O baú de lembranças - Ledice Pereira

 



O baú de lembranças

Ledice Pereira

 

O dia sombrio e chuvoso prendia Silvana, sem que pudesse se aventurar a sair. Precisava procurar algo para aplacar o tédio.

Terceiro dia de férias programadas com tanto cuidado. Em poucos dias, viajaria para Paris e ainda tinha que providenciar algumas compras. 

A Defesa civil, no entanto, aconselhava a não sair de casa. Ventos e chuva de granizo prometiam fazer um estrago.

Adiou a saída. Ainda teria uns dias pela frente. 

Café tomado, acendeu seu cigarro costumeiro e criou coragem, dirigindo-se ao quarto onde ficava o baú que a acompanhava desde que se casara com Alfredo, levando todo seu enxoval. Hoje, guardava ali recordações da vida inteira. Ele exalava cheiro de saudade. Às vezes, pensava em jogar tudo fora, mas apegava-se a olhar nostalgicamente e, sem coragem, fechava o velho amigo sem realizar a esperada desova.

Alfredo falecera há três anos e, só agora, ela se sentia em condições de realizar a sonhada viagem a Paris. Guardara ali, o mapa da cidade, que tanto tinham estudado e planejado conhecer. 

Abriu o baú que mantinha muito organizado, retrato de sua personalidade. Tudo ali, como na casa toda, era etiquetado. Dizia que não queria dar trabalho aos sobrinhos, quando se fosse, afinal, estava quase com setenta anos, embora não parecesse.

Acomodou-se na poltrona disposta ao lado e começou pela caixa que continha fotos antigas. Foi pegando e revivendo cada momento que elas retratavam. Almoço com a família, formatura do sobrinho, viagens feitas, amigos, Alfredo... Quantas saudades!

Como num filme, os acontecimentos iam passando. Podia sentir perfumes, sabores, frio, calor, através de cada foto que a aproximava das pessoas que nunca mais vira ou que já haviam partido deste plano. Não podia se queixar. Tinha sido feliz.

Sentiu a lágrima salgada que escorria. Vontade de voltar no tempo. O mapa estava ali ao lado daquela luva amarelada pelo tempo.

Acariciou aquela luva de seda, respingada de vermelho. Sorriu. Reproduzia em sua mente a cena vivida, marcada para sempre: 

“Sua formatura do colegial. Havia caprichado no visual. Adorara o penteado e a maquiagem feitos num salão, no centro da cidade, muito conceituado. O vestido então, feito por uma costureira de mãos de fada, ficara impecável e totalmente do seu gosto.

Os pais presentes e orgulhosos. Ele até havia mandado fazer um terno escuro, que o momento exigia, e ensaiara os passos da valsa que dançaria com ela. A primeira das três. A segunda, dançaria com seu primo e a terceira, destinada aos namorados. Aguardava ansiosa.

Estéfano, que estudava na outra classe, andava lhe paquerando, como se dizia à época. Ela descobriu-se apaixonada. Ele dera a entender que dançaria com ela.

A terceira valsa começou. Ela procurou os cabelos louros do alto rapaz. Colocou-se em posição de destaque para que ele a visse e nada. A valsa tão esperada, para a qual se preparara tanto, terminou sem que ela dançasse.

Então ele surgiu, com aquele sorriso que ela adorava, faces vermelhas e testa úmida de suor. Vinha de mãos dadas com Laura, sua melhor amiga, que também tinha a face mais rosada. Vinham dizer a ela, em primeira mão, que estavam namorando.

Silvana, surpresa e decepcionada, não teve dúvida. A taça de vinho tinto que o pai sorvia, estava ali pela metade, esquecida, enquanto ele valsava com sua mãe. Pegou-a, como se fosse brindar, arremessando o líquido na cara do rapaz, atônito. O vinho escorreu pelos óculos, rosto e camisa branca engomada com que ele, vaidoso, desfilava, respingando na luva que ela ainda trazia na mão esquerda. Em seguida, ela correu em direção às toilettes, para que ninguém visse os olhos molhados pelas lágrimas frustradas que brotavam.  

Laura tentou segui-la, mas o rapaz a impediu, retirando-se com ela do recinto.

Só saíra dali, depois que a mãe foi procurá-la, convencendo-a a voltar e participar do baile que acabara para ela.” 

Nunca mais soubera de Laura e Estéfano. Fora sua primeira decepção amorosa. 

Não sabia por que havia guardado, por tanto tempo, aquela luva respingada. Resolveu desfazer-se dela, dando risada da infantilidade da reação que tivera. 

No dia marcado, dirigiu-se com tempo de folga para o aeroporto. Estava animada com a viagem. Aquela fisionomia, na fila ao lado, chamou-lhe a atenção. Seria Laura? Com quatro jovens? O homem, que a abraçava, parecia um pouco mais velho. Os dois tentavam conter a risada e fala alta dos quatro, que se mostravam animados com a viagem que fariam em família. Netos, talvez.  

Silvana bem que teve vontade, mas não teve coragem, de se identificar. Procurou até disfarçar, olhando para o lado oposto. Tinha certa vergonha daquela atitude impensada da juventude. Não sabia como Laura reagiria. Melhor não deixar que nada atrapalhasse aquele momento tão aguardado. Deixou pra lá. 

Para o futuro! – pensou, enquanto se dirigia para o embarque – o que passou, ficou para trás! 


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