História do rio transbordeiro - Yara Mourão

 

 


História do rio transbordeiro

Yara Mourão

 

Era uma vez um rio transbordeiro. Não por culpa dele. De certo preferiria passar incólume pela quietude da paisagem e, ensimesmado em seu lugar de ser, chegar tranquilamente ao seu destino.

Ele surgia quase sorrateiro na curva de uma ruazinha. Ruazinha estreita, cheia de pedras e buracos, que ora causavam uma depressão, ora uma elevação no leito das águas. Isso dava ao rio uma personalidade indisciplinada, fazendo com que limite não fosse o seu forte. Ele extravasava. Nem era o caso dele carregar água demais para seu leito estreito. Era mais uma inconstância da estrutura essencial, porque se houvesse mais harmonia na base da sua necessidade de fluir, o que é próprio para os cursos d’água, o riozinho não passaria por cima de seus obstáculos naturais, desestabilizando seu entorno.

Mas seguia o rio noite e dia, sempre à espera de uma solução para seu desencanto.

O que ele queria era ser o desenho da paisagem, a pintura no quadro do artista, o playground das crianças do lugar.

Eis que um dia um terremoto sacudiu tudo. Rasgaram-se as ramas das plantas, derreteram-se as margens de barro, alargaram-se as fronteiras das águas. O riozinho cresceu. Aprofundou-se. Afogou toda a relva, todo pedacinho de terra.

Agora ele era imenso, punha até medo.

Os homens do lugar se perguntavam o que fazer para domar o impetuoso riozinho que, de suave presença, passou a ser grave ameaça. As crianças não vinham mais brincar em suas margens; os artistas não vinham mais com seus cavaletes para pintar na tela o azul do céu mergulhando no azul do rio.

Só quem vinha agora ver aquela água toda eram os engenheiros. Depois vieram os operários com suas máquinas, seus canos longos e largos, o cimento, a areia, o pedregulho.

No espaço de uns dias, as margens se estreitaram…

No espaço de umas noites, canalizaram o rio.

Ele sucumbiu. Secar não secou, mas de mágoa se negou a continuar.

Amofinou-se.

Despediu-se de ser natureza.

Foi-se sem derramar uma gota d’água sequer, à guisa de uma lágrima.

E, sendo assim, o riozinho foi-se embora e nunca mais quis voltar.

 

 

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