A plataforma de Petróleo - Ledice Pereira




A plataforma de Petróleo

Ledice Pereira


Elza não cabia em si de felicidade. Os preparativos para o seu casamento estavam ficando de seu total agrado.

Não imaginava mais, aos trinta e cinco anos, e sendo cobrada por toda a família, encontrar a outra metade da laranja.

Conheceu Alfredo num dia chuvoso naquele restaurante, onde ela aguardava que a água desse uma trégua para poder chegar ao seu carro, estacionado a uns duzentos metros dali.

Ele fora tão simpático, oferecendo-se para levá-la até o veículo. Portava um enorme guarda-chuva que os protegera muito bem.

O sorriso dele a cativou de imediato. Nunca mais ele saíra de sua cabeça.

Passados alguns meses, reencontraram-se no mesmo restaurante e o envolvimento dos dois aconteceu.

Elza mal podia acreditar que estivesse vivendo aquele momento. A cerimônia, a festa, a viagem para a Grécia. Tudo aconteceu tão de repente. Beliscava-se para ter a certeza de que não se tratava apenas de um sonho.

Ele contara-lhe que seus pais e o único irmão haviam morrido, que trabalhava como engenheiro, embarcado numa Plataforma de Petróleo por um período de até três meses, após o que, tinha um período livre de quinze dias. 

Ela estava tão apaixonada por aquele homem charmoso que parecia adivinhar cada um de seus desejos, que achou que tiraria de letra lidar com as ausências. Procuraria compensá-las nos períodos em que ele estivesse em casa. Seriam inúmeras Luas de Mel.

Em cada uma dessas ocasiões, preparava-se para recebê-lo. Estocava a geladeira com tudo que sabia agradar o maridinho, os queijos de sua preferência, os frios. Preparava tortas e conservas que o fizessem salivar. Armazenava na adega, os vinhos preferidos dele, brancos e rosés.

Ele chegava sempre com um enorme buquê de flores. Vinha com o rosto queimado de sol que o tornava mais atraente.

Eram dias inteiros dedicados ao amor, à comilança, a matar a saudade.

Naqueles poucos dias, tinham que tirar o atraso. Alfredo era um amante insaciável.

No segundo ano de casados, Elza já estava sentindo que aquilo não era vida para ela. Sentia-se muito só. Deixava de comparecer a vários eventos de amigos por falta de companhia.

As amigas não se conformavam com aquela situação.

Alfredo não tinha rede social. Dizia que o trabalho não permitia. Tampouco podia atender o celular quando embarcado.

Mesmo questionada pela família e pelas amigas, Elza custou a abrir os olhos e enxergar que havia algo ali mal explicado que queria entender. Ela, que sempre fora antenada, cheia de vida, atualizada com peças de teatro em cartaz, que assistia a todos os filmes que chegavam aos cinemas, passara a depender das migalhas que recebia dele nos poucos dias que ficavam juntos. Aquilo não era vida para ninguém.

Estava decidida. Não ficaria mais passiva, vendo o tempo passar. Seria a mulher que sempre fora. Ligou para Vera, sua melhor amiga e subdelegada próxima dali, dividiu com ela suas desconfianças, pediu indicação de algum detetive ou investigador que a ajudasse a clarear as ideias.

Vera indicou Lenita, detetive brilhante, que há pouco havia assumido o cargo de investigadora na mesma delegacia. 

Assim que foi apresentada à Lenita, sentiu que estava em boas mãos e no caminho certo.

Na próxima visita, Alfredo logo percebeu certa mudança na mulher, que o recebeu de forma mais distante, sem quitutes, dando preferência a idas aos restaurantes, já que seus dias eram muito monótonos e solitários.

Ela notou o desconforto do marido em se mostrar ao lado dela. Teve a certeza de que ele escondia algum segredo, entrava rapidamente no restaurante, olhando para todos os lados.  Tentou obter algumas respostas sobre o trabalho. Ele esquivava-se de responder, mudando bruscamente de assunto. 

Lenita avançava em suas descobertas. A primeira delas, que ele não trabalhava em nenhuma Plataforma de petróleo.

Quem seria aquele homem e o que faria para ganhar a vida, já que insistira em mantê-la, exigindo que ela não trabalhasse, dedicando-se apenas às coisas da casa.

O delegado foi inteirado. A investigação tomou uma outra dimensão. Elza poderia estar sendo vítima de um louco, um traficante, um espião, um malfeitor. Todas as possibilidades foram levantadas. A casa passou a ser monitorada vinte e quatro horas por dia, câmeras foram instaladas. 

O homem passou a ser seguido e investigado.

Coincidentemente, as vindas dele ficaram mais espaçadas, o que deixava Elza aliviada.

Lenita não sossegou enquanto não levantou todas as hipóteses. 

Descobriu que o verdadeiro nome do sujeito era Anselmo. Alfredo era o nome de seu irmão gêmeo, engenheiro já falecido, de cuja identidade ele se apossara por estar sendo procurado por fraudes cometidas contra o patrimônio público no sul do país.

Anselmo, ao contrário do irmão, nunca se formou, tendo vivido de aplicar golpes aqui e ali, até ser desmascarado e denunciado, sendo obrigado a fugir para São Paulo, onde morava o único irmão que lutava contra um câncer terminal. A piora no quadro de saúde de Alfredo, o fez interná-lo no Hospital das Clínicas, aproveitando o momento para   fazer a troca de documentos.

Com a identidade do irmão, no princípio, o novo Alfredo até tentou encontrar um emprego decente mas não tinha experiência em nenhuma área. Acabou por conhecer uma socialite que por ele se apaixonou e, em troca de prazeres, passou a sustentá-lo.

Filha solteira de militar falecido, não podia casar-se para não perder a vultosa pensão que recebia. A fulana costumava fazer cruzeiros de quinze dias com um grupo de amigas abastadas que não permitia a presença de homens. Ele dizia aproveitar esses períodos para visitar os velhos pais que viviam no Nordeste.

As conclusões de Lenita Fragoso, levaram a Polícia Federal ao endereço da socialite, em tempo de impedir Anselmo, vulgo Alfredo, que se preparava para colocar a mala no carro, que provavelmente o levaria à casa de Elza.

Apreendido seu notebook, celular e documentos, o impostor foi levado, algemado, à sede da PF para tomada de depoimento e prisão preventiva. 

Ele ainda tentou pedir que ligassem para a mulher, mas soube, por Lenita, que acompanhou a operação, que Elza, ciente de todas as falcatruas, a começar pela falsa identidade, entrara com o pedido de anulação do casamento.

As lágrimas de Anselmo/Alfredo foram ignoradas pelo grupo de policiais. 

Soube, posteriormente, que a socialite havia se recusado a tomar conhecimento de sua prisão, para evitar que seu nome fosse envolvido ao dele. Até porque, na última  viagem, ela encontrara um novo “affair”.

 


A plataforma - Isabella Brancher

 


A plataforma

Isabella Brancher


Priscila cresceu em um lar acolhedor; seus pais trocavam sempre gestos amáveis entre si, e seus irmãos mais velhos eram igualmente carinhosos. A filha caçula, crescida nesse ambiente rodeada de atenção, sonhava casar-se com alguém que a fizesse sentir-se valiosa e importante.

Em uma festa na casa de um primo mais velho, conheceu Francisco, engenheiro formado por uma ótima faculdade. Alto e elegante, com um olhar sedutor, ele atraiu os olhares de várias moças na festa.

Com o tempo, foram se envolvendo. Francisco chegava um dia com um maço de flores; alguns dias depois, trazia chocolates. Aos poucos, foi conquistando a atenção e o coração de Priscila. Os pais faziam reverências ao futuro genro, e os irmãos já o consideravam um irmão. Todos sabiam da vida dele na plataforma de petróleo, e isso lhe rendia um mérito adicional: submeter-se ao sacrifício de ficar tanto tempo longe de casa. Francisco havia escolhido o trabalho embarcado por estar sozinho no mundo: com os pais falecidos pouco antes do término da faculdade, a vida na plataforma lhe pareceu um caminho natural.

Escolheram comprar uma casa na rua acima da dos pais dela. O pai de Priscila, já aposentado, encarregou-se da reforma e deixou tudo conforme os gostos da filha. As cores escolhidas enchiam a casa com o sonho de transformar aquele espaço em um lar tão confortável quanto o de sua infância e juventude. A Francisco coube apenas financiar o projeto.

A data do casamento se aproximava, e com ela os preparativos. Na festa, com o salão cheio, Priscila percorria as mesas iluminando o ambiente. Ao final, seguiram para a tão sonhada lua de mel na Europa.

Priscila ficou impressionada com a habilidade de Francisco para lidar com os trâmites nos diferentes aeroportos, o que a fez admirá-lo ainda mais. Visitaram vários países que ela só conhecia dos filmes.

Ao voltarem para casa, era hora de organizar os presentes e arrumar os armários, e vez por outra ela parava para lembrar as lindas passagens da viagem. Pouco a pouco, a casa foi se transformando no lar tão sonhado.

Várias noites jantaram à luz de velas, beberam um bom vinho e adormeceram envolvidos pela paixão que os alimentava.

Finalmente chegou o dia em que ele teria de retornar à plataforma. Fez a mala e despediram-se num longo e profundo abraço. Francisco prometeu que ligaria diariamente. Cumpriu a promessa, sempre por vídeo, pois assim amenizava as saudades que ambos sentiam. Naquela última semana, porém, por duas noites seguidas, as chamadas foram apenas por voz.

Na tarde seguinte, ao visitar a mãe, comentou:

— Francisco tem sido muito atencioso: pergunta sobre o meu dia, conta como é a vida na plataforma, tudo como esperado. Mas ontem fiquei preocupada. Pela segunda vez nesta semana, ele não abriu a câmera. Disse que não podia, mas não explicou o porquê.

— Vai ver que estava no quarto com um colega que não estava adequadamente trajado — disse a mãe e acrescentou: — Você foi àquela entrevista de emprego que tinha agendada?

Continuaram conversando amenidades até a chegada do pai, quando Priscila decidiu voltar para casa. Francisco chegaria em dois dias, e ela queria terminar uma almofada que estava bordando.

O domingo amanheceu, e Priscila foi esperar Francisco no portão. Aquela havia sido a primeira vez, depois de casada, que ficara sozinha com ele embarcado.

Francisco desceu do carro e a beijou, e um calor preencheu rapidamente o corpo de ambos. Ao entrar em casa, desfez a mala de imediato, guardando seus pertences nos lugares destinados.

Priscila havia preparado uma programação para o tempo em que ele ficaria em casa. Seriam duas semanas, e ela queria aproveitar ao máximo a companhia dele. Francisco, por sua vez, aproveitou para pôr em ordem algumas tarefas da casa e reservou um jantar no restaurante que sempre frequentavam.

No meio da semana, saiu cedo: pretendia comprar um cachorro para Priscila. Sabia que ela procurava emprego para se ocupar, mas considerou que uma companhia de quatro patas amenizaria os dias em que ele estivesse embarcado. Foi a um canil de cães pequenos que conhecia na Lapa e passou algum tempo observando os filhotes. Tinha jeito com animais e logo se encantou com um filhote muito saltitante e sorridente. Na hora de ir embora, o maltês não soltava a sua calça. Sem resistir à doçura do animal, levou-o para casa. Ao ver aquela bolinha de pelos branca e saltitante, Priscila abriu um sorriso largo e logo o batizou de Pipoca.

Pipoca completava a casa. Ainda sem filhos, trazia o barulho necessário e ocupava boa parte do tempo livre de Priscila, que não havia encontrado trabalho fora de casa.

Numa noite dessas duas semanas, foram jantar no restaurante de culinária japonesa de que Priscila havia se tornado fã depois de ser apresentada por Francisco. Como de costume, ele fez a reserva. Ao chegarem, o maître veio ao encontro do casal e disse:

— Boa noite, Sr. Joaquim, a sua mesa está pronta.

— Joaquim? Creio que o senhor se confundiu. Meu nome é Francisco.

Sem tecer nenhum comentário adicional, o maître os conduziu à mesa, e o jantar seguiu como de costume. Priscila ainda comentou:

— Estranho ele ter trocado o seu nome, dada a quantidade de vezes que viemos aqui.

— Deve estar cansado e confundiu os nomes. Percebeu que o outro também é um clássico nome português? — respondeu ele, e riu levemente.

Voltaram para casa felizes e bem alimentados. No caminho, ela já pensava na falta que sentiria de Francisco, pois uma nova temporada embarcado começaria dali a dois dias. A noite que antecedeu a despedida foi regada a momentos de paixão e volúpia. Ao acordar, ela pôs as mãos no ventre, certa de que não eram mais apenas um casal.

Essa segunda partida, menos traumática que a anterior, chamou a atenção de Priscila para um detalhe: Francisco tinha um segundo celular na mão. Ela nunca havia reparado nisso. Minutos antes de entrar no táxi, ele atendeu o aparelho e respondeu monossilabicamente às perguntas feitas do outro lado da linha.

Dessa vez, o período na plataforma seria de quatro semanas. Como na viagem anterior, levou consigo apenas uma maleta e saiu vestido com um terno preto. Ela se perguntou: por que um terno preto? E por que uma mala tão pequena?

Naquela tarde, comentou com a mãe:

— Mãe, acho que estou grávida!

A mãe, parando de mexer o bolo, virou-se e perguntou:

— Fez o teste de gravidez?

— Ainda não. Preciso esperar algumas semanas, mas, assim que chegarmos ao final do mês, vou fazê-lo.

— Melhor deixar isso entre nós, para o caso de ser alarme falso.

— Certo, faz sentido — concordou Priscila.

Passados alguns dias, Priscila foi passear no centro no fim de semana para trocar alguns presentes que havia ganhado. Na loja, uma mulher com um menino de uns cinco anos chamou a sua atenção. Repetidas vezes, ela pedia à criança:

— Francisco, não mexe aí, pode quebrar…

A agitação do menino despertou em Priscila um interesse súbito, e ela passou a acompanhar a cena, que se repetia. Ao seguir a mãe e o filho, incomodou-se com a semelhança que viu entre o menino e o seu Francisco.

Dirigiu-se ao estacionamento pensando naquela criança que tanto lembrava o marido. Será que estava com tantas saudades a ponto de vê-lo em outras pessoas? Durante o caminho, preocupou-se em não errar o trajeto, pois iria encontrar uma amiga antiga e não queria se atrasar.

Na confeitaria, conversaram a tarde toda. Priscila comentou com a amiga algumas coisas que a preocupavam no relacionamento. A amiga a confortou, dizendo que os filhos completariam a casa na ausência dele e que, com o passar dos anos, aquilo ficaria cada vez mais normal e tolerável. Depois, Priscila contou do cãozinho Pipoca e de como se divertia com ele. Despediram-se, e ela voltou para casa pensando em tudo o que haviam conversado.

Dias depois, Francisco chegou. Dessa vez, teria um mês de folga. Felizes com o mês que tinham pela frente, celebraram. Francisco cumpriu o ritual de sempre: chegou, esvaziou a mala e guardou tudo nos seus lugares. Priscila então perguntou sobre o segundo celular, com o qual ele havia atendido aquela ligação antes de embarcar no mês anterior. Francisco desconversou, dizendo que era de um colega de trabalho que ficara com ele por engano, e que o colega ligava para ter certeza de que ele não se esqueceria de devolvê-lo.

Na manhã seguinte, o pequeno maltês, impaciente com uma obra na rua, latia sem parar. Francisco, já irritado, gritou bruscamente:

— Pepé! Quieto!

— Você chamou o cachorro de Pepé? O nome dele é Pipoca — corrigiu Priscila.

— Quando eu era criança, tive um cachorro chamado Pepé. Devo ter me confundido!

Francisco voltou à leitura do jornal matinal, e ela foi terminar o que havia começado na cozinha. Foi então que ouviu o telefone dele tocar e, atenta, fechou a torneira. Da sala, vinham apenas respostas curtas e murmúrios.

Minutos depois, Francisco avisou que teria de voltar imediatamente à plataforma: havia ocorrido um problema sério, e precisavam de todos os engenheiros disponíveis. Subiu ao quarto e preparou a mala. Um carro já o esperava no portão. Beijou a esposa apressadamente e saiu.

Voltou dois dias depois, no meio da madrugada. Ao descer para o café, Priscila surpreendeu-se com o que viu: ele largado no sofá, apenas sem os sapatos, e a mala semiaberta ao lado. Sem pensar, puxou a mala e começou a mexer nela, tirando os objetos. Primeiro, um saco com duas camisas sujas; depois, um envelope que, ao ser levado até a mesa, deixou cair uma fotografia. Ela olhou atentamente: nela estavam uma mulher, duas crianças e um pequeno cachorro. No verso, estava escrito apenas “saudades” e uma data anterior ao casamento deles. O coração de Priscila disparou. Aquilo explicava tudo. Colocou a fotografia de volta no envelope e o envelope na mala. Ao fazê-lo, com as mãos trêmulas, esbarrou na mala, e o barulho acordou Francisco.

Ainda sonolento, ele perguntou:

— O que você está fazendo? Por favor, não mexa nas minhas coisas. Deixe que desfaço a minha mala.

— Desculpe — respondeu ela, gaguejando levemente. — Queria te ajudar.

Ele se levantou bruscamente, tomou a mala nas mãos e disse, secamente:

— Não precisa fazer isso, obrigado!

Francisco subiu com a mala para o quarto e começou a organizar tudo. Perguntou-se se Priscila teria visto a foto ou os outros objetos. Agora não era o momento de se lamentar; precisava se manter calmo.

As semanas seguintes transcorreram sem muitas surpresas, mas Priscila remoía a fotografia, e isso a incomodava demais. Temia que ele fosse agressivo por ela mexer em suas coisas. A imagem voltava com tanta constância que, numa noite, enquanto preparava o jantar, ela não se conteve e perguntou de súbito ao marido:

— Vi uma foto em um envelope na sua mala outro dia. Uma foto de uma mulher com duas crianças. Quem são?

O marido riu baixinho, levantou-se, aproximou-se e a beijou suavemente no pescoço.

— Você ficou com ciúmes? — disse, com ironia.

— Não, não fiquei. Só queria saber quem são — respondeu ela, tentando manter um ar de superioridade.

— É uma prima distante. Não a vejo há anos — disse Francisco.

Priscila se calou e voltou a se concentrar no jantar, embora estivesse dividida entre a possibilidade de ele ter outra família e a de a foto ser mesmo de uma prima distante. Esses questionamentos iam e vinham, deixando-a cada dia mais intrigada.

A temporada em casa estava mais longa que de costume. Priscila começou a ter enjoos e já estava mais convencida de que não estava mais sozinha no próprio corpo. Certa manhã, saiu para fazer compras e aproveitou para passar na farmácia. Em casa, fez o teste, que confirmou o seu pressentimento. Aproveitando que o marido estava em casa, preparou um jantar com a comida preferida dele, em especial a sobremesa. Ao terminarem, estendeu-lhe uma caixinha comprida e disse:

— Abra, tenho uma surpresa para você!

Ele a olhou sem entender, abriu a caixa e viu um teste de gravidez com resultado positivo. Com a face levemente pálida, perguntou:

— É o que estou pensando? Você está grávida?

Priscila acenou que sim com a cabeça, e o rosto dele se abriu num sorriso largo. Levantou-se rapidamente e a abraçou com todo o seu amor.

— Você não imagina como essa notícia me deixa feliz. Isso é tudo o que eu sempre quis com você. Eu te amo muito!

Priscila retribuiu o abraço e sorriu, embora, no íntimo, ainda guardasse várias dúvidas sobre Francisco.

Nos dias seguintes, discutiram como decorariam o quarto do bebê, como ele a acompanharia nas consultas e como se organizaria na plataforma para estar em terra no momento do nascimento. Foram à primeira consulta, e tudo caminhava a contento. Priscila havia mantido o segredo, como a mãe recomendara, mas já estava com oito semanas de gravidez.

No dia seguinte, Francisco embarcou para uma nova temporada. Priscila foi visitar a mãe para contar a novidade e começou a se programar para a chegada do bebê. Ao voltar para casa, percebeu o crachá de Francisco caído no chão. Pensou que ele poderia lhe fazer falta e decidiu ligar para a empresa. A atendente repetiu a informação pela terceira vez:

— Senhora, não temos nenhum engenheiro com esse nome.

Priscila permaneceu em silêncio. Sentiu os dedos afrouxarem ao redor do telefone. A voz da atendente continuava falando, mas as palavras chegavam distantes, como se viessem do fundo de um túnel.

Não havia Francisco. Não naquela empresa. Não naquela plataforma.

O marido com quem dividira a cama, os sonhos e os planos para o filho que carregava no ventre simplesmente não existia.

Quando a ligação terminou, ela continuou sentada à mesa da cozinha sem perceber que chorava. Os pensamentos se atropelavam. Uma pergunta dava lugar a outra antes mesmo que a primeira pudesse ser respondida. Nada fazia sentido. Joaquim. O segundo celular. A fotografia. A empresa. Tudo parecia se encaixar e, ao mesmo tempo, tornar o mundo incompreensível. Pela primeira vez desde que o conhecera, não se perguntava onde Francisco estava. Perguntava-se quem ele era.

Decidiu esperar a volta dele: dessa vez, esclareceria todas as suas dúvidas. Não disse nada à mãe e aguardou, com paciência, a chegada do marido.

Francisco chegou, e ela o deixou cumprir a rotina de sempre: desfazer a mala, tomar um banho bom e demorado, recostar-se no sofá. Só então se sentou ao lado dele na sala. Sua boca tremia levemente; tentava conter a emoção, mas não podia continuar naquela incerteza. Olhou firmemente para o marido e disse:

— Liguei para a sua empresa e disseram que não existe nenhum engenheiro com o seu nome trabalhando lá.

Ele a olhou, cobriu o rosto com as mãos e baixou a cabeça, como se pensasse no que responder. Sem saber o que dizer, calou-se.

Um longo silêncio se instalou na sala. As paredes pareciam se aproximar, e o ar ficou rarefeito.

O silêncio dele só aumentou a fúria de Priscila, que, num rompante, levantou-se e disse em voz alta:

— Você tem outra família, eu sei! Vi a foto! Preciso de respostas, você me deve uma explicação — continuou, com as lágrimas molhando o rosto.

Francisco, sem encontrar saída, pediu que ela se sentasse e disse:

— Vou te contar tudo, mas, por favor, prometa que vai ficar calma. Eu te amo mais que tudo nesta vida, não posso te perder.

Ela o olhou fixamente, esperando que uma luz iluminasse aquela sala ainda opressora.

— Uso alguns nomes falsos por causa do trabalho que faço. O segundo celular é para o meu chefe entrar em contato comigo em situações especiais; as conversas nesse aparelho não podem ser rastreadas, pois usamos um canal privado. A fotografia é da família do meu parceiro, que morreu em um evento decorrente de um erro meu. Pepé é o cachorro deles. Durante muito tempo, antes de nos conhecermos, eu frequentei bastante essa família; eu era muito amigo do meu parceiro. A morte dele me levou a uma depressão importante, mas eu precisava ser forte para ajudar a viúva e as crianças, e assim segui em frente. Apaixonei-me por você no momento em que te vi na festa do seu primo. Decidi me mudar para cá para ficar mais perto de você, e isso me distanciou deles. A foto foi ela quem mandou, para o endereço do escritório, num pedido discreto de que eu os visitasse, o que acabei fazendo em uma das minhas saídas.

Priscila tentava assimilar todas as informações cuspidas por Francisco. Sentia-se ainda muito confusa e, em silêncio, parecia decodificar tudo e reorientar seus pensamentos. Passados alguns minutos, perguntou:

— Mas, afinal, para onde você vai quando desaparece por semanas?

Francisco permaneceu em silêncio.

— Me responde!

— Você realmente quer saber?

— Quero.

— Talvez, depois que eu te contar, você nunca mais consiga olhar para mim da mesma forma.

— Você trabalha para quem? — perguntou ela, cada vez mais irritada.

— Para pessoas que podem pagar.

— Para fazer o quê?

Com o rosto fortemente enrubescido, ele baixou os olhos e disse:

— Resolver problemas.

— Que tipo de problemas? — perguntou Priscila.

— Pessoas.

Priscila permaneceu calada, quieta, construindo e organizando as informações na mente, até que tudo se clareou:

— Meu Deus, você está dizendo…

— Sim — confirmou Francisco.

— Você mata pessoas!

Francisco não precisava responder, mas acrescentou:

— Eu queria te contar.

— Mentira! — retrucou.

— Não! Eu queria. Todos os dias eu queria.

— Então por que não contou?

— Porque eu sabia que perderia você. E você é a única parte da minha vida que é realmente verdadeira.


CAFÉ COM BISCOITOS - Carla Di Sessa

 



CAFÉ COM BISCOITOS

Carla Di Sessa


Os irmãos Cardoso haviam se reunido naquela tarde a pedido de Clara, a mais velha, pois queria prestar contas das coisas da mãe deles, falecida há algumas semanas. Embora contasse com a anuência deles para decidir sobre os legados da mãe, Clara havia topado com algo que precisava dividir com os irmãos. 

Ela os cumprimentou rapidamente quando chegaram. Sem conseguir esperar mais logo entrou na razão pela qual os havia convocado para aquela reunião mostrando a eles uma caixa antiga de biscoitos que havia encontrado no armário do quarto dos pais. Dentro havia um maço de envelopes amarrados com uma fita desbotada pelo passar do tempo. Quarenta e oito cartas escritas uma vez por ano, sempre na mesma data, 5 de abril, e que não haviam chegado ao seu destinatário, um tal de Benício, que ninguém nunca ouvira falar até então.

Paulo e Luis, os gêmeos, começaram a ler em silencio alguns trechos e Clara mostrou a Cecília, a caçula, a primeira daquelas cartas.

— Olha a data, foi no ano em que a mamãe conheceu o papai. 

As cartas relatavam fatos da vida da mãe deles, como o casamento, a chegada dos filhos mas, principalmente, falavam de saudades, de amor e de lembranças guardadas com carinho.

A mãe havia acalentado em seu coração um amor da juventude. Cuidou dele secretamente enquanto se casava com outro homem e formava com este uma família. Os quatro irmãos estavam desconcertados. Dentro daquela caixa de biscoitos estava uma mulher que não conheciam. Surgiu a dúvida: o pai deles sabia? Desconfiava? Preferiu olhar para o outro lado e preservar a família?

— Agora cai bem um café, né? Disse Clara levantando-se e fazendo um gesto para Cecília acompanhá-la.

Na cozinha começaram a conversar.

— Clara, disse Cecília, será que foi o vovô que não deixou a mamãe se casar com esse tal de Benício? 

— Acho mais fácil a família do tal Benício ter interferido. Você sabe que o vovô nunca deixou faltar nada em casa, mas também não sobrava nada.

— Verdade… será que a família dele era muito rica, descobriu que ambos estavam de caso e o mandaram estudar em outro país? 

— Pobre mamãe… abandonada pelo seu amor.

— Pois é, só lhe restaram as cartas.

— Que nunca enviou. Mas, por que a família dele surtaria a ponto de mandar o rapaz para outro país? A família do vovô não era nem importante nem rica, mas também não eram pobretões ignorantes.

— Só se… e se… ela estivesse grávida?

— Não, imagine, que ideia… será?

— Pode ser, sabe como é, primeiro amor, primeira paixão, primeiro…

— A mamãe? Nunca a vi nem dar um selinho no papai…

— Pode ser que no papai não, mas no Benício…

— Clara…Clara! Clara! Disse Cecília com os olhos arregalados, se ela estava grávida então você…

— Meu Deus! Posso ser a filha dela com o Benício!

— Você é a mais velha, então…

— Mas todo mundo diz que sou a cara do papai…

— Verdade. Uma Cardoso legítima.

— Ela pode ter tido um filho e dado para adoção.

— E ela ia ter coragem de fazer isso?

— Ué, pode ser que ela mesma não, mas o vovô sim.

— Então temos um irmão…

— Ou irmã.

— Que história maluca…

— O café está pronto, gritou Clara avisando os irmãos que ainda estavam na sala, entretidos com as cartas. Os quatro ficaram conversando na cozinha por algum tempo depois do café até Paulo perguntar:

— E agora? Vamos fazer algo a respeito?

— Lógico, respondeu Clara, precisamos achar esse Benício e perguntar se ele sabe o paradeiro do filho ou filha que ele teve com a mamãe.

— Como é que é? Disse Luís, não tem nada nas cartas a esse respeito.

— É, mas está mais do que subentendido, disse Cecília.  Pode ser que a mamãe estivesse grávida dele e, por isso, a família do Benício, que não queria o namoro, muito menos o casamento, o mandou para fora do país. Sem saída, mamãe teve a criança e a deu para adoção.

— O que mais vocês tomaram além do café? Perguntou Luís.

Clara ignorou o irmão e acrescentou:

— Pode ser até que o tal Benício tenha morrido no estrangeiro e nunca ficou sabendo do que aconteceu.

— Nesse caso, disse Cecília pensativa, todos que sabiam desse filho ou filha já faleceram. Vai ser complicado achar a família desse Benício e mais complicado ainda saber o paradeiro da criança.

— Verdade, concordou Clara. Essa história ficou escondida por 48 anos, melhor que continue assim.

 — Melhor deixar para lá. Faz tanto tempo, né? Disse Cecília em tom de quem encerra o assunto.

Paulo e Luís ficaram olhando as irmãs como se fossem duas malucas. Mas, o assunto perdera gás por si só e então acharam melhor deixar quieto. Vai tentar entender o que se passa pela cabeça de uma mulher… haja vista a mãe deles: 48 anos escrevendo cartas que nunca enviou e guardando tudo em uma lata de biscoitos no fundo do armário. Tenha dó!



CARTAS NA MESA - Ledice Pereira

 




CARTAS NA MESA

Ledice Pereira


Aquela curva fechada não estava nos planos de Magda. Viu a sinalização em cima do trecho que virava para a esquerda a noventa graus. A batida foi indefensável. Magda ficou ali desacordada, enquanto carros paravam e ligavam para o resgate que demorou a chegar.

Ainda foi levada ao hospital mais próximo, aonde chegou sem vida. A equipe médica não pode fazer nada. A morte encefálica foi constatada.

Avisada, a família dirigiu-se para o hospital, sem acreditar. Magda, cinquenta anos, tinha a vida pela frente. Gostava de viver, de viajar, de sair, de receber amigos. Era alegre. Como era possível acontecer isso, logo com ela. Estavam todos inconformados.

Reuniram-se numa sala do hospital, para resolver sobre a doação de órgãos. Ela sempre dissera que era uma doadora. 

Assinados os trâmites, o hospital tratou de providenciar a retirada e o envio dos órgãos para os lugares em que eram aguardados.  

O marido e os filhos estavam perplexos. O que teria acontecido. Magda dirigia bem, era extremamente cuidadosa. No outro carro, parece que todos haviam se salvado. Que fatalidade! 

Passado o velório, a semana, a missa de sétimo dia, cada um tentava assimilar a tragédia. Ela era muito presente. Era difícil continuar ali sem sua presença marcante.

Muito tempo se passou, sem que alguém tivesse a coragem de mexer no armário cheio de roupas que lembravam várias ocasiões. A escrivaninha continha papéis e papéis que deviam significar coisas importantes, mas ninguém queria botar a mão ali.

Meses e meses depois, Fred, um dos filhos, achou que precisavam organizar as coisas. Não poderia ficar tudo ali, sem que se desse um destino. 

As roupas foram doadas na igreja próxima. O duro era examinar os arquivos de contas pagas, de fotos, de documentos que ela guardava em pastas e que teriam que ser examinados para talvez serem jogados fora ou guardados para sempre. Richie juntou-se ao irmão. Era mais emotivo e tinha dificuldade para colocar a mão em coisas que lhe traziam tantas lembranças.  As esposas os ajudaram no que era possível.

Cris era muito organizada. Foi escolhida para verificar a importância dos objetos guardados. Yara ficou com as pastas de documentos.

Como todos tinham seus trabalhos, tiveram que reservar algumas noites e alguns fins de semanas sem compromisso.

Após meses, ao remexer uma das caixas, Cris encontrou um pacote de cartas, amareladas pelo tempo, amarradas com uma fita cor de rosa, com a letra de Magda. Curiosa, tirou uma para ler.

Era dirigida a um tal de Francisco. Parecia uma declaração na qual a sogra declarava seu eterno amor. Algumas palavras pareciam ter perdido algumas letras que fizeram Cris concluir haverem sido molhadas. Seriam lágrimas? 

Todas eram dirigidas ao mesmo indivíduo. Não havia carimbo, nem sinal de que tivessem sido entregues. 

Cris mostrou a Yara e ambas relutaram em revelar a descoberta aos seus maridos e ao sogro que, certamente, se sentiriam traídos. Observaram que se tratava sempre do mesmo dia e mês, embora os anos fossem diferentes. 

Clovis, o marido, não soube explicar quando lhe contaram a respeito. Aquela data correspondia ao dia e mês em que se conheceram. Os filhos ficaram surpresos e pensativos.

O assunto era sempre o mesmo. Um amor não correspondido mas que parecia mexer muito com ela. Havia sempre uma mágoa muito grande. Talvez ela necessitasse colocar no papel o que sentia para exorcizar aquele sentimento guardado.

Tentaram pesquisar, em vão, entre os velhos conhecidos, sobre a existência de algum Francisco. 

Ao chegar à última carta do monte, entretanto, deram com uma observação escrita em vermelho.

“Sempre imaginei alguém, que tivesse tido um amor impossível, mandando cartas para a suposta paixão. Inventei essas cartas para um Francisco qualquer, pois quem sabe ainda publicarei um livro com um título de ‘Cartas na mesa’, ‘Cartas não enviadas’, ‘Cartas que Francisco não recebeu’, ‘ou algum outro título’.

A emoção tomou conta de todos. Ela tinha uma vontade íntima, que escondera de todos. Clovis e os filhos, aliviados, resolveram publicar as cartas para satisfazer aquele desejo guardado.

Encaminharam para uma editora que fez a revisão e editou. Na noite do lançamento, todos os amigos da família foram convidados e compareceram em massa.

Foi uma noite de muita emoção em que Magda foi muito lembrada por sua personalidade marcante, sua simpatia, seu poder de agregar os amigos.

Apesar de sua vida ter sido ceifada antes de ter realizado tantas coisas, sua vontade foi satisfeita e o livro recebeu um dos títulos sugeridos por ela, Cartas na Mesa.

Clovis, os filhos e as noras, tiveram a certeza de que Magda, onde quer que estivesse, e eles pressentiram sua presença, devia estar contente com aquela homenagem póstuma.  


As caixas douradas - Isabella Brancher

 



As caixas douradas

Isabella Brancher


Minha mãe era uma pessoa que vivia cheia de compromissos. Trabalhava em uma empresa multinacional, e só adulta entendi, de fato, o que ela fazia. Cuidava de nós e da casa e ainda gostava bastante de fazer trabalhos manuais. Lembro claramente que, quando éramos pequenos, ela fazia nossos casacos de lã. As agulhas de tricô faziam parte do cenário enquanto brincávamos. Com os anos, o tricô foi dando lugar a outras coisas: bordado, cerâmica, aquarela. Chegava do escritório de blazer e salto e, meia hora depois, estava de avental, com tinta no cabelo.

Em casa era uma mulher daquelas que se admira. Gostava de manter a casa florida e repleta de pessoas. Todo começo de abril papai trazia flores e as arrumava em um vaso perto da janela. Sinto que nós a decepcionamos um pouco, pois teria gostado que tivéssemos trazido mais nossos amigos para a nossa casa. Aos domingos, logo cedo já a víamos na cozinha, e assim que nos levantávamos ela sorrindo nos dava alguma tarefa. Ao meio-dia a mesa já estava farta de risadas e histórias, sempre regada com um bom vinho.

Ela também tinha seus mistérios. Perdi a conta das tardes em que a vi sentada na varanda do seu quarto observando o que guardava em duas caixas de metal dourado. Em geral era ao pôr do sol. Imagino que a luminosidade rosada do momento trouxesse lembranças que a levassem para aquelas caixas. Havia um pouco de tudo ali. Coisas aparentemente sem nenhum valor, mas que refletiam episódios mágicos do passado. Ela pegava um objeto, virava-o, olhava de novo. Muitas vezes nem ouvia nosso chamado. Parecia conversar com seus pensamentos. Nunca nos atrevemos a questionar esses seus momentos.

Algumas semanas após a sua morte, comecei a organizar os seus pertences. Encontrei as caixas douradas, ambas amarradas com uma fita nas cores da bandeira da França. Abri uma delas e encontrei um pequeno caderno amarelado repleto de poemas. Era sua letra com os erros de ortografia vindos de quem falava quatro idiomas latinos. Li até a luz da janela dar a vez ao abajur. Percebi que estava lendo em voz baixa, temendo que ela pudesse me ouvir. Dormi com o caderno aberto sobre o meu peito.

No dia seguinte, movida por uma curiosidade incansável, voltei ao seu quarto e abri a segunda caixa. Havia cartas do meu pai de quando ele fazia sua pós-graduação no exterior. Cartas de amigas, de primos, de um tal Carlos, mas a pilha mais grossa, presa por um elástico já ressecado, era a de Nuno. Comecei lendo as cartas de papai. Suas cartas eram como um diário. Contavam os experimentos do dia, os livros que comprara, e terminavam sempre do mesmo modo: saudades, beijinhos. Depois comecei a ler as de Nuno. As cartas traziam frases como: “a tarde vai caindo devagar e deixando o céu rosado como naquele dia em que nos entrelaçamos sem fim. É nessa hora, quando essa luz se intensifica, que mais penso em você.”

Quem teria sido esse Nuno?  O nome não me despertava qualquer lembrança. Mamãe nunca havia comentado uma palavra sequer sobre ele. Mamãe falava de antigas amigas, de colegas da faculdade, de primos espalhados pelo mundo. Nuno, onde estaria? O que faria? Continuei a ler as suas cartas: em cada uma surgia uma revelação. As cartas foram me entregando o que ele não precisava explicar a quem já sabia. Numa, ele contava que a mãe dele ainda cantava em português enquanto cozinhava. Lembrei-me da minha avó ouvindo notícias em italiano diante da massa fresca. Em outra, as tardes depois das aulas na orla de Barcelona eram cuidadosamente descritas. As longas caminhadas imaginando o apartamento com varanda para o poente. Onde viveriam? Na França, onde haviam passado a infância, ou no Brasil, para onde mamãe se mudara a trabalho depois da faculdade em Barcelona?

Perdi a hora e, quase na penumbra, li a última carta. Nela, Nuno contava os dias: já tinha a passagem, e prometia que, na chegada, a levaria para ver o poente da varanda nova. As cartas de Nuno, incluindo essa última, de 29 de março, eram todas anteriores das cartas de papai, e essa informação adicional me tirou o fôlego. O que teria acontecido? Com as mãos trêmulas, tateando, peguei o telefone e liguei para papai. Sem imaginar como meu pai reagiria, achei melhor identificar Nuno como um amigo de mamãe.

— Você conhece um tal de Nuno, amigo de mamãe de longa data? — Perguntei logo após ele dizer “alô”

— Sim. — Ele pigarreou e ficou alguns segundos em silêncio, como quem revê uma lembrança antiga. — Nuno foi um namorado que sua mãe teve antes de me conhecer.

Ele fez uma pausa antes de continuar: — Ele faleceu em um acidente de carro no dia 8 de abril, antes de chegar ao Brasil. 

Houve um silencio desconcertante, um estranho sentimento de luto nesse momento:

— E por isso, todo o dia 8 de abril, eu lhe trazia um maço de flores.

Por alguns segundos fiquei muda do outro lado da linha. 

— Filha? Está aí? 

— Sim, pai. Obrigada! Beijos

Desliguei. Fui até a varanda e acendi a luz. Lembrei das flores colocadas por papai todo começo de abril no vaso perto da janela. Sempre achei que fosse uma mania dele. Juntando os objetos na caixa, folheei o caderno e percebi vários poemas escritos no dia 8 de abril.


Gotas de Amor - Yara Mourão


 Gotas de Amor
Yara Mourão

As horas quietas são cheias de ruídos que a memória guarda no fundo da nossa essência. É quando os silêncios mais antigos afloram, impiedosos, imprecisos, mas tão carregados da vida que passou.

Era nesses momentos que Helena se recolhia na penumbra de suas lembranças e, entre doçuras e amarguras, criava suas cartas de amor endereçadas ao universo paralelo de sua vida real.

Havia tempos a filha de Helena se dera conta dessas mensagens de amor. Ela achou uma caixinha decorada que a mãe guardava como um tesouro, cheia de delicados papéis escritos à mão; havia neles também notícias, comentários, indagações sem respostas, que alguém, do outro lado desse mundo, receberia quase diariamente.

Helena abraçava aquela lembrança querida desde que o acaso desviou os rumos de dois corações apaixonados, e a história mudou o que o amor havia traçado.

As mensagens começavam sempre assim: “Meu muito querido”. E eram sempre alegres, otimistas, que, apesar de não esperarem por respostas, terminavam em agradáveis cumprimentos. Continham confissões de amor eterno, mas também os fatos dos dias das pessoas, quem chegava, quem havia dito o quê, a roupa nova, a chuva que não parava e também o que acontecia na escola dos filhos, as notas, as faltas… 

O além se incumbia de registrar tudo e, às vezes, parece que até respondia, à sua maneira, fazendo cessar a chuva, melhorando as notas dos meninos, predizendo notícias.

Rute se deleitava com muitas dessas mensagens de Helena, que nem suspeitava que a filha sabia disso tudo.

Um dia ela notou que sua mãe passou a escrever mais sucintamente, quase lacônica. Foi rareando seu recolhimento, seus escritos.

Um dia, quando viu a notícia mais estranha em uma das cartas, Rute entristeceu; era assim: “Meu muito querido, breve nos encontraremos.”

Seguiu-se um tempo sem nenhuma mensagem, até que Helena enviou ao universo sua última gota de amor: “Meu muito querido, hoje parto em paz. Você está ai?”

Foi quando Rute compreendeu, se recolheu e deixou o tempo se encarregar da vida, da saudade e do amor que não acaba nem depois da morte.

O Homem do boné preto - Ledice Pereira

 



O Homem do boné preto

Ledice Pereira


A viagem naquele trem, que saía pontualmente, às 16:00 horas, de São Luís do Maranhão, tinha tudo para oferecer muito conforto. Vagões com ar-condicionado, poltronas reclináveis, lanchonete, restaurante, banheiros, vários, todos muito limpos. É verdade que dezesseis horas de viagem, sentado, não é brincadeira. Era a primeira vez que eu me metia numa enrascada daquelas. 

De São Paulo a São Luís fui de avião. Quase quatro horas de voo tranquilo. Mais traslado de quatro horas de carro até Atins, minha primeira parada. A pousada ficava de cara para o Rio Preguiça.

Tudo que eu queria, naquelas férias, era esquecer.

Esquecer o fora que levei da namorada.

Esquecer o que me consumia no meu trabalho na cidade de pedra.

 Há tempos, eu queria conhecer os Lençóis Maranhenses.  E foi muito acima da expectativa. Foram dez dias de pura magia e conexão com a natureza, que revelou paisagens de tirar o fôlego. Uma mais incrível do que a outra. As pousadas, todas simples mas super bem cuidadas, onde comi muito peixe, comidinha caseira, que me fez sentir o carinho familiar que acaricia. A segunda parada foi em Santo Amaro. Outras dunas, outras lagoas, outras maravilhas.

Passados dez dias, soube pelo guia, que me ciceroneou durante a estada, do trem da Estrada de Ferro Carajás que vai de São Luís até Parauapebas, no Pará, passando por mais de vinte municípios, com umas quinze paradas.  Curioso, topei enfrentar o desafio, eu, meu violão e minha pequena bagagem.  

Logo, conheci um vaqueiro da região, com quem dividi o assento. Chapéu característico, apresentou-se como “Ciço”. Homem, acostumado ao campo, reclamava daquele confinamento, a que teria que se submeter durante todas aquelas horas. Mas viajava a negócio. 

Passei os olhos pelo vagão. Chamou-me a atenção, um sujeito que se sentou só, na última fileira, com a cara encoberta por um boné preto. Numa das vezes em que se levantou, notei que vestia uma camisa social, com vincos de dobras, calça jeans e sapatos de couro nada confortáveis para uma viagem daquelas. Parecia não querer levantar o rosto, protegido pelo boné. 

Ciço também o notou, comentando comigo, intrigado, que conhecia quase todo mundo da região e não se lembrava de ter visto aquele forasteiro esquisito, que passou a ser motivo de nossa observação dali por diante.

Nas paradas, pra passar o tempo, além de jogar conversa fora, esticávamos as pernas, caminhando pelos vagões, lambiscando na lanchonete, tomando muito café. Eu carregava sempre meu violão e alegrava os passageiros, tocando algumas canções regionais. Aproveitávamos esses momentos para xeretar os tipos estranhos que desciam e subiam nas estações.

Numa dessas ocasiões, subiu uma mulher jovem, que chamou a atenção de todos pelas roupas espalhafatosas que vestia.  Foi ela entrar e todas as cabeças se viraram em sua direção. Ciço me cutucou, achando que teríamos mais assunto.

Vimos a mulher se aboletar ao lado do forasteiro de boné com quem procurou puxar prosa. O homem demonstrava certo mau humor. De cara amarrada, ajudou a colocar a mala da passageira no espaço acima do banco, sentando-se carrancudo e enterrando mais o boné, o que demonstrava não estar a fim de papo.

Quando nos encaminhamos para jantar, cruzamos com alguns policiais no balcão. Atentos ao cardápio, escolhiam o que comer, ao mesmo tempo em que nosso forasteiro, que adentrava ao local, dava meia volta, rapidamente, chamando nossa atenção. 

Ciço me olhou firmemente e falou: – Aí tem!

Depois de nos fartarmos com a nossa janta, Ciço me ofereceu um cigarro, que recusei, e me disse, com seu sotaque: – Bora voltá pro nosso posto de observação!

A mulher falava sem parar, sem nem dar atenção à cara do sujeito, que se pudesse a esganava. 

Ao perceber que os policiais se dirigiam para o nosso vagão, o homem levantou-se prontamente, dirigindo-se, cabeça baixa, à lanchonete, seguido da jovem que não parava de falar e parecia nem perceber que era persona non grata. 

De repente, fomos surpreendidos por gritos que vinham do vagão restaurante:

– Quer parar de me seguir, mocinha! 

– Não deu pra perceber que tá me enchendo o saco?

Quando chegamos lá, o misterioso indivíduo estava descontrolado, empunhando uma arma, apontada em direção à jovem, que tremia dos pés à cabeça.

Tentamos acalmá-lo, mas o cara estava com o diabo no corpo, girando-se pra cá e pra lá, ameaçando cada um dos presentes. A sorte foi que os policiais, que estavam de olho nele, conseguiram desarmá-lo, algemando-o. Tinham sido chamados pelos seguranças do trem e, embora fingissem estar a passeio, estavam alertas. O homem era procurado por um assassinato cometido em São Luís.

Felizmente, a viagem terminou sem mais intercorrências e conseguimos tirar um cochilo até chegar ao nosso destino, Parauapebas, município de mais ou menos 310.000 habitantes. Despedi-me de Ciço, dirigindo-me à pousada indicada pelo guia e que ficava a treze quilômetros dali.

Depois de conhecer A Floresta Nacional dos Carajás e o Bio Parque Vale Amazônia, após uns cinco dias no local, informaram-me que poderia pegar um avião em Parauapeba para Belém.

Em Belém, cheguei a tempo de participar do Círio de Nazaré, uma das manifestações religiosas mais emocionantes que eu já vivi.

Voltei para minha São Paulo, de alma lavada, com muita coisa pra contar, tendo a certeza de que nosso país tem uma riqueza natural da qual devemos nos orgulhar muito.

Hoje, recebi um telefonema de Ciço. Convidou-me para passar as próximas férias em São Luís do Maranhão. Hummm! Quem sabe...


CORRENTINHO - Carla Di Sessa

 


CORRENTINHO

Carla Di Sessa


Imagine um lugar onde o vento passa vagaroso entre as folhas das árvores, espalhando a preguiça de todas as horas. Um lugar onde o sol passeia sem pressa pelo céu, requentando a vida.  Imagine que um compasso moroso arrasta os pensamentos de tal maneira que o tempo se torna elástico e viver é quase um bocejo. Desse jeito, devagar e silenciosa, a vida escorre em Correntinho.

Mas, todos os anos, essa sonolência é dispersada com a chegada do projeto VIVA CORRENTINHO, evento que acaba por atrair até a população das cidades vizinhas. Durante uma semana, há shows, apresentações teatrais e de gastronomia, feira de artesanato e de produtos orgânicos, entre outras atrações. 

Mas, para algumas pessoas, é mais do que isso. Elas se soltam dos laços aconchegantes de uma vida suave, porém letárgica, e por uma semana se deixam levar por algo que as habita no fundo de suas almas.

Dona Hermínia se esquece do terço e de apoquentar o padre a respeito de temas adequados para os sermões. Notável dançarina de tango em sua juventude, ela abre sua casa à espera de casais, de qualquer tipo, desde que entusiasmados para aprender as nuances e o calor da dança porteña. E assim, D. Hermínia pinta os olhos e a boca, veste-se de cores vibrantes, coloca brincos, colares, pulseiras, abre seu melhor sorriso e celebra o amor em todas as suas formas.

Nessa época, Correntinho também recebe a visita muito comemorada de seu mais eminente filho, bispo Dom Geraldo. Afilhado e sobrinho de D. Hermínia, logo ao chegar vai saudar a tia. Em seguida, em sua casa, despe-se do título e das vestes eclesiásticas e volta a ser o grande amigo de pescarias e partidas de futebol. Também volta a ser o ex-amor que ainda lhe provoca suspiros, mas que ele mantém estritamente no nível platônico. Às vezes ele se pergunta o que poderia ter acontecido caso não tivesse ido embora e sente um arrependimento sutil resvalar em seu coração.

O açougueiro, seu Jorge, passa o avental imaculadamente branco e as facas afiadas para o ajudante e, por uma semana, desfila pelas ruas com roupas atléticas. Embora já tenha perdido de vista seus 50 anos, seu Jorge exibe uma excelente forma física conseguida com muito treino depois do expediente do açougue. Por onde passa, atrai a admiração tanto de homens como de mulheres. Isso causa uma certa tensão entre os casais, justamente o objetivo de Seu Jorge. Por uma semana, ele se sente um galã, o Cristiano Ronaldo de Correntinho.

Tia Docinho, a professora da escola Lisieux para meninas, aposenta o giz e os óculos e se transforma em La Divina Dulce. Monta uma barraca na praça central e lê a sorte da cidade em borra de café, folhas de chá e nas palmas das mãos. Uma comprida fila se forma em frente à barraca, onde homens e mulheres esperam, todos ansiosos em ouvir sobre o futuro. Também estão ali muitas de suas alunas, mas, para elas, La Divina Dulce evita falar de amor, casamento ou príncipe encantado. Prefere falar dos desejos que elas acham ser secretos, mas que Tia Docinho, com um sexto sentido afiado, percebe em suas alunas. Ela entende seus anseios e La Divina Dulce os desvenda para elas. Fala de lugares longínquos, de estudos em terras estrangeiras e em trazer de dentro de si a própria bússola. Discorre sobre possibilidades como se fossem sonho e destino. Torce para que ao menos algumas entendam a mensagem e acreditem em si próprias.


CORRENTINHO - Yara Mourão




CORRENTINHO

Yara Mourão


— Tem a montanha que circunda a cidade, lá pelas bandas das fazendas do Sinhozinho Tenório; tem o vale todinho cheio de sempre-vivas e que abre espaço para esse tantinho de água doce que é o rio Correntinho. Está aí todo o retrato da nossa cidadezinha, sossegada e adormecida nesse canto das Minas Gerais.

Assim, D. Esperança começava todo dia sua palestra aos viajantes que se amontoavam na porta da igreja, querendo conhecer a cidade. Ela era a sacristã que Don Geraldo abrigava carinhosamente, orgulhosa de sua terra e de seus costumes.

Entre um queijo e broinhas de fubá, o café na sacristia era também a hora de conversas com o padre, o dono da quitanda e sua mulher, D. Esperança, e Tonho, o jovem motorista do micro-ônibus.

Eis que um dia Don Geraldo trouxe a novidade: um plano para agitar a cidade, com eventos esportivos e culturais!

Dona Esperança se abespinhou feito gata n'água fria!

— Uai, gente! Pode isso, não! Vai juntar um tanto de povo desnorteado, zanzando pra cima e pra baixo, fazendo um furdunço aqui em Correntinho!

Mas Tonho logo se animou, achando que, enfim, algo interessante podia acontecer naquele finzinho de mundo. Até mesmo se prontificou para organizar um arrasta-pé na praça em frente à igreja.

D. Esperança não aceitava essa novidade. Resolveu chamar Don Geraldo às falas:

— Meu filho, você me escute, porque fui eu que te batizei e pedi a Deus por sua proteção e discernimento! Olhe bem o que esse trem todo vai causar a Correntinho! Pode isso, não! Gente de todo esse mundão detrás da cidade, vai invadir nosso pedacinho de terra e acabar com o sossego do povo daqui. Isso é um desatino!

Don Geraldo até se comoveu. Mas o progresso tinha que chegar ali, doesse a quem doesse. Não, ele não ia desistir; espalhou seu plano pelo povoado, falando nas missas, nas visitas às casas dos fiéis. Dizia sempre que era preciso modernizar os pensamentos e adoçar o coração.

Até que a ideia vingou e um tanto de entusiastas pôs mãos à obra e se dedicou à realização da Festa Popular de Correntinho. 

Foi assim, da noite pro dia.

D. Esperança se amofinou. Rezou pra todos os seus santos, falou com suas comadres.  Mas, mineirinha que era, deu um jeito para se sair bem no meio daquela história toda.

O fato é que ela andava um tantinho em falta com as contas e o gerente do banco já estava indócil.   Lembrou do que Don Geraldo dizia: ”Era preciso modernizar os pensamentos e adoçar o coração.” Por isso, explicou ao padre seu plano econômico-cristão:

— Don Geraldo, estou modernizando os pensamentos, por isso vou ter de concordar com esse trem todo; vou até trabalhar para o bom resultado de toda essa festa. Ficarei na frente da praça, vestida de domingo, cobrando uma entrada baratinha de quem for chegando. Quem for de Correntinho paga meia; quem for de fora paga inteira. A Igreja vai ter uma parte boa para a água benta, que não é cara; o senhor, Don Geraldo, pode ficar com uma partezinha também pra dar a esmola pros pobres, que são bem poucos por aqui, e eu, pelo meu trabalho na festa, fico com um tantão maior, pra adoçar meu coração! Uai, gente, isso tá bom demais da conta, né, não?


UM JANTAR EM FAMÍLIA - Sergio Dalla Vecchia

 



UM JANTAR EM FAMÍLIA 

Sergio Dalla Vecchia


À cabeceira da mesa, cercado pela esposa e os três filhos, o patriarca saboreava a primeira colherada de um minestrone fumegante, preparado com esmero para aquela noite. A sopa estava sublime. De olhos cerrados, ele se entregava ao deleite da degustação. Suas papilas gustativas operavam como enólogos minuciosos, decifrando e catalogando as nuances complexas daquela mistura, tal qual se aprecia um corte de vinho nobre. O adocicado sutil das cenouras, a textura exata das abobrinhas, a densidade das batatas e o equilíbrio dos temperos esculpiam uma expressão de puro contentamento em sua fisionomia. Um justo prêmio para um homem exausto após um longo dia de trabalho.

O jantar transcorria em absoluta harmonia até que a primogênita, de espírito contestador, rompeu a paz. A partir de uma frivolidade qualquer, desatou a lançar farpas, atacando a irmã caçula sem pretexto. Foram uma, duas alfinetadas certeiras. Não satisfeita, voltou suas baterias contra o próprio pai. Ele, que até então flutuava em um estado de graça gastronômica, viu-se alvejado por palavras ásperas e grosseiras, que questionavam a sua neutralidade diante do embate entre ela e a irmã.

Enquanto a jovem esbravejava em tom desafiador, o pai manteve uma calma imperturbável. Mergulhou a colher no prato e levou-a à boca, como se o mundo ao redor permanecesse intacto.

Contudo, a calmaria era apenas superficial. Sua fisionomia transfigurou-se; os olhos, outrora semicerrados, abriram-se, e o sabor da sopa tornou-se subitamente amargo. A filha persistia no tom altivo, ignorando os sinais, até que o olhar antes sereno do pai converteu-se em uma linha de fogo, uma metralhadora invisível apontada para um único alvo: a audácia da filha. Havia um gatilho emocional prestes a ser acionado, aguardando apenas o comando cerebral para o disparo definitivo.

Um silêncio desceu sobre a mesa. Ninguém ousava respirar ou quebrar a rigidez daquele instante. Sem proferir uma única palavra, o pai sustentava o olhar fixo e penetrante nos olhos da filha. Era um duelo silencioso. A atmosfera pesava, prestes a faiscar, até que a jovem começou a ser esmagada pelo peso daquele olhar firme. O ímpeto dela desmoronou; o tom de voz declinou gradativamente até sumir por completo em um mutismo.

Em poucos instantes, a iminência do disparo se desfez. A tensão que sufocava a sala começou a dissipar-se. Rendida e desconsertada, a filha balbuciou um pedido de desculpas ao pai e à irmã, sufocada por um choro convulsivo, antes de se retirar da mesa às pressas.

Novamente em paz, o pai recuperou a serenidade.

Sem que uma única palavra tivesse escapado de seus lábios durante todo o episódio, ele buscou a colher e retornou calmamente ao deleite de sua sopa.

Quando saiu do transe, apercebeu-se de que estava no ano de 2026 e que, nessa época, alunos agridem professores, filhos batem nos pais, avós são colocados em casas de repouso e tantas outras atitudes negativas com o próximo. Assustado, pediu para repetir a sopa!


MEUS OITENTA - Antonia Marchesin Gonçalves

 




MEUS OITENTA
Antonia Marchesin Gonçalves


Nunca pensei que eu chegaria aos oitenta anos, muito menos com três filhos e cinco netos homens, inclusive dois netos chilenos.
Quando jovem, enxergávamos as pessoas com setenta como sendo bem velhas. Estou casada com o mesmo homem, numa convivência de sessenta e um anos, entre namoro e casamento, lógico, entre altos e baixos, como todo casal saudável.
Após uma turbulência bem grande, agora estamos tentando resgatar o encanto que quase se esvaiu. Estamos superando os sufocos, dia a dia. E, aí, chego aos oitenta!
Para mim, uma data marcante. Vamos fazer uma bela festa? — propôs o marido, convidando amigos e parentes, que não são tantos, pois não tenho mais os pais, nem meu irmão mais velho e nem minha irmã caçula.

O meu núcleo familiar do início, quando de minha chegada ao Brasil, quando éramos cinco, agora sobrou apenas eu. E os parentes de sangue mais próximos (tios e primos) todos vivem na Itália.
Voltando aos oitenta, este ano resolvi comemorar viajando com o marido para a Inglaterra, especialmente Londres. Pensei que esse dinheiro que seria gasto em festa preferia gastá-lo aproveitando essa cidade que admiro muito. Seria um retorno, pois já a conhecia.
Comuniquei à família, que estava com a certeza da festa, que meu presente era a viagem. Todos concordaram e apoiaram. Adoro essa viagem para observar as pessoas locais, seus costumes, suas atitudes no dia a dia, sendo que sempre tem umas mais pitorescas que outras. Nessa tivemos várias; três delas vou contar para não esquecer.
Três mulheres: a primeira, nós estávamos esperando um táxi quando vejo um casal de mãos dadas, aparentavam seus quase sessenta. Ela, mais alta, o segurava como uma criança puxando, igual a um filho, indo na frente e ele sendo levado. Ela falava o tempo todo com pressa no comando; deduzi estarem atrasados para algum compromisso. Um dia fomos almoçar num pub e o gerente era italiano. Conversamos e, a dada altura, perguntei se era casado com inglesa e aí, para a minha surpresa, ele respondeu que nunca casaria com inglesa, pois eram muito mandonas. Aí entendi aquele casal.
Passei a observar os casais no hotel; estava lotado de casais aposentados e era feriado nacional na segunda, e muitos emendaram para passear na capital. Reparei que eles se vestiam melhor, elas, a maioria, com roupas de domingo para missa, e da mesma forma via-se nelas atitudes de comando, principalmente no café da manhã; elas faziam o prato deles.
O segundo casal, com um filho adulto, já no restaurante da sala VIP no aeroporto. Sentaram os três com o cardápio nas mãos e me pareceu que o filho queria algo do cardápio, talvez fosse caro e a mãe chamou atenção do rapaz, que imediatamente ele fechou e o largou e nada pediu. A partir daí, só ela falava, enquanto o casal comia um prato de saladas, ele, hambúrguer com batatas fritas.
O terceiro foi o que mais me impressionou na sala VIP. Nós já tínhamos almoçado, estávamos à espera do voo e, à nossa frente, havia outro casal perto dos sessenta e tantos, comendo de tudo. Ela retirava os copos e pratos e levava no carrinho de recolher, mesmo havendo o funcionário que fazia o serviço. Sentava-se novamente, limpava a mesa enquanto o marido pegava nova leva de frutas, sacos de salgadinhos e latas de suco, que eram colocados dentro de uma sacola grande dela. Comiam e bebiam, e ela limpava a mesa. O mais impressionante é que até o chão em volta da mesa limpava; eram ingleses, foi muito bizarro.
Fomos a vários pubs, sempre a pé, conhecendo os bairros. Chegava a hora de almoçar; entrávamos no que mais nos agradava. Lógico que fizemos o sacrifício de tomar as várias e deliciosas cervejas locais. Onde houvesse muitos clientes, era um bom sinal. Em especial, voltamos uma ou duas vezes, bem frequentado, e, segundo o atendente, existia há quase trezentos anos. Era aconchegante, restaurado, mantendo a originalidade. Me encantei com um espelho original todo decorado.
Descobrimos igrejas medievais e chegamos a assistir à missa de domingo em uma delas. Encontramos uma mais contemporânea que emanava uma espiritualidade dentro dela; havia muita paz.
Uma coisa pitoresca: havia muitas flores decorando as entradas dos bares e lojas, nos postes da rua e nas varandas e portas das casas, por ser início de outono. Estranhei e, curiosa, passei a mão num ramalhete e descobri que a grande maioria era falsa; poucos eram naturais.
Conhecemos também Canden, o bairro das embaixadas, com grandes casas todas brancas e hasteadas as bandeiras dos seus países. Também havia ruas e moradias de pequenos prédios, as entradas com degraus na calçada, típicas da arquitetura inglesa. E algumas com segurança de ternos pretos, guardando, andando de uma esquina a outra, sempre em frente a pequenos parques do outro lado da rua, com espaços ao meio com cadeiras para tomar sol ou leitura; era o bairro nobre.
Outro amor que tenho são as livrarias; encantam-me os livros e o cheiro deles. Encontramos uma livraria enorme com três andares de livros do mundo inteiro; lá comprei vários exemplares. Um sobre os vinte anos da primeira-ministra Margaret Thatcher. Outro com muitas fotos sobre os setenta anos do reinado da rainha Elizabeth II. Um livro em italiano, um romance de Marina Marazza chamado (La moglíe di Dante) A mulher de Dante, que chamou minha atenção pelo comentário de Gemma Donati que diz: “Uma donna non vive nell´ombra, conquista La luce. (Uma mulher não vive na sombra, conquista a luz). E o último, um mais vendido no país e nos Estados Unidos, um Best-seller com o autógrafo da Patti Smith (Bread of Angels) a Memoir em português Pão dos anjos, a história da minha vida. Este já tem à venda na Amazon.
Outra livraria menor, quando entramos, tinha um escritor se preparando para o lançamento do seu livro, já antecipando o autógrafo antes dos convidados chegarem, com duas secretárias lhe ajudando. Concluí que ele deveria esperar um número grande de amigos e fãs, interessados em sua obra.
Fomos também jantar em vários restaurantes renomados, bem cotados pela mídia especializada. O ápice em restaurante foi o do meu aniversário. Era o Ritz, um duas estrelas Michelin, só com reserva, e claro que conseguimos. Traje obrigatório: gravata, que tivemos que comprar uma. Verdadeiro luxo, desde a decoração, os espaços que eram vários, o atendimento, todos de fraque, a comida deliciosa, mas não para matar a fome, regados ao bom vinho Pino Grigio do Veneto, com música ao vivo, pianista e depois um pequeno conjunto tocando músicas clássicas e pista de dança. Aproveitamos para desenferrujar, culminando com um espaço especial para fumar charutos com atendimento personificado.
Foram duas semanas sem stress, sem correria, com a temperatura agradável, só dois dias de chuva, um foi no Soro com a sua feira de antiguidades, que adoro, e a rua principal de Notting Hill, lotada de gente, principalmente turistas.
Foram duas semanas incríveis com o marido.
Ah, ganhei um cartão carinhoso de uma garçonete do café da manhã do hotel, que era muito grande, com muitos corredores, antigo, reformado. Tão grande que demoramos dois dias para aprender a não se perder.

Só um pequeno contratempo que me deixou nervosa: as malas não chegaram junto, ficaram retidas em Madri, chegando um dia e meio depois aqui em casa.
Mas isso não vai apagar as queridas e lindas lembranças do meu aniversário de oitenta anos.

Cara Metade - Sergio Dalla Vecchia

 

Cara Metade

Sergio Dalla Vecchia


No auge dos seus 40 anos, Antony um cidadão norte-americano acabou conhecendo a brasileira Paula no Hard Rock Café, durante o torneio de tênis Miami Open. A atração foi imediata, a cara metade que ele tanto buscava estava ali, sorrindo, exibindo um belo corpo dinamizado pelo esvoaçar dos cabelos castanhos.  Daí em diante, assistiram aos jogos juntos e aproveitaram as atrações turísticas da cidade.

Foi uma semana encantadora para o casal. Carinhos e brincadeirinhas não faltavam. 

Tudo ótimo até que as férias acabaram e Paula teve que retornar ao Brasil com direito a uma despedida chorosa no aeroporto internacional de Miami.

Foi uma paixão súbita e bonita de se ver. 

Ela embarcou levando o coração dele na bagagem.

O casal trocou muitas mensagens, fotos, selfies e longas conversas em vídeo pelo WhatsApp.

Antony estava se soltando aos poucos de sua timidez e ao mesmo tempo criando coragem para visitar Paula no Brasil. Tudo pelo amor!

Esse dia chegou e o ansioso Antony desembarcou em São Paulo.

Foi muito bem recebido pela família, mas o abraço apertado de Paula no desembarque do aeroporto de Guarulhos ratificou a paixão dos dois.

Foram direto para a casa na Vila Mariana. Ele, tímido e inseguro por não falar português, se esforçava ao máximo para se comunicar, enquanto Paula usava seu inglês básico. Mas tudo era novidade e se faziam entender.

Paula, entusiasmada, previa mostrar as atrações turísticas de São Paulo e até mais adiante as do Brasil.

Ele continuava não entendendo quase nada do que os pais dela falavam em português. Mas não suficiente para desestabilizar a extrema alegria de todos. Até tomaram a liberdade de chamá-lo de Tonho, tamanha a intimidade.

Ele pretendia ficar apenas por uns dias para matar a saudade da namorada e conhecer a família.

No entanto, cada ponto turístico da cidade de São Paulo a ele apresentado, o fazia deslumbrar-se com o povo, costumes e história dos brasileiros.

Agora Tonho já arranhava algumas palavras em português. Mas o que soltou de vez sua língua, seus pés e a cintura foi conhecer a escola de samba Mocidade Camisa Verde e Branco, na Barra Funda.

O casal sambou até o esgotamento físico, hidratados com muita cerveja, alegrando-se com o colorido das fantasias e nos pés a cadência contagiante do samba.

Enfim, Tonho voltou aos EUA, resolveu pendências, comunicou os pais que iria se casar e assim que pode retornou ao Brasil. 

Já em terras brasileiras e núpcias consumadas, foram residir em Miami por uns tempos.

Radiantes, eles programaram viagens para o Carnaval em São Paulo, Rio de Janeiro, depois Salvador e tantos outros destinos. Sempre com samba nos pés.

Após um ano, Tonho dominou o português, sambou com ritmo, Paula desenvolveu o inglês, tingiu os cabelos de loiro e passou a usar todas as grifes famosas expostas em Miami.

Entretanto, não se pode prever o futuro do casal. Pois não se sabe por quanto tempo os pés deles aguentarão sambar, o Tonho se lembrar que é Antony e que Paula volte os cabelos para a sua cor natural castanha e que não resista à saudade da feijoada, do arroz, feijão, bife e batatas fritas.


Desejo - Adriana Frosoni

 


DESEJO

Adriana Frosoni


Todas as noites, ao fechar a janela do quarto, Augusto admirava o prédio em frente. Não era o mais alto da rua, mas tinha uma fachada de vidro que permanecia iluminada até tarde.

Ele ainda vivia na casa dos pais para guardar dinheiro e queria muito morar num prédio como aquele. Era negociante de carros usados, profissão que escolhera por ser bom de conversa, ter facilidade com números e, principalmente, porque não precisava estudar para fazer isso. Gostava de negociar, de perceber até onde alguém estava disposto a ceder e de sair de uma conversa com mais do que quando entrara. Com o tempo, porém, aquilo deixou de ser suficiente. Queria mais e, por isso, tornou-se corretor de imóveis.

Aprendeu depressa que os melhores negócios nem sempre apareciam nos anúncios. Muitas vezes, vinham de quem precisava vender antes que o banco tomasse a casa, pagar uma dívida ou simplesmente recomeçar em outro lugar. Augusto passou a procurar vendedores que tinham urgência em fechar o negócio e a usar isso como oportunidade.

No escritório, começou a agir da mesma maneira: um telefonema que deixava de repassar, uma informação que chegava tarde demais ao colega errado. Como ninguém parecia perceber, foi avançando. Passou a observar os colegas com o mesmo cuidado com que analisava um imóvel. Sabia quem estava endividado e quem não poderia se dar ao luxo de perder uma comissão. Certa vez, um colega estava prestes a fechar um negócio depois de semanas de negociação. Augusto levou ao gerente alguns documentos, levantou dúvidas e o negócio foi suspenso. Depois, ele entrou em cena para garantir a venda.

Com o tempo vieram a promoção, a sala própria e a placa na porta com seu nome. Enquanto isso, um a um, os colegas foram desaparecendo do quadro de vendas, até que Augusto percebeu que já não havia ninguém entre ele e o topo.

Começou, então, a pesquisar os proprietários do último andar do prédio que almejava. Ao longo dos anos, Augusto descobriu seus nomes, negócios, dívidas e os problemas que poderiam obrigá-los a vender. Até que encontrou um apartamento similar, cujo proprietário estava apertado e precisava vender depressa. Ele esperou o momento certo e fez sua proposta. 

O contrato foi assinado numa tarde de chuva e, ao sair do cartório com a chave no bolso, Augusto ficou alguns segundos parado na calçada, olhando para ela. Era mais leve do que imaginava.

Naquela noite, subiu sozinho. Abriu a porta e entrou. A sala era espaçosa, as janelas ocupavam do chão ao teto e as luzes da cidade podiam ser vistas de cima. Augusto caminhou até o vidro e ficou ali por alguns minutos, olhando para a paisagem que durante anos havia imaginado para si.

Esperou sentir alguma coisa, mas não sentiu. Foi então que, do outro lado da avenida, percebeu um edifício mais alto recortando o céu. No topo, uma cobertura iluminada se destacava entre as demais. Augusto pegou o celular e pesquisou o endereço. Quando viu o preço, fechou a página, mas, depois de alguns segundos, tornou a abri-la. Sentou-se à mesa e começou a fazer planos.

Em quanto tempo conseguiria levantar aquele valor? Quem poderia ajudá-lo? E, principalmente, quem precisaria sair do caminho?

Ainda fazendo listas e contas mentalmente, ele voltou até a janela e olhou para a cidade. O apartamento que acabara de comprar já parecia baixo. Do outro lado, o edifício mais alto se impunha com a fachada iluminada, como se esperasse por ele. Agora sim ele sentiu, enquanto seu reflexo no vidro da janela mirava seu próximo alvo.