UM PADRE SABICHÃO - Isabella Brancher

 



UM PADRE SABICHÃO 
Isabella Brancher


Um padre mineiro, homem bonito, bem apessoado, chamou a atenção das beatas, de todas elas, até mesmo das casadas. E choviam momentos íntimos no confessionário, onde elas se derramavam de charme para cima do padre. Ele, cansado de tantas confissões, de tantas “cantadas”, estabeleceu normas que puseram ordem na cidade:

“Minhas devotas, é um prazer trazer paz ao coração de todas vocês. Mas, estou ficando cansado com o excesso de trabalho. Por isso, de agora em diante, resolvi seguir para as confissões este roteiro sempre após as missas, quando vocês e seus familiares ainda estão na igreja: aos domingos, confessarei as preguiçosas, aquelas que se irritam com a pia cheia de louças e o tanque cheio de roupas. Às segundas, as maldizentes, fofoqueiras, rogadeiras de praga, pessoas que acham que somente elas são boazinhas. Às terças, as ladras, aquelas que tiram dinheiro da carteira do esposo, que escondem dinheiro pela casa. Às quartas, as hipócritas, que se fazem de santas, que auxiliam nas feiras sociais, que fazem doações, mas que levam uma vida que ninguém sabe como chegou ao topo financeiro. Às quintas, as bêbadas, mulheres que acreditam que “mais uma” não vai alterar seu casamento. Às sextas, as feiticeiras, aquelas que vão a outros cultos diabólicos por não estarem satisfeitas com o benefício da crença católica. E, aos sábados, as comilonas, as que fingem fazer dieta, mas que comem escondido. Já as traideiras de marido, receberei sempre após a missa de sexta-feira, terminada a missa, permaneçam na igreja para confessar os pecados“. 

Naquela sexta-feira, terminada a missa, uma perplexidade geral se instalou entre os beatos. Várias famílias permaneceram sentadas, ainda tentando entender o que havia acontecido. Aos poucos, a igreja foi se esvaziando e nenhuma mulher se dirigiu ao confessionário.

Nas semanas seguintes, o assunto principal na cidade era a escala de atendimento do padre. Algumas mulheres, especialmente as que deveriam se confessar às segundas, passavam horas rondando a praça a vigiar quem entraria na igreja para se confessar, ou mesmo quem tardasse a sair da igreja após a missa. 

Em seus lares, os maridos interpelavam as esposas vigorosamente na tentativa de descobrir em qual dia da semana elas iriam à missa. Elas se mantinham caladas. Um clima de inconformismo se apoderou dos maridos, que juntos foram ter com o padre.

Elegeram três ou quatro maridos mais influentes e marcaram um horário com o padre para juntos relatar a ele o caos que havia se transformado a vida de muitos casais na cidade.

Mario, o prefeito, falou primeiro:

— Padre, por favor, poderia eliminar essa escala de atendimento? Isso vem causando um desconforto entre nossas esposas e não se fala em mais nada além disso. 

O padre prontamente o responder: 

— Calma, Sr. Mario, logo as beatas se acostumam e tudo volta ao normal. 

O Dr. João, médico antigo na cidade, que havia ajudado a dar à luz a inúmeras crianças dessas famílias, contestava a decisão do padre, dizendo: 

— Padre, não é possível, o senhor precisa mudar isso. Poderia criar uma escala aleatória sem essas adjetivações e limitar o número de confissões diárias, isso diminuiria seu volume de atendimento e a vida voltaria ao normal.

O padre permanecia inabalável, só escutava. Ao que o dono da venda, Joaquim, relatou, o seu comércio havia sido impactado, pois as mulheres não cuidavam mais dos afazeres domésticos e deixavam de ir às compras diárias. 

Mas nada do que diziam afetava o padre. 

O padre, até então silencioso, suspirou.

— Senhores… vocês deveriam se preocupar menos com a cidade… e mais com suas próprias casas. 

E continuou: 

— A sua mulher, Mario, vem agora às confissões às terças. 

— A sua, Dr. João, fica para as sextas. 

— E a sua, Joaquim… me visita às quintas.

Todos, sem saber o que dizer, se entreolharam, cumprimentaram o padre e deixaram a igreja.






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