Número desconhecido - Carla Di Sessa




Número desconhecido

Carla Di Sessa 


Eu nunca deveria ter atendido o telefone, pensou Laura assim que ouviu a voz animadíssima do outro lado da linha. Estava na padaria, tinha acabado de comprar pão e frios e estava louca para ir para casa fazer um sanduíche e tomar com café.

— Parabéns! Soubemos que você acaba de ser oficialmente responsável pelo evento de hoje!

— Evento, que evento? — ela perguntou

— O aniversário surpresa! Chegaremos às ...

A ligação caiu.

Laura ficou parada no meio da padaria.

Aniversário. Surpresa. Responsável.

Não era aniversário dela. Não conhecia ninguém que fizesse aniversário naquele dia. E definitivamente não era responsável por nada além do lanchinho que iria tomar no lugar do jantar.

O telefone vibrou com uma mensagem:

“Estamos chegando em 30 minutos. Não esqueça do bolo e dos balões!”

— Eu não tenho bolo algum! — ela sussurrou para o celular.

Em pânico, sentindo-se ridícula, mas sem poder evitar, voltou correndo para o balcão da padaria.

— Um bolo. Qualquer bolo. Rápido!

— De que sabor? — perguntou o atendente, calmo demais para aquela emergência.

— O que combina com desespero?

Saiu de lá com um bolo de chocolate, velas coloridas e um pacote de balões que ela mesma teve que encher no meio da sala, ficando com aquele gosto esquisito de borracha na boca.

De repente a campainha tocou.

Quando abriu a porta, encontrou oito pessoas sorridentes segurando presentes.

— SURPRESAAAAA!

Eles entraram antes que ela pudesse explicar que não fazia ideia do que estava acontecendo.

— Onde ele está? — perguntou uma senhora animada.

— Ele quem? — Laura respondeu.

Silêncio.

Todos se entreolharam.

— O Rafael. Ele disse que você era a organizadora!

— Eu não conheço nenhum Rafael!

Mais silêncio.

Foi quando um rapaz no fundo do grupo olhou o celular.

— Gente… acho que ele errou o número do celular e mandou a mensagem para a pessoa errada.

Alguém começou a rir.

Depois outro.

Em menos de um minuto, a sala de Laura  virou cenário de gargalhadas.

— Bom — disse a senhora — já que estamos aqui…

Eles acabaram cantando parabéns para “Rafael, onde quer que esteja”. Comeram o bolo. Contaram histórias absurdas sobre o aniversariante distraído que provavelmente estava esperando os convidados em outro endereço.

Eventualmente, todos foram embora, ainda rindo.

Laura fechou a porta, exausta.

O celular vibrou novamente.

Mensagem nova:

“Desculpa!!! Passei a mensagem para o número errado! Onde vocês estão???”

Laura olhou para a própria sala e sorriu.

Digitou apenas:

“Feliz aniversário, Rafael” e bloqueou o número.

Enquanto recolhia os balões murchos, rindo sozinha da situação mais improvável da sua vida, pensou:

“Eu nunca deveria ter atendido o telefone.”

 

 

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