SATURAÇÃO
Sergio Dalla Vecchia
Havia
uma pequena cidade. Pitoresca, o pouco que cresceu foi se afastando do rio que
lhe deu guarida desde pequena vila. Assim foi se expandindo, pequenas ruas
foram surgindo, dando início a uma urbanização improvisada.
Habitavam
ali trabalhadores do meio rural utilizados no agronegócio da região.
Aconteceu
que o modesto rio que ali coabitava já não era mais o mesmo que tanto colaborou
para a formação da cidade.
Mostrava-se
ranzinza, por vezes inflava-se de orgulho ferido, mostrava os dentes através de
pequenos transbordos nas margens para defender seu território.
Era
evidente seu desconforto com o crescimento atabalhoado de ruas sem critério,
bem como o desmatamento de áreas lindeiras ao seu leito visando a ampliação da
cidade.
Quando
chovia forte na região onde a mãe terra lhe deu à luz, seu sangue cristalino
aumentava muito, borbulhava de ansiedade. Porém, já não era mais puro como
antes e sim barrento.
Com
o passar do tempo, a cidade resolveu cerceá-lo dos seus direitos, confinando-o
entre muros, formando um canal áspero, sem poesia, retificando suas curvas e
travando sua cintura. Além disso, os dejetos das casas foram lançados sem o
mínimo pudor no seu sangue barrento, tornando-o cinza esgoto.
Sem
jogo de cintura e sem perspectivas, a paciência o abandonou!
Assim,
em certo mês de março, ele, não aguentando mais tanto desaforo, rebelou-se!
Aproveitou
o ritmo das águas de março, levando o verão do Jobim, alastrou todo seu sangue
ora impuro por toda a cidade.
Não
sobrou nem pau, nem pedra, só restos de tocos por todos os caminhos!
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