Um segredo de família napolitana ou de qualquer outra família… - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



 Um segredo de família napolitana

ou de qualquer outra família…

Ises de Almeida Abrahamsohn

 

       Era a terceira vez que o celular tocava. Isabella ignorou as chamadas de número desconhecido. Seu pequeno Fiat serpenteava entre caminhonetes de entregas e ferozes 4×4 tentando escapar dos arredores de Nápoles e alcançar a estrada para Salerno. Mas os toques   irritantes continuaram. Podia ser algum cliente importante de seu pequeno escritório de arquitetura.   Finalmente conseguiu passar para a faixa da direita e estacionar o automóvel numa rua lateral. Retornou a ligação. Sua irmã Beatrice, a Bea, acabara de ser presa, informou uma voz masculina impessoal. Não explicou o motivo. Apenas lhe indicou o endereço da “stazione di polizia”. Isabella conhecia bem o local. Era no Vomero, o bonito bairro onde a irmã morava em um confortável apartamento. Tentou mais alguma informação, mas o sujeito desligou. Ligou para o advogado que a auxiliava no escritório e passou-lhe o endereço da delegacia. Pelo menos teria alguém para orientá-la. 

       Chegaram quase ao mesmo tempo na delegacia e o policial logo informou:
― Sua irmã  foi presa em flagrante.  Ela atirou no senhor Oreste D’Annunzio, que está no momento no hospital. Parece que o atingiu na perna e está sendo operado. Sorte que não o matou, disse meio sorrindo o policial. Senão, ela ficava dormindo aqui.  A fiança para libertá-la são 20.000 euros, suponho que pode pagar. Isabella ligou para a gerente do banco; resgatando seus investimentos, conseguia o valor necessário para tirar a irmã dali. Enquanto aguardavam, o advogado conseguiu a permissão para falarem com Beatrice.

       Foram conduzidos a um recinto minúsculo, sem janelas, mobiliado apenas com quatro cadeiras e uma mesa sobre a qual pendia a única lâmpada.  Sentaram-se Isabella e o advogado Mário. ― Deve ser uma sala de interrogatórios, disse Isabella, tentando disfarçar o nervosismo.
E continuou, como se conjecturasse para si mesma: 'Mário, me diga, você a conheceu?' Como é que a Bea, minha irmã, tão calma e paciente, iria atirar em alguém? Nem sabia que ela teria um revólver em casa, deve ser do marido. 
A porta se abriu e Beatrice entrou acompanhada por uma policial que informou terem quinze minutos para conversar. 
Isabella abraçou a irmã e despejou uma saraivada de perguntas. Beatrice enxugou as lágrimas e calmamente informou:
― Sim, de fato atirei no tio Oreste. Ainda bem que não o matei. Teria desgraçado a minha vida mais do que já sofri nestes últimos dois anos. Você lembra do tio Oreste? Irmão do papai, Que Deus o tenha! Pois é, ele apareceu há dois anos em casa, do nada, e foi se insinuando.  A gente já não gostava dele quando éramos crianças e ele aparecia de vez em quando na Páscoa, sempre com suas brincadeiras meio estúpidas e maliciosas. Principalmente comigo. E eu lembro de discussões entre ele e nossa mãe que acabavam o enxotando de casa, antes de papai chegar do trabalho.
A história que contou é que ele seria de fato meu pai e não o nosso pai Enzo. Que ele teria namorado a nossa mãe e ela, meses após se separar dele, teria se casado com papai. Porém, ele teria continuado a vê-la nesses intervalos e que ela teria casado já grávida de mim.

O que ele queria de fato era dinheiro. Estava mal, queixou-se, e agora, com o falecimento do irmão que sempre o acudira...   Então, ele era forçado a recorrer a mim, sua filha segundo ele, situação que o tornaria também herdeiro do espólio de nosso pai.
Fiquei horrorizada, principalmente porque ele ameaçava contar tudo para meu marido. O Alberto, você sabe como ele é.  É muito orgulhoso da família, de repente se ver associado a um tipo destes e a essa história toda.
Não disse nada a você para não aborrecê-la e achei que poderia resolver o caso. Eu lhe dei 10 mil euros e lhe disse para sumir da minha vida.  O que é claro, ele não fez. Como chantagista, voltava sempre. Temos posses, mas esconder retiradas de cinco, outra vez dez e até 15 mil euros não era possível. 
E eu queria me certificar se aquela história era verdadeira.
Guardei o copo em que ele havia bebido e fui a um laboratório pedir exame de DNA.
De fato, ele é o meu pai biológico. Fiquei transtornada. Quando ele apareceu hoje para mais uma extorsão, eu o esperava. Não sei o que deu em mim. Quando fui ao quarto pegar o celular, lembrei do revólver antigo de Alberto, há anos guardado no fundo do armário. Não sei atirar.
Ao entrar na sala, ameacei Oreste e, para expulsá-lo de vez, apontei o revólver. Achei que se assustaria… Porém, ele riu e avançou para me desarmar. Foi quando atirei. Ele caiu ferido na coxa, me   xingou e desmaiou. Eu liguei para a polícia e informei do ferimento. Fiquei sentada numa   poltrona da sala. Creio que estava em estado de choque pelo que fizera. Pensava que tinha matado o maldito.
Quando chegou a ambulância e me disseram estar vivo e que o tiro apenas atingira a perna, comecei a rir descontroladamente.  E eu repetia sem interrupção: bem-feito, maldito, bem-feito, maldito!  E me trouxeram para a delegacia.

       Alberto está em viagem de negócios na Austrália.  Não sabe de nada. É isso o que se passou. Agora virá tudo ao conhecimento dele, das irmãs esnobes e   dos amigos,    também tipos arrogantes e endinheirados. Ele vai me apoiar, eu sei, é diferente dessa turma. Talvez perca alguns negócios, mas ficará bem…

       Isabella abraçou a irmã com carinho. Nós estamos aqui, Bea. Pagaremos logo a fiança e você vai comigo para casa. Com um advogado criminalista e essa história, você não irá para a prisão.  Ficará no máximo em sistema de restrição policial.

Que história, comentou o advogado Mário. Parece novela da TV.

 

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