O OUTRO LADO DO CONTO DO VIGÁRIO
Yara Mourão
É muito próprio dizer que “ser mineiro é ter vida interior”, e que isso se manifesta em diferentes graus de criatividade.
Certa vez, um padre mineiro, percebendo a pressão que as mulheres exerciam sobre ele, tentando acabar com as digressões no confessionário, estabeleceu interessantes critérios para a confissão das beatas; cada dia da semana era para um determinado tipo de pecado.
Entretanto, não contava com a marotice das mais jovens frequentadoras da igreja, que encontraram brechas para contornar a estratégia do vigário bonitão.
Elas, as jovens, sabiam que as mulheres são de tudo um pouco: preguiçosas, fofoqueiras, surrupiam os trocados dos maridos, se fazem de santas, apreciam vários goles de vinho, acendem uma vela a Deus, outra ao diabo e fingem com perfeição que fazem dieta. Por isso mesmo, a turminha do fundão das missas, a fim de testar a força dos ditames do padre, resolveu ir ao confessionário todos os dias da semana, configurando-se, assim, como pecadoras contumazes.
Para elas era uma contínua emoção! Elas trocavam entre si as penitências recebidas, avaliando qual pecado era mais grave que outro! Até rezavam com fé, mas com pouca convicção de que seriam perdoadas.
Iniciaram-se às segundas-feiras, e tudo foi normal; às terças, o padre pareceu estranhar a presença das meninas. Quarta, o vigário quase se recusou a permanecer no confessionário. Na quinta, ele já tinha certeza de que aquilo era uma coisa de satanás. Sexta-feira, estava a ponto de chamar um exorcista.
Mas quando chegou a noite de sexta-feira, terminada a missa, o padre bonitão se surpreendeu ao ver a igreja praticamente vazia, sem beatas, sem os maridos. E, sentadas nos primeiros bancos da igreja, estavam aquelas jovens que se confessaram a semana toda de todos os pecados listados pelo vigário!
Ele, então, se dirigiu a elas e, em tom severo, passou-lhes um sermão cheio de mineirices!
Mas elas, em tom sereno, explicaram que as mulheres não são pecadoras eletivas e sim pessoas que amam o adorável caos de viver! E que o Senhor saberia entender o recado em sua infinita misericórdia!
O padre, meio que possuído, meio que iluminado, só conseguiu abençoá-las e dizer:
“Ide em paz, o Senhor vos acompanhe!”
E até hoje as beatas agradecem às meninas por livrá-las de confissões tão reveladoras!
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