VIAGEM
DOS SENTIDOS
Sérgio
Dalla Vecchia
Numa
comunidade da Zona Leste, Creusa, nascida e criada na periferia de São Paulo,
não conhecia nada além do cheiro fétido do esgoto escoando defronte a seu
barraco.
O
trabalho de faxineira a perfumava com o cheiro da água sanitária, exalado pelos
pisos ávidos de limpeza.
Certo
final de ano trabalhou muito e conseguiu um dinheiro extra e não teve dúvidas.
Adquiriu uma passagem de ônibus para a cidade de Tiradentes, em Minas Gerais.
Seu
sonho era conhecer as terras onde nasceu seu pai, que nunca conheceu, só ouviu
falar.
Desembarcou,
foi para uma pousada, acomodou-se e já no dia seguinte saiu a passear.
Cada rua que percorria, através do
calçamento secular, a história a invadia pelos pés. Seus olhos descobriram
cores nunca vistas por ela na cidade de São Paulo. Verde, verde, azul, azul e
branco, branco. Encantada seguiu andando pela cidadezinha até que chegou a uma
pequena estação de trem.
Seus
olhos arregalaram-se com a figura fumegante da Maria Fumaça, quente como seu
coração acelerado.
Comprou
um bilhete e logo embarcou na pequena composição ferroviária. O vagão era de
época, seu interior parecia encantado, a atmosfera era pura história. Creusa
sentou-se no tempo.
Ouviram-se
três apitos e o trem partiu!
Ela
não conhecia nada de música clássica, mas naquele momento ela flutuava ao som
do “Trenzinho Caipira” de Villa-Lobos. Pela janela via a produção de insumos
para os supermercados da cidade grande. Havia frescura no ar quente do interior
rural.
Pirulitos
cônicos de caramelo, enrolados em papel manteiga, circulavam encaixados
firmemente na bandeja furada da simpática moça, que, vestida a caráter,
encantava a todos.
Na boca,
o papel manteiga tinha gosto de prazer e o resto era apenas açúcar!
Nessa
atmosfera lúdica, Creusa adormeceu. Quando acordou, estava em um céu azul azul,
nuvens brancas brancas e uma bala cinza chumbo cravada em seu coração.
Morreu
feliz com uma bala perdida na comunidade de onde nunca saiu.
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