PRIMA DIMENSÃO - Sergio Dalla Vecchia

 

 


PRIMA DIMENSÃO

Sergio Dalla Vecchia

 

Após setenta anos, resolvi buscar o passado, rumando para a pequena cidade do interior de São Paulo, onde meus avós tinham uma fazenda.

Essa atitude surgiu em certo dia em que a gente amanhece se sentindo nostálgico e vai dormir filosofando. Daí a ideia de resgatar o muito que restou da minha infância.

Cheguei à cidade após horas de viagem, mesmo nos tempos modernos de infraestrutura compatível.

Por que me pareceu tão demorada? Será porque a paisagem lindeira à rodovia, antes pitoresca, misturou o verde com o cinza concreto, embaralhando o tempo!

A estrada, antes rápida, de terra cascalhada, não tinha a mesma rugosidade atual, onde a poeira juntava-se ao som dos pneus no cascalho, volatilizando o cheiro de terra ao som do veículo em movimento e as lamúrias de minha mãe pela poeira. Sinfonia única de lembranças!

Agora era uma via lenta de superfície lisa, sem os nuances do tempo e muito menos da minha infância. Contudo, dava-me a impressão de que o carro era mais veloz. Puro engano!

A terra continuava onde sempre esteve, o campo, as árvores e os rios sempre foram os mesmos e minhas lembranças eternas, então para que medir o tempo! Seria possível tal ousadia?

Continuei filosofando e, já na praça principal da cidadezinha, lá estava a mesma igreja. O mesmo jardim bem cuidado e a torre do sino. Logo lembrei-me das vigorosas badaladas diárias do sino, pontualmente às 18h. Elas proclamavam o povo para a Ave Maria até que o sineiro cansasse de tanto puxar e soltar a corda.

Olhei para o relógio e, coincidentemente, ele marcava 18h.

Então, blém, blém…! Não foi como antes, a sonoridade era frágil, parecia que o sineiro não tocava o sino e sim o sino era que o arrastava. Talvez porque o tempo passou e seus movimentos já não tinham o vigor necessário e ele quisesse mesmo era subir aos céus ao som místico do sino.

Confuso entre o passado e o presente, sentei-me em um banco do jardim próximo ao coreto. Lá fiz uma análise de minha vida e concluí que:

Das áureas recordações dessa minha infância, só me resta guardá-las com muito carinho e gratidão por vivenciá-la com plenitude.

Já não sou mais o mesmo, tudo ficou lento, os sentidos, os órgãos e as aspirações, porém insistirei em viver, pois convicto sei que minha infância não almeja que eu amadureça e caia como um fruto qualquer. Ela é minha energia!

Assim, o dia acordou com um longo suspiro.

Não sei se foi com o meu ou o de minha alma!

 

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