O SEGREDO DE PAULO TOLEDO - Antonia Marchesin Gonçalves

 



O SEGREDO DE PAULO TOLEDO

Antonia Marchesin Gonçalves

 

NEM SEMPRE CONHECEMOS

A PESSOA COM QUEM DORMIMOS

 

 

             O telefone tocou às duas horas da manhã, Marilena atendeu assustada.

— É da residência do Dr. Paulo Toledo?

— Sim, disse ela. Quem fala?

— Aqui é o zelador do prédio do escritório. É melhor que a senhora venha para cá. Precisei chamar a polícia. Dr. Paulo foi encontrado morto com um tiro no peito no automóvel na garagem do prédio.

Marilena deixou o telefone cair na cama. Deve ser trote, pensou. Em seguida, chega uma ligação do filho Fernando:

— Mãe, aconteceu uma desgraça, papai faleceu. É verdade!

             Ela vestiu-se o mais depressa que pôde. Tremia tanto que mal conseguia calçar o tênis. Foi difícil chegar ao escritório, a noite parecia escura e sombria. Marilena se perguntava por que alguém mataria o Paulo. Só pode ter sido assalto.

Ao chegar, foi assustador ter que vê-lo ensanguentado, sentado no banco do carro do motorista, com um tiro no peito.

— Isso é um pesadelo! Gritou, recostada no ombro do filho.

A semana transcorreu cuidando de todos os trâmites legais, depois do velório e enterro. Tantos martírios. Em casa, sentia-se entorpecida, o médico da família havia dado um comprimido que tomara sem perceber e, sentada no sofá, dormiu.

             Ao acordar no final da tarde descansada, levou alguns minutos para se lembrar da desgraça. Levantou-se e se serviu de uma xícara cheia de café, preciso pensar. E foi o que fez, foi ao escritório e pensou nas prioridades de suas novas obrigações: missa de sétimo dia, inventário, reunião com o filho e advogado e o mais importante, contratar um bom detetive, sim, porque ela precisava saber a verdade. O próprio advogado indicou seu detetive de confiança. Naquela tarde, o zelador avisou que ela tinha visitas desejando vê-la.

             Ela tentou se negar a receber, no que o zelador avisou serem dois senhores bem vestidos e falaram ser de suma importância a reunião, sendo o assunto de total interesse dela. Marilena preferiu descer e recebê-los no salão do prédio. Encontrou-os já sentados no sofá à sua espera. Ao se apresentarem, foram muito educados e entraram direto ao assunto: o mais velho lhe disse que a conversa seria longa. Ela estava apreensiva e calada.  Ainda não havia mexido nos documentos do marido, nem havia aberto a maleta que ele tanto prezava. Não sabia o que eles queriam dela, imaginou que tratariam de negócios, sentia-se totalmente despreparada.

— Somos empresários numa empresa de investimentos e seu marido, Paulo, tinha negócios conosco. Gostaríamos que a senhora localizasse as apólices que estão agora em poder  da senhora. Sabemos da dor que está passando, mas negócios são negócios e não podemos perder tempo, disseram.

             —Eu, eu ainda não tive tempo de examinar nenhum dos documentos dele. Solicito que me deem seus cartões de contato. Avisarei assim que localizar. E, se for o caso, enviarei por Sedex.

No elevador, Marilena se criticava por nunca ter interesse em saber sobre o lado profissional do marido. Ao chegar em casa, ela ligou para o filho solicitando que ele fizesse uma varredura nos papéis do escritório. Em casa, ele nada deixava e no cofre ela sabia ter poucas joias e alguns dólares, mas ela não acessava o cofre há alguns anos.

No dia seguinte, ansiosa, não tinha ideia por onde começar.

             Mexeram e remexeram, sem nada encontrar.  Até lembrarem do cofre.

Aí sim, o lado desconhecido de Paulo se abriu: notas promissórias, contratos assinados por ele até com folhas soltas, empréstimos altos, dívidas com cassinos clandestinos em vários lugares. E, até gastos exorbitantes em Punta del Leste.

— Meu Deus, quem era esse Paulo?

Foi aí que eles entenderam tudo.

Marilena conseguiu acertar com os agiotas e acabou ficando sem a casa da praia e do escritório, vendeu também as poucas joias. O importante é que conseguiu manter o seu apartamento.

             Nem sempre conhecemos a pessoa com quem dormimos.

 

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