Medonho
Isabella Brancher
Manuel viveu na mata fechada por muitos anos, o ambiente sombrio e isolado trazia paz ao seu coração.
Nunca havia se sentido tão bem. O contato diário com a natureza, a conversa dos pássaros e o crepitar das folhas eram seus companheiros de jornada. Muitos dias se perdia nos seus pensamentos, caminhando pela mata. Tudo aquilo contrastava com a vida que ele levava antes. Uma vida que agora lhe parecia distante, quase irreal… e sem valor.
Seus passeios seguiam por horas em busca de alimento. Havia se estabelecido próximo a uma formação rochosa que lhe dava abrigo, em um canto desse espaço se abria uma pequena cavidade, semelhante a uma caverna. Foi ali que estabeleceu residência. Para comer, costumava seguir pelo aqueduto que rasgava a floresta. Nunca havia entendido por que aquela construção, aparentemente bem antiga, ainda estava ali. Parecia em total desuso. Para ele, a serventia era levá-lo com segurança até o rio onde pescava, com abundância, peixes para a sua alimentação.
No começo da sua vida na floresta, fazia um risco na parede da caverna toda vez que o sol se punha. O entardecer para ele era mágico, capaz de transformar até o mais rotineiro dos dias em encanto. As cores alaranjadas brilhavam entre as nuvens, refletindo muitas vezes as emoções que sentia. A natureza o abraçava, lhe trazia um acalento quase maternal.
Perdeu a conta dos dias quando se adoeceu e, sem saber ao certo quantos, passou dias e noites dormindo. Percebendo que as marcações não iriam mais refletir a realidade, as abandonou.
Na cidade, há apenas poucos quilômetros dali, circulavam boatos da presença de uma estranha figura na mata. As histórias eram confusas, mas todas relatavam algo ou alguém perdido, vivendo isolado na mata.
João, após ouvir os comentários de seu avô, chamou Pedro para explorar essa área da floresta que nunca haviam visitado. Afinal, era proibido. A curiosidade juvenil, aliada ao fascínio pelo desconhecido, os levou cada vez mais para o interior da mata. De repente, avistaram uma fumaça vinda da região das rochas. Uma área considerada sombria pelos moradores da região. Sem pensar, se entreolharam e seguiram naquela direção.
— Quem será que acendeu essa fogueira? Perguntou Pedro, preocupado.
— Será que ainda existem povos que vivem aqui?
— Imagina, respondeu João. — Deve ser algum lenhador. Talvez tenha acendido o fogo para afastar animais.
— Não sei não, retrucou Pedro. — Isso está me parecendo muito estranho, bem que o xerife nos alertou para não irmos muito na mata.
Continuaram a discutir sobre se deveriam ou não seguir em frente quando ambos se calaram subitamente. Diante deles, uma figura hirsuta emergia das sombras. Tentaram gritar, mas a voz falhou.
— Medonho… sussurraram.
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