O relógio cuco - Isabella Brancher

 


O relógio cuco

Isabella Brancher

 

João acabava de chegar do basquete. Suado, como de costume, jogou os tênis e a sacola no canto do quarto e sentou-se para ler mais um conto de Sherlock Holmes. Tinha um fascínio pela capacidade lógica de Holmes. Sabia que seu ídolo era apenas um personagem, mas, sempre que o tempo permitia, corria para devorar mais uma história.

 

Naquela tarde cinzenta de outono, tentando recuperar as energias enquanto lia, percebeu que algo faltava na prateleira sobre a mesa de estudos. Pensou consigo mesmo: o que estaria faltando? Teria sido apenas imaginação? Intrigado, levantou-se e notou a poeira intacta no local onde antes repousava um objeto. Sim, definitivamente algo havia sido retirado dali. Tentou puxar pela memória, mas nada lhe vinha à mente.

Desceu as escadas, serviu-se de um copo de leite e, subitamente, lembrou: era o relógio antigo que ganhara do avô quando ainda era pequeno. Quando funcionava, ao soar da hora cheia, uma pequena portinhola se abria e dela saía um pássaro que cantava. Agora, restava apenas a lembrança daquele som marcando o tempo.

Ao ouvir a porta da casa se abrir, correu ao encontro de quem chegava. Era o pai.

— Pai, você levou meu relógio para consertar? — perguntou, sem conseguir conter a ansiedade.

Surpreso, o pai respondeu:

— Não. Há semanas não entro no seu quarto.

Eles haviam discutido por causa da constante desordem no espaço do filho, e o pai prometera manter distância dali.

João começou então a vasculhar os armários da cozinha, na esperança de encontrar o relógio. Não satisfeito, procurou também no escritório do pai. Quando a mãe chegou, fez a mesma pergunta.

— Procure melhor — respondeu ela. — Se você fosse mais organizado, saberia onde está o relógio.

Inconformado, João decidiu tomar uma atitude. Recolheu as roupas sujas, guardou os objetos espalhados, arrumou a cama e sentou-se para observar o quarto com mais atenção. Ao pegar os tênis, percebeu restos de barro no chão.

— Teriam vindo dos meus tênis? — pensou. — Não é possível. São de basquete, nunca pisei na terra com eles.

Isso o levou a uma conclusão inquietante: alguém havia estado ali.

Ligou para a avó na esperança de encontrar alguma pista, mas sem sucesso. Restavam-lhe apenas os fragmentos de barro como indício. Quem teria entrado em seu quarto? E como? Exausto, física e emocionalmente, deitou-se e acabou adormecendo.

Na manhã seguinte, dia de escola, levantou-se e se aprontou. A luz do sol invadia o quarto, iluminando os cantos que a noite mantivera ocultos. Próximo à porta, algo brilhava. Engatinhando até o local, encontrou um brinco: uma argola dourada com um pequeno brilhante na ponta.

De quem seria?

Pensou, pensou, mas nada lhe ocorreu. Com o brinco na mão, correu até a mãe e perguntou se era dela. A mãe logo afirmou: não é meu. Eu os presenteei à sua prima no último Natal.

Foi então que se lembrou de que Priscila estivera em sua casa no aniversário do pai.

Após a escola, seguiu diretamente para a casa da prima. Ela ainda não havia chegado, mas a tia o deixou entrar para esperar Priscila. Dizendo precisar ir ao banheiro, João foi até o quarto de Priscila — e ali, sobre a mesa de cabeceira, estava o relógio cuco.

O coração disparou.

Por que Priscila teria feito aquilo?

Horrorizado, desceu correndo as escadas e deu de frente com a prima, que acabara de chegar.

João segurava o relógio com força. Precisava ficar com ele. Mas como pedir isso sem causar um escândalo na família? João respirou fundo. Não adiantaria gritar ou acusar. Lembrou-se de Holmes: acusar sem provas é perder a vantagem.

— Priscila… — disse, tentando manter a voz firme — posso te mostrar uma coisa?

Ela estranhou o tom sério, mas assentiu. João abriu a mochila e colocou o relógio cuco sobre a mesa da sala, entre os dois.

— Esse relógio era do meu avô. Ontem ele sumiu do meu quarto… e hoje eu o encontrei no seu.

O silêncio pesou por alguns segundos. Priscila empalideceu e, com a voz trêmula, disse:

— Eu… eu ia devolver — murmurou. — No dia do aniversário do tio, eu vi o relógio. Ele estava largado, sujo de poeira. Pensei que ninguém mais ligasse pra ele. Levei sem pensar… Depois me arrependi, mas não tive coragem de devolver.

João sentiu um misto de alívio e tristeza.

— Eu não quero que isso vire um problema na família — disse, com suavidade. — Só precisava entender. Esse relógio é importante pra mim, mesmo quebrado.

Priscila assentiu, com os olhos marejados.

— Desculpa, João. De verdade.

Ele fechou o relógio com cuidado e colocou de volta na mochila.

— Vamos deixar isso entre nós. Mas promete que, da próxima vez, pergunta.

Ela prometeu.

Enquanto saía da casa, João pensou que talvez Sherlock Holmes estivesse certo: às vezes, resolver um mistério não é sobre punição, mas sobre compreender as razões do ato.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário