Quem teria
matado João?
Isabella Brancher
João era um
empresário rico e extremamente carismático. Conquistava as pessoas com sua
maneira doce de falar e demonstrava uma paciência quase inesgotável, sempre
empenhado em agradar aos outros. Era assim que Marilena via o marido: um homem
bem-sucedido, carinhoso e encantador.
Sua morte a
deixara perplexa. Quem iria querer ver João morto? Nada daquilo fazia sentido.
Para além do
círculo familiar, porém, João tinha seus dilemas. Podia ser visto como um
grande homem e também como um covarde. Dono de uma inteligência acima da média,
liderava seus executivos com facilidade, mas era igualmente capaz de crueldade.
Sua baixíssima tolerância a erros o irritava profundamente e, quando isso
acontecia, tornava-se quase indomável.
Sozinha na sala,
Marilena lembrava-se das últimas semanas, quando João passou a chegar em casa
mais tarde do que o habitual. Havia sempre tensão em seu semblante. Após alguns
dias observando aquele desconforto, conseguiu que ele lhe contasse que a situação
na fábrica estava muito complicada: sucessivas quebras de produção vinham
ocorrendo. Marilena percebia a preocupação do marido e tentava ajudá-lo, embora
desconhecesse a real profundidade do problema.
A campainha
tocou. Era o investigador da polícia. Ele entrou, conversou com Marilena,
trouxe as últimas notícias e voltou a interrogá-la. Ela repetiu tudo o que
sabia, o que, de fato, era muito menos do que a realidade. Ainda havia muito
mistério.
O investigador
descobrira que João havia repassado uma quantia considerável de dinheiro a
Pedro, seu diretor financeiro. A razão daquela transferência permanecia
desconhecida. Pedro era amigo de João desde os tempos de faculdade; as famílias
se frequentavam semanalmente. Eram quase irmãos. Marilena não tinha qualquer
indício do motivo que levara o marido a fazer tal repasse.
Sempre fora uma
mulher calma, organizada e disciplinada, mas agora Marilena decidira acompanhar
de perto as investigações. Mais do que tudo, queria encontrar o assassino do
marido e, sobretudo, compreender a motivação por trás de um ato tão cruel.
Inconsolada,
resolveu vasculhar o escritório de João. Nada encontrou de suspeito no cômodo
da mansão onde viviam. A angústia começou a dominá-la, fazendo seu corpo tremer
de raiva, até que, em um rompante, abriu energicamente a última gaveta da
escrivaninha. A gaveta se projetou para fora e o fundo falso se abriu,
espalhando o conteúdo pelo chão.
Marilena ficou
estática, observando os objetos caídos: pequenas caixas, envelopes com cartas
ou cartões, fotografias.
De onde teriam
vindo aqueles objetos? Quem eram as pessoas nas fotos? Com um misto de
curiosidade e medo, pegou um dos envelopes. Nesse momento, o telefone tocou.
Marilena correu apressadamente para a outra sala em busca do celular. Atendeu.
Era o
investigador. Sentada na sala da mansão, Marilena ouviu, em silêncio, tudo o
que ele havia desvendado. Pedro já não dormia. Evitava os encontros semanais
entre as famílias, temendo que algum comentário escapasse. Exigira que João
contasse a verdade; João se recusara.
Marilena não
chorou. Ao término da ligação, recostou-se no sofá e abriu o envelope que ainda
segurava nas mãos. Quem teria matado João? Marilena acreditava que a resposta
fosse simples.
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