A CURVA TRAIÇOEIRA - Ledice Pereira

 



A CURVA TRAIÇOEIRA

Ledice Pereira


Aquelas férias tão esperadas, finalmente, aconteciam. Depois de nossa lua de mel, há dois anos, era a primeira vez que conseguíamos marcar o mesmo período para viajarmos juntos.

Combinamos que iríamos para algum lugar paradisíaco, daqueles que nos trazem paz. Onde a natureza nos acolheria com sua beleza, o canto dos pássaros, o cricri dos grilos, o silêncio da mata. Tudo que não encontrávamos na cidade grande.

Eu pretendia esquecer o celular, as redes sociais, tudo que me desgastava no meu dia a dia de trabalho, no qual os desagradáveis e inúmeros “call” tomavam conta de todos os horários. Estava esgotada e Zico também.

Àquela hora da manhã, a estrada ainda tinha um fluxo razoável, nada exagerado. Propositadamente, escolhêramos sair de casa antes do nascer do sol.

A viagem transcorreu relativamente tranquila até certo ponto, quando nós nos desentendemos porque Zico passou a me provocar, apertando cada vez mais o acelerador. 

Eu conhecia aquela estrada. Havia uma curva fechada onde se avistava de um lado o pinheiral escuro, do outro, a ribanceira que descia até o rio Arco.  O rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia.

Zico dirigia rápido demais. Ele não conhecia aquele caminho como eu, mas sempre que eu reclamava, respondia do mesmo jeito: 

— Conheço meu carro, relaxa, Bruna!

Relaxar era impossível. Eu apertava o cinto cada vez mais forte e olhava para a estrada, estreita e cheia de curvas e penhascos. 

De repente, a curva apareceu, fechada, perigosa, quase escondida entre os pinheiros.

— Zico, cuidado! — gritei — essa curva é traiçoeira!

Ele apenas sorriu e virou o volante.

O caminhão apareceu tão de repente, no sentido contrário, que nos arremessou penhasco abaixo, provocando inúmeras capotadas como se fôssemos bolas girando e girando, até parar definitivamente, ao bater numa enorme árvore.

Só então me dei conta de estar de cabeça para baixo, com o airbag me pressionando. Sentia o cinto apertando meu peito, que doía muito.

Zico estava desacordado. Tentei chamá-lo, tocá-lo. Ele não se mexia.

Eu precisava sair daquela posição. Sair dali, gritar por socorro. Alguém, talvez, tivesse visto o que nos acontecera.

Meus Deus, não estou sentindo meus pés.

Comecei a entrar em desespero.

Não sei por quanto tempo permanecemos ali, devo ter adormecido. Percebi certo movimento e vozes. Vi serem homens de uniforme. Consegui destravar a porta por onde supliquei que salvassem meu marido inerte. Não me recordo de mais nada.

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Estava tonta, as imagens custaram a clarear. Vi o teto branco, as paredes brancas também. Tentei me mexer. Senti uma forte dor. Estava presa. Tinha fios ligados ao meu corpo. A moça de roupa branca sorriu, tentando me segurar com delicadeza. 

— Procure ficar quietinha. Você quebrou alguns ossos da costela. Está sob efeito de medicamentos. 

Aos poucos, caí em mim. Lembrei estarmos viajando. O caminhão. Zico.

— Onde está Zico? — perguntei, desesperada, com medo da resposta.

— Seu marido está passando por cirurgia. As costelas quebradas perfuraram o pulmão, quebrou um braço e teve a perna presa durante muito tempo nas ferragens que tiveram que ser serradas. Perdeu muito sangue.

Comecei a chorar, sentindo que tudo doía a cada soluçar.

— Que dia é hoje? — perguntei.

Estávamos há três dias no hospital. Levados pelos bombeiros.

— Nossas coisas, malas, documentos?

— Eles trouxeram tudo que encontraram. Pusemos no armário. Só pegamos os documentos para podermos dar entrada. Não conseguimos ligar para ninguém. Os celulares estão desligados. 

Pensei que nossas famílias não sabiam de nada. Deviam estar nos procurando. Querendo saber notícias. Fiquei meio desesperada. Não sabia nem o que pensar. Nem que providência tomar. Estava ali, sem ação, sem poder me movimentar.

O médico veio me dar notícias de Zico. Havia sofrido uma cirurgia delicada. Era necessário aguardar setenta e duas horas. Só então saberíamos se ele estava fora de perigo. 

Tive muito medo. As horas que se seguiram foram de muita oração.

Consegui pedir que pegassem meu celular e o pusessem para carregar. Precisava ligar para minha família urgentemente. 

Eles estavam muito preocupados. Haviam tentado falar conosco e aguardavam que entrássemos em contato. Pensaram que estaríamos sem conexão. Havíamos dito que queríamos sair do mapa. 

Choramos ao telefone. Pedi que avisassem os pais de Zico. Eu não conseguiria falar com eles. 

Eu acordava rezando e dormia rezando. As setenta e duas horas pareceram uma eternidade. Finalmente, ele estava fora de perigo, mas teria que fazer muita fisioterapia.

Nossas famílias vieram e nos transferiram para um hospital ao qual tínhamos direito, onde morávamos. Ficou bem mais prático. Tive alta logo. Iria cuidar das costelas em casa. Não tinha muito o que fazer. Zico ainda permaneceu hospitalizado por um tempo maior. Até que conseguisse caminhar. 

Nossas férias terminaram e tivemos que permanecer mais um tempo afastados do trabalho. Principalmente, Zico que, a duras penas, aprendeu que nossa vida é o bem mais precioso e temos obrigação de zelar por ela. 

Não tivemos coragem de ir ver o nosso carro que teve perda total.

Esse foi um capítulo da nossa história no qual queremos passar uma borracha para sempre. 


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