Uma Onda Insuperável - Yara Mourão




 Uma Onda Insuperável

Yara Mourão Phillip não tinha grandes recordações de sua jornada de vida. Era um coração instável, uma mente inquieta. Mas o ponto de contato dele com a terra era estar na água. Por isso nunca se afastava dos grandes lagos, rios turbulentos, oceanos infinitos.
Havia sido um surfista em sua juventude e agora, às portas dos cinquenta anos, lutava para ficar de pé, preso a uma cadeira de rodas; alimentava sua existência mirando as ondas nas costas mágicas do Havaí. Eis que ao entardecer do solstício daquele ano, Phillip se ancorou no patamar mais alto do belvedere da praia central, para observar o por do sol. Mas foi ficando inebriado pela vista do mar turbulento e, ainda que imóvel em sua cadeira de rodas, ia surfando no barulho das ondas.
Sabia se conduzir: primeiro, sentia o vento; vinha de leste para oeste crispando o topo das ondas. Era um bom vento, embaralhava seus cabelos e respingava agua salgada em seu rosto. Depois, sentia a temperatura da água num arrepio intuído; água fria mas sempre dominável.
Phillip se moldava ao movimento da maré, girando sua cadeira de um lado para o outro, imaginando o ângulo certo para entrar no tubo e sair do outro lado. Ele quase nem abria os olhos e se projetava pelo espaço, mergulhando no turbilhão das emoções inesquecíveis.
Sempre, a água, a dádiva preciosa.
Ele sabia amar aquela fonte de beleza e perigo. Lembrava de quando surfava e que, ao se atirar ao encontro de uma onda abraçava a criação e agradecia aos céus.
Até que, sob os últimos raios de sol, surgiu aquela onda magnifica! Enorme, densa. Phillip a encarou como um caçador que encara sua presa feroz. O ruído da queda na água remetia a trovões. Ele quis muito estar numa prancha! Não havia mais. Ele quis muito um equilíbrio. Não o encontrou. E a grande onda veio, altiva, insuperável, tapando o horizonte do entardecer.
Ele se projetou à frente num esforço para ficar de pé e estar, de novo, surfando. Ele conseguiu se apoiar no parapeito do belvedere e ver toda aquela fúria se transformar em marolas aos pés da areia.
Caiu a noite.
Phillip sentiu, no fundo do peito, a natureza imitando sua vida, que agora, como a maré, estava se amainando sobre a terra.

A terrível criatura - Isabella Brancher

 



A terrível criatura

Isabella Brancher


O torneio começaria em alguns dias, eu havia decidido chegar antes para me ambientar. 

O tempo estava ótimo, ensolarado, poucas nuvens e uma vibração amena preenchia o espaço, agora ainda vazio. 

A brisa marinha era doce e aveludada. Sentado na areia, bem próximo da rebentação, observava as ondas que vinham deslizando pela costa até espumarem na praia. Junto aos meus pensamentos, questionava-me. Como me sentiria abraçado por aquele mar de água? Permaneci horas ali, olhando. Algumas pareciam criaturas sinistras, enigmáticas, capazes de calar o mais corajoso dos homens. Outras eram crianças inocentes buscando espaço para brincar.

Fiquei me imaginando a flutuar sobre essas criaturas, tentando dominá-las. Conhecia a minha capacidade de lidar com elas, mas ainda assim seguia me perguntando.  Devo mesmo participar desse torneio?

Nos dias seguintes, segui o mesmo ritual, tomei o meu café da manhã e, sentado na areia, passei horas a observar. A lembrança do acidente no torneio de Nazaré ainda me atormentava. Aquela imagem do meu colega abatido turvava minhas ideias. Não havia como me furtar, amanhã teria que enfrentá-las.

A tão inesperada manhã chegou, dirigi-me até a praia, não como o espectador dos outros dias, mas como protagonista. Meu papel, o mais importante de todos: era sair vivo.

Surfei a primeira, depois a segunda onda, desci a terceira como se bailasse num salão, meu domínio era total. Ainda precisava descer uma onda perfeita, um tubo redondo e bem alto para poder ganhar o campeonato. 

Ela vinha se formando e, enquanto crescia, aumentava em paralelo a minha incerteza. 

— É agora! 

Entrei na onda com a mesma certeza das anteriores. Ela me engoliu. Fui sugado para dentro daquela criatura feroz aquilina que me consumia, foram minutos intermináveis, a prancha de um lado, eu do outro. Nos misturávamos naquele infinito de água. 

Felizmente, como todas as anteriores, ferozes ou dóceis, cuspiam seus invasores na areia, misturados com uma montanha de espuma. Finalmente, me vi inteiro, esparramado na praia. Tossindo as entranhas da criatura que insistira em me possuir.


Como uma onda no mar... - Ledice Pereira



Como uma onda no mar...

Ledice Pereira


Vendo um vídeo de uma onda gigante, a princípio, escura, transformando-se num túnel majestoso, de um azul turquesa ou verde intenso, penso como é grande o poder da natureza que, ao mesmo tempo que nos amedronta, nos impacta.

Como Ítalo Ferreira e Gabriel Medina devem se sentir hipnotizados por essa força misteriosa que, desde a infância, os atrai tão fortemente, fazendo-os enfrentar corajosamente, qualquer que seja o tamanho e a violência delas.

Ao mesmo tempo, essa imagem me remete à adolescência, quando convidada a passar férias em Ubatuba, na casa de uma amiga e sua família.

Muitas são as lembranças boas daqueles momentos, cinema, footing na praça, as peripécias vividas com aquela família grande, a amiga, as irmãs, os pais, tão diferente da minha realidade de filha única.

Mas a imagem mais marcante que ficou foi da onda que me dominou totalmente, levando-me a sentir, acho que, o maior medo de toda minha vida, tentando vencer aquela inimiga forte e poderosa pronta para me derrubar. 

Foram longos minutos de terror, lutando com as forças que eu tinha para subir e respirar. Momentos que ficaram para a vida toda e me impedem, até hoje, de superar a dificuldade de enfrentar o mar e até uma piscina.

Fico com a imagem maravilhosa da foto e a admiração pelos intrépidos surfistas. Mas me dou o direito de admirar tudo de longe e sem qualquer envolvimento.


3 continhos: Carinho - Lauto - Cobiça/Preguiça - Ledice Pereira




 Carinho

Aquelas crianças ficavam ali, tão sedentas de carinho, que nos causavam grande comoção.

Ao mesmo tempo, uma enxurrada de perguntas povoava nossa mente: conseguiríamos adotá-las? Estaríamos preparados para esse desafio?

Os olhinhos tristes, ao mesmo tempo esperançosos, pareciam pedir que os levássemos dali. Precisavam tanto de amor!


Lauto

Nosso grupo jovem foi convidado para a festa por um dos organizadores.

Estávamos todos sem programa mesmo. Resolvemos aceitar.

Ao chegar, já percebemos que estávamos no lugar errado. Todos de jeans, camiseta básica, enquanto os convidados desciam de seus carrões, elas de longo, eles de terno e gravata.

Nós ali, a pé com nossos tênis sujos e velhos.

O jantar foi servido, sem que pudéssemos fugir dali. Um lauto jantar. Nem sabíamos como nos portar.

Tratamos de engolir rapidamente e nos safamos dali. Já havíamos pagado o mico.


Cobiça / Preguiça

Sinval era aquele cara que não queria nada com a vida. Não tinha trabalho fixo. Vivia de um bico aqui, outro ali.

Não que fosse burro, mas vivia com muita preguiça. Preguiça de andar, de comer, até de falar. 

O que não lhe faltava era querer o que os outros possuíam. A cobiça era uma constante em sua vida.

Queria o que os outros tinham mas a preguiça o impedia de ir atrás de seus desejos.


UMA MULHER DESCONFIADA - Suzana da Cunha Lima

 



UMA MULHER DESCONFIADA

Suzana da Cunha Lima


Palmira sabia de tudo que se passava na vizinhança. O peitoril da janela já tinha até a marca de seus cotovelos. Cada atitude fora do comum já lhe parecia suspeita e digna de uma investigação.

Agora ela estava se especializando em relações humanas, ou mais explicitamente “quem está com quem?” e por que “aquele alguém não fica com ninguém”? Esta última questão lhe requeria mais atenção do que as costumeiras.

Naquela tarde preguiçosa, onde parecia que o mundo, os carros na rua e as pessoas na calçada, se moviam em câmera lenta, ela observou um casal se dirigir para a pracinha sem pressa, de mãos dadas.

Ela já ia fechar a janela e encerrar o expediente do dia, quando estacou subitamente.  Conhecia aquele casal, ora se conhecia… Eles eram casados, mas não um com o outro. Aí tem… pensou alegre, levando sua xícara de café para a janela e retomando seu posto de observação.

— Raul e Alice, hein? Que fingidinha…

Ora, Raul sempre posava de bom moço, bom marido, cumpridor de seus deveres. E Alice, então? Vai à missa todo domingo, reza como uma condenada e faz de tudo para ser notada como boa esposa e boa cristã. E agora? Ali, na cara de todos, agarrada a Raul.

— Será que liberou geral? O que deixei escapar? Correu célere para telefonar para a comadre que morava em frente à pracinha, num local privilegiado para testemunhar aquela obscenidade.

— Rute, espia aí para a pracinha, logo! Raul e Alice agarradinhos… Cristo! Onde vamos parar se as safadezas vão ser agora a céu aberto?

— Palmira, para de pensar mal dos outros. Alice é prima de Raul e teve uma torção no tornozelo. Coisa séria. 

— E daí? Tem salvo-conduto para primagem agora? Primo pode?

— Para, mulher, ele deve estar levando Alice para o postinho. Eles moram perto e o marido dela está viajando.

— Viajando nada… Daqui estou vendo ele sair de casa pela porta dos fundos.  Quem te disse que ele ia viajar?

— Como é? Nestor está na cidade? Espantou-se a comadre, indignada. — Ele mesmo me avisou que ia passar a semana fora. Ah, aquele sacripanta me paga! Ah, se paga… Não se pode confiar em ninguém mais nesta vida. Credo!


A Revanche - Ledice Pereira

 



A Revanche

Ledice Pereira


Eram duas horas da manhã, quando Rafael entrou pé ante pé, depois de custar a achar o buraco da fechadura.

Nem acendeu a luz. Foi andando devagar, tentando não trombar em nada para não acordar Palmira. Mas a mulher estava com o olho mais que aberto. Esperou que o marido entrasse no quarto e gritou:

– Isso são horas?

Rafael tentou, em vão, inventar uma desculpa esfarrapada. Primeiro, que estava fazendo hora extra.

– Sei, sei – ela murmurou, franzindo a testa – e esse bafo de bebida que está chegando até aqui?

Apesar da raiva, sabia que não conseguiria manter qualquer tipo de conversação porque Rafael estava mais pra lá do que pra cá.

Mandou-o dormir no outro quarto.  Não suportaria aguentar aquele odor de bebida misturado a um perfume barato.

Estava muito brava! Estava puta mesmo! Custou a dormir. Perguntava-se por onde andara aquele sem vergonha.

Dia seguinte, Rafael acordou cedo. Deixou que a água caísse sobre a cabeça esperando que a ressaca passasse. Tinha consciência de que dessa vez havia se excedido.

Entrou na cozinha, onde Palmira passava o café e tentou dar-lhe um beijo, mostrando seu melhor sorriso, procurando não demonstrar a dor que sentia na cabeça pesada.

– Não me venha com beijinho.

Ele pediu desculpas. Jurou que não aconteceria mais.

– Ah tá, agora você é um santo! Ela já o havia perdoado em outras vezes.

– A turma resolveu beber para aliviar o dia que foi pesado – explicou com cara de cachorrinho magoado, os olhos baixos, fingindo arrependimento.

– Hã, hã, e esse perfume horroroso que não saiu nem com o banho? Não me diga que é do Jorge.

– Ah, meu amor, não é nada disso que você tá pensando.

Ela, levantando a sobrancelha, descrente, – sabe que estou ficando com pena de você. Seu chefe o está explorando muito, acho que vou ter uma conversinha com ele. Quando ela pegou o telefone, ele gritou:

– Desliga esse telefone, mulher! Prometo que isso não vai acontecer de novo! Juro!

– Jura mesmo? Vou sair. Quando voltar quero encontrar as camas arrumadas, a louça lavada, o banheiro enxuto e limpo. Faça isso antes de ir para o seu pesado trabalho. E pegue um táxi, ou ônibus, metrô, que hoje quem vai usar o carro sou eu. Vou fazer umas comprinhas. Não se assuste se receber notificação do meu cartão de crédito.

Rafael teve a certeza de que a farra não valera a pena. Sabia que teria que fazer muita hora extra, de verdade, para conseguir pagar o cartão de crédito. 


Medonho - Isabella Brancher

 



Medonho
Isabella Brancher

Manuel viveu na mata fechada por muitos anos, o ambiente sombrio e isolado trazia paz ao seu coração.
 Nunca havia se sentido tão bem. O contato diário com a natureza, a conversa dos pássaros e o crepitar das folhas eram seus companheiros de jornada. Muitos dias se perdia nos seus pensamentos, caminhando pela mata. Tudo aquilo contrastava com a vida que ele levava antes. Uma vida que agora lhe parecia distante, quase irreal… e sem valor.

Seus passeios seguiam por horas em busca de alimento. Havia se estabelecido próximo a uma formação rochosa que lhe dava abrigo, em um canto desse espaço se abria uma pequena cavidade, semelhante a uma caverna. Foi ali que estabeleceu residência. Para comer, costumava seguir pelo aqueduto que rasgava a floresta. Nunca havia entendido por que aquela construção, aparentemente bem antiga, ainda estava ali. Parecia em total desuso. Para ele, a serventia era levá-lo com segurança até o rio onde pescava, com abundância, peixes para a sua alimentação. 

No começo da sua vida na floresta, fazia um risco na parede da caverna toda vez que o sol se punha. O entardecer para ele era mágico, capaz de transformar até o mais rotineiro dos dias em encanto. As cores alaranjadas brilhavam entre as nuvens, refletindo muitas vezes as emoções que sentia. A natureza o abraçava, lhe trazia um acalento quase maternal.

Perdeu a conta dos dias quando se adoeceu e, sem saber ao certo quantos, passou dias e noites dormindo. Percebendo que as marcações não iriam mais refletir a realidade, as abandonou.

Na cidade, há apenas poucos quilômetros dali, circulavam boatos da presença de uma estranha figura na mata. As histórias eram confusas, mas todas relatavam algo ou alguém perdido, vivendo isolado na mata.

João, após ouvir os comentários de seu avô, chamou Pedro para explorar essa área da floresta que nunca haviam visitado. Afinal, era proibido. A curiosidade juvenil, aliada ao fascínio pelo desconhecido, os levou cada vez mais para o interior da mata. De repente, avistaram uma fumaça vinda da região das rochas. Uma área considerada sombria pelos moradores da região. Sem pensar, se entreolharam e seguiram naquela direção. 

— Quem será que acendeu essa fogueira? Perguntou Pedro, preocupado. 

— Será que ainda existem povos que vivem aqui?

— Imagina, respondeu João. — Deve ser algum lenhador. Talvez tenha acendido o fogo para afastar animais.

— Não sei não, retrucou Pedro. — Isso está me parecendo muito estranho, bem que o xerife nos alertou para não irmos muito na mata.

Continuaram a discutir sobre se deveriam ou não seguir em frente quando ambos se calaram subitamente. Diante deles, uma figura hirsuta emergia das sombras. Tentaram gritar, mas a voz falhou.

— Medonho… sussurraram.




A mãe desconfiada Ises - Almeida Abrahamsohn




A mãe desconfiada

Ises Almeida Abrahamsohn  


Palmira tinha fama de botar defeito em tudo . Porém não era verdade. Desconfiada,  era o que de fato era.  O neto Artur a chamava  de  vó  São Tomé.  Para quem não sabe, Tomé era aquele apóstolo que duvidou da ressureição. Até que o Mestre o fez tocar sua ferida de lança. 

Bem, Palmira não chegava a desconfiar das escrituras, mas de tudo e de  todos que a cercavam, sim. E deixava sua filha Anita desesperançada.  

Esta era jovem, tinha apenas 30 anos, viúva há seis  anos.  Era mãe de Artur, agora com sete anos. O marido falecera num acidente de automóvel. Viviam mãe e filho na casa de Palmira, um arranjo que de início parecia cômodo, mas que agora perturbava Anita. Trabalhava como contadora num escritório de advocacia. Quando fez  vestibular para a Faculdade de Direito há dois anos, Palmira se sentiu ameaçada. 

― Minha filha, tem certeza de que essa faculdade é boa? Você vai dar conta?

Demorou um ano a litania de Palmira...

Atacou em seguida o flanco de possível dano à educação de Artur.  “Vai se ausentar demais, sem pai, ele vai sofrer com sua ausência, você  toda noite fora!

Anita retrucava que o filho estava bem, afinal  ela o punha na cama e ele dormia tranquilo a partir das  oito  quando ela estava em aula.  E nos fins de semana ficavam sempre juntos. 

Porém Anita se sentia só.  Com o trabalho, a faculdade e cuidados com o filho ela  não tinha amizades estreitas, apenas colegas e primas, ninguém realmente próximo. Desejava encontrar um parceiro que, além de bom marido se tornasse amigo do filho. Alguém que fosse seu  parceiro nos gostos por música, viagens, leituras e bons filmes. As colegas lhe diziam que era um sonho irrealizável. 

“Os homens solteiros na  idade  que você quer só desejam se divertir”, você verá,  repetiam.

Depois de alguns relacionamentos  que duraram poucos meses, Anita ia se convencendo  disso.  A alternativa eram homens vinte anos mais velhos à procura de mulheres jovens que os cuidassem na velhice. 

Mas então apareceu Eduardo.  Era advogado, 38 anos, divorciado com dois filhos adolescentes . Era pessoa interessante. Teria dado certo, não fosse a interferência de Dona Palmira. Começou a minar o namoro assim que percebeu possibilidades mais sérias.  

― Anita, será que ele vai deixar de ver a ex? Afinal, ele a encontra todos os finais de semana ! A moça retrucou que  ele visitava os filhos e se importava com eles.

Palmira em seguida revidou que Eduardo não tinha bens outros além do automóvel. Tanto fez  e questionou  que a relação esfriou e o rapaz desistiu, 

O segundo namorado, Rodolfo, nem teve chance. Era alto, muito magro e corredor de final de semana. E era solteiro aos quarenta e dois anos. 

Dona Palmira desconfiou logo.

― Será que é doente? Tão magro.

― Claro mãe, ele é corredor de meia maratona!  Tem que ser magro ! 

A megera não se deu por vencida e atacou. ― Solteiro nessa idade?  Não será bissexual ? Ainda pode passar HIV para você!

A gota d´água foi quando o rapaz chamou Artur para treinar corrida.

― Cuidado Anita, vai ver que é pedófilo. Cuidado... muito cuidado  com  Artur.

Agora Anita tinha encontrado Vitório, advogado no fórum, dois anos mais velho que ela. Estava à procura de um relacionamento sólido.  E se deu bem com Artur. Os avós dele eram italianos.  Iam a concertos, a parques e livrarias. Adorava ler e trazia para Artur os livros de aventuras de sua infância.  Ajudava o menino nas leituras de Júlio Verne, Emilio Salgari, Karl May e  outros.

Dessa vez Anita não ia deixar a mãe se intrometer.  Ameaçou a mãe:

―  Se você perturbar  vamos eu e o Artur embora daqui! 

Meio ano depois Vitorio lhe trouxe um belo anel. Era um anel de noivado. Anita radiante aceitou.

O rapaz quis encontrar a futura sogra. Veio almoçar no domingo. Palmira o olhou desconfiada e lançou uma saraivada de perguntas.  Depois da quinta pergunta o rapaz deu uma risada, avisado que já estava do caráter da mulher. 

Dona Palmira, a senhora é igual à minha avó. Bem desconfiada! Anita me contou . Vou me casar com sua filha e seu neto vai morar conosco,

Palmira engoliu em seco. Não tinha o que responder.  Vitorio tinha se revelado. Era um esgrimista à altura das suas estocadas! 

Derrotada, só  lhe restava propor um brinde ao noivado.  Até Artur ganhou um copinho  do champagne misturado com água.

Mais tarde Vitorio explicou para Artur que observara tudo  com olhos arregalados.

― Às vezes  temos que ser como os mosqueteiros do livro, Artur, saber esgrimir e desviar!  Sua avó é meio difícil, mas tem bom coração!


UM ESTRANHO EM MINHA SALA - Sergio Dalla Vecchia

 


UM ESTRANHO EM MINHA SALA
Sergio Dalla Vecchia

Tereza concentrada em seu texto, cabeça baixa, debruçada sobre a escrivaninha não percebeu a entrada sorrateira de Clovis em sua sala.
Um leve cutucão, o susto, levantou-se lepidamente e deu de cara com o sorridente Clovis.

Desconsertada tentou se inteirar no contexto. Encarou-o fixamente e não o reconheceu. Era um estranho a sua frente.

Clovis totalmente desconfortável pela péssima acolhida apenas silenciou-se tendendo sair da sala.

Tereza percebendo a desilusão do homem, baixou a guarda e logo perguntou.

─ Não o conheço, como conseguiu entrar com essa facilidade em minha casa?

─ Professora Tereza, foi a Da. Natalina sua cozinheira que abriu a porta para mim. Ela pensou um pouco, mas logo me reconheceu. Sou o Clovis, fui seu aluno por um tempo. Não se recorda, tinha dezessete anos e iria prestar vestibular e a sra.me ajudou muito, tanto que passei no vestibular. Agora após vinte anos vim para cá a trabalho e resolvi procurá-la. Sou advogado e vim resolver um litígio no Fórum.

Tereza ainda confusa conseguiu aos poucos atiçar a memória e logo a imagem do jovem aluno Clovis foi-se delineando e Zaz! Uma emoção tomou conta da velha professora.

─ É você mesmo meu garoto brilhante! Por que nunca me deu notícias, esqueceu-se da professora? Que alegria ver um homem feito e ainda advogado, parabéns!

Agora dois pares de olhos estavam marejados e somados ao da Natalina que escutava atrás da porta plagiavam a Fontana di Trevi, transbordavam amor.

Sentindo o coração resfriado por anos pela falta de reconhecimento das autoridades, um caloroso abraço fraternal com Clovis foi o bastante para descongelar o coração da cansada docente.

Professora é assim, se mantém imortal por que recebe em troca a energia pura dos carinhos e considerações dos alunos, que espiritualmente valem mais do que qualquer salário.

 


FOFOQUEIRAS - Sergio Dalla Vecchia




FOFOQUEIRAS

Sergio Dalla Vecchia


Ao iniciar esse texto com o título de fofoqueiras, logo surgiu uma cena que assisti em um programa humorístico de televisão. Ela me fez rir muito.

Tratava-se de uma mulher que ficava debruçada sobre a janela em uma casa de subúrbio e sabia de todos que passavam à sua frente. Era impertinente, sarcástica e contundente. Tinha vontade imensa de criar cizânia.

A minha personagem é baseada nisso e chama-se Mafalda.

Lá estava Mafalda debruçada sobre a janela da viela quando surgiu uma moça grávida, feliz da vida, acariciando o ventre com as mãos, mostrando aquele sorriso típico de grávida, suave, terno e pleno.

Foi o suficiente para Mafalda iniciar o ataque:

— Oi, Creuza, como vai você com essa linda barriguinha.

— Ah, Mafalda, estou ótima e já de três meses!

— Nossa, que rápido, hein! Você não tinha nenhum noivo e agora está grávida. Com todo o respeito, mas você já sabe quem é o pai?

— Claro que sei, é o Roberto, meu noivo.

— Que rápido, agora, do nada, apareceu um noivo!

— Será que o pai é ele mesmo? Emendou Mafalda com um sorriso irônico.

— Você está me ofendendo, já disse, é o Roberto, já disse.

— Creuza, Creuza, e o Antenor com quem você saiu num sábado. Passaram juntinhos aqui na frente, conversando animadamente, e no domingo cedinho você retornou toda descabelada!

— Você está inventando coisas, por ser uma solteirona que tem inveja. 

— Ah, é, e o Clodoaldo das terças-feiras, esqueceu-se dele?

— Você é mesmo maluca, Mafalda, passe muito bem que vou embora. Fique aí com seus rancores!

  Mafalda engoliu em seco e, justificando a si própria, resmungou.

— Não tenho culpa de me atualizar no dia a dia pelo jornal da minha janela, portanto sei de tudo e não controlo essa minha boca santa, afinal sou Mafalda, a fofoqueira. Doe a quem doer!


Muito além do olhar - Yara Mourão

 



Muito além do olhar
Yara Mourão

Ainda que permanecesse parada junto às janelas, Palmira tinha um olhar oblíquo que perpassava toda a sala.  Girava a cabeça para os lados, para cima e para baixo, procurando sinais. Uma câmera, talvez, ou um microfone, algo que a pusesse num foco involuntário.

Falava baixinho para si mesma: “Será possível? Terei errado de lugar?” Ousou tocar nas altas estantes, buscando pistas, forçando o olhar entre os livros cujos títulos muito aleatórios sugeriam casos desastrosos.

Sentiu as pernas bambas só de lembrar das expressões de Lucinda, a bela secretária de seu marido. Um certo torpor, pelo abafado do lugar, talvez, a envolveu. Palmira sentiu arrepios ao se lembrar do convite para aquela visita: “Venha desarmada, querida, física e espiritualmente!”

Por que Lucinda a chamaria ali? De certo não era para uma festa. O fato é que só ela estava ali, intrigada e assombrada pelo silêncio inusitado daquele escritório de advocacia de seu marido.

Perdidos nos contornos, nos detalhes do ambiente, seus olhos pousaram num porta-retrato dourado sobre a escrivaninha: era a foto de uma bela mulher sorrindo para alguém. “Seria ela, Lucinda?”

O ambiente suntuoso fazia Palmira se sentir frágil, diminuída. Arrepios passavam por seus braços, enrijecendo seu corpo. Sentou-se no couro frio do sofá ao lado da mesinha com um abajur inglês. Seus dedos irrequietos tamborilavam sua irritação pela falta de informações, de notícias, ou de alguém que significasse algo naquele momento.

Silenciosamente, um criado entrou e colocou na mesa um jogo de chá servido para quatro pessoas. O homem abriu as cortinas, acendeu as luzes e saiu nos mesmos passos lentos com que entrara.

Palmira sentiu um frisson muito ruim, talvez pelo roçar das cortinas em seu braço. Cismou sobre as quatro xicaras: “Para quem seriam? Será que há mais convidados? Ou mais prisioneiros? Mais vítimas, sei lá? Talvez sejam para alguma testemunha, meu marido, Lucinda e eu?”

Tentando manter-se `a tona, repassou em segundos toda a história de seu casamento conturbado, os indícios de tramas e traições.

Sentiu-se num limbo. Quis fugir. As portas estavam trancadas, e as janelas fechadas com cadeados. Procurando chaves, suas mãos trêmulas abriram as gavetas da escrivaninha. “Será que aqui encontrarei algo útil?” pensou.  Mas ali não havia chaves. Ali havia um revólver! “Ah! Será que essa deverá ser minha companhia?”  pensou.

Então, voltando-se sobre suas próprias suposições, sentou-se junto às janelas com a arma na mão, tomou um chá, “estaria envenenado?” pensou, quase marota, e ficou esperando até o sono chegar, até o pesadelo terminar.

Ainda viu o empregado entrar, retirar as xícaras, fechar as cortinas. Sentia-se anestesiada. Ainda pode ver Lucinda sair do retrato, sorrindo, e abraçar seu marido que surgira sabe Deus de onde…

Palmira revirou os olhos, saboreou uma lágrima e, sem se dar conta do tempo, do lugar e da vida, deixou-se levar para um mundo que ela nem desconfiava que existia…


Sentinela do Bexiga - Adriana Frosoni

 



Sentinela do Bexiga

Adriana Frosoni


Florinda desconfiava até de elogio gratuito. Quando o padeiro lhe desejava “bom dia” sorrindo demais, ela apertava os olhos e respondia: “Hum… sei não”. Aos 57 anos, morava há décadas na mesma rua do Bexiga, conhecia o barulho dos portões, os horários dos vizinhos e até o humor com que saíam para trabalhar. Por isso estranhou quando viu Clóvis — marido de Celeste — sair de camisa azul-marinho nova, perfume forte e cantarolando. Homem casado há trinta anos não cantarola à toa, pensou. 

Na manhã seguinte, Florinda o seguiu e percebeu outro detalhe: ele atravessou a rua no meio da tarde e entrou numa floricultura. Aquilo bastou para deixá-la alerta.

— Tem coisa aí, não tem?... — murmurou.

Nos dias seguintes, a rotina dela virou uma investigação silenciosa. Quase perdeu o ar ao ver Clóvis saindo de uma joalheria enquanto guardava um volume pequeno no bolso do casaco. Viu também quando ele voltou à floricultura e saiu com uma orquídea enfeitada com laços.

Resolveu então “proteger” a amiga. Naquela tarde, foi até a casa dela levando um bolo simples — porque notícia ruim combina com café fresco — e lançou suas dúvidas devagarinho, como quem não quer nada, medindo o efeito de cada palavra.

— Ih… não sei não… teu marido anda diferente.

Celeste riu. Disse que era impressão. Ainda assim, houve um vacilo mínimo no sorriso dela enquanto girava a aliança no dedo. Aquilo bastou para que Florinda continuasse.

— Quem garante que não é amante? — sussurrou. Depois disso, contou tudo, aumentando cada detalhe para sustentar sua teoria. 

Celeste empalideceu. Tinham acabado de passar uma fase difícil, é verdade, mas ele estava tão mudado que essa notícia parecia fora de contexto. Inclusive, ele foi muito carinhoso no jantar do último sábado, quando comemoraram o aniversário dele. 

Celeste chorou. Passou o resto do dia ensimesmada tentando encaixar os acontecimentos e preferiu esperar o fim de semana. Talvez, com mais calma, conseguissem conversar sem transformar tudo num dramalhão.

No domingo, depois de ir à missa, ele chegou em casa com a orquídea. Estavam fazendo trinta e cinco anos de casados e ele preparara tudo com o maior zelo para esta comemoração. Ele pediu para ela se arrumar e foram ao mesmo restaurante onde ele a pedira em casamento. Chegando lá, ele tirou uma caixinha de veludo do bolso e lhe deu uma aliança nova.

Na segunda-feira, Florinda voltou para o café da tarde: desta vez com pães de queijo ainda quentes, ensaiando o que diria para consolar a amiga. Foi recebida com frieza e soube dos detalhes do domingo. Quando questionou sobre o perfume forte e a camisa azul, descobriu que ambos foram presentes da família.

Sentada na ponta do sofá, ela ouviu tudo segurando a bolsa contra o peito. Ao final Celeste perguntou, magoada:

— Por que você sempre pensa o pior das pessoas?

Florinda não encontrou resposta pronta.

— Ah… não sei! Parecia tão óbvio. Já vou indo, então.

À noite, em casa, onde morava sozinha, olhou a janela escura, a rua quieta, as sombras imóveis da noite. Não tinha feito aquilo por maldade. Realmente acreditava no que disse à Celeste — que agora não seria mais sua amiga. Intimamente, aquela pergunta ainda ecoava. Ela percebeu seu reflexo na janela e, agora, sua imagem parecia menos esperteza e mais solidão.


A fofoqueira sem limites - Isabella Brancher

 



A fofoqueira sem limites

Isabella Brancher

Palmira era uma mulher magra, alta, de ombros levemente curvados para a frente. Tinha um sorriso enigmático: às vezes acolhedor, outras, quase de repulsa. Costumava usar vestidos que pareciam gastos, embora fossem novos.

Morava sozinha em um condomínio vertical. Seu apartamento, no primeiro andar, dava para o pátio interno, onde a vida alheia passava diante de seus olhos como um espetáculo silencioso. Pouco tinha para fazer. Ficara viúva havia muitos anos, e os filhos, com o tempo, tinham se afastado. Evitavam sua companhia sempre que possível — bastava Palmira abrir a boca para um comentário atravessado surgir, desconfortável, quase sempre inoportuno.

O pátio era um constante vai e vem de pessoas. Palmira passava horas sentada na varanda, observando. Havia rostos que lhe interessavam mais do que outros — principalmente a família do 22 e a nova vizinha do 11.
A família do 22 parecia tradicional: pai, mãe e dois filhos. Ainda assim, brigavam com frequência, quase sempre por motivos pequenos demais para justificar o tom exaltado. Era impossível não ouvir. Discussões sobre o filho que se metera em confusão na escola, sobre o carro que precisava de manutenção, sobre planos frustrados do fim de semana… Coisas banais, repetidas, previsíveis.

Já a vizinha do 11 era recente no prédio. Discreta, entrava e saía em horários irregulares. Mais de uma vez, Palmira notou o homem do 22 ir até seu apartamento. Não era sempre, nem parecia demorar muito — mas o suficiente para plantar uma dúvida. Ele olhava para os lados antes de entrar? Ou era apenas impressão? Palmira não saberia dizer. Ainda assim, guardou aquilo.

Até então, tudo não passava de fragmentos soltos.

— Aquele short que ela usa, muito justo… você ia querer que a sua filha se vestisse assim? — perguntou a mulher do 22, em tom carregado.

— Deixa ela — respondeu o marido. — É jovem, bonita… logo aprende, se veste melhor.

— Não entendo essa sua postura. Muito permissivo.

Palmira se ajeitou na cadeira, inclinando-se discretamente para frente. Havia algo no tom dele — leve demais, talvez. Ou apenas cauteloso.

“Será?”

A lembrança das visitas rápidas ao 11 voltou-lhe à mente.

Olhou para o pátio vazio por um instante. “Não sei… mas… e se…?”

A ideia surgiu quase pronta. Em poucos minutos, já ganhava forma: encontros discretos, olhares trocados, coincidências convenientes. Quando percebeu, Palmira já havia construído uma história inteira — um caso extraconjugal cheio de tensões, riscos e inevitáveis escândalos.

No dia seguinte, ao encontrar outras moradoras no prédio, deixou escapar comentários carregados de insinuação. Não disse tudo de uma vez — preferia semear. Bastavam sugestões, pausas bem colocadas, olhares significativos. O resto crescia sozinho. Entre aquelas mulheres, conversas assim encontravam terreno fértil: pequenos episódios do cotidiano ganhavam contornos mais dramáticos a cada repetição, como se precisassem de certo exagero para se manterem interessantes. Em pouco tempo, a história já circulava com detalhes que Palmira sequer havia mencionado.

Em pouco tempo, o boato corria pelo condomínio.

O homem do 22 e a vizinha do 11 começaram a notar os olhares. Alguns curiosos, outros claramente acusatórios. Havia frieza nos cumprimentos, uma estranheza difícil de ignorar. Sem entender exatamente o motivo, passaram a evitar conversas no pátio.

Até que, numa manhã cedo demais para suspeitas, conversavam sem cautela. Palmira, como de costume, estava na varanda.

A voz dele vinha tranquila, quase afetuosa:

— Você se adapta rápido, né? Quando cheguei aqui, estranhei tudo. Estudar longe de casa não é fácil.
— Ainda bem que você está por perto — respondeu a moça do 11. — Mamãe ficou mais calma sabendo que eu não estava sozinha na cidade grande.

Ele riu, baixo.

— Sou seu irmão mais velho, ora. É o mínimo que posso fazer.

Palmira permaneceu imóvel na cadeira.

Por um instante, o pátio pareceu silencioso demais.

Numerologia e endereços - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



Numerologia e endereços

Ises de Almeida Abrahamsohn 


Como esta história se passa no início da década de 1970, são requeridas algumas explicações aos leitores nascidos após 1990 e principalmente à geração Z do atual milênio. 

Naquela década, não existiam telefones celulares, e muito menos Google Maps ou Waze para mostrar endereços e trajetos. Havia guias impressos com mapas das ruas das cidades, indicações das linhas de ônibus e metrô e as mãos de direção das ruas.  Por fim, se tudo o mais falhava ao se tentar localizar um endereço, ainda era possível telefonar para o endereço anotado (havia listas telefônicas por nome e por endereço).  Se estivesse na rua, teria que ter as moedas ou fichas necessárias para usar um telefone público. 

No verão de 1971, um jovem casal de brasileiros recém-chegado à cidade de Philadelphia, nos Estados Unidos. Estavam hospedados num hotel de poucas estrelas no centro da cidade e deviam se dirigir a determinado endereço para encontrar a residência de um professor da Universidade.   O endereço na carta que receberam estava anotado como: 828, 13th St W. Ou seja, Rua 13, número 828 W. 

Olharam o mapa da cidade e parecia bastante simples chegar lá. 

—A gente pega o metrô na esquina da rua Broad com a Market e desce na parada da rua 12. Mais um quarteirão e chegamos na rua 13, esquina da Broad. Aí andamos uns 500 metros até a casa do Dr. Lash. 

De fato, chegaram bem à rua 13 e foram olhando a numeração.

— Deve ser logo aí,   talvez uns 500 metros daqui, falou a moça.

Foram caminhando pela calçada   sob o calor sufocante do verão até que, depois de alguns quarteirões, se aperceberam do engano. A numeração dos imóveis nos Estados Unidos é sequencial, portanto, diferente do Brasil, onde o número do imóvel indica a distância do início da rua. 

Após andarem cerca de 3 km, chegaram ao número 828.  Porém, não parecia casa de nenhum professor. Era um predinho de 4 andares, tijolinho vermelho sujo, com algumas janelas vedadas por tábuas e emporcalhado de grafites.  O número era aquele mesmo, porém algo estava errado.  

Haviam passado por uma única quitanda aberta naquele deserto escaldante e vazio e lá foram se informar. O vendedor os olhou com ar desconfiado.  Mostraram-lhe o papel com o endereço. O homem sorriu com ar de pena dos dois.

― Vocês esqueceram desta letra aqui. Estão vendo? É rua 13, W. W. de West.  Vocês caminharam na direção errada. Aqui é a rua 13, E. E de East.  Portanto, estão do outro lado da rua.

Com esse calor, é melhor vocês andarem até o próximo ponto de ônibus que fica na rua 12, paralela a esta rua. O ônibus vai pela 12 inteira, cruza a  Broad , que divide os lados da cidade,   e continua pela 12 West. Podem, de dentro do ônibus, acompanhar os números até próximo do número 800. Devem estar mais ou menos na altura   do número 800 da rua 13. Os dois agradeceram várias vezes as informações.  Descobriram que o quitandeiro era grego e já há alguns anos era morador na cidade.

― Não querem tomar uma Pepsi bem gelada?

Depois da Pepsi gelada, seguiram as instruções. O gentil grego havia ensinado direitinho.   Logo os brasileiros descobriram que em Phila, como em outras cidades americanas, as ruas têm lados leste, oeste, norte e sul.


Fotografias - Carla Di Sessa

 


Fotografias

Carla Di Sessa


Mariana gostava de fotografias antigas e, ao longo dos anos, foi amealhando as de sua família. Cada vez que alguém resolvia fazer uma arrumação, já sabia que poderia mandar para ela todas as fotos antigas ao invés de simplesmente jogá-las no lixo. Recentemente, sua prima Helena havia mandado para ela duas caixas cheias e ela mal podia esperar para ver o conteúdo.

Mariana gostava de procurar nos rostos antigos os traços das pessoas atuais e foi assim que descobriu, olhando a foto de seu bisavô, os mesmos olhos azuis e cabelos ondulados de seu filho. 

Examinava cada rosto, procurando os traços que faziam parte daquela família, imaginando as linhas que se estendiam pelas gerações, fazendo de cada pessoa um personagem da história que unia a todos.

Casamentos, batizados, viagens, aniversários, tudo era o Tempo fazendo sua mágica. Mariana queria ver aquele tempo não só pelo pedaço que lhe cabia, mas também queria saber o antes e o depois. Porém, não se conformava com o fato de o conhecimento do depois ter limites. Queria saber tudo como se fosse um astronauta que no espaço é capaz de enxergar não só a Terra, mas também a imensidão que a rodeia, o antes e o depois espalhado pela eternidade no Universo. 

Mariana abriu a primeira caixa e ficou feliz, pois além das fotos havia convites de casamento, cartões postais e algumas cartas, coisas que geralmente traziam ângulos insuspeitados dos acontecimentos. 

A primeira coisa que viu na segunda caixa foi a famosa foto de sua tia Idalina sorrindo marota, montada ao contrário em um burrico, a face voltada para o traseiro do animal, isso lá pelos idos de 1930. Mariana pensou divertida que essa tia havia contribuído com pedaços bem coloridos para o fio da história da família. 

Continuou olhando até que viu uma foto que lhe chamou a atenção: as pessoas estavam sentadas à mesa, muito sérias, mas o detalhe intrigante era que o rosto de uma das mulheres havia sido cuidadosamente recortado. Quem eram aquelas pessoas? Por que o rosto daquela mulher tinha sido eliminado da fotografia? Rapidamente, a imaginação de Mariana soltou-se desenfreada. Histórias de vingança, tragédias escritas com sangue, tudo parecia possível até que ela pensou: “Chega, vamos ligar para Helena e descobrir a verdade.”

Ligou para a prima e perguntou se ela sabia alguma coisa sobre a estranha foto.

— Ah, disse Helena, é a foto com o rosto recortado, não é? Nem te conto, o rosto é da Tia Idalina. Ela namorou um rapaz chamado José antes de conhecer o tio Gilberto e essa foto é dela com a família do tal José. Ela mesma recortou esse pedaço da fotografia e colocou dentro de um relicário que deu de presente para ele se lembrar dela. Ele tinha sido se alistado no exército e ia partir para lutar na Europa. 

“Vejam só”, pensou Mariana, “no fim não é uma história trágica regada a sangue, mas uma cheia de suspiros e beijos apaixonados!”


Viagem a Paris - Isabella Blancher

 



Viagem a Paris

Isabella Blancher


O ano era 1959, Maria estava entusiasmada com a viagem que aconteceria em alguns dias. Havia preparado as malas com detalhado cuidado. Separou cada peça de roupa para acompanhar todas as festas das quais teria que participar. Seria uma semana maravilhosa. Enquanto fazia a mala, alguns momentos maravilhosos da festa no Copacabana Palace lhe vinham à mente.

Naquela noite, o Copacabana Palace está finamente enfeitado com velas em tons de laranja e lindos arranjos com hibiscos da mesma cor. Chegou à festa levemente atrasada. O suficiente para que o salão já estivesse relativamente cheio, mas não muito tarde para trazer comentários desnecessários. Maria tinha consciência da sua beleza, sentia os olhares. Era como um raio de sol em um dia nublado. Cumprimentou todos os conhecidos. Eram todos da socialite carioca. Essa festa estava particularmente tentadora. Muitos jovens, alguns frequentadores habituais e alguns novos. Pierre era um dos novos. Reconheceu nele essa novidade. Altivo, cabelo bem arrumado, smoking bem passado. Admirada, olhava furtivamente para ele. Pierre percebeu seus olhares assim como a sua presença logo que ela entrou. Não passou muito tempo até serem apresentados e o encanto se acentuou. Pareciam que se conheciam há anos. A conversa corria solta. Apesar de terem vivido em países tão distintos, ela no Brasil e ele na França, pareciam velhos amigos de infância. O gosto semelhante, os prazeres em comum, a forma de ver e viver a vida. Pareciam feitos um para o outro. A festa não foi suficiente, a cada novo encontro, enquanto se preparava, o frio lhe percorria a espinha. Era sempre uma nova descoberta. Continuavam a se perceber como almas gêmeas, e novos encontros naturalmente foram acontecendo. O amor crescia exponencialmente, e de uma forma muito saudável e sólida.

A França enfrentava alguns problemas em suas colônias na África, isso fez com que Pierre tivesse que deixar seu posto de cônsul no Brasil e assumir interinamente o posto no Senegal. Não passou muito tempo e o Senegal se tornou independente, o que fez com que Pierre retornasse a Paris.

Aquele distanciamento não havia esfriado a relação entre eles. A saudade havia alimentado o amor e enchia por dentro com uma luz quente e silenciosa.

E chegou o dia, o dia em que finalmente embarcaria para Paris. O voo duraria entre 18 e 24h, com uma escala em Dakar. Maria nunca havia voado de avião e aquela experiência juntava ainda mais emoção ao romance com o cônsul. O avião com suas poltronas amplas e confortáveis. Os passageiros elegantemente vestidos. O tempo passava lentamente, entre as refeições servidas em bandejas cobertas com toalhas de linho e um menu ricamente selecionado, servido certamente com revigorante espumante. A escala em Dakar não passara desapercebida, um calor envolvente entrou na cabine quando as portas foram abertas. Precisaríamos descer para a limpeza e abastecimento do avião. As horas de espera no saguão em Dakar passaram rápido, eram muitas novidades, desde a decoração do local até as vestimentas dos trabalhadores. Tudo encantava Maria e a deixava hipnotizada. Logo embarcariam em direção a Paris, onde a sua vida seria um conto de fadas, rica em festas e celebrações, o que mais apreciava fazer.

Chegando a Paris, procurou por Pierre no saguão, mas não o encontrou, esperou uma hora, duas horas e nada. Aflita começou a não sentir as suas pernas. Falava francês, mas aquela demora a estava sufocando. Começou a se perguntar o que faria sozinha em Paris? Desesperada, perdeu o raciocínio e percebeu seus olhos marejarem, quando uma pessoa vestindo um uniforme de motorista se aproximou dela e perguntou: — Mademoiselle Maria Coimbra? Pierre havia pedido ao motorista que a buscasse no aeroporto, pois havia ficado retido em uma reunião com alguns ministros.

O motorista a levou até a residência de Pierre. A casa ficava em um palacete antigo. O motorista a acompanhou até a entrada principal, mas deixou suas malas no carro. Ela, reflexiva, estranhou a falta de gentileza do motorista. Tocou a campainha e Pierre a atendeu prontamente. Estava lindo como sempre, mas algo em seu olhar estava diferente, havia um certo abatimento. Foram para a sala, o espaço era decorado com sobriedade, quase sem se notar um toque feminino. Sentaram-se, tomaram um vinho. Ele contava sobre a reunião com os ministros. Maria se remexia como se algo em sua roupa não estivesse no lugar certo, desconfortável. Foi quando, com um ruído forte, se fez presente. A porta abriu, passos em direção à sala. O pouco brilho que Pierre tinha no olhar se apagou de vez. A mulher que chegou combinava perfeitamente com a sala e um silêncio constrangedor se instalou. Finalmente, Pierre disse: Maria, te apresento minha esposa, Sophie.

Maria, quieta, não se manifestou, tomou um gole de vinho. Reorganizou as ideias e entendeu a ausência, a distância, os constantes adiamentos do reencontro. Tudo fazia sentido naquele momento. Suas pernas fraquejaram, se sentou, com as mãos trêmulas, gotas de vinho caíram sobre a sua luva branca que repousava sobre a mesa. Uma após a outra, manchando de sangue as luvas e o mapa de Paris onde havia planejado uma grande história.

O porão - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



O porão 

Ises de Almeida Abrahamsohn  

Eles vieram de noite.  Atrás de André e de Celina. Há três dias, André tinha sido avisado de que alguém o dedurara aos caras da repressão.   Parou de ir à faculdade e avisou Celina, sua jovem mulher que estudava na PUC.  Tinham que sumir   por uns tempos e depois tentar viajar para onde conseguissem. Apenas ontem conseguiu um endereço de esconderijo.   Era um sobrado antigo, daqueles construídos com porão e sótão no bairro de Vila Zelina.  Havia pertencido aos avós de um companheiro. O jardinzinho da frente, bem cuidado, não destoava da vizinhança e não denunciava   a desocupação.  Servia de esconderijo aos militantes da UNE (União Nacional dos Estudantes — grupo não armado de resistência à ditadura militar) quando a situação apertava.

Era dia de São João, junho de 1971.  No bairro, ainda com algumas ruas de terra, viam-se restos de fogueiras e bandeirinhas. 

André havia sido enfático.

― Celina, querida, se vierem me pegar, você se esconde no porão. O que esses animais mais querem é torturar as mulheres na frente do marido para conseguir delações. 

O porão tinha sido escavado sob metade da casa, originalmente apenas para servir de oficina e depósito. Ferramentas em uma bancada de madeira, uma estante com livros velhos apoiada nas paredes e alguns quadros empoeirados apoiados no chão contra a parede.   Uma torneira no canto e uma única lâmpada pendente do teto. Mas, antes deles, o porão já havia sido preparado como esconderijo. Uma cama de armar e duas cadeiras de plástico eram o mobiliário.     Um balde com tampa já existia para as necessidades e outros dois com água para higiene. A entrada se fazia por alguns degraus sob o vão da escada de madeira que, da sala, levava ao primeiro piso.  A portinhola de acesso era oculta por uma estante de livros. Logo ao chegarem na casa, André havia abastecido o porão com um garrafão de água potável e comida para alguns dias.

De madrugada, ouviram o furgão parar em frente à casa. 

― Rápido, Celina. Alguém avisou. Vá para o porão e eu empurro a estante de novo. 

Celina agarrou a lanterna e o pesado casaco de lã e desceu até o porão escuro.  Ficou parada ali, de pé no escuro absoluto, desorientada, tentando ouvir o que se passava acima. A garganta arranhava, a umidade e a poeira a sufocavam e ela mordia o tecido do casaco para abafar a tosse inevitável. Ouviu alguns gritos, passos no assoalho e bater de portas. Depois, o silêncio.  

Ficou pensando em como os agentes da OBAN descobriram o esconderijo. Alguém da turma da PUC tinha caguetado.  Ou talvez nem isso. Alguém que sabia que ela namorava o André e simplesmente tinha seguido a ela ou ao marido até o esconderijo. 

Sabia que levariam André e ficariam de tocaia por uns dias, vigilância contínua, dia e noite.  Para o caso de alguém sair ou se aproximar da casa.  Tinha que se manter silenciosa dia e noite. À noite, não acenderia a lanterna por medo de alguma luminosidade escapar por alguma fresta na parede. O chão de cimento exalava umidade e mofo num miasma palpável.  Noite e dia marcados no relógio e na agenda durante o dia, quando acendia a lanterna para se mover no aposento.

A primeira noite foi a pior. Até o cansaço vencer, Celina acordou inúmeras vezes para se achar mergulhada na escuridão, sem saber onde e por que ali se encontrava.  Doze horas mais tarde, acordou sentindo-se melhor. No relógio eram 15 horas. Podia acender a lanterna na bancada. Tinha mais três horas até escurecer. Bebeu água e comeu alguns biscoitos com goiabada. Achou uma lata de leite em pó na bancada. Ficou feliz quando achou uma espiriteira a álcool, já com uma caneca de alumínio à espera da água, uma latinha de café solúvel e açúcar.  Celina adorava café. O café a acordou e o cheiro neutralizou o mau cheiro do inóspito porão. Considerou a comida como sendo o almoço e resolveu explorar a área.  Chegou até a estante para investigar os livros. As lombadas daqueles poeirentos e abandonados volumes pareciam   atrair seus dedos.  A lanterna iluminava títulos e autores que ela não conseguia ler.  Era escrita cirílica, sabia que algumas letras eram semelhantes ao alfabeto grego e as vogais iguais ao latino. Tentou decifrar:  Толстой  seria Tolstoi? E este outro: Фёдор e este começando com Phi, Д é delta e o é mesmo.  Claro, devia ser Fiodor, Fiodor Dostoiévski. Que pena, pensou… Não poderia lê-los.  Na prateleira inferior, encontrou alguns livros em francês.  Foi sua segunda pequena felicidade do dia.  Procurou não pensar mais no escuro porão e começou a ler.  Escolheu aventura, o Conde de Monte Cristo. Isso me distrairá um pouco, pensou. Mas, ao avançar na saga de Edmond Dantes, já eram 19 horas no relógio. Hora de mergulhar na escuridão completa.   

Decidiu ficar o máximo de tempo possível na cadeira próxima ao leito até perto das 23 horas, sua hora habitual de dormir. Lamentou não ter trazido seu radinho de pilha, companheiro de muitas horas de insônia, porém não teria coragem de ligar mesmo mantendo próximo ao ouvido. Se alguém estivesse vigiando no andar de cima, arriscaria ser detectada.  Tentou organizar os pensamentos. 

Começou por lembrar viagens que fizera desde criança, paisagens, parentes, festas de aniversário, amigas… Tudo para não se deixar abater. Até que   o cansaço a fez cambalear e se esticar na cama.  Dormiu até as cinco um sono entrecortado de sonhos perturbadores nos quais colegas e conhecidos da PUC conversavam nas mesas de calçada do barzinho que todos frequentavam. Aparecia o André que a abraçava e, à distância, o Nelson, seu namorado durante um semestre no primeiro ano da universidade há 3 anos.  Não havia sido uma ruptura sem consequências. Era um jovem de família rica, que se revelou muito possessivo e ciumento. Várias vezes ele a seguiu, pedindo para reatar o namoro.  Celina recusava educadamente até que, há dois anos, após violenta discussão, ela o afastou definitivamente.  Raramente cruzavam os caminhos nos corredores da escola e ela o ignorava. 

Quando ela passou a namorar André e, inevitavelmente, a frequentar o grupo da UNE, até esqueceu dele. Mas agora lhe veio à memória uma conversa ouvida há alguns meses ao almoçar com colegas.  Alguém mencionou o nome do Nelson como participante do grupo CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Nunca mais ouvira falar dele e repeliu a lembrança, ocupada agora por pensamentos mais imediatos. Será que já era dia? Podia ligar a lanterna?  Precisava chegar ao balde para urinar, a bexiga estava doendo…  

Aliviada, programou as atividades da manhã. Passou esponja molhada no rosto e axilas e aplicou desodorante.  Sentia muita fome.  Achou os biscoitos, o doce e a lata de leite em pó. Não se arriscou de novo a fazer café. Não se ouvia nenhum barulho, nem vindo da rua, nem do andar superior.  Quanto tempo ainda teria que ficar ali até que desistissem da tocaia ou de procurá-la? E quando alguém da turma iria se arriscar a vir para resgatá-la?  Ou pior, se ninguém viesse? Não posso entrar em pânico…

Levantou-se e executou uns passos relembrando a letra do samba “Essa tal de Felicidade” do Martinho da Vila.  O cantor havia trocado “Essa tal de liberdade” por Felicidade, exigência da censura, senão o disco não sairia. 

Se tivesse sorte, os tiras desistiriam de ficar de tocaia.  Afinal, tocaia dava muito trabalho e para quê? Ela era peixe pequeno, apenas estudante, e mesmo André era apenas da UNE; nenhum dos dois estava na luta armada…

Voltou a sentar e retomou o livro.  Estou igual ao Edmond, pensou…  Coitado, ainda estava bem pior, sem esperança de sair da masmorra… Mas já tinha encontrado o abade Faria na cela ao lado. Programou-se para, durante o dia, exercitar o corpo e ler até voltar a comer seu jantar de leite, biscoitos e goiabada.  Perto das 18 horas, apagou a lanterna e se deitou. Tentava não pensar em André, nem na sua situação, em nada. Difícil distrair a cabeça.  Rememorou uma viagem que havia feito há anos com as amigas Lara e Eneida para acampar em Ubatuba.  As duas tinham se mudado para a Bahia, queriam abrir um restaurante perto de alguma praia.   Adormeceu pensando em ir visitá-las, ainda tinha o telefone de contato.

Acordou com o ruído de passos e arrastar de móveis no andar de cima. Sentou-se na cama sem fazer ruído ou acender a lanterna.  Estavam arredando a estante de livros… Deve ser algum conhecido da turma, pensou… A porta do porão foi aberta e um jato de luz iluminou a escada.  Era um homem, o rosto não conseguia ver. 

― Boa noite, Celina. Não esperava me ver aqui…  Vim salvá-la… Ela logo reconheceu a voz.  Vinha prendê-la? O que queria?  Era então verdade que Nelson era um espião da repressão, pensou. 

― Veio sozinho?  Perguntou… 

Sim, ele viera sozinho.   Celina pegou automaticamente o casaco e o livro e subiu os degraus atrás de Nelson.  A luz acesa na sala momentaneamente a cegou. Deu alguns passos incertos até sentar-se numa cadeira da cozinha.  O rapaz colocou um copo de água à sua frente. Celina murmurou um obrigado.  Tentava focalizar o pensamento no que se seguiria ou aconteceria. Pediu para ir ao banheiro. 

Lavou o rosto e as mãos com sabonete. Um luxo, pensou… O que queria mesmo era tomar um bom banho de chuveiro, mas não era para agora. Refrescou a boca com os dedos e um resto de pasta de dente deixado na pia. Sentiu-se pronta a enfrentar o que viesse. 

― Sabia que encontraria você aqui, Celina. André não resistiu muito. Bastaram alguns socos e chutes e ele passou o endereço e os nomes dos contatos lá na PUC. Não, ele não falou que você estaria aqui, mas quando sumiu da faculdade e de seu estágio, era fácil deduzir.  Ele sabia que eu iria atrás de você…

Celina, perturbada, só conseguia pensar em André sendo espancado. 

― E onde ele está, Nelson?  Está bem? Perguntou com voz sufocada por soluços que tentava engolir. 

Foi informada de que o marido estava sendo mantido numa cela da OBAN até que verificassem as informações que ele passara.  Ela ainda não atinava o que o ex-namorado queria. 

― E o que vocês querem comigo?  Eu só conhecia o pessoal lá da PUC, não tinha contatos nem conhecia outros do grupo, argumentou a moça. 

― Sim, sabemos disso. Mas nos faltam dois nomes, dois da pesada, com quem seu maridinho ia se encontrar.  E não sabemos onde eles estão.  Até sabemos os codinomes, mas eles estão bem escondidos. E aí é onde você vai nos ajudar. 

Celina protestou: ― Não vou ajudar vocês, nunca! Torturadores, assassinos! 

― Não se exalte, querida.  Vou lhe dizer as condições e aí você resolve…

O plano é você encontrar o casal, o mesmo que André ia encontrar, agindo em nome dele. Em algum momento, você vai receber de um contato o quando e como deve se encontrar com o casal ou com um dos dois.  Aí você irá tranquilamente para onde indicarem. Estaremos a postos nas proximidades para agir. Se você nos ajudar, o André será libertado e vocês dois poderão viajar para a Bolívia ou para a Europa sem maiores problemas. 

― E se eu não aceitar sua proposta? Perguntou Celina, já imaginando a resposta.

― Você seria tola em não aceitar. O André estava mais envolvido do que você imaginava. Não sei o que aconteceria a ele.  E nem a você, para dizer a verdade. Não sou tão horrível quanto você me julga.  Saiba que fui eu que propus ao pessoal essa saída.  Sem tortura e sem eventuais mortes, vocês dois escapam.  Resolva agora, tenho que informar meu chefe.

Celina ainda perguntou qual garantia teria de que André seria liberado. Sem garantias, lhe respondeu Nelson, mas eles costumam cumprir, se a coisa der certo.  E, obviamente, silêncio absoluto de sua parte. 

Celina cobriu o rosto com as mãos e, após alguns segundos, ergueu a cabeça e respondeu que sim, ela faria o que era pedido. 

Nelson a levou de carro até o ponto de ônibus, de onde seguiu para a casa da mãe em Vila Mariana.  Ficou lá no final de semana e voltou para o seu pequeno apartamento próximo à PUC. Na segunda-feira, voltou às aulas.  Aos conhecidos, falava que André estava em Minas visitando a tia.  

Uma semana depois, recebeu um envelope pardo selado sem destinatário. Três dias depois, ao almoçar na padaria, encontrou sob o prato um   guardanapo com instruções, o lugar, a data e a hora do encontro. Foi para casa olhar no guia como chegar ao lugar.  Era no bairro da Penha, nunca havia estado lá, e era na própria igreja do bairro. Anotou o número do ônibus que a levaria, que passava pelo parque Dom Pedro que ela conhecia.  

No dia seguinte, ao descer do ônibus, ficou espantada. Era uma igreja enorme no alto de uma colina. Subiu a escadaria até atingir um pátio e, mais um lance de escada, chegou à entrada.  Na terceira fila a partir do altar, no lado direito, deixou o envelope conforme indicado abaixo do genuflexório. A imensa nave estava vazia. Em passo regular, sem olhar para os lados, desceu até a rua. Logo chegou um ônibus que a levaria de volta ao centro da cidade. Sentou-se próximo à janela. Começou a tremer e uma náusea intensa a acometeu.  O cobrador chamou-a oferecendo auxílio, mas Celina recusou e pouco a pouco se acalmou. Queria chegar logo em casa. 

Passaram-se dois dias. Celina ansiava por alguma notícia ou pela chegada de André. Na noite do segundo dia, ouviu baterem na porta.  Era André. Havia emagrecido quatro quilos em duas semanas.  Hematomas nas costelas, pernas e braços, marcas de queimaduras nos pulsos, pernas e no saco escrotal.  Celina chorava com André. Resolveram partir no dia seguinte.  Emprestaram algum dinheiro da mãe de Celina e voaram para o Equador, de onde conseguiriam o visto para a França.  Voltaram em 1986 ao Brasil após o final da ditadura militar.