O
porão sombrio
Isabella
Brancher
Já
não sabia quantos dias havia passado fechada nesse porão. Sentia meus ombros
pesados, faltava ar, até o silêncio parecia me vigiar. O cinza que cobria os
móveis e objetos já dizia bastante sobre o lugar. Um sabor de mofo impregnava o
ar. Tudo parecia esquecido no tempo. Tempo de uma época distante, onde brincar
era a maior preocupação.
Agora, com a respiração mais suave, observava cada detalhe do porão. Olhando à
distância, consegui identificar alguns objetos. Eles traziam, pouco a pouco,
lembranças doces da minha infância. No canto da mesa lateral, um jogo de
xadrez. Meu rosto se iluminou ao me lembrar de como conseguia derrotar o meu
avô quando jogávamos. Eram memórias bem antigas. Enchiam meu corpo com um calor
aconchegante. Sobre o sofá, uma colcha com quadradinhos coloridos de crochê
trazia uma leve vida para o espaço. Novas recordações surgiram ao perceber o
colorido da colcha. Parecia ouvir a voz aveludada da minha avó preenchendo o
espaço. No outro canto da sala, uma caneca… Vovó me trazia chocolate quente com
bolachinhas de nata, senti aquele gosto envolvente, percebi-me engolindo a
própria saliva.
Subitamente,
um som cego, pesado, caiu e me trouxe de volta à realidade.
Estou
só, pensou friamente. E estava, literalmente. Todos haviam morrido. Ali me
sentia segura, protegida. Precisaria sair desse esconderijo a qualquer momento.
Só me restavam uns pacotes de bolacha salgada.
Como
estaria tudo longe do porão seguro. Aquela invasão do inimigo havia destruído
boa parte da cidade. Cambaleando, reuni minhas forças e subi as escadas
rangentes, abri a pesada porta e afastei com delicadeza a estante. Nem sempre
aquele espaço tinha sido escondido. Nos últimos anos, por conta das sucessivas
invasões, meu avô, num último gesto protetor, havia preparado aquele porão para
servir de refúgio se fosse necessário. Meu peito se encheu de orgulho quando
rememorou o avô fazendo os ajustes para deixar o porão escondido.
A sala por onde se abria o porão ainda estava
intacta, algumas partes da casa haviam sido afetadas. A casa ainda existia!
Pouco a pouco, andando lentamente, com os meus olhos ainda embaçados pela luz
intensa, fui para a rua.
Caminhando
como se o chão sob meus pés fosse afundar, fui identificando antigos locais,
até que cheguei à esquina. Era na esquina que ficava aquela maravilhosa padaria
de onde sempre ia com meu avô e voltava com os bolsos cheios de balas.
A
padaria estava com algumas janelas trincadas e outras avarias, mas conseguia
funcionar. Isso havia feito aquele pedaço da rua se encher de esperança.
Entrei, pedi um café e um croissant e saboreei aquele café como uma rainha!
Enfim,
agora tudo seria um novo recomeço!
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