Mapa mental de uma estranha viagem - Yara Mourão.

 



Mapa mental de uma estranha viagem

Yara Mourão.


Teodoro era um pesquisador que amava fazer biografias. Tinha muitos clientes entre amigos e conhecidos que eram fiéis adeptos de seus trabalhos. Isso era muito gratificante para ele, que buscava constantemente por novos desafios, que seria fazer a melhor de todas as biografias.

E esse desafio veio do âmbito familiar, para sua satisfação pessoal.

Foi um tanto casual o início dos trabalhos. Em meio aos seus papéis, ele encontrou o desenho de um mapa feito há alguns anos por sua sobrinha. Eram desenhos de lugares com símbolos e títulos muito sugestivos, a começar pelo principal: “Jornada pelos lugares surreais!”

Mas a visão desse mapa o impactou profundamente, projetando-o para um limbo onde ele se viu vagar como um viajante desnorteado, consumido no silêncio e numa dor difusa.

Teodoro tentou libertar-se da teia que o prendia, mas se viu preso nos recônditos de suas memórias e intuições. Sua mente se recolhia e abria espaço para mensagens que vinham de fora dele, trazendo um conhecimento que se insinuava à revelia de seu comando, ou ao redor de seu cérebro, se infiltrando em seu eu com uma solidez quase palpável.

Teodoro se percebia desconstruído.

Os desenhos em preto e branco sobre a superfície amarelada daquele papel eram testemunhas de uma história. Da sua história.

Dias, noites, madrugadas intermináveis consumiram sua razão. Ele perpassava cada figura com laivos de inconsciência, suores de medo, êxtase e agonia.

Não eram lembranças que o acometiam; eram resquícios de vivência. Talvez extracorpórea. Talvez ainda de outra vida.

E foi assim, nesse estranho ser ou não ser, que ele topou com o recorte de sua dor existencial. Sua dor cinzenta, incurável, por não enfrentar a verdade que subjugou sua existência, fazendo com que ele só se voltasse para as histórias de vida dos outros e nunca para a sua própria.

Teodoro viu ali, naquele mapa, o seu crime. Ou melhor, seu crime ali, naquele mapa, foi ao encontro de Teodoro, de seu corpo, de sua aura, de sua mente.

Toda a verdade emergiu de um pedaço de papel…

Ele havia assassinado, por ciúme, por um incontrolável ciúme, sua bela esposa dos olhos tristes! Estava tudo ali no mapa, tudo por onde ele passara em seu tormento: pela Cidade dos Sonhos, pelo Abismo das Sombras, pelas Vozes no Escuro e a Montanha de Silêncio. Até que no Labirinto da Perda ele se banhou no Rio do Esquecimento.

Não dava mais para fugir. Estava ali, no Deserto dos Espelhos, no fundo do lago, o corpo inerte de sua esposa!

Teodoro se viu trespassado pela realidade que rondou sua inteligência, sua memória, por anos! 

O mapa mental feito por sua sobrinha foi um julgamento e condenação de Teodoro.

Envolto pelo círculo etéreo da criação, ele compreendeu que a verdade vem e consome o que não é. E, tendo entendido isso, Teodoro fez, finalmente, a melhor biografia: a da sua própria vida.


O baú de lembranças - Ledice Pereira

 



O baú de lembranças

Ledice Pereira

 

O dia sombrio e chuvoso prendia Silvana, sem que pudesse se aventurar a sair. Precisava procurar algo para aplacar o tédio.

Terceiro dia de férias programadas com tanto cuidado. Em poucos dias, viajaria para Paris e ainda tinha que providenciar algumas compras. 

A Defesa civil, no entanto, aconselhava a não sair de casa. Ventos e chuva de granizo prometiam fazer um estrago.

Adiou a saída. Ainda teria uns dias pela frente. 

Café tomado, acendeu seu cigarro costumeiro e criou coragem, dirigindo-se ao quarto onde ficava o baú que a acompanhava desde que se casara com Alfredo, levando todo seu enxoval. Hoje, guardava ali recordações da vida inteira. Ele exalava cheiro de saudade. Às vezes, pensava em jogar tudo fora, mas apegava-se a olhar nostalgicamente e, sem coragem, fechava o velho amigo sem realizar a esperada desova.

Alfredo falecera há três anos e, só agora, ela se sentia em condições de realizar a sonhada viagem a Paris. Guardara ali, o mapa da cidade, que tanto tinham estudado e planejado conhecer. 

Abriu o baú que mantinha muito organizado, retrato de sua personalidade. Tudo ali, como na casa toda, era etiquetado. Dizia que não queria dar trabalho aos sobrinhos, quando se fosse, afinal, estava quase com setenta anos, embora não parecesse.

Acomodou-se na poltrona disposta ao lado e começou pela caixa que continha fotos antigas. Foi pegando e revivendo cada momento que elas retratavam. Almoço com a família, formatura do sobrinho, viagens feitas, amigos, Alfredo... Quantas saudades!

Como num filme, os acontecimentos iam passando. Podia sentir perfumes, sabores, frio, calor, através de cada foto que a aproximava das pessoas que nunca mais vira ou que já haviam partido deste plano. Não podia se queixar. Tinha sido feliz.

Sentiu a lágrima salgada que escorria. Vontade de voltar no tempo. O mapa estava ali ao lado daquela luva amarelada pelo tempo.

Acariciou aquela luva de seda, respingada de vermelho. Sorriu. Reproduzia em sua mente a cena vivida, marcada para sempre: 

“Sua formatura do colegial. Havia caprichado no visual. Adorara o penteado e a maquiagem feitos num salão, no centro da cidade, muito conceituado. O vestido então, feito por uma costureira de mãos de fada, ficara impecável e totalmente do seu gosto.

Os pais presentes e orgulhosos. Ele até havia mandado fazer um terno escuro, que o momento exigia, e ensaiara os passos da valsa que dançaria com ela. A primeira das três. A segunda, dançaria com seu primo e a terceira, destinada aos namorados. Aguardava ansiosa.

Estéfano, que estudava na outra classe, andava lhe paquerando, como se dizia à época. Ela descobriu-se apaixonada. Ele dera a entender que dançaria com ela.

A terceira valsa começou. Ela procurou os cabelos louros do alto rapaz. Colocou-se em posição de destaque para que ele a visse e nada. A valsa tão esperada, para a qual se preparara tanto, terminou sem que ela dançasse.

Então ele surgiu, com aquele sorriso que ela adorava, faces vermelhas e testa úmida de suor. Vinha de mãos dadas com Laura, sua melhor amiga, que também tinha a face mais rosada. Vinham dizer a ela, em primeira mão, que estavam namorando.

Silvana, surpresa e decepcionada, não teve dúvida. A taça de vinho tinto que o pai sorvia, estava ali pela metade, esquecida, enquanto ele valsava com sua mãe. Pegou-a, como se fosse brindar, arremessando o líquido na cara do rapaz, atônito. O vinho escorreu pelos óculos, rosto e camisa branca engomada com que ele, vaidoso, desfilava, respingando na luva que ela ainda trazia na mão esquerda. Em seguida, ela correu em direção às toilettes, para que ninguém visse os olhos molhados pelas lágrimas frustradas que brotavam.  

Laura tentou segui-la, mas o rapaz a impediu, retirando-se com ela do recinto.

Só saíra dali, depois que a mãe foi procurá-la, convencendo-a a voltar e participar do baile que acabara para ela.” 

Nunca mais soubera de Laura e Estéfano. Fora sua primeira decepção amorosa. 

Não sabia por que havia guardado, por tanto tempo, aquela luva respingada. Resolveu desfazer-se dela, dando risada da infantilidade da reação que tivera. 

No dia marcado, dirigiu-se com tempo de folga para o aeroporto. Estava animada com a viagem. Aquela fisionomia, na fila ao lado, chamou-lhe a atenção. Seria Laura? Com quatro jovens? O homem, que a abraçava, parecia um pouco mais velho. Os dois tentavam conter a risada e fala alta dos quatro, que se mostravam animados com a viagem que fariam em família. Netos, talvez.  

Silvana bem que teve vontade, mas não teve coragem, de se identificar. Procurou até disfarçar, olhando para o lado oposto. Tinha certa vergonha daquela atitude impensada da juventude. Não sabia como Laura reagiria. Melhor não deixar que nada atrapalhasse aquele momento tão aguardado. Deixou pra lá. 

Para o futuro! – pensou, enquanto se dirigia para o embarque – o que passou, ficou para trás!