Um achado no brechó - Yara Mourão

 



Um achado no brechó

Yara Mourão


Naquele sábado nublado, Lúcia acordou com uma energia diferente. Na verdade, estava cansada de chorar pelo fim do casamento. Se Daniel foi embora, melhor, ficava até aliviada. O amor acaba, a paciência se esgota, a esperança se esvai. Lúcia agora queria era um sol, um céu azul, brisa de verão. Mas já era outono e o universo não estava disposto a se modificar por causa dela.

Assim sendo, ela decidiu seguir novos rumos: outras ruas, roupas diferentes, comidas alternativas.

Levantou-se e saiu para o acaso das coisas. Andou uns dois quarteirões e se viu em frente ao Brechó da Maria Peruana, lojinha bem socialista, com um toque LGBT, que oferecia, em vez de cafezinho, chá de coca.

Entrou, entregue, intrigada. Rodou por todos os corredores, sentou-se nos almofadões espalhados, tomou o chazinho e, depois que passou o acesso de tosse, pegou de um cabide a primeira peça que viu. Deu sorte. Era um lindo camisão branco, com um bordado bonito no decote, um bolso pequeno do lado esquerdo.

Ela não hesitou. Vestiu a peça e o que viu no espelho refletiu uma pessoa nova que ela gostou de ver. Passou no caixa e saiu da loja vestida com ele.

Já na rua, remexendo no bolso do camisão, encontrou uma tirinha de papel com um endereço. Para sua surpresa, era de um local bem próximo dali. Ela achou por bem ir até lá. O que encontraria? A antiga dona da roupa, de certo. Não seria engraçado ela chegar lá vestida com aquele camisão branquinho e dar de cara com a antiga dona dele?

Animada com a possível travessura, Lúcia apressou o passo até o endereço do papel. Chegando lá, viu que era uma casinha bem simpática, adornada de plantas, espada de São Jorge por todo lado, portão aberto, gente chegando. Entrou. Foi bem acolhida e logo recebeu o primeiro passe, para sua surpresa e espanto. Era um terreiro de umbanda, com todos os pais, mães e demais parentes dos santos e orixás.

Quando ela pensou em falar, disseram que poderia ficar calada porque sim, eles eram perfeitos para reatar o amor e que certamente seu companheiro iria voltar.

“Só me faltava essa agora!” pensou Lúcia. Mas a ciranda que se fez à sua volta, a música, o batuque, tudo a envolveu e ela não teve saída.

Estava feito. “Saravá!”

O anseio de liberdade de Lúcia se derreteu. Ela não teve outra saída a não ser fugir daquele lugar. Voltou por onde veio, pela mesma rua, até o malfadado brechó, maldizendo o camisão branco que comprara, com seu lindo bordado no decote e bolsinho do lado esquerdo! “Maldito camisão!” pensou. “E agora, será que Daniel voltaria para atormentá-la, e ela ia começar a chorar de novo?”

Ao dar de cara com a loja da Maria Peruana, disse para si mesma: “Culpa do brechó! Da próxima vez, eu preciso ir é para um shopping!”

 

 

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