O matchmaker do brechó - Carla Di Sessa

 


O matchmaker do brechó

Carla Di Sessa

 

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Cláudio estava já há uns bons 20 minutos no carro estacionado sem conseguir descer. Seu irmão ainda não havia chegado e ele começou a temer que ele não viesse. Cláudio não sabia se conseguiria entrar sozinho no brechó que o pai havia começado depois que Gilda, sua eterna amada por mais de 30 anos, falecera. A mãe deles adorava aumentar o guarda-roupa, mas não se desfazia de peça alguma. Ao longo dos anos, as roupas foram sendo acomodadas em caixas, sacolas e araras, tudo mantido meticulosamente limpo e organizado por ela.

A ideia foi de uma prima, Maitê, garota descolada e ligada ao mundo da moda. Ao vê-los sem saber o que fazer com todas aquelas coisas que eram de Gilda, ela sugeriu abrir um brechó. Alguém tem uma ideia melhor para toda essa roupa que ninguém mais quer, coisas antigas e fora de moda? Um brechó transforma tudo isso em vintage, dissera ela para Ernesto.  E assim começou o negócio. A sobrinha passou a ajudar o tio, indo sempre à loja e trazendo peças novas que conseguia entre seus conhecidos fashion. Os anos se passaram e agora cabia aos filhos dar um destino a todas aquelas coisas.

Ernesto havia morrido há 3 semanas e Claudio ainda não havia processado de todo a ideia. 

Como o pai, um homenzarrão tão bem-humorado que cantava Sapore di Sale a plenos pulmões, para desespero da mãe e deleite dos filhos, podia não estar mais ali com sua gargalhada sonora? 

Cláudio adorava ver o pai seguindo a mãe pela casa enquanto cantava e ela fingia fugir, sorrindo e dando bronca ao mesmo tempo. Sapore di mare, sapore di teeeeeee! Finalizava o pai, enlaçando a mãe pela cintura e a beijando estalado na bochecha.

Cláudio reconheceu o carro do irmão, Luís, se aproximando e estacionando atrás do seu. Vamos lá, pensou Cláudio, cumprimentando o irmão e pegando a chave no bolso.

Cláudio destrancou a porta e o cheiro conhecido os envolveu: uma mistura hippie de patchouli e incenso. Luís se sentou na poltrona do pai e começou a mexer nas gavetas da escrivaninha. Cláudio ficou andando a esmo, abriu a janela, foi buscar água para tentar reanimar uma planta e recolheu alguns folhetos que alguém enfiara por debaixo da porta.

Que álbum é esse?

A pergunta de Luís quebrou o silêncio e Cláudio se aproximou.

Olha só, está cheio de fotografias de gente sentada em plateias, parecem cinemas, ou serão teatros? Coisa mais esquisita… E olha essa aqui, parece um estádio… é um estádio, dá para ver um pedacinho da arquibancada aqui no canto da foto.

De fato, eram muitas fotografias de pessoas sentadas, sempre de costas para a câmera, homens, mulheres, jovens, idosos, às vezes conversando, às vezes não.

Será que o papai era tipo um stalker? Ou então um detetive? Cara, o que ele fazia com tanta fotografia de gente desconhecida? E tudo com data, está vendo? Meu Deus, ele fazia isso há um tempão! Você sabia disso?

Os irmãos se olharam e perceberam que o pai tinha uma dimensão totalmente desconhecida para eles.

 

 

 

Anos atrás:

 

Toda semana, Ernesto vasculhava a seção de cultura do jornal de domingo à procura de espetáculos, shows ou filmes de maior sucesso naquele momento, escolhia um e comprava sempre três ingressos para dali a algumas semanas. Os lugares eram sempre bem localizados, dois ao lado um do outro, o terceiro duas filas atrás.  Uma parte do custo era paga pelo lucro do brechó, o resto saía do bolso dele mesmo.

Pedia a entrega no endereço da loja e era então que a diversão começava.

Ernesto observava cada cliente que entrava, puxava conversa, oferecia água, chá ou café e depois ia para sua escrivaninha e esperava aquela sensação que vinha quando a pessoa certa estava ali na frente dele. Nessa hora, se a pessoa comprasse alguma coisa, levaria também sem saber um dos ingressos. E assim as duplas eram formadas. O terceiro ingresso era dele, Ernesto, e ele comparecia ao evento pontualmente, ansioso para ver se as pessoas compareceriam, se conversariam e sairiam dali não mais como estranhos. Ele sempre batia uma foto discretamente e, dessa maneira, seu álbum ia aumentando.

Às vezes, alguém voltava ao brechó com o ingresso na mão. Dizia haver achado na sacola, que havia voltado para devolver. Ernesto examinava o ingresso e dizia que não, não era dele não. E brincava, se foi parar na sua mão, é porque tinha que ser seu, aproveita! E acrescentava um comentário do tipo “ouvi dizer que esse filme é imperdível” ou “soube que esse espetáculo é maravilhoso!”  Ernesto torcia para que as duplas se conhecessem, conversassem e, quem sabe, virassem amigos, namorados, amantes. Gostaria de saber o desenlace de cada encontro, mas o máximo onde podia chegar era ver se saíam juntos, conversando ou não.

 

Tempo atual:

 

Cláudio e Luís foram visitar Maitê, pois a curiosidade sobre o misterioso álbum de fotos só fazia crescer. Queriam saber se, por acaso, ela tinha conhecimento daquilo, se percebeu algo anormal nas atitudes do pai deles, pois ter um álbum cheio de fotos de gente de costas em plateias não era muito comum. Estavam preocupados, seria alguma tara ou obsessão?

Maitê caiu na gargalhada. Relaxem, meninos, o pai de vocês era um romântico incorrigível e gostava de brincar de Cupido. Vou contar a história toda. Quando ela terminou, ambos os irmãos estavam bem mais aliviados.

Mesmo depois de morto, ele não para de nos surpreender, disse Luís.

E é a cara dele uma coisa dessas, não é não? Acrescentou Cláudio, rindo.

 

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