A plataforma
Isabella Brancher
Priscila cresceu em um lar acolhedor; seus pais trocavam sempre gestos amáveis entre si, e seus irmãos mais velhos eram igualmente carinhosos. A filha caçula, crescida nesse ambiente rodeada de atenção, sonhava casar-se com alguém que a fizesse sentir-se valiosa e importante.
Em uma festa na casa de um primo mais velho, conheceu Francisco, engenheiro formado por uma ótima faculdade. Alto e elegante, com um olhar sedutor, ele atraiu os olhares de várias moças na festa.
Com o tempo, foram se envolvendo. Francisco chegava um dia com um maço de flores; alguns dias depois, trazia chocolates. Aos poucos, foi conquistando a atenção e o coração de Priscila. Os pais faziam reverências ao futuro genro, e os irmãos já o consideravam um irmão. Todos sabiam da vida dele na plataforma de petróleo, e isso lhe rendia um mérito adicional: submeter-se ao sacrifício de ficar tanto tempo longe de casa. Francisco havia escolhido o trabalho embarcado por estar sozinho no mundo: com os pais falecidos pouco antes do término da faculdade, a vida na plataforma lhe pareceu um caminho natural.
Escolheram comprar uma casa na rua acima da dos pais dela. O pai de Priscila, já aposentado, encarregou-se da reforma e deixou tudo conforme os gostos da filha. As cores escolhidas enchiam a casa com o sonho de transformar aquele espaço em um lar tão confortável quanto o de sua infância e juventude. A Francisco coube apenas financiar o projeto.
A data do casamento se aproximava, e com ela os preparativos. Na festa, com o salão cheio, Priscila percorria as mesas iluminando o ambiente. Ao final, seguiram para a tão sonhada lua de mel na Europa.
Priscila ficou impressionada com a habilidade de Francisco para lidar com os trâmites nos diferentes aeroportos, o que a fez admirá-lo ainda mais. Visitaram vários países que ela só conhecia dos filmes.
Ao voltarem para casa, era hora de organizar os presentes e arrumar os armários, e vez por outra ela parava para lembrar as lindas passagens da viagem. Pouco a pouco, a casa foi se transformando no lar tão sonhado.
Várias noites jantaram à luz de velas, beberam um bom vinho e adormeceram envolvidos pela paixão que os alimentava.
Finalmente chegou o dia em que ele teria de retornar à plataforma. Fez a mala e despediram-se num longo e profundo abraço. Francisco prometeu que ligaria diariamente. Cumpriu a promessa, sempre por vídeo, pois assim amenizava as saudades que ambos sentiam. Naquela última semana, porém, por duas noites seguidas, as chamadas foram apenas por voz.
Na tarde seguinte, ao visitar a mãe, comentou:
— Francisco tem sido muito atencioso: pergunta sobre o meu dia, conta como é a vida na plataforma, tudo como esperado. Mas ontem fiquei preocupada. Pela segunda vez nesta semana, ele não abriu a câmera. Disse que não podia, mas não explicou o porquê.
— Vai ver que estava no quarto com um colega que não estava adequadamente trajado — disse a mãe e acrescentou: — Você foi àquela entrevista de emprego que tinha agendada?
Continuaram conversando amenidades até a chegada do pai, quando Priscila decidiu voltar para casa. Francisco chegaria em dois dias, e ela queria terminar uma almofada que estava bordando.
O domingo amanheceu, e Priscila foi esperar Francisco no portão. Aquela havia sido a primeira vez, depois de casada, que ficara sozinha com ele embarcado.
Francisco desceu do carro e a beijou, e um calor preencheu rapidamente o corpo de ambos. Ao entrar em casa, desfez a mala de imediato, guardando seus pertences nos lugares destinados.
Priscila havia preparado uma programação para o tempo em que ele ficaria em casa. Seriam duas semanas, e ela queria aproveitar ao máximo a companhia dele. Francisco, por sua vez, aproveitou para pôr em ordem algumas tarefas da casa e reservou um jantar no restaurante que sempre frequentavam.
No meio da semana, saiu cedo: pretendia comprar um cachorro para Priscila. Sabia que ela procurava emprego para se ocupar, mas considerou que uma companhia de quatro patas amenizaria os dias em que ele estivesse embarcado. Foi a um canil de cães pequenos que conhecia na Lapa e passou algum tempo observando os filhotes. Tinha jeito com animais e logo se encantou com um filhote muito saltitante e sorridente. Na hora de ir embora, o maltês não soltava a sua calça. Sem resistir à doçura do animal, levou-o para casa. Ao ver aquela bolinha de pelos branca e saltitante, Priscila abriu um sorriso largo e logo o batizou de Pipoca.
Pipoca completava a casa. Ainda sem filhos, trazia o barulho necessário e ocupava boa parte do tempo livre de Priscila, que não havia encontrado trabalho fora de casa.
Numa noite dessas duas semanas, foram jantar no restaurante de culinária japonesa de que Priscila havia se tornado fã depois de ser apresentada por Francisco. Como de costume, ele fez a reserva. Ao chegarem, o maître veio ao encontro do casal e disse:
— Boa noite, Sr. Joaquim, a sua mesa está pronta.
— Joaquim? Creio que o senhor se confundiu. Meu nome é Francisco.
Sem tecer nenhum comentário adicional, o maître os conduziu à mesa, e o jantar seguiu como de costume. Priscila ainda comentou:
— Estranho ele ter trocado o seu nome, dada a quantidade de vezes que viemos aqui.
— Deve estar cansado e confundiu os nomes. Percebeu que o outro também é um clássico nome português? — respondeu ele, e riu levemente.
Voltaram para casa felizes e bem alimentados. No caminho, ela já pensava na falta que sentiria de Francisco, pois uma nova temporada embarcado começaria dali a dois dias. A noite que antecedeu a despedida foi regada a momentos de paixão e volúpia. Ao acordar, ela pôs as mãos no ventre, certa de que não eram mais apenas um casal.
Essa segunda partida, menos traumática que a anterior, chamou a atenção de Priscila para um detalhe: Francisco tinha um segundo celular na mão. Ela nunca havia reparado nisso. Minutos antes de entrar no táxi, ele atendeu o aparelho e respondeu monossilabicamente às perguntas feitas do outro lado da linha.
Dessa vez, o período na plataforma seria de quatro semanas. Como na viagem anterior, levou consigo apenas uma maleta e saiu vestido com um terno preto. Ela se perguntou: por que um terno preto? E por que uma mala tão pequena?
Naquela tarde, comentou com a mãe:
— Mãe, acho que estou grávida!
A mãe, parando de mexer o bolo, virou-se e perguntou:
— Fez o teste de gravidez?
— Ainda não. Preciso esperar algumas semanas, mas, assim que chegarmos ao final do mês, vou fazê-lo.
— Melhor deixar isso entre nós, para o caso de ser alarme falso.
— Certo, faz sentido — concordou Priscila.
Passados alguns dias, Priscila foi passear no centro no fim de semana para trocar alguns presentes que havia ganhado. Na loja, uma mulher com um menino de uns cinco anos chamou a sua atenção. Repetidas vezes, ela pedia à criança:
— Francisco, não mexe aí, pode quebrar…
A agitação do menino despertou em Priscila um interesse súbito, e ela passou a acompanhar a cena, que se repetia. Ao seguir a mãe e o filho, incomodou-se com a semelhança que viu entre o menino e o seu Francisco.
Dirigiu-se ao estacionamento pensando naquela criança que tanto lembrava o marido. Será que estava com tantas saudades a ponto de vê-lo em outras pessoas? Durante o caminho, preocupou-se em não errar o trajeto, pois iria encontrar uma amiga antiga e não queria se atrasar.
Na confeitaria, conversaram a tarde toda. Priscila comentou com a amiga algumas coisas que a preocupavam no relacionamento. A amiga a confortou, dizendo que os filhos completariam a casa na ausência dele e que, com o passar dos anos, aquilo ficaria cada vez mais normal e tolerável. Depois, Priscila contou do cãozinho Pipoca e de como se divertia com ele. Despediram-se, e ela voltou para casa pensando em tudo o que haviam conversado.
Dias depois, Francisco chegou. Dessa vez, teria um mês de folga. Felizes com o mês que tinham pela frente, celebraram. Francisco cumpriu o ritual de sempre: chegou, esvaziou a mala e guardou tudo nos seus lugares. Priscila então perguntou sobre o segundo celular, com o qual ele havia atendido aquela ligação antes de embarcar no mês anterior. Francisco desconversou, dizendo que era de um colega de trabalho que ficara com ele por engano, e que o colega ligava para ter certeza de que ele não se esqueceria de devolvê-lo.
Na manhã seguinte, o pequeno maltês, impaciente com uma obra na rua, latia sem parar. Francisco, já irritado, gritou bruscamente:
— Pepé! Quieto!
— Você chamou o cachorro de Pepé? O nome dele é Pipoca — corrigiu Priscila.
— Quando eu era criança, tive um cachorro chamado Pepé. Devo ter me confundido!
Francisco voltou à leitura do jornal matinal, e ela foi terminar o que havia começado na cozinha. Foi então que ouviu o telefone dele tocar e, atenta, fechou a torneira. Da sala, vinham apenas respostas curtas e murmúrios.
Minutos depois, Francisco avisou que teria de voltar imediatamente à plataforma: havia ocorrido um problema sério, e precisavam de todos os engenheiros disponíveis. Subiu ao quarto e preparou a mala. Um carro já o esperava no portão. Beijou a esposa apressadamente e saiu.
Voltou dois dias depois, no meio da madrugada. Ao descer para o café, Priscila surpreendeu-se com o que viu: ele largado no sofá, apenas sem os sapatos, e a mala semiaberta ao lado. Sem pensar, puxou a mala e começou a mexer nela, tirando os objetos. Primeiro, um saco com duas camisas sujas; depois, um envelope que, ao ser levado até a mesa, deixou cair uma fotografia. Ela olhou atentamente: nela estavam uma mulher, duas crianças e um pequeno cachorro. No verso, estava escrito apenas “saudades” e uma data anterior ao casamento deles. O coração de Priscila disparou. Aquilo explicava tudo. Colocou a fotografia de volta no envelope e o envelope na mala. Ao fazê-lo, com as mãos trêmulas, esbarrou na mala, e o barulho acordou Francisco.
Ainda sonolento, ele perguntou:
— O que você está fazendo? Por favor, não mexa nas minhas coisas. Deixe que desfaço a minha mala.
— Desculpe — respondeu ela, gaguejando levemente. — Queria te ajudar.
Ele se levantou bruscamente, tomou a mala nas mãos e disse, secamente:
— Não precisa fazer isso, obrigado!
Francisco subiu com a mala para o quarto e começou a organizar tudo. Perguntou-se se Priscila teria visto a foto ou os outros objetos. Agora não era o momento de se lamentar; precisava se manter calmo.
As semanas seguintes transcorreram sem muitas surpresas, mas Priscila remoía a fotografia, e isso a incomodava demais. Temia que ele fosse agressivo por ela mexer em suas coisas. A imagem voltava com tanta constância que, numa noite, enquanto preparava o jantar, ela não se conteve e perguntou de súbito ao marido:
— Vi uma foto em um envelope na sua mala outro dia. Uma foto de uma mulher com duas crianças. Quem são?
O marido riu baixinho, levantou-se, aproximou-se e a beijou suavemente no pescoço.
— Você ficou com ciúmes? — disse, com ironia.
— Não, não fiquei. Só queria saber quem são — respondeu ela, tentando manter um ar de superioridade.
— É uma prima distante. Não a vejo há anos — disse Francisco.
Priscila se calou e voltou a se concentrar no jantar, embora estivesse dividida entre a possibilidade de ele ter outra família e a de a foto ser mesmo de uma prima distante. Esses questionamentos iam e vinham, deixando-a cada dia mais intrigada.
A temporada em casa estava mais longa que de costume. Priscila começou a ter enjoos e já estava mais convencida de que não estava mais sozinha no próprio corpo. Certa manhã, saiu para fazer compras e aproveitou para passar na farmácia. Em casa, fez o teste, que confirmou o seu pressentimento. Aproveitando que o marido estava em casa, preparou um jantar com a comida preferida dele, em especial a sobremesa. Ao terminarem, estendeu-lhe uma caixinha comprida e disse:
— Abra, tenho uma surpresa para você!
Ele a olhou sem entender, abriu a caixa e viu um teste de gravidez com resultado positivo. Com a face levemente pálida, perguntou:
— É o que estou pensando? Você está grávida?
Priscila acenou que sim com a cabeça, e o rosto dele se abriu num sorriso largo. Levantou-se rapidamente e a abraçou com todo o seu amor.
— Você não imagina como essa notícia me deixa feliz. Isso é tudo o que eu sempre quis com você. Eu te amo muito!
Priscila retribuiu o abraço e sorriu, embora, no íntimo, ainda guardasse várias dúvidas sobre Francisco.
Nos dias seguintes, discutiram como decorariam o quarto do bebê, como ele a acompanharia nas consultas e como se organizaria na plataforma para estar em terra no momento do nascimento. Foram à primeira consulta, e tudo caminhava a contento. Priscila havia mantido o segredo, como a mãe recomendara, mas já estava com oito semanas de gravidez.
No dia seguinte, Francisco embarcou para uma nova temporada. Priscila foi visitar a mãe para contar a novidade e começou a se programar para a chegada do bebê. Ao voltar para casa, percebeu o crachá de Francisco caído no chão. Pensou que ele poderia lhe fazer falta e decidiu ligar para a empresa. A atendente repetiu a informação pela terceira vez:
— Senhora, não temos nenhum engenheiro com esse nome.
Priscila permaneceu em silêncio. Sentiu os dedos afrouxarem ao redor do telefone. A voz da atendente continuava falando, mas as palavras chegavam distantes, como se viessem do fundo de um túnel.
Não havia Francisco. Não naquela empresa. Não naquela plataforma.
O marido com quem dividira a cama, os sonhos e os planos para o filho que carregava no ventre simplesmente não existia.
Quando a ligação terminou, ela continuou sentada à mesa da cozinha sem perceber que chorava. Os pensamentos se atropelavam. Uma pergunta dava lugar a outra antes mesmo que a primeira pudesse ser respondida. Nada fazia sentido. Joaquim. O segundo celular. A fotografia. A empresa. Tudo parecia se encaixar e, ao mesmo tempo, tornar o mundo incompreensível. Pela primeira vez desde que o conhecera, não se perguntava onde Francisco estava. Perguntava-se quem ele era.
Decidiu esperar a volta dele: dessa vez, esclareceria todas as suas dúvidas. Não disse nada à mãe e aguardou, com paciência, a chegada do marido.
Francisco chegou, e ela o deixou cumprir a rotina de sempre: desfazer a mala, tomar um banho bom e demorado, recostar-se no sofá. Só então se sentou ao lado dele na sala. Sua boca tremia levemente; tentava conter a emoção, mas não podia continuar naquela incerteza. Olhou firmemente para o marido e disse:
— Liguei para a sua empresa e disseram que não existe nenhum engenheiro com o seu nome trabalhando lá.
Ele a olhou, cobriu o rosto com as mãos e baixou a cabeça, como se pensasse no que responder. Sem saber o que dizer, calou-se.
Um longo silêncio se instalou na sala. As paredes pareciam se aproximar, e o ar ficou rarefeito.
O silêncio dele só aumentou a fúria de Priscila, que, num rompante, levantou-se e disse em voz alta:
— Você tem outra família, eu sei! Vi a foto! Preciso de respostas, você me deve uma explicação — continuou, com as lágrimas molhando o rosto.
Francisco, sem encontrar saída, pediu que ela se sentasse e disse:
— Vou te contar tudo, mas, por favor, prometa que vai ficar calma. Eu te amo mais que tudo nesta vida, não posso te perder.
Ela o olhou fixamente, esperando que uma luz iluminasse aquela sala ainda opressora.
— Uso alguns nomes falsos por causa do trabalho que faço. O segundo celular é para o meu chefe entrar em contato comigo em situações especiais; as conversas nesse aparelho não podem ser rastreadas, pois usamos um canal privado. A fotografia é da família do meu parceiro, que morreu em um evento decorrente de um erro meu. Pepé é o cachorro deles. Durante muito tempo, antes de nos conhecermos, eu frequentei bastante essa família; eu era muito amigo do meu parceiro. A morte dele me levou a uma depressão importante, mas eu precisava ser forte para ajudar a viúva e as crianças, e assim segui em frente. Apaixonei-me por você no momento em que te vi na festa do seu primo. Decidi me mudar para cá para ficar mais perto de você, e isso me distanciou deles. A foto foi ela quem mandou, para o endereço do escritório, num pedido discreto de que eu os visitasse, o que acabei fazendo em uma das minhas saídas.
Priscila tentava assimilar todas as informações cuspidas por Francisco. Sentia-se ainda muito confusa e, em silêncio, parecia decodificar tudo e reorientar seus pensamentos. Passados alguns minutos, perguntou:
— Mas, afinal, para onde você vai quando desaparece por semanas?
Francisco permaneceu em silêncio.
— Me responde!
— Você realmente quer saber?
— Quero.
— Talvez, depois que eu te contar, você nunca mais consiga olhar para mim da mesma forma.
— Você trabalha para quem? — perguntou ela, cada vez mais irritada.
— Para pessoas que podem pagar.
— Para fazer o quê?
Com o rosto fortemente enrubescido, ele baixou os olhos e disse:
— Resolver problemas.
— Que tipo de problemas? — perguntou Priscila.
— Pessoas.
Priscila permaneceu calada, quieta, construindo e organizando as informações na mente, até que tudo se clareou:
— Meu Deus, você está dizendo…
— Sim — confirmou Francisco.
— Você mata pessoas!
Francisco não precisava responder, mas acrescentou:
— Eu queria te contar.
— Mentira! — retrucou.
— Não! Eu queria. Todos os dias eu queria.
— Então por que não contou?
— Porque eu sabia que perderia você. E você é a única parte da minha vida que é realmente verdadeira.