Henrique, nunca venda a casa! - Ledice Pereira

 



Henrique, nunca venda a casa!
Ledice Pereira

Quando Henrique recebeu a notícia de que seu tio avô havia falecido, viu um filme passar em sua mente.

Tio Arthur era temporão, contemporâneo de seu pai, com quem convivera muito. Colecionador ferrenho de carros, sempre aparecia para exibi-los. Aguardava o elogio e saía todo orgulhoso da aquisição. Alegre e cheio de vida, não havia se casado por ter tido algumas decepções amorosas das quais evitava falar.

Isso nunca o transformou num sujeito amargo, pelo contrário, era um bon vivant, gostava de viajar, principalmente se a viagem o levasse a esportes radicais, com trilhas, acampamento, tirolesa e até salto de parapente.

Quando resolveu mudar-se de cidade, isolou-se e os encontros com a família tornaram-se raros. Parecia preferir ficar distante.

— O que teria se passado para que ele se afastasse tanto?

Henrique pensava com seus botões, enquanto dirigia o carro a caminho da cidadezinha, onde tio Arthur resolvera esconder-se da civilização.

Após quatro horas e meia, avistou a rua principal da pequena cidade que devia ter, no máximo, uns cinquenta mil habitantes. Uma rua com, aproximadamente, quinhentos quilômetros de extensão.

Havia gente nas janelas, crianças brincando, carroças passando, mulheres conversando. Henrique pensou que jamais conseguiria viver naquele marasmo.

Seu Joel, o vizinho veio recebê-lo. Estava pesaroso. Contou que havia se tornado muito amigo do falecido, que morrera dormindo, segundo avaliação da equipe hospitalar a quem ele recorrera, quando o amigo não respondeu aos seus chamados. Levou-o a ver a casa que o tio havia deixado para ele, único sobrinho, assim como o velho Opala preto estacionado no quintal.

Henrique emocionou-se ao ver os pertences que adornavam a casa, muitos dos quais estavam vivos em sua memória: enfeites, taças, xícaras, quadros, porta-retratos. Tudo lhe era muito familiar.

Abriu o Opala preto com lágrimas nos olhos. Quanta recordação aquele carro lhe trazia! Via-se sentado no colo do tio, que fingia deixá-lo dirigir, ensinando-o a girar o volante para a direita e para a esquerda. No auge de seus onze anos, imaginava-se um piloto de fórmula I. Esnobava os colegas de escola, ao contar que havia dirigido o Opala do tio.

Queria voltar à sua infância, poder dizer ao tio como ele havia sido importante. Como o tinha feito feliz.
Seu Joel respeitou aquele momento íntimo e esperou para dizer que no porta-luvas havia algo a ele destinado.

Ao abrir, Henrique encontrou uma pasta velha e descascada onde havia recibos, fotografias de viagens e um envelope com seu nome escrito à mão. Lembrava muito daquela caligrafia inclinada, toda igual, desenhada, perfeita. Dentro, uma chave e um bilhete: “Henrique, nunca venda a casa”.

Voltou para o interior da casa que cheirava a tristeza, vazio, abandono.

E Henrique chorou. Chorou como há muito tempo não conseguia chorar. Deixou que o choro o dominasse. Um choro de saudade, de remorso, de tristeza.

No dia seguinte, soube pelos vizinhos que Arthur, ultimamente, andava muito esquisito. Havia nele um semblante de preocupação, um quê de mistério, talvez.

Ficou pensativo. O que o tio teria vivido, ou sofrido, que poderia preocupá-lo? Soube que ele nunca saiu dali depois que mudou para a cidadezinha. Contava de suas viagens como se as revivesse e dizia que já não tinha coragem de se pôr a caminho de aventuras.

O rapaz resolveu permanecer na cidade, pois sentia que precisaria tomar algumas providências. Descobrir, por exemplo, o que significaria aquela chave. O que abriria? Por que não deveria vender aquela casa? O que estaria por trás daquela frase? Tinha uma série de questões a resolver e descobrir.

O terceiro dia foi de investigação e tentativas. De posse da tal chave, passou, em vão, a tentar abrir portas, janelas, armários, baús, caixas.

Pensava consigo mesmo: “Tio, você não podia ter sido mais direto?” “O que será que você queria me dizer? Juro que estou tentando, de toda forma, entender seu recado, mas está difícil. O quebra-cabeça que você me deixou está me tirando o sono.”

Naquela noite, sonhou. Sonhou como nunca experimentara. Tão real o sonho: o tio lhe aparecia, jovem, alegre, trazendo o Opala preto ainda novo. Dava-lhe uma chave e mostrava-lhe o chão. Ali, onde havia aquele enorme tapete desgastado. E sorria. Aquele sorriso franco do qual ele se lembrava tão bem.
Acordou impressionado. Não costumava lembrar-se de sonhos. Nem mesmo sabia se sonhava. Mas aquele sonho era tão nítido que conseguia se recordar de cada detalhe.

Dirigiu-se à sala. Viu o tapete que, antes, nem havia notado. O que haveria naquele tapete? Afastou-o com dificuldade. Era bem pesado. A poeira subiu, provocando-lhe um acesso de tosse. No chão de madeira, sob o tapete, havia um quadrado que destoava sutilmente do restante do piso. Procurou uma fenda, uma abertura, algo que servisse para levantar aquele quadrado. Até que, após várias tentativas, ouviu um ruído e percebeu um leve movimento no assoalho. Procurou novamente a abertura, utilizando-se, agora, de uma lanterna que levava sempre consigo no carro. Ali embaixo, havia um ambiente todo mobiliado. Lembrava Henrique dos filmes que havia visto sobre guerra, nos quais as pessoas corriam para os bunkers existentes nos subsolos de casas e de prédios.

Uma escada o levou para o ambiente encontrado. Ele mal podia acreditar no que havia descoberto.

Estava exausto. Passava da meia-noite. Resolveu que investigaria o lugar de cabo a rabo no dia seguinte.

Apesar do cansaço, custou a dormir. A descoberta não lhe saía da cabeça.

Acordou com batidas na porta. Olhou o relógio. Passava das dez horas. Correu a atender. Seu Joel trazia um bolo que a mulher havia acabado de assar. Coisas do interior, pensou Henrique, convidando-o para tomar um café. Seu Joel entrou, percebendo a bagunça na sala com o tapete meio enrolado, mas não fez perguntas. Henrique, tampouco, explicou o que descobrira.

Enquanto a água esquentava, foi desembrulhando o bolo perfumado e, com água na boca, tratou de experimentá-lo. Preparou o café que tomaram conversando.

O rapaz esperou que Joel fosse embora para iniciar sua investigação.

Aquele porão, ou bunker, tinha umas pequenas janelas que permitiam a entrada tímida da claridade. Isso permitia que ele descobrisse coisas que, na noite anterior, não havia notado.

Uma enorme escrivaninha cheia de gavetas ainda tinha sobre ela papéis e canetas, como se estivessem sendo usados. Tio Arthur, provavelmente, usava o ambiente que não estava tão cheio de poeira como se fosse abandonado. Havia, no canto, um caderno de capa grossa que lhe causou curiosidade.

Abriu e estacou surpreso com o que leu, numa caligrafia irretocável: “Meu querido sobrinho Henrique. Eu tinha a certeza de que acharia este meu esconderijo. Você sempre foi muito esperto e determinado.

Pois é, meu querido, aqui tem sido o meu canto preferido da casa e é aqui que tenho guardado o que me é mais precioso. E que agora é seu. Deixei tudo registrado em cartório para que não houvesse nenhuma dúvida. Neste caderno, está o número da minha conta no banco, conta essa conjunta com você. Tudo que está lá agora lhe pertence. Nessa banqueta, à direita da escrivaninha, que possui um fundo falso, há moedas estrangeiras que sobraram das minhas inúmeras viagens. Pode ficar com o Opala preto, se quiser, mas deixei em seu nome, com meu advogado, a certidão de posse da Ferrari vermelha que adquiri naquele leilão, lembra? Acho que contei a você e a seu pai. A casa da praia também está em seu nome e meu advogado irá te dar os documentos. Por último, deixei também reservado, em seu nome, um roteiro de viagem com passagem de avião e um cruzeiro pela Grécia por ser um dos passeios mais lindos que fiz e creio que você vai curtir muito. Está tudo na agência de viagens, cujos dados estão a seguir. Fique tranquilo. Está tudo pago.

Por fim, meu sobrinho, eu te agradeço por ser sempre presente na minha vida. Eu que me afastei nos últimos tempos ao descobrir minha doença. Não queria que vocês sofressem por causa dela. Sinto que agora estou chegando ao fim. Seja muito, muito feliz!” Tio Arthur.

Henrique estava pasmo e não conseguia impedir que as lágrimas caíssem copiosamente sobre as páginas daquele caderno. O tio pensara em cada detalhe. Teve remorso por não o ter procurado mais, ele que havia feito parte de sua vida desde que nascera.

Prometeu a si mesmo que ficaria na cidade até que as cerimônias fúnebres e missa de sétimo dia se concretizassem. Só depois iria procurar o advogado, o gerente do banco e a agência de viagens.

Resolveu que não venderia aquela casa cheia de história. Mandou pintar, limpar e transformou-a num pequeno museu, que passou a ser uma das poucas atrações da cidade que acolheu, com amor, aquele homem tão especial.

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