A grande onda
Ises de Almeida Abrahamsohn
Helena abriu os olhos bem devagar. Deitada, sentia o corpo balançar em todas as direções. Estaria deitada na prancha de surf, embalada pelas ondas? Pouco a pouco, percebeu as paredes brancas que se moviam, iluminadas pela intensa luz branca, e ouviu o apitar constante de algum equipamento que não conseguia enxergar. Sim, era um quarto de hospital. A cabeça doía-lhe muito e, com esforço, conseguiu levantar a mão direita.
Que horror, rasparam minha cabeça… percebeu enquanto os dedos apalpavam os vários ferimentos suturados. Quis virar-se na cama, mas uma perna e um braço engessados a impediram. Algumas imagens surgiram nebulosas: o rosto da mãe, seu gato preto e branco, o mar e uma praia… Exausta, adormeceu…
Ao acordar, tudo lhe veio à mente.
A praia em Honolulu. Bem que lhe avisaram do perigo.
O rapaz havaiano carregando a prancha profissional advertindo:
― Lady… Lady é palavra que ele usara. Cuidado, essa praia é para profs. Profissionais!
Olhei incrédula e respondi que eu já tinha surfado muitas ondas altas no Brasil. Não devia ser muito diferente. Ele me irritou repetindo para tomar cuidado. Devia ser daqueles que pensam que mulheres não sabem surfar!
O mar de um azul profundo com ondas de porte médio a intervalos regulares era convidativo. Peguei algumas boas ondas. Talvez umas seis voltando cada vez mais confiantes com braçadas fortes até um pouco além da arrebentação. Eu estava ali deitada, deixando as marolas passarem, olhando à frente à espera de uma boa. Havia outros surfistas perto da praia que vi, alguns agitando os braços e gritando, porém, estavam distantes.
E foi então que ela veio, de repente… Enorme, impossível, um paredão azul com sete metros de altura se erguia à minha frente. Tinha que me encaixar no bolso da onda antes que arrebentasse sobre mim. Movia os braços com toda força para chegar ao tubo. Não deu… Ainda consegui direcionar a prancha para o fundo para escapar da fúria que se abateria sobre meu corpo. Enchi os pulmões e mergulhei, arrastando a prancha. O empuxo me jogou ao fundo. Eu sabia o que tinha de fazer, era rolar no fundo, protegendo a cabeça, até que a onda passasse.
Acho que desmaiei. Não sei de mais nada. Acordei aqui no hospital. Não sei como saí, nem se alguém me salvou.
Mais tarde, Helena soube que devia a vida àquele rapaz da praia. Ao ver que ela sucumbira à enorme onda, entrou no mar com um colega, ambos em jet-ski, levando um colchão salva-vidas. Quando a onda estourou, viram o corpo da moça aflorar à superfície antes de ser de novo empurrado para o fundo. Conseguiram assim localizar onde se encontrava, mergulhar e puxá-la para o colchão. Estava desmaiada, porém na praia, com as manobras necessárias, expeliu a água dos pulmões e voltou a respirar.
Tinha várias fraturas e foi levada de ambulância ao hospital.
Se vou surfar de novo? Me perguntaram várias vezes após o acidente. Por enquanto, não. Mas sei que, logo que ficar curada das fraturas, vou voltar ao mar. Mais experiente e sem me arriscar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário