A terrível criatura
Isabella Brancher
O torneio começaria em alguns dias, eu havia decidido chegar antes para me ambientar.
O tempo estava ótimo, ensolarado, poucas nuvens e uma vibração amena preenchia o espaço, agora ainda vazio.
A brisa marinha era doce e aveludada. Sentado na areia, bem próximo da rebentação, observava as ondas que vinham deslizando pela costa até espumarem na praia. Junto aos meus pensamentos, questionava-me. Como me sentiria abraçado por aquele mar de água? Permaneci horas ali, olhando. Algumas pareciam criaturas sinistras, enigmáticas, capazes de calar o mais corajoso dos homens. Outras eram crianças inocentes buscando espaço para brincar.
Fiquei me imaginando a flutuar sobre essas criaturas, tentando dominá-las. Conhecia a minha capacidade de lidar com elas, mas ainda assim seguia me perguntando. Devo mesmo participar desse torneio?
Nos dias seguintes, segui o mesmo ritual, tomei o meu café da manhã e, sentado na areia, passei horas a observar. A lembrança do acidente no torneio de Nazaré ainda me atormentava. Aquela imagem do meu colega abatido turvava minhas ideias. Não havia como me furtar, amanhã teria que enfrentá-las.
A tão inesperada manhã chegou, dirigi-me até a praia, não como o espectador dos outros dias, mas como protagonista. Meu papel, o mais importante de todos: era sair vivo.
Surfei a primeira, depois a segunda onda, desci a terceira como se bailasse num salão, meu domínio era total. Ainda precisava descer uma onda perfeita, um tubo redondo e bem alto para poder ganhar o campeonato.
Ela vinha se formando e, enquanto crescia, aumentava em paralelo a minha incerteza.
— É agora!
Entrei na onda com a mesma certeza das anteriores. Ela me engoliu. Fui sugado para dentro daquela criatura feroz aquilina que me consumia, foram minutos intermináveis, a prancha de um lado, eu do outro. Nos misturávamos naquele infinito de água.
Felizmente, como todas as anteriores, ferozes ou dóceis, cuspiam seus invasores na areia, misturados com uma montanha de espuma. Finalmente, me vi inteiro, esparramado na praia. Tossindo as entranhas da criatura que insistira em me possuir.
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