IRRADIAÇÃO
Sergio Dalla Vecchia
Henrique abriu a porta da casa de praia com um sentimento de curiosidade e ao mesmo tempo desconfiança.
A pequena casa cheirava a maresia misturada ao cheiro de tabaco, eram evidências físicas da casa fechada há algum tempo e da personalidade do tio apreciador de bons charutos.
Após descortinar cada um dos cômodos, logo chegou à porta dos fundos, ao abri-la, deparou-se com um gramado por aparar e, ao fundo, uma garagem.
Em poucos passos, chegou à garagem e lá se surpreendeu com a silhueta de um carro envolvido por uma lona repleta de pó arenoso.
A curiosidade masculina por carros logo o fez retirar a lona com muita cautela. Assim acordou um icônico carro Chevrolet Opala preto adormecido no tempo. Pintura conservada, abriu a porta e o interior mostrou-se em couro na cor bege, acariciou o assento como se fosse uma moça e ansioso sentou-se ao volante.
Henrique estava encantado naquela cabine, tato e visão a galope escanearam tudo até chegarem ao porta-luvas. Ato contínuo, ele abriu.
Dentre alguns objetos irrelevantes, destacou-se um envelope lacrado.
Nele havia uma chave e um bilhete contendo o seguinte: Não venda esta casa em hipótese alguma, Henrique. A sensação é que o próprio tio estava presente, ordenando!
Admirado com aquela incógnita surpresa, voltou para o hotel onde se alojou na pequena cidade das redondezas.
Eufórico, mal consegui dormir e logo cedo saí pesquisando pela vizinhança sobre os hábitos do tio falecido.
Após vários contatos, chegou à conclusão de que o tio era homem de poucos amigos, pouco falava sobre si e apenas saía de casa para compras de mantimentos.
Era um homem singular, misterioso e pomposo, dirigindo seu impecável Opala preto. Parecia um diplomata, oficial do exército ou coisa parecida.
Mais uma noite insone. Cedinho voltou para a casa a fim de examiná-la na busca de pistas para o aproveitamento daquela chave e o porquê de não poder vendê-la.
Assim, andando pela cozinha e batendo no piso com um cabo de vassoura, ouviu um som oco, sinal de algo solto. Parou e logo descobriu se tratar de um alçapão de entrada para o subsolo.
Sem pensar, com o coração a mil, desceu alguns degraus e chegou ao porão. Acendeu a luz e qual foi sua surpresa ao deparar-se com uma complexa estação de rádio. Não precisou olhar mais para perceber que ali era um bunker. Mas por quê? — Pensou Henrique - E a chave?
Com mais atenção, logo achou em um cantinho bem disfarçado um cofre. Sim, só pode ser a chave do cofre, pensou com seus botões!
Tremendo e com a chave em mãos, mirou na velha fechadura, algumas voltas e meias o mecanismo destravou e, zaz! A porta abriu-se!
Surpresa! Não havia nada de valor, apenas o boneco de um livro recém-acabado com o seguinte título: A Vida de um Radioamador.
Henrique sofreu um baque pela expectativa tão oposta ao que ali encontrara.
Aguardou um pouco, abriu o boneco e, com certo desinteresse, iniciou a leitura do prefácio.
O desinteresse inicial, como um passe de mágica, agora transformou-se em interesse total.
Já no texto, cada parágrafo que sorvia o tio solitário crescia.
Após o encantamento com o bem que seu tio fez, salvando vidas, avisando tormentas, buscando pessoas sequestradas, orientando navios à deriva e tantas outras benevolências, encerrou a leitura emocionado.
No quarto do hotel, usou a noite toda para filosofar e percebeu que o solitário era ele e não o tio.
Mudou-se para casa de praia, aprendeu a irradiar, tirou o Opala da garagem e viveu solitário dos presentes, mas feliz da vida prestando ajuda remotamente para os ausentes necessitados.
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