Uma
experiência transcendental
Ledice Pereira
Confesso que sempre tive certa
resistência a visitar um brechó. Tinha a impressão de que o cheiro de mofo me afastaria
imediatamente. Minha neta, no entanto, me convenceu a acompanhá-la a um desses
da moda, que ela já havia visitado com as amigas.
Eu havia comentado que teria um
casamento e não sabia o que usaria, já que era num local requintado.
Ainda tenho os vestidos que usei no
casamento dos filhos e nunca mais os vesti. Mas não os usaria por serem mais
sofisticados e por estarem um pouco fora de moda.
— Por que você não leva os seus pro
brechó e talvez encontre algo lá que agrade, vovó?
—
Só em pensar que vou usar algo que alguém já vestiu me dá uma comichão,
querida. — Respondi-lhe, rindo e já
sentindo coceira nos braços.
Júlia riu, sacudindo a cabeça como quem
diria: Essa minha avó…
— Vou te levar num brechó encantador
que você vai amar e duvido que saia de lá de mãos abanando.
E Júlia me arrastou para o carro sem
que eu tivesse tempo de resistir.
O local era perto e, logo que cheguei,
notei o cuidado no jardim que circundava a casa, cercada de bancos coloridos e
gaiolas abertas por onde circulavam alguns pássaros à vontade, entoando seus
pios, enquanto buscavam frutinhas espalhadas por toda a extensão, num convite a
saboreá-las.
Ao entrar na sala, deparei-me com as
araras repletas de roupas coloridas, todas cobertas por uma capinha plástica,
contendo etiquetas que as descreviam. O local exalava um suave perfume e a
iluminação amarelada fazia com que o ambiente fosse muito acolhedor. Senti-me
muito bem ali.
Júlia me abraçou e me dirigiu ao setor
de vestidos próprios para cerimônias, que estavam dispostos em outra sala,
seguindo as diversas numerações e estilos. A organização do lugar encantou-me.
A dona e demais atendentes atenciosas e
incansáveis fizeram questão de nos mostrar as diversas alternativas.
Um dos vestidos chamou minha atenção,
fazendo com que eu viajasse no tempo, chegando à minha formatura do colegial,
hoje o nono ano do ensino médio. Era inteiro plissado, num tom de azul
furta-cor que ia até o marinho. Aquela visão me levou às lágrimas. Minha neta
achou que eu devia experimentá-lo, já que me trazia doces recordações.
Dentro dele, tive a sensação de já ter
vivido aquele momento, aquela emoção. Ele me levava, não para a década de
sessenta, mas para outra dimensão, outra vida talvez, algo inexplicável que me
emocionava sem saber por quê.
Ensaiei uns passos de dança como se
estivesse sendo guiada. No meu inconsciente, ouvia o som longínquo de uma
orquestra que tocava uma valsa que cantarolei baixinho, como se a conhecesse de
longa data.
Não sei por quanto tempo fiquei ali,
parada, emocionada, em transe.
Sacudida por Júlia, que me trazia água
e estava com os olhinhos assustados, saí daquele torpor.
Tomei a água e me sentei, sentindo um
enorme cansaço.
Depois de tudo que senti, não poderia
deixar de levar o vestido que havia ficado perfeito em mim, até no comprimento.
Voltamos em silêncio. Júlia
ensimesmada. Eu tentando digerir o que acabara de vivenciar. Tendo a nítida
impressão de ter revivido algo que ocorrera comigo em alguma vida passada.
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