FLAGRANTE DO COTIDIANO - Sergio Dalla Vecchia



 FLAGRANTE DO COTIDIANO

Sergio Dalla Vecchia
Já há algum tempo Henrique mascava sua relação com Laura. A conexão com a esposa estava bloqueada. O que ia não voltava e o que vinha dela também não entrava. Além disso, a amizade exagerada com a vizinha Cremilda o incomodava bastante. A sintonia entre as duas era para lá de ajustada. A desarmonia do casal crescia cada vez mais ao ritmo de insultos e blasfêmias, a ponto de Laura ligar para a mãe em prantos e derramar sobre ela toda sua desventura. Entretanto, para aquela madrugada fatídica, Henrique tinha tudo planejado. Não poderia mais suportar tal situação. Com sutileza, induziu Laura a ir para casa da mãe, mesmo naquela hora da noite. O conhecido taxista Hilário foi chamado para fazer o translado com segurança. Avisou a Cremilda que Laura estava partindo e que seria bom ela se despedir. Foi o castigo sentenciado para a protagonista. A participação do evento no meio da rua. Assim, Henrique, com tudo correndo como o planejado, impassível, apenas observava da janela a cena trágica da despedida das duas, tendo como plateia os vizinhos atônitos.

As amigas - Ises de Almeida Abrahamsohn

  



As amigas 

Ises de Almeida Abrahamsohn


Foram os cães e o motor de um carro que a despertaram.  Inusitado, àquela hora da madrugada de quarta-feira, pensou Cremilda.  As noites eram calmas naquela viela de sobradinhos idênticos para onde se mudara há um ano e meio.  Levantou-se e olhou pelas frestas da veneziana. A luz crua do sensor de presença iluminava um táxi e sua amiga Laura arrastando uma pesada mala. Cremilda, aflita, desceu de roupão e a chamou do portão: 

— Laura, querida, o que houve? O que aconteceu? Espere que eu te ajudo… Posso ir com você! Mas ficou sem resposta enquanto Laura entrou na traseira do carro, sem sequer acenar. 

Olhou para cima e, na semiobscuridade, viu Henrique, imóvel, debruçado na janela, observando a cena. Nem uma palavra ou gesto de mão que denotasse seu espírito. Permanecia ali, petrificado, enquanto o carro desaparecia da vista.  Cremilda olhou algumas vezes para a janela na esperança de que ele se manifestasse.  Nada!  A luz do sensor se apagou e ele permanecia ali, apenas a brasa acesa do cigarro denotando a presença. 

Nunca soube que ele fumasse, pensou enquanto subia as escadas de volta ao quarto de dormir.  Também não havia esperado que Laura se decidisse a abandonar Henrique tão cedo. E ainda assim, sem avisá-la.  Mas não ficou surpresa. Apenas magoada por ela não ter avisado e não ter se despedido. Talvez um impulso. Depois de ontem…

Tinha uma boa ideia de onde poderia encontrá-la e, certamente, ela enviaria logo uma mensagem. Já tinham conversado sobre a possibilidade de morarem juntas.  Porém, Laura hesitava em abandonar o marido de sete anos. Afinal, se davam bem. Ele era educado, afável e, segundo Laura, viviam agora um casamento morno. A admiração que sentira por ele desapareceu com o tempo, assim como deixaram de compartilhar interesses e objetivos. Laura era arquiteta, gostava de viajar, conhecer o mundo e pessoas. E gostava e entendia de música clássica, sempre   assistindo a concertos e recitais. 

Henrique, entretanto, aos poucos foi se acomodando a uma vida rotineira e confortável, sem se animar a viajar mais longe que algumas centenas de quilômetros no próprio país.  Não gostava de música clássica e, pior, segundo Laura, seu gosto musical era deplorável.  

Cremilda lembrou quando elas se encontraram pela primeira vez.  Laura foi visitá-la assim que viu o caminhão de mudança descarregar no sobrado em frente ao seu.  Ofereceu-se logo para ajudar na instalação na nova residência.  Fora simpatia à primeira vista.  Cremilda era violoncelista na orquestra sinfônica e havia viajado por vários países a trabalho ou como solista. Tinham tantos interesses em comum!  Passaram a se ver frequentemente quando Laura, após o trabalho, passava para um café e um papo.  A amizade foi ficando mais estreita. Com o tempo e algumas observações de Laura, ficou clara a monotonia da sua vida com o marido.  De fato, ao ser convidada para jantar na casa por Laura, percebeu que Henrique simplesmente não tinha assunto para conversa.  Era absolutamente focado em seu trabalho na área de informática, e os seus divertimentos eram futebol e assistir a filmes policiais americanos ou shows de música sertaneja na televisão.

Cremilda compreendeu a atração que sua própria vida e atividades tinham para Laura.  Lentamente surgiu um afeto crescente por essa mulher de 30 anos, oito anos mais jovem que ela.  Sim, Laura ansiava por uma relação verdadeiramente compartilhada, mas não tinha coragem de se separar e viver a própria vida.  

Cremilda havia tido uma intensa paixão por Joana, um misto de sexo e amizade, que durara dos vinte aos vinte e sete anos.  Terminaram há dez anos; ela sofreu demais com a separação e demorou a se recompor.  Desde então não tivera ninguém.   Agora, encontrara   Laura.   Não era uma paixonite.  Tinha verdadeiro afeto pela amiga, talvez alguma pena e o desejo de que fosse feliz.  E, sim, reconhecia sentir-se atraída pelo rosto juvenil, pelo sorriso franco e pela energia que se desprendia do corpo flexível e ágil. Mas e Laura, o que sentiria? 

Ao falar de si mesma, Cremilda contara da sua intensa ligação com Joana.  Laura a escutou com curiosidade e depois a abraçou com carinho.  Um carinho de amigas… Cremilda não sentiu mais que isso na reação da amiga. Talvez com o tempo, pensou…

E o tempo passou rápido.  Seis meses durante os quais Cremilda e Laura se encontraram frequentemente para longas conversas e idas a concertos e passeios. 

O marido, este devia estar enciumado, porque passou a ignorá-la, não respondia à mínima cortesia e desviava o andar na calçada. 

A música agora deixara de ser o primeiro amor de Cremilda.   Ansiava pelo encontro com Laura, pelas conversas, pela jovialidade e pelos abraços carinhosos e beijinhos a cada despedida.  A imagem da jovem amiga aparecia-lhe enquanto tocava seu instrumento em devaneios sobre carícias mútuas a serem trocadas.  Seus companheiros de orquestra sentiam que andava mais distraída e, às vezes, sorria sem razão aparente. 

Cremilda decidiu dar o primeiro passo.  Era uma tarde de terça-feira quando Laura bateu à porta para o costumeiro papo e café após chegar do escritório de arquitetura.  Ansiosa, Cremilda sentia  coração bater aceleradamente.  Depois de alguma conversa, Cremilda propôs a Laura morarem juntas.  Delicadamente, contou o amor e amizade que sentia por ela e ficou esperando a reação.  Laura apenas a abraçou, dizendo:

— Eu suspeitava, eu suspeitava, minha querida amiga.  Por que tudo na vida tem que ser tão difícil?  

E levantou-se com um breve: 

― Ainda nos falamos!  

Na mesma noite, madrugada de quarta-feira, à uma da manhã, Laura abandonou o marido, carregando sozinha a enorme mala.  O destino era o aeroporto.  A passagem era para Paris, onde viveria os próximos três anos trabalhando na restauração de esculturas.  

Enviou uma mensagem para Cremilda, agradecendo a amizade,   mas que não se sentia à altura para corresponder.

Cremilda e Laura nunca mais se encontraram.


A cor do céu - Carla Di Sessa

 


A cor do céu

Carla Di Sessa


Quando Cecília começou a chorar, uma atendente se aproximou e perguntou se ela não gostaria de tomar um chá, um café ou água. Enxugando as lágrimas do rosto, Cecília sorriu e perguntou:

— Você não teria nada, assim, como vodca, uísque ou um Lexotan?

 A atendente riu, dizendo: 

— Vai passar, vai passar, ela vai se recuperar.

Cecília ouviu aquelas palavras como se fossem vento dissipando nuvens negras de tempestade.

E escolheu acreditar nelas com todas as forças.


Aquela terça-feira havia começado como todas as outras: primeiro a checagem da lição de casa com Isabel, depois a aula de natação, banho e almoço. Cecília checou o relógio e avisou Isabel:

— Ainda dá para você brincar um pouco antes de ir para a escola.

— Então vou até a casa da Mari devolver o estojo que ela me emprestou — disse Isabel.

Mari morava do outro lado da rua e as duas meninas sempre brincavam juntas.

Isabel saiu e Cecília começou a checar a despensa e a geladeira para fazer uma lista de supermercado. Seu celular tocou e ela foi até o quarto para atender.


Há mais de quatro horas, Cecilia estava sentada em uma cadeira dura e desconfortável no corredor de um hospital. Quando indagadas, as assistentes na recepção só diziam que ainda não havia nada a informar e por isso Cecília se dirigiu àquele corredor e sentou-se ali. Ele terminava em duas portas e, acima delas, o luminoso indicava: Centro Cirúrgico. 


Cecília ouviu o barulho da freada enquanto ainda estava no celular. Desligou às pressas e olhou pela janela. Um grupo de pessoas começava a se juntar na rua. Um carro estava parado, um homem, provavelmente o motorista, estava em pé, muito agitado, falando e gesticulando, mas Cecília não conseguia entender as palavras. De repente seu coração se apertou: Isabel!

Do momento em que chegou ao hospital em diante, o tempo havia perdido sua lógica e significado. Uma eternidade havia se passado desde que entrara aos gritos na ala de Emergências. 

Sentada na cadeira dura do corredor inóspito, Cecília revivia o pesadelo: o barulho da freada, o baque surdo, os gritos. Depois, a urgência para chegar ao hospital, seu coração aos saltos, as meias de Isabel manchadas de sangue. A correria no setor de emergência, o barulho da maca rolando pelo corredor e as perguntas sem fim no setor de internações.


Cecília correu para a rua, sentindo uma mão de ferro apertando seu pescoço, a respiração travada, o coração aos pulos. Isabel!

Alguém havia chamado uma ambulância.

— Você é a mãe? Venha conosco, por favor.


Finalmente as portas do Centro Cirúrgico se abriram e a equipe médica apareceu. Um deles foi até ela e informou: estava tudo bem, haviam operado o braço esquerdo e o pé direito, a menina passava bem, mas, por precaução, ficaria na UTI até o dia seguinte. Não havia hemorragias incontroláveis, órgãos perfurados, massa encefálica perdida e mais tudo o que a imaginação e aflição de Cecilia haviam imaginado.


A atendente voltou com um chá e disse:

— Viu? As coisas vão melhorar. Por enquanto só posso te oferecer um chá. A vodca, o uísque e o Lexotan vão ter que esperar. 

Cecília sorriu um pouco e agradeceu.

Olhou pela janela e o céu de outono estava azul, sem nuvem alguma. Bom presságio, pensou Cecília, bom presságio.



De peito aberto - Carla Di Sessa

 


De peito aberto

Carla Di Sessa


Germano ia ser operado, uma cirurgia de coração com o tórax aberto.

Bianca trabalhava para Germano e Juliana há anos. Quando ele deu a notícia, não pôde evitar e pensou: que coração? Aquilo não tinha coração; agir daquela maneira com a esposa, todo mundo sabia e comentava, só Cecília permanecia na ignorância. Diz o ditado: a ignorância é uma bênção. Bênção, uma ova. A fofoca rolando solta e o ignorante em questão com nariz de palhaço. Mas, aqui se faz, aqui se paga, e o desgraçado ia para a mesa de operação. Imagino que deva estar apavorado e, com a culpa pesando nos ombros, devia estar imaginando se havia chegado ou não a sua hora de acertar as contas com Deus…


Juliana andava sem parar, indo e vindo pelo estacionamento do prédio onde ela e Germano tinham um escritório de advocacia. Permanecia alheia aos olhares curiosos enquanto os saltos de seus sapatos batiam no chão de cimento, marcando a sua aflição.  Germano ia ser operado, e agora? Meu Deus, e agora? E se ele morresse? Com que cara iria ao velório e ao enterro? Com cara de quem é a outra, lógico, todo mundo já sabia. Até Cecília, com aquela placidez, devia saber que Germano não era lá muito cuidadoso e devia ter deixado escapar alguma coisa aqui e ali. 


Sentiu o medo apertar o coração e gelar suas mãos. E o que iria fazer com todo aquele amor se ele não estivesse mais ali? Fechou os olhos e pediu: “Meu Deus, protege, cuida, acompanha!”


Cecília recebeu a notícia e se levantou para preparar bebidas para os dois. Ficou em dúvida entre vinho ou uísque e achou que a situação estava mais para um uísque. Germano continuou a falar, explicando o procedimento, os preparos, a data e o pós-operatório. Estava nervoso, torcendo as mãos. Bem-feito! Ela pensou, sentindo um certo prazer em ver o estado dele. Então parou e pensou o impensável: tomara que morra! As pedras de gelo caíram, fazendo barulho nos copos. Seria uma solução, não seria? Haveria o velório, o enterro, muitas lágrimas, de alívio ou de tristeza, tanto faz, e depois ela se veria livre desse aborrecimento. Ela entregou a bebida para Germano e tomou um gole da sua. Seria perfeito. Mas vaso ruim não quebra, pensou, já meio arrependida. Não queria que seus filhos perdessem o pai, não queria uma mudança desse calibre na sua vida. É preciso enfrentar certas ondas para a embarcação continuar no seu rumo. Suspirou e tomou um bom gole do seu uísque.


Germano saiu do consultório do médico um tanto abalado. Seu coração nunca havia sido assim uma maravilha, mas cirurgia? De peito aberto? O médico havia afirmado que “uma cirurgia assim, hoje em dia, era consideravelmente segura devido aos avanços da medicina moderna”. Tá bom, vai nessa, pensou Germano. Mas não tinha escolha; se não operasse, ia ser Game Over, como dizem os adolescentes. Pensou em Juliana, tão suave e sensível; ela ia arregalar os olhos e se fazer de durona, mas ele sabia que, por dentro, estaria sendo engolida por um turbilhão. Tão valente!  Já Cecília iria imediatamente começar a organizar as coisas, assegurando que ele fizesse tudo direito, providenciando para que tudo fluísse com precisão. Sempre podia contar com ela em momentos assim, uma rocha.  Mas, em outros momentos, ele bem que gostaria que ela fosse menos rocha.


Bianca desligou o telefone e continuou o seu trabalho. Enfim, a operação havia sido um sucesso e o safado estaria de volta em algumas semanas. 


Juliana desligou o telefone e agradeceu baixinho: “Meu Deus, obrigada, obrigada!”


Cecília ouviu o médico dar a boa notícia, tendo sido abraçada pelos filhos, que comemoravam o sucesso da cirurgia. Tudo estava sob controle, como ela gostava.


Diferentes pontos de vista - Yara Mourão

 


Diferentes pontos de vista

Yara Mourão


Laura

Há muito o cotidiano lhe causava estranheza. Não era algo em particular, mas uma sensação contínua de “déjà vu”; os mesmos tons e os mesmos sons do dia, da noite, da vida insossa e congelada.

Não houve muitos planos nem cálculos rabiscados numa folha de papel. Houve uma certeza de partir, deixar para trás tudo o que não fosse ela mesma, suas mágoas, seus anseios.

Laura partiu de madrugada para não fazer alarde; com um destino incerto, para longe de casa, de Henrique, de anos de uma clausura interior.

Ninguém para se despedir; ninguém para encontrar. Só ela. Ela só.


Henrique

Henrique, da janela, viu os passos do adeus. Laura, assim silenciosa, partia sem volta; ele bem o sabia.

Apesar de buscar pistas e provas, sem nunca encontrar nada, ele tinha certeza de que ela o traía. Certamente havia um amor escondido que a levava para longe dele.

Tantos foram os momentos desperdiçados, as emoções abortadas, tudo de que se compõe uma traição amorosa. Agora ele tinha certeza. Ela partia para os braços de outro alguém, no meio da noite, noite estranhamente gêmea de sua alma infeliz.


Dona Clarinha 

Mãe não dorme quando o filho chama, e também não dorme quando o filho não chama. E dona Clarinha sabia que sua filha estava no limiar do bom senso, do autodomínio, cheia de mágoas que a sufocavam há tempos.

Por isso ligou para ela naquela madrugada quente, sentindo o que toda mãe sente longe do filho: que ele está precisando de cuidado, de socorro, da sua presença. Por isso ligou para ela.

Mas nem sempre os filhos respondem às mães.


Cremilda

O que não apareceu nas mensagens do celular deixou Cremilda muito ansiosa. Laura andava lacônica. Não era o melhor perfil de sua amiga. Devia haver algo que só poderia ser dito pessoalmente.

Pelo que sabia, Laura tinha saúde frágil, lutava contra repetidas infecções.

Nessa noite, Cremilda acordou sobressaltada: e se Laura estivesse com uma doença incurável? Teria tido um diagnóstico maligno? 

Sentiu uma urgência em estar com a amiga, ainda que fosse de madrugada.

Levantou-se, correu à janela e viu Laura saindo para um táxi. “Meu Deus!”, pensou. “Estaria indo para o hospital?” Sem pestanejar, desceu rápido à rua para falar com a amiga.


Hilário

Hilário era um taxista da madrugada. Adorava trabalhar nos horários improváveis. Conversador, gostava de falar durante o trabalho, fazendo perguntas aos passageiros, pois isso o tornava, depois, um grande contador de casos.

Nessa madrugada, indo pegar uma passageira para o aeroporto, costurou os detalhes de uma cena para formar sua próxima história.

Enquanto Laura se dirigia para o carro, percebeu um homem na janela com os olhos voltados para a mulher. “Amantes!”, pensou. E ela saindo entre culpada e aliviada, enquanto reparou uma pessoa correndo em direção a ela. “É a esposa traída!” concluiu.

E, convicto de que teria uma bela história para contar no dia seguinte, entrou no carro e acelerou para o aeroporto.


O destino de Rute - Isabella Brancher




O destino de Rute

Isabella Brancher


Até que, em um dia em que finalmente Rute teve coragem de entrar na casa. “É ele mesmo.” O retrato dele estava na parede.

Dias antes dessa descoberta, Rute estava passeando pela cidade onde sua mãe havia nascido e encontrou na rua principal vários carros de polícia e uma ambulância em frente à casa amarela com 7 janelas. A casa amarela com 7 janelas havia sido tema de muitas histórias que a mãe de Rute lhe contara na sua infância. Essas narrativas despertaram nela uma curiosidade sombria, daquelas que desabrocham em um interesse, mas ao mesmo tempo mantêm uma distância, pelo medo do desconhecido. 

Os policiais e paramédicos estavam ali, pois o Comendador Freitas havia sido encontrado sem vida em seus aposentos no terceiro andar. Seu criado José, fiel mordomo de muitos anos, o havia encontrado caído sobre uma poltrona a caminho do banheiro. Rute, surpresa com a movimentação, pergunta a um dos policiais:

 — O que aconteceu? 

O homem que deveria regular em idade com sua mãe se engasga ao observar Rute; sua semelhança com Maria era surpreendente, responde após um breve silêncio:

— Você não o conhece? 

O policial pareceu estudá-la por alguns segundos antes de completar: 

— O Comendador Freitas morreu.

Comendador Freitas era um fazendeiro riquíssimo, praticamente dono da cidade. Um homem mau, sem escrúpulos, que havia trazido tristeza até para a sua família. A sua filha, Maria, que se apaixonara por Rafael, um capataz, sofreu por anos com a pressão do pai, que a submetia a todo tipo de humilhação. Várias vezes Rafael tentara interceder, mas o Comendador usava todo o seu poder para segurar seu capataz e sua filha sob seu impiedoso domínio.

Um dia, Maria, sabendo que estava grávida do capataz, fez uma pequena mala, juntou alguns objetos e umas poucas lembranças da casa e sumiu. Havia fugido por puro desespero, preferia abdicar do luxo e conforto. Não queria que seu filho crescesse e vivesse sob a influência doentia do avô.

Quando o Comendador se deu conta da ausência da filha, chamou Rafael. Ele estava nas cocheiras, mas largou imediatamente o que fazia e foi, prontamente, ver o que o patrão queria. Rafael jurou por sua mãe que não sabia do paradeiro de Maria, e não sabia mesmo, pois se a filha o tivesse informado, saberia que o pai a encontraria.

— Rafael, como você não sabe onde foi Maria? Perguntou Freitas

— Não sei mesmo; se soubesse, já teria ido buscá-la.

Um clima de tensão e revolta se instalou na sala. Rafael sentiu um frio percorrer o corpo. Conhecia o temperamento do patrão e sabia que aquela conversa não terminaria bem. A raiva do patrão percorrendo seu ventre. Ele havia crescido na fazenda. Agora, com a mãe doente, estava totalmente aprisionado, pois o Comendador, sabendo da condição da sua mãe, o mantinha ainda mais tensionado. 

A ausência de Maria ao seu lado fazia a convivência com o Comendador um martírio; os dias eram longos, e as solicitações inúmeras desgastavam Rafael ao extremo. Tanto Comendador quanto sua mãe estavam envelhecendo e, em Rafael, os cabelos grisalhos já traziam as marcas do tempo. 

Um dia, desencantando-se com a vida, tomou a decisão de terminar seu sofrimento; queria encontrar a qualquer custo uma saída razoável para a sua vida. Ainda tinha alguns anos pela frente e o que mais queria era reencontrar Maria, seu grande amor. 

Naquela manhã, após voltar da cavalgada com sua égua, decidiu que pediria demissão de seu cargo, já que agora não tinha mais sua mãe a acorrentá-lo na fazenda. Chegando à casa amarela de sete janelas, encontrou aquele movimento em frente à rua. 

Entrou e soube do acontecido. Agora estava livre, precisaria apenas ajudar a organizar as atividades da casa e dar continuidade ao pedido do Comendador de abrir a casa para visitação.

Semanas depois da morte do Comendador, Rute decide conhecer o interior da casa amarela, tão presente nas histórias que sua mãe lhe contava. O corredor estava exatamente como ela imaginara. As paredes escuras, a escadaria central, as janelas altas. Era estranho visitar pela primeira vez um lugar que parecia já habitar sua memória. Naquele dia, não precisou perguntar quem era o homem retratado. Reconheceu imediatamente os traços de sua mãe e se deu conta de que o Comendador Freitas era, na verdade, seu avô.


Até que, em um dia em que finalmente Rute teve coragem de entrar na casa. “É ele mesmo.” O retrato dele estava na parede.

Dias antes dessa descoberta, Rute estava passeando pela cidade onde sua mãe havia nascido e encontrou na rua principal vários carros de polícia e uma ambulância em frente à casa amarela com 7 janelas. A casa amarela com 7 janelas havia sido tema de muitas histórias que a mãe de Rute lhe contara na sua infância. Essas narrativas despertaram nela uma curiosidade sombria, daquelas que desabrocham em um interesse, mas ao mesmo tempo mantêm uma distância, pelo medo do desconhecido. 

Os policiais e paramédicos estavam ali, pois o Comendador Freitas havia sido encontrado sem vida em seus aposentos no terceiro andar. Seu criado José, fiel mordomo de muitos anos, o havia encontrado caído sobre uma poltrona a caminho do banheiro. Rute, surpresa com a movimentação, pergunta a um dos policiais:

 — O que aconteceu? 

O homem que deveria regular em idade com sua mãe se engasga ao observar Rute; sua semelhança com Maria era surpreendente, responde após um breve silêncio:

— Você não o conhece? 

O policial pareceu estudá-la por alguns segundos antes de completar: 

— O comendador Freitas morreu.

Comendador Freitas era um fazendeiro riquíssimo, praticamente dono da cidade. Um homem mau, sem escrúpulos, que havia trazido tristeza até para a sua família. A sua filha, Maria, que se apaixonara por Rafael, um capataz, sofreu por anos com a pressão do pai, que a submetia a todo tipo de humilhação. Várias vezes Rafael tentara interceder, mas o Comendador usava todo o seu poder para segurar seu capataz e sua filha sob seu impiedoso domínio.

Um dia, Maria, sabendo que estava grávida do capataz, fez uma pequena mala, juntou alguns objetos e umas poucas lembranças da casa e sumiu. Havia fugido por puro desespero, preferia abdicar do luxo e conforto. Não queria que seu filho crescesse e vivesse sob a influência doentia do avô.

Quando o Comendador se deu conta da ausência da filha, chamou Rafael. Ele estava nas cocheiras, mas largou imediatamente o que fazia e foi, prontamente, ver o que o patrão queria. Rafael jurou por sua mãe que não sabia do paradeiro de Maria, e não sabia mesmo, pois se a filha o tivesse informado, saberia que o pai a encontraria.

— Rafael, como você não sabe onde foi Maria? Perguntou Freitas

— Não sei mesmo; se soubesse, já teria ido buscá-la.

Um clima de tensão e revolta se instalou na sala. Rafael sentiu um frio percorrer o corpo. Conhecia o temperamento do patrão e sabia que aquela conversa não terminaria bem. A raiva do patrão percorrendo seu ventre. Ele havia crescido na fazenda. Agora, com a mãe doente, estava totalmente aprisionado, pois o Comendador, sabendo da condição da sua mãe, o mantinha ainda mais tensionado. 

A ausência de Maria ao seu lado fazia a convivência com o Comendador um martírio; os dias eram longos, e as solicitações inúmeras desgastavam Rafael ao extremo. Tanto Comendador quanto sua mãe estavam envelhecendo e, em Rafael, os cabelos grisalhos já traziam as marcas do tempo. 

Um dia, desencantando-se com a vida, tomou a decisão de terminar seu sofrimento; queria encontrar a qualquer custo uma saída razoável para a sua vida. Ainda tinha alguns anos pela frente e o que mais queria era reencontrar Maria, seu grande amor. 

Naquela manhã, após voltar da cavalgada com sua égua, decidiu que pediria demissão de seu cargo, já que agora não tinha mais sua mãe a acorrentá-lo na fazenda. Chegando à casa amarela de sete janelas, encontrou aquele movimento em frente à rua. 

Entrou e soube do acontecido. Agora estava livre, precisaria apenas ajudar a organizar as atividades da casa e dar continuidade ao pedido do Comendador de abrir a casa para visitação.

Semanas depois da morte do Comendador, Rute decide conhecer o interior da casa amarela, tão presente nas histórias que sua mãe lhe contava. O corredor estava exatamente como ela imaginara. As paredes escuras, a escadaria central, as janelas altas. Era estranho visitar pela primeira vez um lugar que parecia já habitar sua memória. Naquele dia, não precisou perguntar quem era o homem retratado. Reconheceu imediatamente os traços de sua mãe e se deu conta de que o Comendador Freitas era, na verdade, seu avô.


Sala de Operações - Carla Di Sessa

 



Sala de Operações

Carla Di Sessa


Há mais de quatro horas, Cecília está sentada em uma cadeira dura e desconfortável no corredor de um hospital. Quando indagadas, as assistentes na recepção só dizem que ainda não há nada a informar e, por isso, Cecília se dirigiu àquele corredor e sentou-se ali. Ele termina em duas portas e, acima delas, o luminoso indica: Centro Cirúrgico. Atrás daquelas portas, em alguma das salas, está a menina que Cecília havia trazido inconsciente e ensanguentada para o hospital.

Do momento em que chegou ao hospital em diante, o tempo perdeu sua lógica e significado. Uma eternidade havia se passado desde que entrara aos gritos na ala de Emergências. 

No corredor inóspito, Cecília revivia o pesadelo: o barulho da freada, o baque surdo, os gritos. Depois, a urgência para chegar ao hospital, seu coração aos saltos, as mãos do motorista agarradas ao volante. A correria no setor de Emergência, o barulho da maca rolando pelo corredor e as perguntas sem fim no setor de internações.

Finalmente, as portas se abriram e a equipe médica apareceu. Um deles foi até ela e informou: estava tudo bem, haviam operado o braço esquerdo e o pé direito, a menina passava bem, mas ficaria na UTI até o dia seguinte, por precaução. Não havia hemorragias incontroláveis, órgãos perfurados, massa encefálica perdida e mais tudo o que a imaginação e aflição de Cecília tinha imaginado.

Ela começou a chorar e uma enfermeira se aproximou, levando-a para longe da equipe médica. Solícita, a enfermeira ofereceu chá, café, água, mas Cecília pediu vodca, uísque, Lexotan. A enfermeira riu e disse que às vezes ela também queria. 

Vai passar, ela disse, vai passar, ela vai se recuperar.

Cecília ouviu aquelas palavras como se fossem vento dissipando nuvens negras de tempestade.

E escolheu acreditar com toda força nelas.


C’est la vie… - Carla Di Sessa

 



C’est la vie…

Carla Di Sessa


A vida sabe se divertir, Cecília pensou enquanto esperava pacientemente na fila do caixa do supermercado. Tinha dois carrinhos abarrotados enquanto seu marido cuidava de mais dois e o filho mais velho deles se apoiava em um quinto, cheio de produtos de limpeza.

Cecília e Artur se conheceram no clube, na piscina infantil. Ele, viúvo e pai de 3 filhos, ela separada, mãe de dois. Acabaram se casando e ela engravidou, aumentando de 5 para 6 o número de crianças que amavam e tentavam levar no morde/assopra. Era preciso ter regras, impor limites, fazer cara feia, mas também abraçar, consolar, conversar e tentar entender. 

Seis filhos já eram mais do que suficientes. Artur brincava que todo mundo pensava duas vezes antes de convidar a família deles para jantar. Mas a vida tem muita imaginação e adora reviravoltas.

O segundo filho de Artur queria um cachorro e conseguiu a adesão de todos os irmãos na empreitada. Após muita negociação para distribuir as tarefas que esse pet traria, foram todos a um abrigo e se apaixonaram por um desses vira-latas pretos de pernas finas e rabo comprido. Cecilia reparou que duas meninas observavam de longe seus filhos brincando com o cachorro e perguntou para a atendente quem eram. 

— Aquelas garotinhas são a Mara e a Rafa. São irmãs e sempre vêm aqui brincar com esse cachorro enquanto ele não é adotado.

Cecilia e Artur olharam para as duas meninas, uma agarrada à outra.

— Onde elas moram? Artur perguntou.

— Em uma Casa de Acolhimento. Eles sempre trazem as crianças aqui, é bom para elas e para os bichinhos.

— Vocês vão levar o Tufão embora?  Perguntou uma delas.

A vida já devia estar com a pipoca pronta, esperando os próximos capítulos, pensou Cecília.

Mara e Rafa passaram a frequentar a casa deles depois que Tufão foi morar lá. No começo, se mostravam retraídas, só se soltavam quando viam Tufão e começavam a brincar. Com o tempo, foram ganhando confiança e ficando à vontade com as outras crianças, mas ainda guardavam alguma reserva com Cecília e Artur. Um dia, Mara não veio, estava gripada, com febre e dor de garganta, contou Rafa. 

— Então ela deve estar precisando de bolo de cenoura, disse Artur e chamou a criançada para a cozinha.

— Operação Bolo de Cenoura Cura Tudo! Gritaram.

E o delicioso caos de cozinhar com todas aquelas crianças começou. Rafa participou de tudo, quebrando um dos ovos, revezando para mexer a massa e jogando farinha na forma untada de manteiga.

Depois do almoço, levaram Rafa de volta para a Casa de Acolhimento e aproveitaram para entregar o bolo. Queriam ver Mara, mas a coordenadora disse que ela estava dormindo. 

— Ela está precisando descansar, explicou.

— Pode deixar, eu entrego o bolo para ela, disse Rafa, e digo que vocês todos vieram aqui para visitar.

Naquela noite, Cecília e Artur conversaram longamente, fizeram contas, repensaram o espaço da casa e decidiram.

E assim, após cumpridas todas as formalidades, Mara e Rafa entraram para a família, subindo para 8 o número de filhos.

— Agora é que ninguém convida a gente nem para um café! Comentou Artur, abraçando Cecília enquanto olhavam as oito crianças brincando juntas no parque com Tufão.

Pois é, pensou Cecília. Eu adorava assistir “Doze é Demais” e “Os Seus, Os Meus e os Nossos” quando era adolescente, mas eu sempre quis ser um dos filhos, mas a vida, com seu senso de humor duvidoso, me colocou neste outro papel.  Tudo bem, divirta-se, Dona Vida, que eu, além de ocupada e às vezes estressada, com certeza vou me divertir!



CHICOTE - Sergio Dalla Vecchia

 



CHICOTE

Sergio Dalla Vecchia


É a designação de um artefato feito com uma trança de tiras de couro atadas a um cabo de madeira ou couro, utilizado para causar dor, quando aplicado no corpo do homem ou animal, desde 3000 AC.

Os homens inventaram tal instrumento como ferramenta no auxilio nas obrigações e deveres de sobrevivência.

Mas provocar dor é auxilio para a sobrevivência? 

Aí é que pode existir um paradigma!

Depende de quem manuseia o chicote.

Cada criatura carrega seu DNA que a induz à certos comportamentos enraizados no seu modo de viver. Umas proativas, outras nem tanto, muitas rebeldes e outras com mau caráter nato.

Pensando no conjunto e no bem das comunidades, a produtividade foi essencial para o progresso dos povos.

Os governantes assim entenderam e desde os primórdios buscaram o progresso com disciplina e ordem, daí o emprego até hoje da ferramenta chicote!

A mão detentora do chicote, dependendo da sua índole, pode aplicar o açoite direto na carne, como apenas ameaçar e ou apenas mantê-lo, para que todos saibam que tem o poder e com isso utiliza-lo como moeda de troca nos seus objetivos.

Sabendo-se que o artesão que o confeccionou, o homem que o manuseia e o corpo que será chicoteado fazem parte da mesma comunidade que sobreviveu socialmente até hoje, com suas falhas e seus méritos.


Coruja - Sergio Dalla Vecchia

 



CORUJA

Sergio Dalla Vecchia


O dia cansou, e a noite, espreguiçando-se, abriu os olhos.

Uma coruja, empoleirada em um mourão de cerca, mostrava-se em postura soberba. Penas cinzas e amarelas mescladas camuflavam a hábil predadora. Escondiam as garras afiadas e um bico curvado para baixo, típico das aves de rapina que perfuram e arrancam nacos do corpo da presa.

Olhos grandes, em constante vigília, rastreavam o ambiente, enquanto a cabeça girava de um lado para o outro, chegando a uma torção de até 240 graus. Nada escapava daquela varredura, ainda mais com a aguçada sensibilidade auditiva das corujas.

Assim foi dada a partida para mais uma sessão de caça da faminta ave.

Após algum tempo em busca de comida, os olhos fixaram-se em uma direção e... Zaz!

Asas silenciosas bateram em direção à vítima. Era um pequeno rato do mato.

O pequenino não teve tempo para nada. Apenas sentiu as garras cravarem-se em seu dorso. Já com o ratinho preso, a coruja logo alçou voo de retorno ao mourão onde estivera.

Certificada de que não havia nenhum inimigo por perto, iniciou a refeição com uma forte bicada e engoliu a pequena presa quase de uma só vez.

Engolir pequenos animais inteiros é uma característica das corujas. Os restos que o estômago não consegue digerir são posteriormente regurgitados, encapsulados em pequenas bolas.

Satisfeita, retomou sua postura altiva, observando, ociosamente, o mundo da sobrevivência.


MÃE E FILHO TORCENDO PELO BRASIL - Suzana da Cunha Lima

 




MÃE E FILHO TORCENDO PELO BRASIL

Suzana da Cunha Lima


(A mãe teve um ataque cardíaco e não pode se emocionar.)

— Oi filhote. Já estou sentada e com a TV ligada para ver o jogo. Ainda estou com a pressão 18/6, mas medicada. Como é?

— Vou ver o jogo sim senhor, e o coração que se dane!

— Mãe... Fica tranquila aí e qualquer coisa me chama. 

(Jogo se arrasta – só chutinho pra lá e pra cá)

— Nunca vi o Brasil jogar tão mal... O Marrocos acabou de fazer um gol. O gol vazio, acho que o goleiro foi tomar um cafezinho, hahaha.

— Mãe, não é hora de graça. Goleiro tomar cafezinho em pleno jogo, é F...  Pelo visto o Brasil se esqueceu de entrar em campo. Marrocos não perdoou. Gol sem ninguém marcando dá até vergonha. Eu estou P....

— 1 a zero nos primeiros minutos...Por isso é que sempre fui marroquina, desde menina.

— Desde menina... Está explicado então. Mas com esse futebol, estou quase trocando de lado.  Marrocos jogando sério e o Brasil dormindo. Se continuar assim vai ser teste pro coração mesmo, hein, mãe? Mas no fundo a gente sabe que você sofre é pelo Brasil.

— Estou tentando controlar as emoções, mas daqui a pouco vou soltar todos os palavrões que sei. Opa! Opa! Não acredito... É GOL! GOL! GOLLLLL!!!!

— GOLLLLLL  GOLLLL! Me segura, é do Vini Jr.!!!

— Aí Vininho!  Aí, garoto ! Acho que meu coração entrou em estado de euforia letal.

— De onde você tirou isso?  Ainda bem que o Vininho nos salvou. Sabia que o garoto ia resolver. 1x1, o jogo voltou. Agora o coração bate mais aliviado. VAMO BRASIL!

— Pois é, antes do gol, ia sair BASTARDOS... mas ficou na garganta.

— Ainda bem que ficou na garganta. Melhor soltar um Gooool do que palavrão, não é mãe? E aí, que acha? O Brasil acordou depois do empate ou voltou pro cafezinho?

—  Ainda está uma M...

— Putz, voltou pra M... então. Vivi Jr  deu esperança mas o resto do time não entendeu o recado né? Paciência, mãe. Respira fundo e guarda os palavrões para o segundo tempo. Quem sabe sai mais um gol e salva a noite.

— Os caras nem falam mais português, só Dollaresh. Estou guardando os palavrões porque sou uma dama.

— Hahahaha... Dollaresh é ótima. Jogar bola que é bom nada, mas o Pix cai no holerite,  bonitinho,  né mãe?  Tá difícil ser elegante com esse futebol.  Guarda esse vocabulário bem guardado que o jogo ainda não acabou. 

— Aí meu coração sai do peito e você vai ter que andar de ambulância comigo. De onde eles cataram esses jogadores? Do time de golfe?

— Hahaha Só pode ser. Só dão toque de ladinho e nada de correr. Se seu coração sair do peito avisa que eu já ligo pra ambulância aqui. Mas tenta manter ele no lugar até o apito final, tá?  Nada de palavrão! Sofra, mas com elegância!

— Olha lá, olha lá! Nosso goleiro bonitão fez uma bela defesa! Suspira: mas acabamos de perder um escanteio.

— Pelo menos o goleiro bonitão tá trabalhando, né? Fazer defesa bonita e perder escanteio besta: resumo da seleção hoje. E aí, o coração tá aguentando?

— Está aguentando na base daquela Novalgina de grife que você comprou em boa hora. Mas confesso que olhar o Allyson jogando é o melhor remédio. O homem hoje está lindo com aqueles cabelos esvoaçantes.  Mas, pera aí, ele não era louro?

— Sei, lá, mãe...Sou lá de ficar olhando cabelos esvoaçantes de homem? Já vi que a Novalgina de grife está fazendo efeito. Toma mais uma dose por precaução que agora vem o intervalo. Capaz do Lancelotti pegar o chicote e colocar esta turma nos eixos. Mas ainda tem uns minutos pra passar raiva.  Segura aí.

— Tenho esperanças que as chicotadas do técnico resolvam. Vão de bunda quente, mas façam gol.

— Hahaha tomara que as chicotadas funcionem mesmo. Pelo menos que faça eles correrem mais.  Do jeito que tá, parece que tão de chinelo no domingo de folga.  Acorda, turma, isso aqui é a Copa do Mundo!

— Agora no replay é que vi de perto o gol do Vininho. Uma obra de arte!  Desde menino que eu sabia que ele ia dar para o ofício.

— E, Vininho era do seu tempo? Você sempre foi vidente? Vininho sempre deu pro ofício mesmo e ainda salva a gente de enfartar no sofá.  O resto que aprenda com o menino. A Novalgina de grife foi boa, mas gol do Vini Jr é remédio melhor ainda né?  Sofre não, mãe.  Temos um craque no campo!

— Graças a Deus e não fica caindo toda hora que nem manga madura.  Time sem craque é como pelada em periferia.

— Falou tudo, mãe.   Time sem craque vira pelada mesmo.  Só chutão e gritaria.  Ainda bem que a gente AGORA tem o nosso. 

— Que sufoco ... E esse jogo não acaba nunca?

—  Pronto, acabou. Empate de 1x1, com este time? Acho que Deus é brasileiro mesmo...


FIM


 


TEXTO ESCRITO DURANTE O JOGO pela Copa – 13/06/2026 (nos EUA)

 BRASIL X MARROCOS QUE FICOU 1 X 1

Suzana da Cunha Lima e sua IA (Lia)


DOMINGO CONVIDATIVO - Sergio Dalla Vecchia




DOMINGO CONVIDATIVO

Sergio Dalla Vecchia


Rodrigo pulou da cama as 5h da manhã daquele domingo tão esperado. Eufórico, sugou um copo de leite gelado, engoliu um pão com queijo, juntou a mochila montada na véspera e partiu para aproveitar o domingo que tinha previsão de tempo bom. O plano era percorrer uma trilha na reserva florestal próxima à sua cidade. Haviam promessas de cachoeira para lavar a alma, vista de macacos pulando em bando pelas copas das árvores, cigarras cantando e pássaros colorindo o ambiente.

Nessa expectativa chegou ao ponto de partida da trilha, onde havia um estacionamento e um barraco chamado de bar.

Enquanto olhava a placa com o mapa não percebeu a presença de uma moça, que logo fez-se notar pelo perfume e magnetismo vibrante.

─ Oi, bom dia, você vai encarar a trilha?

─ Sim, já estou de partida e você também vai?

─ Pretendo, mas agora bateu um medo de enfrentá-la sozinha.

─ Ora, se for só por isso venha comigo. Tenho experiência em trilhas e posso ajudá-la.

Após alguns segundos de hesitação, Mariana sorriu. O desejo de aventura falou mais alto e ela respondeu:

─ Se você me aceitar irei com você, não posso deixar passar essa oportunidade.

─ Que legal então, meu nome é Rodrigo e seu, qual é?

─ Muito prazer, Mariana.

─ Já que agora nos conhecemos vamos para a trilha de uma vez!

Rodrigo partiu à frente seguido de perto por Mariana.

A manhã se livrou das cobertas de névoa e mostrou toda sua luz.

Os sons vivos da floresta substituíam em muito para melhor as músicas urbanas dos celulares.

O casal recém-formado entrou em sintonia em marcha cadenciada.

Rodrigo tinha como principal objetivo chegar ao lago da cachoeira. Isso era fácil pela sua experiência. O difícil, idealizava ele, era como convencer Mariana a nadar com ele.

Mariana, por sua vez, ainda mantinha certa cautela, embora ela tenha tido uma boa impressão dele durante diálogos pela trilha. Entretanto ele era bonitão e lhe causava atração física, podendo interferir na balança do bom senso.

Sol quase da vertical, indicava que era perto de meio dia e significada pelo planejamento de Rodrigo que a cachoeira estava próxima, dava até para ouvir o som das águas em queda.

Enfim chegaram.

Rodrigo logo escolheu um lugar adequado para descansarem, nadarem se fosse o caso e depois comerem os suprimentos das mochilas.

Já fazia calor e os dois ainda ofegantes transpiravam hormônios.. Rodrigo propositalmente pediu licença para tirar a camisa e ela, também acalorada, resolveu tirar a blusa ficando de bustiê.

Assim o casal se hidratou e degustou uma barra de cereais.

Já descansados, Rodrigo criou coragem e disse para Mariana que estava muito calor e que iria dar um mergulho, contando ansioso por uma resposta dizendo que o acompanharia.

Ela ficou pensativa e respondeu para que ele fosse e ela ficaria tomando sol.

Não era bem o que Rodrigo esperava, então apelou para o plano B. Causar medo!

─ Mariana, não é seguro você ficar sozinha, há relados de ataques de javaporcos andando por ai e eles são muito ferozes.

─ Eles podem nos atacar? Perguntou ela assustada.

─ Sim, acho melhor você entrar no lago comigo, lá dentro fica mais difícil para eles, caso apareçam também há uma pedra alta, onde poderemos nos abrigar, pois eles não conseguem escalar.

O plano deu certo!

Entraram no lago, ela assustada não desgrudava dele e assim foram se abraçando, ela se acalmando e logo surgiu a primeira carícia. 

Aconteceu que Mariana abraçada percebeu por sobre o ombro de Rodrigo um movimento atrás de uma moita nas margens.

─ Rodrigo tem alguma coisa se mexendo atrás de uma moita lá na beira do lago. Será o javaporco, disse ela assustada e se apertando mais no abraço. Estou com medo!

Ele virou-se e não viu nada. Convicto que não era nenhum javaporco, pois nunca houve nenhum relato deles por ali. Foi uma inocente tática de guerra para uma bela conquista.

Não deu atenção ao fato e logo recomeçaram as carícias até que Mariana novamente percebeu o movimento da moita.

─ Olhe lá, de novo, tem alguma coisa na moita.

Agora Rodrigo se preocupou. Virou-se rápido e também percebeu a moita mexendo.

Nesse momento eram dois corações acelerados no meio do lago.

Que será isso, uma pessoa, um bicho? Pensava Rodrigo preocupado. 

O que fazer? Sairiam da água e enfrentariam seja lá o que fosse ou aguardariam mais um pouco!

Optaram por ficarem ali, com olhos nas margens e ouvidos atentos.

Mariana apavorada jurava que era um javaporco, chegou até a descrevê-lo, tamanha a imaginação sob pressão.

Assim ficaram quase uma hora no lago, mãos enrugadas e frias.

O movimento na moita pareceu sossegar, dai criaram coragem e saíram tremendo de frio e medo. Chegaram no local do acampamento e só aí perceberam que as mochilas haviam sumido!

E agora, os dois seminus, ele de cueca, ela de calcinha e bustiê, sem nada para comer ou vestir. Nem os celulares ficaram! 

─ Fomos roubados, como pode isso acontecer num parque estadual, chorava e esperneava Mariana.

Rodrigo supresso e inconformado saiu em busca de vestígios. Coração pulsando forte, mente a mil esperando uma surpresa a cada moita que vistoriasse e nada de vestígios pelos arredores!

Achou por bem desistir da aventura, pegar Mariana e voltar o mais rápido para o estacionamento do início da trilha.

Assim foram voltando, cada ruído, cada galho mexendo era mais um susto nos aflitos corações.

Logo escutaram um barulhão, gritos, chiados nas agitadas copas das arvores. Mais assustados ainda por presenciaram uma briga de bandos de macacos. Estavam alucinados, pareciam estar disputando algo importante, tamanha confusão. Caiam galhos e coisas lá do alto.

Os dois saíram correndo protegendo as cabeças com as mãos até que tropeçaram numa mochila aberta esparramada pela trilha.

Atordoados com a situação logo pegaram a mochila e identificaram como sendo de Mariana. Menos mal pensou ela, mas cadê o resto seus macacos ladrões, joguem o resto. Gritou desesperada, já entendendo que foram os macacos que os roubaram.

Mas adiante surgiu o celular do Rodrigo, vidro quebrado, mas funcionando.

Continuaram voltando recolhendo cacos dos objetos descartados na briga do bando.

Cansados e conformados com o infortúnio da aventura foram se aproximando do barraco bar do estacionamento. Quando do nada, avançou um porco sobre eles, mostrando dentes afiados e aquele grunhido típico dos porcos.

A única reação do casal foi a de se jogar para dentro do bar pelo balcão que dava frente para o estacionamento, escapando do ataque iminente. 

Caíram de qualquer jeito dentro do bar e deram de cara com seu Antônio gritando:

─ O que é isso, vocês são malucos? 

Mariana logo explicou que fugiram do ataque do javaporco que estava lá fora, por isso se atiraram para dentro do bar.

─ Que javaporco que nada, vocês viram um porco que encomendei de um sitiante para o natal. Ele está amarrado por uma pata traseira no poste e não poderia morder vocês.

─ Ah! esses jovens metidos a aventureiros deveriam ficar em casa namorando em vez de me causar aborrecimento. Vamos, levantem logo daí, ordenou sr. Antônio!

Rodrigo e Mariana já em pé, envergonhados pela nudez e pela decepção, se abraçaram como se namorassem há tempos. Choraram baixinho pelo controverso final daquele domingo convidativo. 


No Meio do Caminho - Yara Mourão

 





No Meio do Caminho

Yara Mourão


Na mata fechada, o brilho do sol iluminava partes do caminho, abrindo uma fresta de esperança aos olhos dos trilheiros.

Eva seguia, já ofegante, atrás de Denis, com passos hesitantes e num fio de voz expressando seu desassossego: 

— Parece uma estrada para o além!

— Mas é só um pedaço de terra cercado de verde por todos os lados, Eva. Muito intenso, muito tenso, tudo junto! 

 Denis comentou, ainda tranquilo.

Ele seguia à frente, passos largos e firmes, como se fosse um conhecedor do trajeto.

Entretanto, eles não eram parte de um grupo, porém ambos tinham o apelo irresistível de desbravar o desconhecido e intuíam uma aventura nos imprevistos imaginados.

Neste dia, a manhã estava úmida e quente, oferecendo projetos de beleza e encantamento. Deixando-se levar por essa atmosfera agradável, Eva se encantava com a confiança que Denis lhe passava desde o início da caminhada, quando foram apresentados um ao outro. Já ele se sentia um guia experiente, sem ter dúvidas do caminho a seguir, dos atalhos a passar, dos sinais de correção da trilha.

Denis dizia ser habituado a caminhos na mata, e que era só seguir a esteira das folhas secas, dos seixos quebrados, que se chegava ao ponto de encontro. Ele não hesitava. Vez por outra, parava para acertar a respiração, esticar os joelhos, alongar os braços. Chamava por Eva para se certificar de que ela o seguia.

Sim, ela o seguia, sem fantasias, sem aspirações, mãos frias e pensamentos incertos. “Será que ele já fez essa trilha antes? Parece tão seguro, os passos certeiros, sem tropeços em meio às rochas, às pedras…”

Algumas horas depois, bateu o cansaço, a lentidão do caminhar, a insegurança à flor da pele.

Eva se dobrou devagarinho, sentou sobre um tronco de madeira e chamou baixinho por Denis.

— Por favor, não me sinto mais com energia para seguir no caminho. Preciso voltar!

Denis olhou para trás e viu no rosto dela a expressão do medo que ele não queria confessar. Mas hesitou. ‘’Afinal, não era ele um atleta experiente? E ela, seria mesmo uma esportista ou mais uma curiosa se passando por mochileira?’’

Na verdade, agora ele já suava, a mochila lhe pesava demais. Seu andar era incerto e pensou que talvez esse não fosse o sentido que queria dar a um encontro com a natureza. Ele se sentou ao lado dela e disfarçou o embaraço. Até sorriu. Cantarolou uma melodia triste. Por fim, pegando na mão dela, confessou seu cansaço e insegurança.

— Se você quer, vamos voltar; vamos aproveitar a claridade que resta e a água que ainda temos nos cantis!  

Eram, agora, dois perdidos na mata úmida, que já começava a ser fria e sombreada. O sonho de conquistar alturas e distâncias, de se integrar à natureza bruta e volúvel, se desfazia. Eva e Denis souberam ser desbravadores incautos, amantes de ilusões.

Retornaram à base. “Vinham tristes e fatigados”, descrentes deles próprios.

Aos pés do grande jatobá de onde partiram, se olharam como “prisioneiros libertados que se maravilham com a liberdade”.

E foi assim, experimentando tudo o que o desconhecido pode oferecer, que Denis e Eva se conheceram, desejando, ardentemente, que o destino lhes presenteasse com uma outra jornada juntos, só que, desta vez, bem mais gratificante!


UM PADRE SABICHÃO - Isabella Brancher

 



UM PADRE SABICHÃO 
Isabella Brancher


Um padre mineiro, homem bonito, bem apessoado, chamou a atenção das beatas, de todas elas, até mesmo das casadas. E choviam momentos íntimos no confessionário, onde elas se derramavam de charme para cima do padre. Ele, cansado de tantas confissões, de tantas “cantadas”, estabeleceu normas que puseram ordem na cidade:

“Minhas devotas, é um prazer trazer paz ao coração de todas vocês. Mas, estou ficando cansado com o excesso de trabalho. Por isso, de agora em diante, resolvi seguir para as confissões este roteiro sempre após as missas, quando vocês e seus familiares ainda estão na igreja: aos domingos, confessarei as preguiçosas, aquelas que se irritam com a pia cheia de louças e o tanque cheio de roupas. Às segundas, as maldizentes, fofoqueiras, rogadeiras de praga, pessoas que acham que somente elas são boazinhas. Às terças, as ladras, aquelas que tiram dinheiro da carteira do esposo, que escondem dinheiro pela casa. Às quartas, as hipócritas, que se fazem de santas, que auxiliam nas feiras sociais, que fazem doações, mas que levam uma vida que ninguém sabe como chegou ao topo financeiro. Às quintas, as bêbadas, mulheres que acreditam que “mais uma” não vai alterar seu casamento. Às sextas, as feiticeiras, aquelas que vão a outros cultos diabólicos por não estarem satisfeitas com o benefício da crença católica. E, aos sábados, as comilonas, as que fingem fazer dieta, mas que comem escondido. Já as traideiras de marido, receberei sempre após a missa de sexta-feira, terminada a missa, permaneçam na igreja para confessar os pecados“. 

Naquela sexta-feira, terminada a missa, uma perplexidade geral se instalou entre os beatos. Várias famílias permaneceram sentadas, ainda tentando entender o que havia acontecido. Aos poucos, a igreja foi se esvaziando e nenhuma mulher se dirigiu ao confessionário.

Nas semanas seguintes, o assunto principal na cidade era a escala de atendimento do padre. Algumas mulheres, especialmente as que deveriam se confessar às segundas, passavam horas rondando a praça a vigiar quem entraria na igreja para se confessar, ou mesmo quem tardasse a sair da igreja após a missa. 

Em seus lares, os maridos interpelavam as esposas vigorosamente na tentativa de descobrir em qual dia da semana elas iriam à missa. Elas se mantinham caladas. Um clima de inconformismo se apoderou dos maridos, que juntos foram ter com o padre.

Elegeram três ou quatro maridos mais influentes e marcaram um horário com o padre para juntos relatar a ele o caos que havia se transformado a vida de muitos casais na cidade.

Mario, o prefeito, falou primeiro:

— Padre, por favor, poderia eliminar essa escala de atendimento? Isso vem causando um desconforto entre nossas esposas e não se fala em mais nada além disso. 

O padre prontamente o responder: 

— Calma, Sr. Mario, logo as beatas se acostumam e tudo volta ao normal. 

O Dr. João, médico antigo na cidade, que havia ajudado a dar à luz a inúmeras crianças dessas famílias, contestava a decisão do padre, dizendo: 

— Padre, não é possível, o senhor precisa mudar isso. Poderia criar uma escala aleatória sem essas adjetivações e limitar o número de confissões diárias, isso diminuiria seu volume de atendimento e a vida voltaria ao normal.

O padre permanecia inabalável, só escutava. Ao que o dono da venda, Joaquim, relatou, o seu comércio havia sido impactado, pois as mulheres não cuidavam mais dos afazeres domésticos e deixavam de ir às compras diárias. 

Mas nada do que diziam afetava o padre. 

O padre, até então silencioso, suspirou.

— Senhores… vocês deveriam se preocupar menos com a cidade… e mais com suas próprias casas. 

E continuou: 

— A sua mulher, Mario, vem agora às confissões às terças. 

— A sua, Dr. João, fica para as sextas. 

— E a sua, Joaquim… me visita às quintas.

Todos, sem saber o que dizer, se entreolharam, cumprimentaram o padre e deixaram a igreja.






O sacerdote bonitão - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



O sacerdote bonitão

Ises de Almeida Abrahamsohn   


Era um jovem padre inconformado com o celibato obrigatório imposto pela Igreja Católica Apostólica Romana.  Por que ele, másculo, atraente, com os desejos carnais normais da espécie humana, deveria se sujeitar às leis de um grupo de cardeais vetustos e impotentes sediados em Roma? 

Gostava de seu ofício, prezava sua habilidade de conselheiro, considerava-se mesmo um psicólogo.  Não havia escolhido a vida religiosa.  O destino o havia empurrado para o orfanato e depois para o seminário.  Lúcio era filho bastardo colocado numa família pobre e piedosa para ser criado.  Era grato ao casal idoso que o abrigara e amara até os seis anos.  Aos sete, morreu-lhe o pai adotivo e a mãe, impossibilitada de o manter, enviou-o ao internato católico.  Aos doze anos, faleceu a mãe, deixando o imóvel onde morava à Cúria em troca do compromisso de manter e educar o jovem até a idade adulta. Acabou optando pela facilidade de continuar os estudos no seminário.   Faltou-lhe coragem de abandonar antes da ordenação. 

Como padre, Lúcio levou a sério a profissão.  Aconselhava jovens, apaziguava famílias, aliviava os pecadores. Enfim, cuidava de seu rebanho e era apreciado especialmente pelas paroquianas do sexo feminino. O que constituía um problema para o bom padre Lúcio, que gostava das mulheres e, principalmente, gostava de sexo.  

Procurar profissionais de sexo, nem pensar.  Tinha pavor de doença venérea. Impossível também, naquela pequena cidade, ir a um prostíbulo ou receber visitas femininas.  Atrair alguma moça bonita solteira entre as fãs paroquianas também estava fora de cogitação.  Primeiro, o medo de engravidar e, segundo, porque preferia uma parceira que tivesse alguma experiência e que, de fato, apreciasse as volúpias do ato sexual. 

Estava cansado das confissões.  Muitas mulheres frequentavam as missas atraídas pelo jovem e belo padre.   O confessionário era disputadíssimo  , algumas mesmo ousavam insinuações. Como achar uma parceira experiente e discreta para suas noites?

 Veio-lhe a ideia de chamar para confissão num dia determinado aquelas que costumavam trair os maridos.  Ele as chamava de “traideiras”.  Confessavam, ouviam os conselhos, faziam a penitência, e na semana seguinte lá estavam elas de novo, relatando o mesmo pecado e seguindo a mesma penitência.  Era entre essas que faria a seleção. Eram cerca de dez senhoras que, confiantes no segredo da confissão, haviam exposto seus pecados de adultério. Padre Lúcio descartou aquelas de adultério ocasional. 

Procurava as pecadoras contumazes a quem habilmente perguntava sobre os pecados de volúpia e luxúria. Restaram-lhe três candidatas a sondar. Decidiu-se por Rita. 

Rita era uma linda morena de trinta e cinco anos, casada há 15, sem filhos. Era infértil.  

Melhor assim, a candidata ideal, não haveria complicações. 

Padre Lúcio chamou Rita para uma confissão de fim de tarde, num sábado com a igreja vazia.  Sugeriu mostrar-lhe um livro ilustrado na sacristia. Ao que Rita aceitou entusiasmada. 

Da sacristia à cama do sacerdote que morava na casa ao lado foram apenas doze passos. 

E assim Lúcio e a bela Rita se encontraram ardentemente por vários meses. 

Rita se divorciou, Padre Lúcio resolveu abandonar a batina e o casal mudou-se para outra cidade. Ele passou a dar aulas de português e história, e Rita se tornou corretora de imóveis.  E foram muito felizes, ou tanto quanto é possível ser.  


Tradição x Novos Tempos - Sergio Dalla Vecchia

 



Tradição x Novos Tempos

Sergio Dalla Vecchia


Por fim, o pároco idoso da pequena cidade do interior aposentou-se. Não a seu pedido, e sim uma imposição do bispo. É o que comumente acontece com os velhos de casa. Na fábrica, nas grandes corporações e até na igreja.

Quando a notícia veio a público, a cidade ficou em polvorosa.

Quem será o seu substituto? Será simpático ou linha dura? Nosso padre, há tantos anos, não poderia ter feito isso com a comunidade. Já conhece cada um de nós. Criamos um vínculo de amizade e respeito, como nos adaptaremos ao novo padre?

Eram as perguntas que perambulavam pelas ruas da cidade!

Após uma semana de ansiosa espera, eis que ele chega, o novo padre!

Jovem, bonitão e com jeito inovador, foi a impressão que causou nas pessoas.

Após as boas-vindas, com mimos e muita demonstração de acolhimento, o padre iniciou os trabalhos.

Nas primeiras missas e conversas na sacristia, foi conhecendo os paroquianos, principalmente as mulheres penitentes que praticamente ali moravam.

Assim, as pessoas foram adquirindo confiança, se desinibindo e, com isso, a fila do confessionário aumentou.

O padre não dava conta de tantos pecados. Pensando na melhor eficiência, resolveu escalonar as beatas nos dias da semana e conforme o tipo de delito.

Nas segundas-feiras, as fofoqueiras; nas terças-feiras, as que tiravam dinheiro às escondidas da carteira do marido; às quartas-feiras, as hipócritas; nas quintas-feiras, as que bebiam além da conta; nas sextas-feiras, as diabólicas; nos sábados, as gulosas; e finalmente, aos domingos, as traidoras de maridos.

Esse calendário inovador afetou muito o cotidiano da pequena paroquia.

As beatas, rangendo os dentes, pareciam sem rumo, circulando aleatoriamente pelas ruas.

─ Como conseguiremos cumprir o cronograma? Ficaríamos rotuladas pelos nossos pecados, agonizavam elas!

─ Lá vêm as ladras das terças. Lá vêm as hipócritas das Quintas e assim por diante! 

É o que gritaria o povo!

─ Preferimos morrer, cogitavam algumas desesperadas.

Entretanto, o grupo que menos se preocupou foi o das traidoras de maridos. Não viam a hora de se abrirem para aquele bonitão. 

Animadas com a ordem do Padre para que o aguardassem na sacristia para confessarem e que em seguida ele ajudaria uma a uma no pagamento da penitência.

─ Tem coisa melhor? Agora, além de gostarmos, ainda receberemos o consolo do padre bonitão! Expressou seu contentamento em voz alta à mais animada das beatas.