PLOT DA VIDA - Sergio Dalla Vecchia

 



PLOT DA VIDA

Sergio Dalla Vecchia


Ele apenas sorriu e virou o volante diante daquela curva fechada e do grito de Bruna:

— Zico, cuidado, essa curva é traiçoeira!

O rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia.

Zico dirigia rápido demais. Não conhecia aquele caminho, mas, sempre que eu reclamava, a resposta era a mesma:

— Eu conheço meu carro, relaxe, Bruna.

Relaxar era impossível. Eu apertava o cinto cada vez mais forte e olhava para a estrada, estreita e tortuosa.

Naquele ponto, porém, senti um arrepio. A curva apareceu do nada: fechada, perigosa, quase escondida entre os pinheiros, e o reflexo de Zico não foi suficiente.

Volante e álcool são antagônicos!

A viagem pitoresca no meio rural transformou-se em viravoltas, ora céu, ora inferno! O carro rotacionava velozmente no movimento de translação pela órbita solar da vida.

Galhos robustos esforçavam-se em conter aquele carro desvairado. O estalar das madeiras quebrando-se somava-se aos gritos de Bruna.

Após o digladiar feroz entre as duas forças físicas, a natureza venceu e conseguiu conter aquele movimento suicida.

Agora, o silêncio era quebrado apenas pelo som harmônico da água deslizando sobre pedras ovaladas do rio que por ali serpenteava.

Devidamente atados pelos cintos de segurança, no banco da frente jaziam os dois corpos.

Ele sangrava pela boca e ela, com escoriações, desfrutavam a inconsciência dos semimortos.

Com respirações lentas, naquele estágio letárgico, eles aguardavam apenas o veredito de Deus: vida ou morte!

Vida foi a sentença!

Assim, Bruna, num repente, inspirou a vida com sofreguidão, acompanhada de um grito:

— Meu Deus, o que aconteceu?

Logo caiu em si e percebeu Zico ao seu lado. Não pensou duas vezes: posicionou o marido, iniciando imediatamente uma respiração boca a boca, com todo o amor que seu coração pudesse doar.

Uma vez, duas, três e nada; mas, na quarta, um soluço o devolveu à vida!

Assim, o passeio feliz numa tarde de domingo quase terminou em tragédia, não fosse a pronta ação de Bruna, com ajuda divina, para salvar o negligente marido.

Lição aprendida, Zico!

Será?


Nenhum comentário:

Postar um comentário