A Revanche
Ledice Pereira
Eram duas horas da manhã, quando Rafael entrou pé ante pé, depois de custar a achar o buraco da fechadura.
Nem acendeu a luz. Foi andando devagar, tentando não trombar em nada para não acordar Palmira. Mas a mulher estava com o olho mais que aberto. Esperou que o marido entrasse no quarto e gritou:
– Isso são horas?
Rafael tentou, em vão, inventar uma desculpa esfarrapada. Primeiro, que estava fazendo hora extra.
– Sei, sei – ela murmurou, franzindo a testa – e esse bafo de bebida que está chegando até aqui?
Apesar da raiva, sabia que não conseguiria manter qualquer tipo de conversação porque Rafael estava mais pra lá do que pra cá.
Mandou-o dormir no outro quarto. Não suportaria aguentar aquele odor de bebida misturado a um perfume barato.
Estava muito brava! Estava puta mesmo! Custou a dormir. Perguntava-se por onde andara aquele sem vergonha.
Dia seguinte, Rafael acordou cedo. Deixou que a água caísse sobre a cabeça esperando que a ressaca passasse. Tinha consciência de que dessa vez havia se excedido.
Entrou na cozinha, onde Palmira passava o café e tentou dar-lhe um beijo, mostrando seu melhor sorriso, procurando não demonstrar a dor que sentia na cabeça pesada.
– Não me venha com beijinho.
Ele pediu desculpas. Jurou que não aconteceria mais.
– Ah tá, agora você é um santo! Ela já o havia perdoado em outras vezes.
– A turma resolveu beber para aliviar o dia que foi pesado – explicou com cara de cachorrinho magoado, os olhos baixos, fingindo arrependimento.
– Hã, hã, e esse perfume horroroso que não saiu nem com o banho? Não me diga que é do Jorge.
– Ah, meu amor, não é nada disso que você tá pensando.
Ela, levantando a sobrancelha, descrente, – sabe que estou ficando com pena de você. Seu chefe o está explorando muito, acho que vou ter uma conversinha com ele. Quando ela pegou o telefone, ele gritou:
– Desliga esse telefone, mulher! Prometo que isso não vai acontecer de novo! Juro!
– Jura mesmo? Vou sair. Quando voltar quero encontrar as camas arrumadas, a louça lavada, o banheiro enxuto e limpo. Faça isso antes de ir para o seu pesado trabalho. E pegue um táxi, ou ônibus, metrô, que hoje quem vai usar o carro sou eu. Vou fazer umas comprinhas. Não se assuste se receber notificação do meu cartão de crédito.
Rafael teve a certeza de que a farra não valera a pena. Sabia que teria que fazer muita hora extra, de verdade, para conseguir pagar o cartão de crédito.
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