A mãe desconfiada
Ises Almeida Abrahamsohn
Palmira tinha fama de botar defeito em tudo . Porém não era verdade. Desconfiada, era o que de fato era. O neto Artur a chamava de vó São Tomé. Para quem não sabe, Tomé era aquele apóstolo que duvidou da ressureição. Até que o Mestre o fez tocar sua ferida de lança.
Bem, Palmira não chegava a desconfiar das escrituras, mas de tudo e de todos que a cercavam, sim. E deixava sua filha Anita desesperançada.
Esta era jovem, tinha apenas 30 anos, viúva há seis anos. Era mãe de Artur, agora com sete anos. O marido falecera num acidente de automóvel. Viviam mãe e filho na casa de Palmira, um arranjo que de início parecia cômodo, mas que agora perturbava Anita. Trabalhava como contadora num escritório de advocacia. Quando fez vestibular para a Faculdade de Direito há dois anos, Palmira se sentiu ameaçada.
― Minha filha, tem certeza de que essa faculdade é boa? Você vai dar conta?
Demorou um ano a litania de Palmira...
Atacou em seguida o flanco de possível dano à educação de Artur. “Vai se ausentar demais, sem pai, ele vai sofrer com sua ausência, você toda noite fora!
Anita retrucava que o filho estava bem, afinal ela o punha na cama e ele dormia tranquilo a partir das oito quando ela estava em aula. E nos fins de semana ficavam sempre juntos.
Porém Anita se sentia só. Com o trabalho, a faculdade e cuidados com o filho ela não tinha amizades estreitas, apenas colegas e primas, ninguém realmente próximo. Desejava encontrar um parceiro que, além de bom marido se tornasse amigo do filho. Alguém que fosse seu parceiro nos gostos por música, viagens, leituras e bons filmes. As colegas lhe diziam que era um sonho irrealizável.
“Os homens solteiros na idade que você quer só desejam se divertir”, você verá, repetiam.
Depois de alguns relacionamentos que duraram poucos meses, Anita ia se convencendo disso. A alternativa eram homens vinte anos mais velhos à procura de mulheres jovens que os cuidassem na velhice.
Mas então apareceu Eduardo. Era advogado, 38 anos, divorciado com dois filhos adolescentes . Era pessoa interessante. Teria dado certo, não fosse a interferência de Dona Palmira. Começou a minar o namoro assim que percebeu possibilidades mais sérias.
― Anita, será que ele vai deixar de ver a ex? Afinal, ele a encontra todos os finais de semana ! A moça retrucou que ele visitava os filhos e se importava com eles.
Palmira em seguida revidou que Eduardo não tinha bens outros além do automóvel. Tanto fez e questionou que a relação esfriou e o rapaz desistiu,
O segundo namorado, Rodolfo, nem teve chance. Era alto, muito magro e corredor de final de semana. E era solteiro aos quarenta e dois anos.
Dona Palmira desconfiou logo.
― Será que é doente? Tão magro.
― Claro mãe, ele é corredor de meia maratona! Tem que ser magro !
A megera não se deu por vencida e atacou. ― Solteiro nessa idade? Não será bissexual ? Ainda pode passar HIV para você!
A gota d´água foi quando o rapaz chamou Artur para treinar corrida.
― Cuidado Anita, vai ver que é pedófilo. Cuidado... muito cuidado com Artur.
Agora Anita tinha encontrado Vitório, advogado no fórum, dois anos mais velho que ela. Estava à procura de um relacionamento sólido. E se deu bem com Artur. Os avós dele eram italianos. Iam a concertos, a parques e livrarias. Adorava ler e trazia para Artur os livros de aventuras de sua infância. Ajudava o menino nas leituras de Júlio Verne, Emilio Salgari, Karl May e outros.
Dessa vez Anita não ia deixar a mãe se intrometer. Ameaçou a mãe:
― Se você perturbar vamos eu e o Artur embora daqui!
Meio ano depois Vitorio lhe trouxe um belo anel. Era um anel de noivado. Anita radiante aceitou.
O rapaz quis encontrar a futura sogra. Veio almoçar no domingo. Palmira o olhou desconfiada e lançou uma saraivada de perguntas. Depois da quinta pergunta o rapaz deu uma risada, avisado que já estava do caráter da mulher.
Dona Palmira, a senhora é igual à minha avó. Bem desconfiada! Anita me contou . Vou me casar com sua filha e seu neto vai morar conosco,
Palmira engoliu em seco. Não tinha o que responder. Vitorio tinha se revelado. Era um esgrimista à altura das suas estocadas!
Derrotada, só lhe restava propor um brinde ao noivado. Até Artur ganhou um copinho do champagne misturado com água.
Mais tarde Vitorio explicou para Artur que observara tudo com olhos arregalados.
― Às vezes temos que ser como os mosqueteiros do livro, Artur, saber esgrimir e desviar! Sua avó é meio difícil, mas tem bom coração!
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