Conto Numérico
Yara Mourão
Acordar cedo sempre foi um transtorno para mim. Seis e meia é praticamente apenas 480 minutos depois que eu me deitei.
No primário, normalmente, a professora já estaria na classe e os 26 alunos já estariam prontos para a primeira aula, que seria justo matemática! Isso é 100% do meu desprazer! Logo de início, ela daria o tema: frações! Aí penso: por que dividir em 2, 3, 10 partes um inteiro? E depois somar, diminuir ou multiplicar tudo de novo, e a 30 segundos do final da aula vir com aquele constrangedor c.q.d., isto é: como queira demonstrar?
Podem se passar 10, 100 anos que eu nunca vou gostar de matemática. Na verdade, não me dou bem com números. Nem sei como sobrevivi todos aqueles 8 anos de ensino primário, tendo tido aula de matemática 4 vezes por semana! Mas cheguei ao colegial nos idos de 1960.
Para fugir dos números, optei pelo curso clássico, em que não havia as 4 matérias complicadas: matemática, física, química e até biologia. Havia, ainda bem, outras 4 interessantes: português, inglês, francês e latim, além de mais 5 que eu também gostava: religião, história, geografia, filosofia e literatura.
Mas, para meu castigo, Arquimedes, Pitágoras e seus cento e tantos seguidores se vingaram do meu desdém pelos números, pois logo no primeiro ano do curso clássico trombei de frente com latim, até mesmo chegando a repetir de ano!
Até hoje, uns 50 anos depois disso tudo, os números ainda não são meus amigos, mas o latim ao menos enfeita minha missa de domingo com tantos Dominus vobiscum e et cum spiritu tuo. E, até mesmo depois de desligar o celular e antes de pegar no sono, arrisco uma Ave Maria gratia plena, dominus tecum…
Nenhum comentário:
Postar um comentário