Voltando para casa - Isabella Brancher

 



Voltando para casa

Isabella Brancher


Era uma viagem de trabalho bastante rotineira. Eu já havia feito esse trajeto inúmeras vezes. O roteiro era sempre o mesmo. Saí do escritório às 15h de Boston, peguei o táxi; em 35 minutos estaria no aeroporto.

Caminhei diretamente em direção à imigração, como de costume. Dessa vez fui escolhida pela polícia para uma verificação de rotina. O teste consistia em esfregar um papel absorvente nos meus dois dedos indicadores e nos dois polegares a fim de detectar traços de pólvora. Como esperado, zero traços de pólvora foram encontrados.

Dirigi-me ao portão de embarque número 43, de onde sairia o voo LA453 para Nova York. Entrei na fila, entre os últimos passageiros. Tinha esse costume: esperar boa parte dos passageiros entrar para depois entrar. O atendente pegou o meu bilhete, colocou-o sobre o leitor e, curiosamente, gerou um erro. Eu já comecei a bater ritmicamente meu pé no chão. Uma segunda vez o atendente faz o mesmo procedimento e, novamente, um ruído sonoro de erro emerge do portão. Imaginando ser um erro do leitor, o atendente me libera para entrar no avião.

Era um Boeing 737–700 com duas fileiras de cadeiras, com três de cada lado. Sempre gostei de ficar à janela, na metade do avião. Dessa vez não teria sido diferente. Procurei a poltrona 22-A e fui em direção ao meu lugar. Pronta para guardar minha mala no compartimento sobre a poltrona, eis que chega outro passageiro com o mesmo assento que o meu. Nós nos olhamos preocupados e logo chamamos a comissária. Meu coração acelerou, senti minhas faces avermelhando. Poderia ter pulado no pescoço do outro passageiro caso a comissária não chegasse logo. 

Finalmente: agora ela terá que decidir qual de nós dois se sentará na poltrona 22-A. Ela avaliou o bilhete dele, depois o meu. Ao terminar, olhou-me de cima a baixo e disse: “O seu bilhete é para Washington, voo LA543, e este voo vai para Nova York.”

Habituada a estar com aquela rotina de voo, nem me dei conta de que o meu bilhete era para Washington. Desci, desembarquei e corri para o portão 44. A primeira etapa da viagem de volta que me levaria para minha querida casa, onde já vivia há 20 anos. Durante a viagem, peguei-me questionando não uma, nem duas, mas diversas vezes a conduta do atendente, e sobre a minha própria: quantas escolhas fazemos sem perceber, apenas no piloto automático?


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