Rastros
do Passado – caso Isabela
Isabella
Brancher
O telefone
toca insistentemente: uma, duas, três vezes. Eu dirigia pela costa Amalfitana;
era final de setembro, final de tarde. O sol se punha lentamente no mar,
colorindo o céu de alaranjado. Nessa época, a estrada já estava um pouco mais
tranquila, mas me senti obrigada a encontrar um local seguro, parar o automóvel
e atender o telefone.
Eu
já havia ouvido muitos comentários sobre aquela pessoa do outro lado da linha.
Tinha uma personalidade marcante, era relativamente indiscreto e não me
inspirava nenhuma confiança. Era um amigo de infância do meu avô paterno. Seu
nome era Giuseppe. Sobre os dois havia inúmeras histórias. As peripécias que
fizeram e como foram felizes quando jovens, solteiros e despreocupados. As
histórias que meu avô contava eram sempre cheias de mistérios. Algumas vezes
pareciam não ter um final, ou simplesmente descreviam cenários ou situações
cujo enredo parecia esburacado. Faltava um fechamento. Ficava sempre no ar a
sensação de que havia um segredo, uma revelação a ser feita. Assim, parte da
história era contada, parte era deliberadamente omitida. Eu percebia que, quando
meu avô contava as suas façanhas, permanecia nos ouvintes um semblante
intrigado. No rosto deles se viam as perguntas: como eles chegaram até esse
momento? O que aconteceu depois? Eu também tinha essa sensação. Havia uma
descontinuidade, uma ausência. Porém, sendo muito jovem, ainda não conseguia
expressar nem compreender plenamente aquelas sensações.
Aquele
telefonema me inquietou; pensei imediatamente no meu avô, falecido alguns meses
antes. A saudade ainda era intensa. Meu avô sempre foi um exemplo de bondade,
uma pessoa correta, sempre disposta a auxiliar os outros. Era tudo para mim.
Criou-me como sua filha; talvez, no seu íntimo, eu fosse a filha que ele sempre
quis e não conseguiu ter. Ao estar perto dele, eu me sentia acolhida, amada e,
sempre que possível, queria ficar com ele. Perdi a conta de quantos fins de
semana passei em sua casa. Eram momentos maravilhosos, junto dos meus avós, que
às vezes eram perturbados pela presença de Giuseppe. Não gostava de ter seu
amigo por perto, apesar de entender e respeitar a amizade que tinham. Nunca
pude compreender o mal-estar que a presença de Giuseppe me causava.
Desde
a morte do meu avô, aquela não era a primeira vez que Giuseppe me procurava. Já
no funeral, ele havia se aproximado com o mesmo convite. Em outras ocasiões,
voltou a me procurar com o mesmo discurso: tinha algo importante a me dizer. Ao
ouvir sua voz naquela tarde, todas as histórias contadas floresceram na minha
mente. Devagarzinho, fui lembrando uma a uma; algumas me faziam sorrir, outras
me traziam ternura. Duas histórias vibraram mais fortemente na minha memória.
Uma delas, tragicômica, foi quando resolveram pregar uma peça no professor de
física do ensino médio e colocaram sardinhas cruas nas calotas do veículo. O
professor fez de tudo para tirar o cheiro, até que terminou por vender o
automóvel; não conseguia suportar o odor impregnado. A outra, menos dramática,
era intrigante e envolvente. Meu avô, minha avó e Giuseppe foram acampar na
ilha de Capri. Naquela época, ir até a ilha era uma aventura sem igual. Ainda
com poucos recursos e poucas casas, o local trazia, naquela atmosfera rude e
campestre, um misto de romantismo e aventura. Passaram uma semana na ilha
durante umas férias de verão. Sempre me perguntei se não teria faltado uma
quarta pessoa nessa viagem ou sobrado alguém…
Giuseppe
insistia: queria marcar esse encontro comigo para me contar um segredo há muito
tempo guardado. O segredo perseguiu Giuseppe por toda a sua vida e, agora, com
a morte do seu grande amigo, parecia mais fácil de dizer. O momento havia
chegado. O segredo poderia, enfim, ser revelado.
Essa
pressão para se encontrar comigo estava me deixando muito aflita. Não conseguia
compreender por que Giuseppe queria tanto me ver. O que teria ele de tão
importante para me contar? Envolvida por essa névoa de tensão e mistério,
acabei cedendo. Marquei o encontro para a semana seguinte.
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