Uma curva na estrada - Carla Di Sessa





Uma curva na estrada 

Carla Di Sessa 


Havia uma curva fechada naquele trecho da estrada. De um lado, o pinheiral escuro; do outro, a ribanceira que descia até o rio Arco. O rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia. Zico dirigia rápido demais. Não conhecia aquele caminho, mas, sempre que ela reclamava, respondia do mesmo jeito: 

— Conheço meu carro, relaxa, Bruna. 

Relaxar era impossível. Ela apertava o cinto cada vez mais forte e olhava para a estrada, estreita e cheia de curvas. Naquele ponto, porém, sentiu um arrepio. A curva apareceu de repente, fechada, perigosa, quase escondida entre os pinheiros: 

— Zico, cuidado! —Gritou. —Essa curva é traiçoeira! Mas ele apenas sorriu e virou o volante… 


BRUNA 


Vários meses antes, Bruna havia entrado correndo em um hospital veterinário, carregando seu cachorro no colo e pedindo ajuda. O bichinho estava engasgado com alguma coisa, mal conseguia respirar. A recepcionista chamou imediatamente o veterinário, que veio correndo, atendendo à urgência da voz dela. Ao vê-la, Bruna, a essa altura quase chorando, explicou novamente que seu cachorro estava engasgado com alguma coisa, mal conseguia respirar. O veterinário olhou o animalzinho no colo dela, o pegou sem a menor cerimônia e sumiu com ele para a outra sala. Aflita, Bruna fez menção de ir atrás, mas a recepcionista lhe ofereceu um copo de água, fez com que se sentasse e aguardasse um instante. O Dr. Paulo vai cuidar bem do seu cachorrinho. Aliás, qual é o nome dele? Idade? Raça? Bruna foi respondendo automaticamente enquanto olhava ansiosa na direção da outra sala. Passado algum tempo, o veterinário apareceu sorridente. Pronto, ele disse, seu cãozinho está bem, conseguimos tirar um brinquedinho que estava entalado na garganta, mas tivemos que sedá-lo levemente e agora ele precisa descansar um pouco. Foi então que os olhos deles se encontraram e tudo mudou. Até alguns meses antes, Bruna estava dividida entre a sensação de culpa e todas as outras que haviam entrado em sua vida com Paulo. Desde o momento em que seus olhares se encontraram, ela se sentiu como em uma montanha-russa cujo carrinho já tinha começado a se mover e ela não podia mais desistir, e então se deixou levar. Até algumas semanas antes, Bruna havia sido muito atenta aos detalhes, cuidadosa com os horários e com as desculpas. Mas, com o passar do tempo e o aumento da paixão, acabaria se descuidando. Para ela, havia sido só em coisas sem importância e por isso estava tranquila, quem iria ficar prestando atenção em detalhes insignificantes? 


ZICO 


Zico precisava de Bruna tanto quanto precisava de ar. Antes dela, sua vida era um eterno tom de bege e Bruna havia chegado como um arco-íris brilhando eternamente a seu lado. Além disso, ela também o amava profundamente, ele tinha certeza. No último Natal, ele adotou um cãozinho e fez surpresa dando de presente para ela. A melhor coisa para Zico era causar tanta alegria para a pessoa que ele mais amava no mundo. Porém, já há alguns meses, ele havia começado a notar coisas diferentes em Bruna. Eram tão sutis que pareciam sombras que a gente acha que viu, mas não, era só impressão. Acabou se convencendo de que estava imaginando coisas e procurou esquecer o assunto. Mas o alerta havia chegado algumas semanas atrás. Bruna havia ido ao clube para a aula de tênis e Zico saiu para trabalhar. Ao entrar no carro, viu a raquete dela no banco de trás e pegou o celular para avisar, mas alguma coisa o fez parar. À noite, durante o jantar, no meio da conversa, ele perguntou se a aula dela de natação foi boa. Natação? Ela respondeu: Não, hoje é quinta, tive aula de tênis. Zico só a olhou e sorriu. A partir daí, passou a prestar atenção e a verdade começou a aparecer diante de seus olhos. Detalhes como ela sair de cabelo preso em um coque todo arrumado e voltar com o cabelo solto, dizer que havia ido ao supermercado e ele reparar que a geladeira e a despensa continuavam com coisas faltando. Até que um dia ele a seguiu e a viu com outro homem, abrindo seu arco-íris para ele, exatamente como fazia anteriormente com Zico. Algo dentro dele se fechou ao mesmo tempo em que algo se abriu e de dentro saiu um ciúme pavoroso acompanhado de uma raiva cega. Aquela cretina! E agora estavam viajando juntos. Bruna, mal-humorada, concordou em ir visitar um amigo dele no feriado. Ela havia avisado Paulo, feito as malas e agora, tentando parecer animada, procurava em vão entabular uma conversa com Zico. Havia uma curva fechada naquele trecho da estrada. De um lado, o pinheiral escuro; do outro, a ribanceira que descia até o rio Arco. O rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia. Zico dirigia rápido demais. Não conhecia aquele caminho, mas, sempre que ela reclamava, respondia do mesmo jeito: 

— Conheço meu carro, relaxa, Bruna. Relaxar era impossível. Ela apertava o cinto cada vez mais forte e olhava para a estrada, estreita e cheia de curvas. Naquele ponto, porém, sentiu um arrepio. A curva apareceu de repente, fechada, perigosa, quase escondida entre os pinheiros: — Zico, cuidado! —Gritou. 

— Essa curva é traiçoeira! Mas ele apenas sorriu e virou o volante dizendo: Mais traiçoeira que você, Bruna? E abriu a porta, pulando para fora do automóvel. A última coisa que Bruna ouviu foi seu grito quando o carro despencou em direção ao rio. Zico havia se machucado bastante, tinha algumas fraturas e também escoriações, mas a ferida maior ninguém podia ver. O carro despencou pela ribanceira e afundou no rio Arco. Suas águas invadiram tudo e Bruna não conseguiu escapar. Zico sabia que a culpa era dele, tinha premeditado tudo e deveria estar satisfeito, afinal, atingira seu objetivo. No entanto, sentia-se vazio e tomado por um cansaço imenso. O arrependimento comia-lhe a alma e lágrimas por vezes escorriam pelo seu rosto. O que ia ser de sua vida sem Bruna? Quando os policiais vieram, confessou tudo, tendo sido surpreendido ao saber que, afinal, Bruna tinha conseguido escapar. Alguns motociclistas que estavam perto do rio viram o carro cair e conseguiram salvá-la. Bruna despertou assustada e, por alguns segundos, não soube onde estava. Ajeitou-se na poltrona e olhou para a tela do sistema de entretenimento à sua frente. No mapa, um avião avançava lentamente sobre o oceano. O homem ao lado percebeu sua confusão e comentou com naturalidade: “Estamos sobrevoando o oceano agora, vamos fazer uma escala aqui”, e apontou para um ponto luminoso no mapa. “Doha, Qatar.” Bruna franziu a testa, dizendo: “Doha, por quê?” “Porque esta é a rota para Dubai, lembra, estamos indo para Dubai, Bruna.” Ela ficou imóvel, “Dubai?” A voz saiu baixa, quase um sussurro. Então se lembrou de tudo: a queda no automóvel, a água fria envolvendo-a em um turbilhão e depois a escuridão. Acordou em um quarto, confusa e com muita dor. Havia pessoas à sua volta falando ao mesmo tempo, mas conseguiu distinguir uma voz, a de Paulo, ao longe: Bruna, Bruna, está me ouvindo? Agora, no avião, ela olhou para o homem a seu lado e o reconheceu, mas não conseguiu dizer nada. Primeiro vieram as lágrimas, depois os soluços e, por fim, o choro forte e descontrolado. Paulo a abraçou com força, dizendo palavras carinhosas, beijando seus cabelos, dando a ela a certeza de que estavam juntos e de que tudo ia ficar bem. 


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