O porão - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



O porão 

Ises de Almeida Abrahamsohn  

Eles vieram de noite.  Atrás de André e de Celina. Há três dias, André tinha sido avisado de que alguém o dedurara aos caras da repressão.   Parou de ir à faculdade e avisou Celina, sua jovem mulher que estudava na PUC.  Tinham que sumir   por uns tempos e depois tentar viajar para onde conseguissem. Apenas ontem conseguiu um endereço de esconderijo.   Era um sobrado antigo, daqueles construídos com porão e sótão no bairro de Vila Zelina.  Havia pertencido aos avós de um companheiro. O jardinzinho da frente, bem cuidado, não destoava da vizinhança e não denunciava   a desocupação.  Servia de esconderijo aos militantes da UNE (União Nacional dos Estudantes — grupo não armado de resistência à ditadura militar) quando a situação apertava.

Era dia de São João, junho de 1971.  No bairro, ainda com algumas ruas de terra, viam-se restos de fogueiras e bandeirinhas. 

André havia sido enfático.

― Celina, querida, se vierem me pegar, você se esconde no porão. O que esses animais mais querem é torturar as mulheres na frente do marido para conseguir delações. 

O porão tinha sido escavado sob metade da casa, originalmente apenas para servir de oficina e depósito. Ferramentas em uma bancada de madeira, uma estante com livros velhos apoiada nas paredes e alguns quadros empoeirados apoiados no chão contra a parede.   Uma torneira no canto e uma única lâmpada pendente do teto. Mas, antes deles, o porão já havia sido preparado como esconderijo. Uma cama de armar e duas cadeiras de plástico eram o mobiliário.     Um balde com tampa já existia para as necessidades e outros dois com água para higiene. A entrada se fazia por alguns degraus sob o vão da escada de madeira que, da sala, levava ao primeiro piso.  A portinhola de acesso era oculta por uma estante de livros. Logo ao chegarem na casa, André havia abastecido o porão com um garrafão de água potável e comida para alguns dias.

De madrugada, ouviram o furgão parar em frente à casa. 

― Rápido, Celina. Alguém avisou. Vá para o porão e eu empurro a estante de novo. 

Celina agarrou a lanterna e o pesado casaco de lã e desceu até o porão escuro.  Ficou parada ali, de pé no escuro absoluto, desorientada, tentando ouvir o que se passava acima. A garganta arranhava, a umidade e a poeira a sufocavam e ela mordia o tecido do casaco para abafar a tosse inevitável. Ouviu alguns gritos, passos no assoalho e bater de portas. Depois, o silêncio.  

Ficou pensando em como os agentes da OBAN descobriram o esconderijo. Alguém da turma da PUC tinha caguetado.  Ou talvez nem isso. Alguém que sabia que ela namorava o André e simplesmente tinha seguido a ela ou ao marido até o esconderijo. 

Sabia que levariam André e ficariam de tocaia por uns dias, vigilância contínua, dia e noite.  Para o caso de alguém sair ou se aproximar da casa.  Tinha que se manter silenciosa dia e noite. À noite, não acenderia a lanterna por medo de alguma luminosidade escapar por alguma fresta na parede. O chão de cimento exalava umidade e mofo num miasma palpável.  Noite e dia marcados no relógio e na agenda durante o dia, quando acendia a lanterna para se mover no aposento.

A primeira noite foi a pior. Até o cansaço vencer, Celina acordou inúmeras vezes para se achar mergulhada na escuridão, sem saber onde e por que ali se encontrava.  Doze horas mais tarde, acordou sentindo-se melhor. No relógio eram 15 horas. Podia acender a lanterna na bancada. Tinha mais três horas até escurecer. Bebeu água e comeu alguns biscoitos com goiabada. Achou uma lata de leite em pó na bancada. Ficou feliz quando achou uma espiriteira a álcool, já com uma caneca de alumínio à espera da água, uma latinha de café solúvel e açúcar.  Celina adorava café. O café a acordou e o cheiro neutralizou o mau cheiro do inóspito porão. Considerou a comida como sendo o almoço e resolveu explorar a área.  Chegou até a estante para investigar os livros. As lombadas daqueles poeirentos e abandonados volumes pareciam   atrair seus dedos.  A lanterna iluminava títulos e autores que ela não conseguia ler.  Era escrita cirílica, sabia que algumas letras eram semelhantes ao alfabeto grego e as vogais iguais ao latino. Tentou decifrar:  Толстой  seria Tolstoi? E este outro: Фёдор e este começando com Phi, Д é delta e o é mesmo.  Claro, devia ser Fiodor, Fiodor Dostoiévski. Que pena, pensou… Não poderia lê-los.  Na prateleira inferior, encontrou alguns livros em francês.  Foi sua segunda pequena felicidade do dia.  Procurou não pensar mais no escuro porão e começou a ler.  Escolheu aventura, o Conde de Monte Cristo. Isso me distrairá um pouco, pensou. Mas, ao avançar na saga de Edmond Dantes, já eram 19 horas no relógio. Hora de mergulhar na escuridão completa.   

Decidiu ficar o máximo de tempo possível na cadeira próxima ao leito até perto das 23 horas, sua hora habitual de dormir. Lamentou não ter trazido seu radinho de pilha, companheiro de muitas horas de insônia, porém não teria coragem de ligar mesmo mantendo próximo ao ouvido. Se alguém estivesse vigiando no andar de cima, arriscaria ser detectada.  Tentou organizar os pensamentos. 

Começou por lembrar viagens que fizera desde criança, paisagens, parentes, festas de aniversário, amigas… Tudo para não se deixar abater. Até que   o cansaço a fez cambalear e se esticar na cama.  Dormiu até as cinco um sono entrecortado de sonhos perturbadores nos quais colegas e conhecidos da PUC conversavam nas mesas de calçada do barzinho que todos frequentavam. Aparecia o André que a abraçava e, à distância, o Nelson, seu namorado durante um semestre no primeiro ano da universidade há 3 anos.  Não havia sido uma ruptura sem consequências. Era um jovem de família rica, que se revelou muito possessivo e ciumento. Várias vezes ele a seguiu, pedindo para reatar o namoro.  Celina recusava educadamente até que, há dois anos, após violenta discussão, ela o afastou definitivamente.  Raramente cruzavam os caminhos nos corredores da escola e ela o ignorava. 

Quando ela passou a namorar André e, inevitavelmente, a frequentar o grupo da UNE, até esqueceu dele. Mas agora lhe veio à memória uma conversa ouvida há alguns meses ao almoçar com colegas.  Alguém mencionou o nome do Nelson como participante do grupo CCC (Comando de Caça aos Comunistas). Nunca mais ouvira falar dele e repeliu a lembrança, ocupada agora por pensamentos mais imediatos. Será que já era dia? Podia ligar a lanterna?  Precisava chegar ao balde para urinar, a bexiga estava doendo…  

Aliviada, programou as atividades da manhã. Passou esponja molhada no rosto e axilas e aplicou desodorante.  Sentia muita fome.  Achou os biscoitos, o doce e a lata de leite em pó. Não se arriscou de novo a fazer café. Não se ouvia nenhum barulho, nem vindo da rua, nem do andar superior.  Quanto tempo ainda teria que ficar ali até que desistissem da tocaia ou de procurá-la? E quando alguém da turma iria se arriscar a vir para resgatá-la?  Ou pior, se ninguém viesse? Não posso entrar em pânico…

Levantou-se e executou uns passos relembrando a letra do samba “Essa tal de Felicidade” do Martinho da Vila.  O cantor havia trocado “Essa tal de liberdade” por Felicidade, exigência da censura, senão o disco não sairia. 

Se tivesse sorte, os tiras desistiriam de ficar de tocaia.  Afinal, tocaia dava muito trabalho e para quê? Ela era peixe pequeno, apenas estudante, e mesmo André era apenas da UNE; nenhum dos dois estava na luta armada…

Voltou a sentar e retomou o livro.  Estou igual ao Edmond, pensou…  Coitado, ainda estava bem pior, sem esperança de sair da masmorra… Mas já tinha encontrado o abade Faria na cela ao lado. Programou-se para, durante o dia, exercitar o corpo e ler até voltar a comer seu jantar de leite, biscoitos e goiabada.  Perto das 18 horas, apagou a lanterna e se deitou. Tentava não pensar em André, nem na sua situação, em nada. Difícil distrair a cabeça.  Rememorou uma viagem que havia feito há anos com as amigas Lara e Eneida para acampar em Ubatuba.  As duas tinham se mudado para a Bahia, queriam abrir um restaurante perto de alguma praia.   Adormeceu pensando em ir visitá-las, ainda tinha o telefone de contato.

Acordou com o ruído de passos e arrastar de móveis no andar de cima. Sentou-se na cama sem fazer ruído ou acender a lanterna.  Estavam arredando a estante de livros… Deve ser algum conhecido da turma, pensou… A porta do porão foi aberta e um jato de luz iluminou a escada.  Era um homem, o rosto não conseguia ver. 

― Boa noite, Celina. Não esperava me ver aqui…  Vim salvá-la… Ela logo reconheceu a voz.  Vinha prendê-la? O que queria?  Era então verdade que Nelson era um espião da repressão, pensou. 

― Veio sozinho?  Perguntou… 

Sim, ele viera sozinho.   Celina pegou automaticamente o casaco e o livro e subiu os degraus atrás de Nelson.  A luz acesa na sala momentaneamente a cegou. Deu alguns passos incertos até sentar-se numa cadeira da cozinha.  O rapaz colocou um copo de água à sua frente. Celina murmurou um obrigado.  Tentava focalizar o pensamento no que se seguiria ou aconteceria. Pediu para ir ao banheiro. 

Lavou o rosto e as mãos com sabonete. Um luxo, pensou… O que queria mesmo era tomar um bom banho de chuveiro, mas não era para agora. Refrescou a boca com os dedos e um resto de pasta de dente deixado na pia. Sentiu-se pronta a enfrentar o que viesse. 

― Sabia que encontraria você aqui, Celina. André não resistiu muito. Bastaram alguns socos e chutes e ele passou o endereço e os nomes dos contatos lá na PUC. Não, ele não falou que você estaria aqui, mas quando sumiu da faculdade e de seu estágio, era fácil deduzir.  Ele sabia que eu iria atrás de você…

Celina, perturbada, só conseguia pensar em André sendo espancado. 

― E onde ele está, Nelson?  Está bem? Perguntou com voz sufocada por soluços que tentava engolir. 

Foi informada de que o marido estava sendo mantido numa cela da OBAN até que verificassem as informações que ele passara.  Ela ainda não atinava o que o ex-namorado queria. 

― E o que vocês querem comigo?  Eu só conhecia o pessoal lá da PUC, não tinha contatos nem conhecia outros do grupo, argumentou a moça. 

― Sim, sabemos disso. Mas nos faltam dois nomes, dois da pesada, com quem seu maridinho ia se encontrar.  E não sabemos onde eles estão.  Até sabemos os codinomes, mas eles estão bem escondidos. E aí é onde você vai nos ajudar. 

Celina protestou: ― Não vou ajudar vocês, nunca! Torturadores, assassinos! 

― Não se exalte, querida.  Vou lhe dizer as condições e aí você resolve…

O plano é você encontrar o casal, o mesmo que André ia encontrar, agindo em nome dele. Em algum momento, você vai receber de um contato o quando e como deve se encontrar com o casal ou com um dos dois.  Aí você irá tranquilamente para onde indicarem. Estaremos a postos nas proximidades para agir. Se você nos ajudar, o André será libertado e vocês dois poderão viajar para a Bolívia ou para a Europa sem maiores problemas. 

― E se eu não aceitar sua proposta? Perguntou Celina, já imaginando a resposta.

― Você seria tola em não aceitar. O André estava mais envolvido do que você imaginava. Não sei o que aconteceria a ele.  E nem a você, para dizer a verdade. Não sou tão horrível quanto você me julga.  Saiba que fui eu que propus ao pessoal essa saída.  Sem tortura e sem eventuais mortes, vocês dois escapam.  Resolva agora, tenho que informar meu chefe.

Celina ainda perguntou qual garantia teria de que André seria liberado. Sem garantias, lhe respondeu Nelson, mas eles costumam cumprir, se a coisa der certo.  E, obviamente, silêncio absoluto de sua parte. 

Celina cobriu o rosto com as mãos e, após alguns segundos, ergueu a cabeça e respondeu que sim, ela faria o que era pedido. 

Nelson a levou de carro até o ponto de ônibus, de onde seguiu para a casa da mãe em Vila Mariana.  Ficou lá no final de semana e voltou para o seu pequeno apartamento próximo à PUC. Na segunda-feira, voltou às aulas.  Aos conhecidos, falava que André estava em Minas visitando a tia.  

Uma semana depois, recebeu um envelope pardo selado sem destinatário. Três dias depois, ao almoçar na padaria, encontrou sob o prato um   guardanapo com instruções, o lugar, a data e a hora do encontro. Foi para casa olhar no guia como chegar ao lugar.  Era no bairro da Penha, nunca havia estado lá, e era na própria igreja do bairro. Anotou o número do ônibus que a levaria, que passava pelo parque Dom Pedro que ela conhecia.  

No dia seguinte, ao descer do ônibus, ficou espantada. Era uma igreja enorme no alto de uma colina. Subiu a escadaria até atingir um pátio e, mais um lance de escada, chegou à entrada.  Na terceira fila a partir do altar, no lado direito, deixou o envelope conforme indicado abaixo do genuflexório. A imensa nave estava vazia. Em passo regular, sem olhar para os lados, desceu até a rua. Logo chegou um ônibus que a levaria de volta ao centro da cidade. Sentou-se próximo à janela. Começou a tremer e uma náusea intensa a acometeu.  O cobrador chamou-a oferecendo auxílio, mas Celina recusou e pouco a pouco se acalmou. Queria chegar logo em casa. 

Passaram-se dois dias. Celina ansiava por alguma notícia ou pela chegada de André. Na noite do segundo dia, ouviu baterem na porta.  Era André. Havia emagrecido quatro quilos em duas semanas.  Hematomas nas costelas, pernas e braços, marcas de queimaduras nos pulsos, pernas e no saco escrotal.  Celina chorava com André. Resolveram partir no dia seguinte.  Emprestaram algum dinheiro da mãe de Celina e voaram para o Equador, de onde conseguiriam o visto para a França.  Voltaram em 1986 ao Brasil após o final da ditadura militar.  


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