E se…? - Carla Di Sessa

  


E se…?

Carla Di Sessa


Henrique recebeu a notícia de que seu tio Manoel, com quem quase não falava há anos, havia morrido e deixado para ele uma pequena casa da praia e um carro antigo, um Opala preto. Embora estivessem distantes ultimamente, Henrique se lembrava com carinho do tio e do carro, pois havia se imaginado muitas vezes dirigindo aquele Opala e conquistando o coração de todas as garotas do bairro. 

 No dia em que foi até a casa da praia para tomar posse da herança, encontrou uma pasta no porta-luvas do Opala preto. Havia recibos, fotografias de viagens e um envelope com seu nome escrito à mão. Lá, encontrou a chave da casa e um bilhete curto: “Henrique, nunca venda a casa.”  Ah, tio Manoel, isso eu não sei, pensou, essa casa iria render um dinheirinho que viria bem a calhar. 

Entrou na casa e viu que tudo estava meio empoeirado, mas em ordem. Pela janela, viu um casal se aproximando; eram os vizinhos que haviam sido atraídos pelo movimento. Henrique se apresentou e o casal contou que seu tio andava muito tenso nos últimos tempos, pois sabia que não iria durar muito e não conseguia resolver para quem deixar seus dois tesouros, a casa e o Opala preto.

Depois de mais um pouco de conversa, o casal se despediu e Henrique resolveu dar mais uma olhada na casa e descobriu que tinha um porão, vazio exceto por uma porta no lado esquerdo. Deveria ser uma espécie de armário, provavelmente também vazio. 

Resolveu ir até a cidade procurar ajuda, talvez um chaveiro para abrir aquela porta, mas ao voltar ao andar de cima notou um outro envelope em uma mesinha escondida ao lado de um sofá. Henrique abriu o envelope e encontrou mais um bilhete e outra chave. O bilhete dizia simplesmente “Divirta-se” e Henrique caiu na gargalhada, só podia ser brincadeira, quanto mistério, tio Manoel!

Foi de novo para o porão e conseguiu abrir a porta com aquela chave. Quando viu o que tinha dentro, quase caiu de costas: notas e notas de dinheiro arrumadas em pequenas pilhas em prateleiras. A maior parte eram dólares, mas também havia Reais.

Tio Manoel, no que o senhor estava metido!?!

Então, Henrique viu em cima de uma das pilhas de dinheiro um folheto de propaganda. Era de uma sorveteria, faziam entregas naquela praia todo dia 15. Só tinham três sabores: baunilha, chocolate e tutti-frutti. Entregavam em uma caixa de isopor que você devolvia no mês seguinte.  De fato, havia uma caixa de isopor em uma das prateleiras. 

Henrique não estava gostando nada daquilo, muito mistério, muito cheiro de ilegalidade. Apressado, largou tudo, trancou a porta do armário e decidiu sumir dali o mais rápido possível. Eis que escutou a campainha tocar e lá estava o vizinho novamente.

Oi, já soube da sorveteria? 

Henrique ficou em silêncio.

Pelo jeito, já. Eles vêm aqui todo mês fazer as entregas. Baunilha é para os estrangeiros, chocolate para os brasileiros, entendeu? E Tutti Frutti é para receber o recibo de pagamento de algum serviço prestado e não ficar parecendo que tem um pé de você sabe o quê no jardim, certo? Você escolhe o sabor na hora, entrega seu isopor e recebe outro com seu sorvete.

Henrique continuava em silêncio.

Hoje é dia 15, que sorte a sua, vai ter entrega de sorvete mais à noitinha. Tchau, cara, a gente se vê. Não se esqueça do isopor.

Henrique achou que era muito bom para ser só isso. O que teria que fazer para receber o sorvete? Saiu correndo atrás do vizinho e perguntou. Não tem que fazer nada, ele respondeu. 

Ah, tá, vai falando, o que vou ter que fazer caso aceite a entrega dos sorvetes? 

Nada, tô te falando, cara, pode acreditar. Não precisa fazer nada. Só não pode vender a casa.

Então ele se lembrou do que seu tio havia escrito: “Henrique, nunca venda a casa.”



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