Um achado no brechó - Isabella Brancher




Um achado no brechó

Isabella Brancher


Cristina acordou esperando por mais um dia sem muita emoção. O dia estava meio azedo, as nuvens estavam escuras, pesadas. Tinha receio de não poder passear como de costume. Tinha se mudado para o bairro recentemente. Ainda não conhecia bem a região. Queria continuar explorando. Olhando pela janela, viu ao longe um letreiro em que dizia: “O descarte de um pode ser o encanto de outro”. Intrigada com a frase no topo de uma casa foi na cozinha preparar seu café da manhã. Ainda havia muitos pequenos afazeres no novo apartamento para terminar, mas hoje não tinha vontade.

A frase voltava no seu pensamento, aderente. Decidiu encarar a possível chuva e foi caminhando em direção ao letreiro. Chegando na casa viu que era um brechó. Entrou. A primeira sala estava repleta de bolsas. O perfume era um misto de lavanda com lembranças. Era um aroma envolvente. As bolsas eram das mais variadas marcas, algumas eram precisamente novas. Escolheu algumas por diversão. Pensou, não preciso de nenhuma. Tornou a olhá-las e escolheu uma preta, era uma bolsa clássica, linda, mesmo sem muita utilidade no momento, decidiu comprá-la. Voltando para casa descobriu outros comércios interessantes pelo bairro, e tudo parecia mais acolhedor. Se sentiu mais leve, como se o céu tivesse tirado aquele manto cinzento das suas costas. Voltou cantarolando suavemente para casa.

Algumas semanas depois surgiu um convite de uma antiga amiga para a sua festa de 60 anos. Ficou surpresa com o convite, não se viam há anos. A vida as distanciara. Um misto de curiosidade e saudade a incentivou a aceitar o convite. Se preparou para a festa. Pensou: uma ótima ocasião para usar minha bolsa nova. Escolheu uma roupa, depois outra. Perdida nas escolhas, se atrasou. Vestiu o clássico pretinho, pegou a bolsa, jogou nela a carteira, as chaves e partiu afobadamente para a festa. 

Que delícia de festa! Adorou rever os amigos, saber o que faziam. Reconectar com histórias antigas. As gordas risadas encheram a noite por completo. Os anos de faculdade haviam sido ricos em experiências. A descoberta na vida adulta, a liberdade. A construção de uma vida toda a partir das nossas escolhas. Voltava para casa realizada e pensando...fazendo uma retrospectiva dos anos.

Ao chegar em casa, abriu a bolsa e procurando pela chave encontrou um compartimento que não havia reparado antes. Uma surpresa! Dentro dele havia algo, sentia no escuro. Pegou a chave, entrou em casa. Agora, com luz, pode ver que era uma foto. Uma foto antiga. A foto trazia a imagem de vários jovens à beira de um rio, nadando, pescando. Subitamente, se lembrou da história de João, um amigo da faculdade, que lhe contara sobre o tio que pescava rãs no rio Pinheiros. João não foi à festa, por onde andaria? Teria gostado de revê-lo! Outras memórias daquele tempo emergiram como capim vibrante após a chuva. Nas aulas de química no laboratório se sentava ao lado de João e com ele trocava muitas confidencias. Nunca haviam passado de amigos, embora ela acreditasse que ele gostava dela. Se lembrou das tardes estudando ao seu lado, dos olhares furtivos. Sabia pouco sobre ele, ela falava mais, ele a ouvia. Ouvia com uma atenção acolhedora. Cristina se percebeu pensando em João com mais do que ternura. Um leve calor percorreu seu corpo. Nada mais parecia estar no lugar. Pensativa ainda com a foto na mão adormeceu.


Nenhum comentário:

Postar um comentário