Depois da Curva - Adriana Frosoni





Depois da Curva

Adriana Frosoni

A estrada era sinuosa e estreita, mas a paisagem era de tirar o fôlego de tão bela. O destino prometia um final de semana de aventuras, com trilhas e cachoeiras praticamente inexploradas. 

Um rio, caudaloso e barulhento, fazia-se ouvir dali de cima, embora corresse muitos metros abaixo da rodovia. 

Já era fim de tarde e uma garoa fina começava a cair. 

Zeca, como sempre, dirigia acima da velocidade permitida. Apesar de não conhecer aquele caminho, sempre que eu reclamava, respondia do mesmo jeito: 

— Eu conheço meu carro. Relaxa, confia em mim!

Naquele trecho da estrada, havia uma curva fechada. De um lado, a encosta íngreme; do outro, a ribanceira que descia até o rio. Quando vi a placa de curva fechada à esquerda, senti um arrepio. Ele não teve tempo de diminuir a velocidade.

— Zeca, cuidado! — gritei.

Mas ele apenas sorriu e virou o volante com uma confiança que beirava a imprudência.

O carro inclinou-se de leve; por um segundo, pareceu obedecer. Os pneus ainda se agarravam ao asfalto, e o mundo seguia inteiro. Então, veio o som: um chiado seco, arrastado, como um aviso tardio.

O volante tremeu. Vi quando o sorriso dele se desfez, não por medo, mas por súbita compreensão. Era tarde. Sempre é tarde quando compreendemos.

O carro deslizou.

Foi um deslocamento lento. Inevitável. A lateral gemeu ao raspar na defensa metálica, fina demais para conter qualquer coisa além de ilusões.

O metal cedeu na emenda. O carro derrapou mais ainda no pedregulho e rolou ribanceira abaixo. Depois, o silêncio. O rio, indiferente, repetia seu barulho cadenciado.

Quando abri os olhos, o mundo estava torto, o vidro estilhaçado e o painel esmagado. A mão dele, imóvel.

— Zeca?

Minha voz saiu baixa, estranha, sem corpo.

Nenhuma resposta. Apenas a sua mão inerte sobre o volante. Havia algo profundamente errado na quietude daquela mão. 

O som do rio parecia mais alto, agora. A água batia nas pedras com um ritmo constante, quase hipnótico. Ou, talvez, fosse só a minha cabeça latejando. 

Foi então que percebi um movimento na encosta. Aos poucos, a forma se definiu — uma mulher.

 Vestia-se de claro, o cabelo era longo e, mesmo com o vento, nenhum fio saía do lugar. A chuva fina que caía enlameava a encosta, mas ela não hesitava nem escorregava. Descia como se conhecesse cada pedra e raiz, como se já tivesse feito aquele caminho antes, muitas vezes. Ela parou a poucos passos do carro, me olhou sem pressa, nem surpresa. Apenas reconhecimento, como se estivesse me esperando.

Ela me estendeu a mão e, quando meus dedos tocaram os dela, um entendimento percorreu meu corpo. Ele já tinha sido levado, agora, era a minha vez.

Não foi difícil me levantar, meu corpo estava leve. E mesmo caminhar sobre a lama era mais fácil do que me parecia.

Depois de alguns passos, olhei para trás. O carro, quase irreconhecível, permanecia torto entre as pedras. Pela janela, uma mão feminina pendia para fora. Reconheci o anel.

Agora, havia algo profundamente errado na quietude da minha mão. 


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