

O casal trocou muitas mensagens, fotos, selfies e longas conversas em vídeo pelo WhatsApp.

Antony estava se soltando aos poucos de sua timidez e ao mesmo tempo criando coragem para visitar Paula no Brasil. Tudo pelo amor!

Esse dia chegou e o ansioso Antony desembarcou em São Paulo.

Foi muito bem recebido pela família, mas o abraço apertado de Paula no desembarque do aeroporto de Guarulhos ratificou a paixão dos dois.

Foram direto para a casa na Vila Mariana. Ele, tímido e inseguro por não falar português, se esforçava ao máximo para se comunicar, enquanto Paula usava seu inglês básico. Mas tudo era novidade e se faziam entender.

Paula, entusiasmada, previa mostrar as atrações turísticas de São Paulo e até mais adiante as do Brasil.

Ele continuava não entendendo quase nada do que os pais dela falavam em português. Mas não suficiente para desestabilizar a extrema alegria de todos. Até tomaram a liberdade de chamá-lo de Tonho, tamanha a intimidade.

Ele pretendia ficar apenas por uns dias para matar a saudade da namorada e conhecer a família.

No entanto, cada ponto turístico da cidade de São Paulo a ele apresentado, o fazia deslumbrar-se com o povo, costumes e história dos brasileiros.

Agora Tonho já arranhava algumas palavras em português. Mas o que soltou de vez sua língua, seus pés e a cintura foi conhecer a escola de samba Mocidade Camisa Verde e Branco, na Barra Funda.

O casal sambou até o esgotamento físico, hidratados com muita cerveja, alegrando-se com o colorido das fantasias e nos pés a cadência contagiante do samba.

Enfim, Tonho voltou aos EUA, resolveu pendências, comunicou os pais que iria se casar e assim que pode retornou ao Brasil. 

Já em terras brasileiras e núpcias consumadas, foram residir em Miami por uns tempos.

Radiantes, eles programaram viagens para o Carnaval em São Paulo, Rio de Janeiro, depois Salvador e tantos outros destinos. Sempre com samba nos pés.

Após um ano, Tonho dominou o português, sambou com ritmo, Paula desenvolveu o inglês, tingiu os cabelos de loiro e passou a usar todas as grifes famosas expostas em Miami.

Entretanto, não se pode prever o futuro do casal. Pois não se sabe por quanto tempo os pés deles aguentarão sambar, o Tonho se lembrar que é Antony e que Paula volte os cabelos para a sua cor natural castanha e que não resista à saudade da feijoada, do arroz, feijão, bife e batatas fritas.


Desejo - Adriana Frosoni

 


DESEJO

Adriana Frosoni


Todas as noites, ao fechar a janela do quarto, Augusto admirava o prédio em frente. Não era o mais alto da rua, mas tinha uma fachada de vidro que permanecia iluminada até tarde.

Ele ainda vivia na casa dos pais para guardar dinheiro e queria muito morar num prédio como aquele. Era negociante de carros usados, profissão que escolhera por ser bom de conversa, ter facilidade com números e, principalmente, porque não precisava estudar para fazer isso. Gostava de negociar, de perceber até onde alguém estava disposto a ceder e de sair de uma conversa com mais do que quando entrara. Com o tempo, porém, aquilo deixou de ser suficiente. Queria mais e, por isso, tornou-se corretor de imóveis.

Aprendeu depressa que os melhores negócios nem sempre apareciam nos anúncios. Muitas vezes, vinham de quem precisava vender antes que o banco tomasse a casa, pagar uma dívida ou simplesmente recomeçar em outro lugar. Augusto passou a procurar vendedores que tinham urgência em fechar o negócio e a usar isso como oportunidade.

No escritório, começou a agir da mesma maneira: um telefonema que deixava de repassar, uma informação que chegava tarde demais ao colega errado. Como ninguém parecia perceber, foi avançando. Passou a observar os colegas com o mesmo cuidado com que analisava um imóvel. Sabia quem estava endividado e quem não poderia se dar ao luxo de perder uma comissão. Certa vez, um colega estava prestes a fechar um negócio depois de semanas de negociação. Augusto levou ao gerente alguns documentos, levantou dúvidas e o negócio foi suspenso. Depois, ele entrou em cena para garantir a venda.

Com o tempo vieram a promoção, a sala própria e a placa na porta com seu nome. Enquanto isso, um a um, os colegas foram desaparecendo do quadro de vendas, até que Augusto percebeu que já não havia ninguém entre ele e o topo.

Começou, então, a pesquisar os proprietários do último andar do prédio que almejava. Ao longo dos anos, Augusto descobriu seus nomes, negócios, dívidas e os problemas que poderiam obrigá-los a vender. Até que encontrou um apartamento similar, cujo proprietário estava apertado e precisava vender depressa. Ele esperou o momento certo e fez sua proposta. 

O contrato foi assinado numa tarde de chuva e, ao sair do cartório com a chave no bolso, Augusto ficou alguns segundos parado na calçada, olhando para ela. Era mais leve do que imaginava.

Naquela noite, subiu sozinho. Abriu a porta e entrou. A sala era espaçosa, as janelas ocupavam do chão ao teto e as luzes da cidade podiam ser vistas de cima. Augusto caminhou até o vidro e ficou ali por alguns minutos, olhando para a paisagem que durante anos havia imaginado para si.

Esperou sentir alguma coisa, mas não sentiu. Foi então que, do outro lado da avenida, percebeu um edifício mais alto recortando o céu. No topo, uma cobertura iluminada se destacava entre as demais. Augusto pegou o celular e pesquisou o endereço. Quando viu o preço, fechou a página, mas, depois de alguns segundos, tornou a abri-la. Sentou-se à mesa e começou a fazer planos.

Em quanto tempo conseguiria levantar aquele valor? Quem poderia ajudá-lo? E, principalmente, quem precisaria sair do caminho?

Ainda fazendo listas e contas mentalmente, ele voltou até a janela e olhou para a cidade. O apartamento que acabara de comprar já parecia baixo. Do outro lado, o edifício mais alto se impunha com a fachada iluminada, como se esperasse por ele. Agora sim ele sentiu, enquanto seu reflexo no vidro da janela mirava seu próximo alvo.


Joana - Carla Di Sessa

 



Joana

Carla Di Sessa


Há quem cresça à sombra de árvores ou de arranha-céus, ou então de irmãos mais inteligentes, mais bonitos, enfim, há quem cresça ali apagadinho por algo ou alguém. Sou um desses. No meu caso a sombra era Joana, a amiga de infância, linda, olhos verdes, meiga e encantadora.

Uma borboleta… com alma de vespa.

Por trás de sua expressão ingênua havia uma mente calculista e muito, muito egoísta. Mas, era encantadora demais, atraía qualquer um para perto de sua luz, cegava, enganava e era perdoada.

E eu não percebia nada disso pois era um dos atraídos pela sua luz.

Pois bem, um dia Joana encasquetou de estudar fora, mais precisamente em São Paulo. Vinha arrastando um curso de computação no Senac de nossa cidade e o único motivo pelo qual não desistia era o incentivo do professor. Pois foi justamente esse professor quem indicou o tal curso para ela.

Joana tinha um namorado, apaixonado, enfeitiçado, totalmente à sua mercê e disposição. Ela flertava com todos os amigos dele indo até o último passo antes de pôr tudo a perder e mantinha todos, o namorado oficial e os outros, pendurados na pontinha do seu dedo. Tudo muito discreto, como uma sombra que a gente pensa que viu, mas, não, foi só impressão.

E depois, aquela carinha linda, aqueles olhos meigos, aquele sorriso, não mentiriam jamais.

E lá se foi Joana para a capital fazer o tal curso e, vejam só, o professor, aquele que a incentivava tanto, também ia, uma dessas felizes coincidências que ninguém mais sabia, só eu. Como ele era de São Paulo, provavelmente ia visitar a família ou algo assim.

O namorado ficou para trás em nossa cidade, perdido nas provas da Faculdade e nos deveres da fazenda do pai. Logo que fosse possível iria a São Paulo visitar Joana. Mas, havia sempre uma questão pendente, uma urgência, uma prova e ele ia adiando a visita. Recorriam ao telefone (naquela época WhatsApp, Zoom e afins não existiam) e passavam muito tempo conversando, sentindo saudades e jurando amor eterno.

E chegou o dia da volta. Fomos todos esperar Joana na rodoviária. Era um dia frio de agosto e eu vesti uma calça de veludo e um casaco de lã, e, com a minha família, a família de Joana e o namorado apaixonado, fiquei em pé no frio esperando o ônibus chegar.

Quando ele chegou, os passageiros começaram a descer e lá pelas tantas apareceu Joana na porta, de vestido branco, sem mangas, vaporoso, chapéu combinando, como se fosse verão e ela fosse o Sol sorrindo. Não havia frio ou vento cortante que desafiasse aquela imagem. 

E, em seguida, apareceu o professor, igualmente sorridente. 

Joana havia passado um lindo mês com ele na capital, conhecendo todos os caminhos das dobras do lençol da cama deles, desfrutando a liberdade de conhecer o corpo do professor todinho e se perdendo no que podia fazer com ele e ele com ela. 

Mas, voltou como se nada houvesse, uma menina feliz, o encanto da família e a razão de viver de seu namorado.

O professor a levou até os pais e disse:

— Vejam só a coincidência, voltamos no mesmo ônibus. Prazer em vê-los, até logo. 

Joana sorriu e se virou para abraçar os pais com a saudade que conseguiu trazer das profundezas. 

Depois, foi até o namorado e se abraçaram. Pude ouvi-la sussurrando para ele:

— Senti tanto a sua falta! 

E vi o pobre desmoronar de tanto amor.


As plantinhas de Seu Candinho - Carla Di Sessa

 




As plantinhas de seu Candinho

Carla Di Sessa


Cecília olhou em volta e pensou que a casa era grande demais para quem vivia sozinha. Três dormitórios, duas salas, para quê? Mas tinha se apaixonado por aquela casa branca de janelas de madeira e com um jardim que, no momento, era puro mato, mas tinha muito potencial. E ela também gostara do fato de a cidade ser pequena, fora de qualquer rota turística, com clima agradável e baixo custo de vida. 

Havia ido parar ali quando se perdeu enquanto fazia uma trilha. Era hora do almoço, sabia disso graças à posição do sol e aos roncos de seu estômago. Começou a procurar um restaurante, uma padaria, um boteco, qualquer lugar onde pudesse comer alguma coisa. Ao virar uma esquina, havia avistado a casa: branca, janelas de madeira, um jardim que parecia uma selva, aninhada na rua sem saída e protegida por frondosas árvores. E o melhor: havia uma placa de VENDE-SE pendurada no portão.

Tinha se mudado naquele dia e estava exausta após tantas arrumações. O imóvel que estivera desocupado por anos precisava de muitos reparos. Algumas janelas não se mantinham fechadas, pois as travas estavam quebradas, as torneiras pingavam sem parar e a eletricidade, ainda precária, fazia as lâmpadas oscilarem entre o claro e o escuro. “Amanhã vejo tudo isso.”

Olhou para a cama, já arrumada com lençóis, colchão e travesseiros novos. Parecia confortável e irresistível. Cecília não tinha forças nem para divagar. Deitou-se e logo pegou no sono.

Acordou na manhã seguinte com o corpo dolorido, mas com a alma cheia de otimismo. Foi para a cozinha, antecipando o prazer de preparar e tomar um café bem quente, enquanto decidia por onde continuar a organização de suas coisas.

O jardineiro viria para livrá-la da selva que deveria ser um jardim. O eletricista combinou de aparecer depois do almoço para assegurar que a fiação não pegasse fogo, e o encanador viria no dia seguinte para acabar com a sinfonia dos encanamentos.

O dia passou confuso, com o entra e sai de pessoas carregando escadas e ferramentas. Ao cair da tarde, os trabalhadores foram embora e ela finalmente podia admirar sua cerca e seu portão, até então escondidos atrás de plantas. A iluminação da casa estava mais estável e a troca das lâmpadas velhas por novas havia ajudado a tirar o clima de boate de quinta categoria que pairava nos ambientes.

Resolveu tomar um banho para encerrar o dia. Os encanamentos ainda gemiam e resmungavam, mas no dia seguinte o encanador com certeza daria um jeito naquilo.

Banho tomado, colocou o jantar no micro-ondas para esquentar e, enquanto esperava, ficou admirando o trabalho do jardineiro pela janela da cozinha. Tudo limpinho, a terra nova à espera das plantas que ia escolher com o jardineiro dali alguns dias. Cecilia notou que perto do portão havia uma planta. Será que o jardineiro não havia visto? Por que tinha deixado aquela plantinha ali?

Amanhã, Cecilia pensou, amanhã vejo isso. 

No dia seguinte, ao preparar o café, Cecilia olhou pela janela da cozinha procurando a planta e lá estava ela. Mas, agora, com a luz do dia, Cecília reconheceu aquelas folhas que pareciam uma mão aberta com os dedos espalmados.

— Mas será possível? Murmurou para si mesma e foi telefonar para o jardineiro. 

Quando ele chegou, Cecília perguntou a origem da planta.

— Era do seu Candinho, ele explicou, tinha um monte, ele adorava as plantinhas dele. Tirei todas, mas essa eu quis deixar de lembrança. A senhora não vai mandar cortar, vai?

O jardineiro a observava, esperançoso. E continuou:

— Ninguém liga, todo mundo gostava das plantinhas do seu Candinho. 

Posso imaginar, pensou Cecília.

— Se a senhora preferir, posso mudá-la para trás da casa. 

— É ilegal, o senhor sabe, né?

— Ilegal? 

— É, vai dizer que o senhor não sabia.

— Seu Candinho nunca disse nada disso. Sabe, aqui na cidade todo mundo é da paz…

Com certeza, pensou Cecília.

— Vá lá, por enquanto ela fica nos fundos, até eu decidir o que vou fazer com ela.

— Certa, dona Cecília. Então, já que essa fica, posso trazer as outras? 

— Que outras?

— As que levei embora, mas não tive coragem de dar cabo delas.

— Se eu disser que não, alguém vai vir aqui me pressionar para mudar de ideia? Perguntou Cecília, imaginando uma quadrilha ávida pela sua plantação.  

E acrescentou:

— Estou achando tudo isso muito esquisito, para dizer o mínimo.

— Imagina, dona Cecília, são só umas plantinhas. O resto do jardim a sra. faz do jeito que quiser.

— Sei… Continua sendo ilegal, a polícia vem aqui, descobre tudo e lá vou eu, presa e tentando explicar que são só as plantinhas queridas do seu Candinho. 

— Presa? Por causa das plantinhas do seu Candinho? 

Cecília viu o encanador chegando e disse ao jardineiro que depois continuariam a conversa. Ele se afastou, murmurando baixinho que “as dona da cidade grande são tudo exagerada… Presa, tem cabimento?”

Foco, pensou Cecília, uma coisa de cada vez, e foi receber o encanador com sua equipe, que haviam parado para apreciar a “plantinha de seu Candinho”. 

Parece que elas eram famosas mesmo… pensou Cecília.

Após tudo acertado com eles, ela passou um café para que tomassem antes de começar o serviço. Aproveitou para também chamar o jardineiro, mas ele havia sumido. Será que se ofendeu? 

O encanador achou vários problemas hidráulicos na casa e anunciou que precisava quebrar algumas paredes para descobrir o estado dos encanamentos. Cecília respirou fundo e autorizou, fazer o quê? E a sinfonia de marteladas começou; não havia um espaço sequer na casa onde pudesse se esconder da barulheira, então Cecília foi para o lado de fora. Admirando o espaço do seu jardim, começou a imaginar quais plantas colocaria perto da casa, quais junto à cerca e perto do portão. Bem, onde estava a plantinha do seu Candinho? 

Cecília se aproximou e olhou a planta: nunca havia visto um exemplar ao vivo, mas o formato das folhas era bem conhecido.

Ouviu um carro ao longe e logo uma viatura da polícia virou a esquina e parou em frente à sua casa.

Mas, já? A notícia já tinha chegado aos ouvidos do delegado? Pensou Cecília.

O delegado desceu do carro e a saudou.

— Boa tarde! 

— Boa tarde. Aconteceu alguma coisa?

— Seu jardineiro foi me ver agora há pouco e me contou uma história interessante.

O dedo-duro! Pensou Cecília.

E, alto para o delegado, ela falou:

— Olhe seu…

— Edgar, delegado Edgar.

— Então, delegado, não sei o que ele contou para o senhor, mas as plantinhas eram de seu Candinho e o jardineiro está insistindo para eu continuar com elas aqui no meu jardim. Eu disse ser ilegal, mas ele não deu muita bola, não.

— A senhora poderia me mostrar a tal planta?

— Claro, é aquela lá, ao lado do portão.

O delegado andou até a planta, seguido de perto por Cecília. Examinou o caule, as folhas, deu uma risadinha e disse:

— Essa com certeza é uma das plantinhas do seu Candinho. É uma Cleome ou planta-aranha. Parece uma Cannabis Sativa e, por isso, seu Candinho adorava ter uma porção delas pelo jardim para enganar os desavisados.

— Ah, mesmo? Disse Cecília, sorrindo sem graça.

— Pode deixar seu jardineiro plantar sem susto — disse o delegado, achando graça na expressão no rosto de Cecília. Não precisa ficar assim, ele continuou, a senhora não é a primeira a se confundir.

— Cecília.

— Como?

— Sem a senhora, só Cecília. Delegado, aceita um café ao som de marretas?

— Com prazer, disse o delegado, sorrindo.

Cecília se casou com Edgar algum tempo depois. A festa foi no jardim da casa e o buquê da noiva foi disputadíssimo: além da promessa de casamento próximo, ele também era feito com as folhas das plantinhas de seu Candinho. Os convidados de fora acharam aquilo bem exótico e queriam levar para casa o souvenir da festa. Coisa de quem ainda não conhece todos os detalhes da história de seu Candinho e suas plantinhas…


A companhia inesperada - Isabella Brancher

 




A companhia inesperada
Isabella Brancher

Dora se mudou para aquela casa no dia anterior. Três dormitórios, duas salas. “Casa grande demais para quem vive sozinha”, pensou.

Àquela hora da noite, estava exausta depois de tantas arrumações. O imóvel, adquirido em leilão, estivera desocupado por anos. Do mobiliário que permanecera nos cômodos, algumas peças seriam aproveitadas. Outras, muito antigas, seriam descartadas. Carregavam histórias que lhe pareciam pesadas demais para serem mantidas.

A casa ainda precisava de muitos reparos. Algumas janelas não se mantinham fechadas porque as travas estavam quebradas. As torneiras pingavam sem parar. A eletricidade, ainda precária, fazia as lâmpadas oscilarem entre o claro e o escuro. “Amanhã vejo tudo isso.”
Olhou para a cama, já arrumada com lençóis e travesseiros novos. Parecia confortável. Dora não tinha forças nem para divagar. Deitou-se e logo pegou no sono.

Passado aquele sono profundo, oriundo do cansaço extremo, acordou. A luz do corredor havia ficado acesa e projetava sombras tremulantes pela parede. Queria se levantar para apagá-la, mas ainda se sentia muito cansada para sair da cama quentinha. A temperatura na casa havia abaixado consideravelmente e, assim, queria evitar o choque com o frio. Virou-se de costas para a luminosidade e procurou retomar o repouso interrompido. Quieta, no silêncio da noite, começou a escutar ruídos que haviam passado despercebidos durante o dia.

Algo ressoava incessantemente no quarto ao lado: parecia uma janela que batia; o ritmo irregular não combinava com uma janela batendo ao vento. Por vezes era mais forte, outras vezes parecia apenas um rangido. Não conseguia perceber o que era… julgou ser uma janela que se abrira com o vento. Tentando se concentrar no primeiro ruído, percebeu outro vindo do banheiro. Esse ela reconheceu imediatamente: gotas de água caíam do chuveiro e ressoavam na banheira de metal.

O conjunto de sons foi se intensificando e, cada vez que tentava se distrair da pequena banda que a acompanhava, acabava por identificar um novo som. Agora ouvia pequenos passos que pareciam vir do teto. Será que teria um sótão na casa? Ninguém lhe havia falado sobre isso. Não se contentou em tentar espantar mais essa inquietação, virou-se e observou o teto do quarto com atenção. Percebeu que o forro era de madeira e que, em alguns pontos, parecia estufado. Nesse exato momento, novos passos foram escutados, algo raspava com fúria a madeira. Dora percebeu que estava prendendo a respiração. Seus dedos apertavam o lençol sem ela perceber. O arranhar frenético sobre sua cabeça fez seu estômago se contrair.

Sobressaltada pelo susto, levantou-se com a intenção de verificar o que estava acontecendo. Temia que permanecer na cama só faria seu corpo enrijecer ainda mais.

Vestiu o penhoar e caminhou lentamente em direção ao barulho, que vinha do corredor, que agora iluminado parecia menos assustador. O ruído a fez olhar para cima e assim percebeu um alçapão. Suas pernas pareciam ainda mais flácidas, com pouca sustentação. No alçapão havia um gancho e, atrás da porta, uma haste de metal comprida que julgou servir para abrir o alçapão. O tremular de suas mãos dificultava o encaixe da ponta da haste no gancho do alçapão. Queria se livrar daquela angústia o mais rápido possível; na terceira tentativa, conseguiu. Puxando o alçapão, uma escada desceu e uma passagem para o sótão se abriu. A escada escura à sua frente parecia exigir uma decisão imediata. Subo ou não subo? Aquela dúvida invadia seu íntimo. Possuída por essa incerteza, mantinha-se paralisada, olhando o sótão. O silêncio que se instalou pareceu ainda mais perturbador. Mais uma vez tomada pelo medo, pisou no primeiro degrau; a madeira rangeu. A escuridão acima não era convidativa; recuou, buscou uma lanterna e voltou a subir. Degrau a degrau, entre cada um, respirava fundo, procurando forças para continuar a subida. Chegando ao topo, ouviu novamente o som. Não era um arranhar furioso como imaginara. Era breve, irregular. Algo se movia. O local estava coberto por poeira e velhos caixotes abandonados. Entre duas malas, viu um pequeno vulto se encolher. Dora congelou, ouviu um miado. Curto e fraco, depois outro.

Percebeu os olhos brilhantes da gata que a encarava. Abaixou a lanterna e percebeu cinco gatinhos aninhados em uma manta. Logo pensou: então, era você! A gata permaneceu alerta, mas não recuou.

Lá embaixo, as torneiras continuavam pingando e as janelas ainda batiam com o vento. A casa permanecia velha, fria e cheia de reparos por fazer, mas já não parecia vazia.

Uma casa velha demais - Yara Mourão




Uma casa velha demais

Yara Mourão


Dora passou por cada cômodo, entre satisfeita e incerta. O ar antigo do mobiliário enchia os ambientes de uma certa familiaridade, lembranças da infância, túnel do tempo. Sabia que a casa precisava de reparos, mas isso ficaria para os dias seguintes, pois tudo o que queria agora era descansar da mudança.

Retirou-se para o quarto, aconchegante e silencioso. Acendeu o abajur, a lâmpada bruxuleou; ela arrumou o criado, a jarra de água, o porta-retrato.  Olhou longamente a fotografia. Um conhecido estremecimento a percorreu, vendo o sorriso esmaecido de seu filho que se fora, há anos, no fundo de um lago lamacento. Cerrou os olhos. Melhor dormir, pensou.

Mas, por alguma fresta, entrou um vento frio que, roçando as cortinas, levantou um ruído úmido e distante. “Talvez chova; já ouço uns pingos no telhado.”

Ao fechar a porta do banheiro, viu que era o vazamento de um cano que, gota a gota, lavava o piso de registros tão antigos.

Dora se deitou. O sono se esvaiu por debaixo da porta. Ela ansiava pela manhã. Mas um ruído se espalhou pela sala, pelos móveis, tapetes. Tateando pelas paredes, foi até o hall de entrada, buscando coragem na penumbra desconhecida. “De certo este ruído vem daqui de dentro.” Presságio e medo levaram suas mãos até a porta da cozinha e, abrindo-a num movimento brusco, ouviu-a ranger num miado embargado.

Não vendo nada ali, voltou rapidamente para o quarto. Assim que deitou de novo, um som mais forte junto à porta de entrada a fez tremer e suar frio. “Certamente há alguém lá fora querendo entrar aqui!”

Considerou as chances de haver alguém que precisasse de ajuda, àquela hora da noite, naquele lugar distante e sem respaldos.

Dora buscou coragem entre medos ancestrais e pesadelos antigos. Cobriu-se com um xale, calçou as pesadas botas e, apesar da pouca luz, esgueirou-se até a entrada. Abriu a porta de um lance rápido e foi logo dizendo: “Me perdoe, senhor ou senhora, mas eu estava quase dormindo e mal a escutei, arranhando a minha porta como um pássaro ferido, ou batendo compassadamente, fugindo da noite fria!”

 Ninguém lá fora…

Dora voltou-se trêmula, sem saber mais. No quarto, bebeu da jarra quase toda a água, molhou o rosto. Mirou o retrato do filho, fez uma prece.

O ruído continuava. Ela retornou à sala e, ligando os passos aos espaços da tarde da mudança, chegou frente a um armário de portas pesadas, o qual ainda não havia arrumado.

Quando puxou um dos ferrolhos, a portinhola de baixo se abriu e de lá saíram, famintos e agitados, dois grandes animais de olhos negros, fucinhos longos e rabos rajados, rosnando, rastejando ruidosos pelo piso irregular da casa. Rapidamente se acomodaram no tapete em frente à lareira, grunhindo estranhamente.

Dora se esquivou, subiu num móvel e encarou os bichos à meia-luz: “que seriam? De onde vieram?” 

Buscou as bolachas na gaveta do móvel e atirou o pacote para os bichos. Enquanto se entretinham comendo, ela correu até a porta, abriu-a totalmente e, atirando-se aos berros sobre o sofá ao lado dos bichos, conseguiu espantar os invasores.

“Nada mal para uma primeira noite!”, pensou.

Voltou para o quarto, deu um beijo no retrato; Dora soube, então, que esta casa velha seria uma caixinha de surpresas.

Deitando no silêncio que se fez, agora, então, como há tempos não acontecia, Dora pode dormir em paz.


HERANÇA QUE CAI DO CÉU OU NÃO! - Sergio Dalla Vecchia





HERANÇA QUE CAI DO CÉU OU NÃO!

Sergio Dalla Vecchia


A noite espreguiçou-se lentamente. Era hora da troca de turno com o dia!

Dora foi bruscamente despertada pelo canto de um galo. Aquele som desafinado bateu como um martelo nas bigornas delicadas dos seus ouvidos, habituados a músicas seletas. Assim terminou a primeira noite na casa herdada do tio, por conta de seu falecimento repentino.

Enquanto esfregava os olhos, ansiosos pensamentos invadiram seu cérebro.

Que fazer com torneiras pingando, portas sem tranca e a arrumação interna daquela casa desabitada, não se sabe há quanto tempo.

Ela, desenrolada que era, não pensou duas vezes, pôs-se em pé e saiu em busca de encanador, chaveiro e diarista.

No mesmo dia, conseguiu pôr em ordem as pendências de manutenção, com muito esforço da equipe liderada por ela.

Enfim, casa limpa e corpo moído. Era hora do banho reconfortante.

Nua dentro do box, agasalhou-se com o manto de água quente formado por gotas espargidas pelo chuveiro recém-instalado.

Olhos cerrados, prazer e mente limpa aproveitavam aquele momento terapêutico.

Eis que, do nada, o deleite foi cortado pela interrupção repentina da água.

Dora, ainda ensaboada, embrulhou-se rapidamente na toalha e saiu em busca da causa da pane hidráulica.

Não entendia, pois o encanador, antes de sair, fez todos os testes necessários e tudo funcionava.

Já saindo pela porta do banheiro, de súbito a água voltou ao normal!

Aliviada, voltou para o box e, mal retomou o banho, e lá se foi a água novamente. 

Desesperada, entrou enrolada na toalha, casa adentro.

Foi para a cozinha direto na torneira da pia, abriu e zás. Água jorrando!

Não é possível, pensou ela!

Esperta, acabou tirando o sabonete do corpo na canecada, ali mesmo. 

Durou pouco tempo e o jato logo foi interrompido.

Verificou registros em outras torneiras e acontecia o mesmo: no início, água; depois, secura!

Pensando em algo, resolveu ligar o som do minissistema que existia na sala e que também foi testado pelo eletricista e funcionava bem na véspera.

Apertou o botão on e logo ouvia-se o Fantasma da Ópera. Justine; tan, tan, tan, tan!

Mas como? O CD estava na minha mala, dentre outros. Alguém o colocou! Mas não entrou ninguém na casa desde ontem.

Conforme Dora foi ficando nervosa, mais o volume crescia. Justine; tan, tan, tan, tan!

Agora, já não era mais o som; sim, quadros que se mexiam nas paredes e portas que batiam!

Dora não suportou, acabou surtando, fugindo em desespero e nunca mais voltou!

Vendeu a casa e não soube de nenhum relato do novo morador sobre os eventos ocorridos com ela.

Com o tempo, ela foi esquecendo e, ao mesmo tempo, pesquisou e descobriu que existe o fenômeno paranormal ou psicológico chamado de Poltergeist, caracterizado por perturbações físicas inexplicáveis, como movimentação ou arremesso de objetos, ruídos altos, luzes e portas batendo. A palavra vem do alemão e significa espírito que faz barulho. Muitas ocorrências podem estar ligadas ao estado emocional de um indivíduo específico no local.  

Dora também entendeu que pode ter sido ela o canal para a ocorrência dos fenômenos, pois na época estava emocionalmente instável.

Nunca mais teve problemas.