UMA CURVA NA ESTRADA - Isabella Brancher







UMA CURVA NA ESTRADA

Isabella Brancher


Zico e Bruna cresceram juntos, eram vizinhos de casa em uma cidade pequena no interior de São Paulo. Muito ligados na infância sempre tinham algo para dividir. Ele gostava de fotografia, e sempre que podia tinha junto a sua câmera fotográfica. Parecia quase como uma parte inseparável do seu corpo. Saiam juntos para a escola, de um lado Zico tinha a sacola com os livros a tiracolo, do outro lado seu instrumento de registro. Gostava de fotografar de tudo, algumas vezes era apenas um detalhe de Bruna: um novo brinco, ou o botão da blusa. Tinha um olhar sobre o micro que intrigava Bruna, e ao mesmo tempo olhava o macro tirando fotos de lindas paisagens, dignas de cartões postais. Zico tinha um gosto refinado, gostava do luxo e de matemática. 

Bruna era uma garota sem tantos atrativos, seus ombros eram leves, ao andar flutuava. Nada a encantava em especial, aluna mediana, cumpria suas obrigações a contento, tinha até um certo desprezo por algumas tarefas. Gostava muito de artes, e tudo que envolvia explorar sua criatividade a deixava estimulada. As cores vibrantes em uma tela branca, os trabalhos com o barro construindo lindas peças de cerâmica a preenchiam de luz e significado. Bruna não tinha consciência, assim como Zico que a arte se fazia tão presente em suas vidas.

A faculdade chegou e os dois seguiram caminhos muito distintos. A vida na cidade natal foi se tornando distante. Ela havia se mudado para Nova York e Zico cada vez mais envolvido com o trabalho no banco. Os pais que ainda moravam na cidade da infância e estavam enfrentando alguns problemas com a prefeitura. A cidade crescera e as casas próximas a praça central estavam sendo desapropriadas. No terreno das casas seria criado um espaço multicultural com uma praça em frente à igreja matriz. Há anos Bruna e Zico não se viam. Tiveram que se mover até a cidade dos pais. A ideia era poder assessorá-los em todo o processo de indenização e encontrar um novo local para os pais morarem. Passados mais de 15 anos se encontrariam aonde a adolescência de ambos havia aflorado.

A cidade estava cheia de verde, como de costume, algumas casas agora tinham um aspecto mais contemporâneo. As ruas estavam mais largas. Um cheiro de modernidade pairava no ar. As casas dos pais pareciam um borrão na nova paisagem.

O pai de Bruna foi o mais resistente, a casa tinha sido de seu avô e imaginar que seria destruída lhe cortava o coração. Os demais, porém, também se recusavam a aceitar a mudança. O desconhecido assustava. Bruna e Zico se uniram na missão de acolher e convencer os pais que um novo ciclo havia chegado, e que eles também se beneficiariam com isso. 

Aos poucos Bruna e Zico foram relembrando do passado e aproveitando aqueles momentos juntos. A vontade de ficar juntos foi se intensificando à medida que os dias passavam. As risadas entre as discussões. As trocas de olhares como confidências, tudo isso foi criando espaço para um desejo de compartilhar mais. 

Um dia Zico convenceu Bruna a ir até aquele bosque distante que costumavam ir de bicicleta quando crianças, ela relutou. Depois de uma breve insistência Bruna cedeu. Pegaram seu carro e seguiram pela estrada sinuosa. Havia uma curva fechada naquele trecho da estrada. De um lado, o pinheiral escuro; do outro, a ribanceira que descia até o rio Arco. O rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia. Zico dirigia rápido demais. Não conhecia aquele caminho de carro, mas, sempre que eu reclamava, respondia do mesmo jeito:—Eu conheço meu carro, relaxa, Bruna. Relaxar era impossível. Eu apertava o cinto cada vez mais forte e olhava para a estrada, estreita e cheia de curvas. Naquele ponto, porém, senti um arrepio. A curva apareceu de repente, fechada, perigosa, quase escondida entre os pinheiros:—Zico, cuidado! —gritei. —Essa curva é traiçoeira! Mas ele apenas sorriu e virou o volante... Subitamente nada mais fazia sentido, todos aqueles momentos desconfortáveis, frios e sem proposito desapareceram junto com a esperança de uma vida nova com ele. Nada mais fazia sentido. Não seria mais preciso testemunhar nenhuma discussão. Tudo teria ficado para trás, pensou Bruna se vendo cair na ribanceira. Porém, para sua surpresa, depois daquela curva acentuada se abriu um lindo planalto totalmente arborizado. Se via um lago, uma cachoeira, e a poucos metros uma linda casa envidraçada. Tudo perfeitamente combinado preenchendo o espaço de uma beleza indescritível. Bruna ficou muda, sem movimento, apenas contemplando a magnitude do lugar.  Zico a admirava feliz! 



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