A AMIGA - Carla Di Sessa

 



A AMIGA

Carla Di Sessa

 

O lugar não era muito grande, cheirava a fechado, livros velhos e umidade.

Sentada no chão frio, ela olhava fixamente para um abajur, único ponto de luz disponível, como se sua luz pudesse aquecê-la.

Ela não sabia ao certo há quanto tempo havia sido levada para lá pelos vizinhos que a estavam ajudando.

Você vai ficar aqui por alguns dias, disseram, até conseguirmos uma maneira de você fugir.

Eles também explicaram que havia um banheiro e que trariam comida e água, mas ela precisava ser cuidadosa e economizar no caso de, por qualquer razão, eles não conseguirem fazer a entrega.

Conseguia perceber cheiros que normalmente a agradariam, como o dos livros antigos espalhados nas prateleiras em uma das paredes. Mas, nessa situação, eles só conseguiam despertar nela a sensação de abandono.

Havia quadros também: uma natureza morta, morta no estilo e no esquecimento, e outro, pequeno, de uma dama antiga sentada segurando um leque. Talvez por causa desse detalhe a imagem trouxesse alento e frescor. Olhou atrás desse quadro e encontrou um nome: Senhorita Amélia Fernandes.

Havia encontrado uma amiga nesse lugar sombrio como um pesadelo.

“Amélia”, ela começou, fitando a figura no quadro, “olha, não quero te assustar, mas preciso te avisar. Acho que tem perigo escondido embaixo de cada pedra do chão, atrás dessa porta, enfiado no meio dos tijolos das paredes. E ainda por cima, ainda tem o perigo que mora dentro da nossa cabeça e que estende seus tentáculos, como um polvo, por todo lado. A gente não pode deixá-lo tomar conta, entende? Você entende, Amélia?”

E continuou, mais tarde:

“Aí, Amélia, temos de estar o tempo todo em alerta. Temos que dar a cada coisa uma defesa, mesmo que seja frágil e que precise de reparos a toda hora”.

“Se há esperança, você quer saber? Sei lá, eu diria que sim, embora eu sinta que nossas vidas estão, como vou te explicar, na corda bamba, sabe?”

Respirou fundo e continuou:

“Você está com medo, Amélia? Eu também estou, mas vou tentar manter esse medo submerso à força. Você deveria tentar fazer a mesma coisa. Sim, Amélia, é mesmo uma solidão sem fim, um passo antes do desespero”.

Nesse momento, a porta se abriu e alguém entrou apressado dizendo:

Rápido, vamos embora, rápido, vem!

Ela olhou para Amélia na parede e, sem pensar, pegou o quadro e saiu.

 

 

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