Numerologia e endereços - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



Numerologia e endereços

Ises de Almeida Abrahamsohn 


Como esta história se passa no início da década de 1970, são requeridas algumas explicações aos leitores nascidos após 1990 e principalmente à geração Z do atual milênio. 

Naquela década, não existiam telefones celulares, e muito menos Google Maps ou Waze para mostrar endereços e trajetos. Havia guias impressos com mapas das ruas das cidades, indicações das linhas de ônibus e metrô e as mãos de direção das ruas.  Por fim, se tudo o mais falhava ao se tentar localizar um endereço, ainda era possível telefonar para o endereço anotado (havia listas telefônicas por nome e por endereço).  Se estivesse na rua, teria que ter as moedas ou fichas necessárias para usar um telefone público. 

No verão de 1971, um jovem casal de brasileiros recém-chegado à cidade de Philadelphia, nos Estados Unidos. Estavam hospedados num hotel de poucas estrelas no centro da cidade e deviam se dirigir a determinado endereço para encontrar a residência de um professor da Universidade.   O endereço na carta que receberam estava anotado como: 828, 13th St W. Ou seja, Rua 13, número 828 W. 

Olharam o mapa da cidade e parecia bastante simples chegar lá. 

—A gente pega o metrô na esquina da rua Broad com a Market e desce na parada da rua 12. Mais um quarteirão e chegamos na rua 13, esquina da Broad. Aí andamos uns 500 metros até a casa do Dr. Lash. 

De fato, chegaram bem à rua 13 e foram olhando a numeração.

— Deve ser logo aí,   talvez uns 500 metros daqui, falou a moça.

Foram caminhando pela calçada   sob o calor sufocante do verão até que, depois de alguns quarteirões, se aperceberam do engano. A numeração dos imóveis nos Estados Unidos é sequencial, portanto, diferente do Brasil, onde o número do imóvel indica a distância do início da rua. 

Após andarem cerca de 3 km, chegaram ao número 828.  Porém, não parecia casa de nenhum professor. Era um predinho de 4 andares, tijolinho vermelho sujo, com algumas janelas vedadas por tábuas e emporcalhado de grafites.  O número era aquele mesmo, porém algo estava errado.  

Haviam passado por uma única quitanda aberta naquele deserto escaldante e vazio e lá foram se informar. O vendedor os olhou com ar desconfiado.  Mostraram-lhe o papel com o endereço. O homem sorriu com ar de pena dos dois.

― Vocês esqueceram desta letra aqui. Estão vendo? É rua 13, W. W. de West.  Vocês caminharam na direção errada. Aqui é a rua 13, E. E de East.  Portanto, estão do outro lado da rua.

Com esse calor, é melhor vocês andarem até o próximo ponto de ônibus que fica na rua 12, paralela a esta rua. O ônibus vai pela 12 inteira, cruza a  Broad , que divide os lados da cidade,   e continua pela 12 West. Podem, de dentro do ônibus, acompanhar os números até próximo do número 800. Devem estar mais ou menos na altura   do número 800 da rua 13. Os dois agradeceram várias vezes as informações.  Descobriram que o quitandeiro era grego e já há alguns anos era morador na cidade.

― Não querem tomar uma Pepsi bem gelada?

Depois da Pepsi gelada, seguiram as instruções. O gentil grego havia ensinado direitinho.   Logo os brasileiros descobriram que em Phila, como em outras cidades americanas, as ruas têm lados leste, oeste, norte e sul.


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