Viagem a Paris - Isabella Blancher

 



Viagem a Paris

Isabella Blancher


O ano era 1959, Maria estava entusiasmada com a viagem que aconteceria em alguns dias. Havia preparado as malas com detalhado cuidado. Separou cada peça de roupa para acompanhar todas as festas das quais teria que participar. Seria uma semana maravilhosa. Enquanto fazia a mala, alguns momentos maravilhosos da festa no Copacabana Palace lhe vinham à mente.

Naquela noite, o Copacabana Palace está finamente enfeitado com velas em tons de laranja e lindos arranjos com hibiscos da mesma cor. Chegou à festa levemente atrasada. O suficiente para que o salão já estivesse relativamente cheio, mas não muito tarde para trazer comentários desnecessários. Maria tinha consciência da sua beleza, sentia os olhares. Era como um raio de sol em um dia nublado. Cumprimentou todos os conhecidos. Eram todos da socialite carioca. Essa festa estava particularmente tentadora. Muitos jovens, alguns frequentadores habituais e alguns novos. Pierre era um dos novos. Reconheceu nele essa novidade. Altivo, cabelo bem arrumado, smoking bem passado. Admirada, olhava furtivamente para ele. Pierre percebeu seus olhares assim como a sua presença logo que ela entrou. Não passou muito tempo até serem apresentados e o encanto se acentuou. Pareciam que se conheciam há anos. A conversa corria solta. Apesar de terem vivido em países tão distintos, ela no Brasil e ele na França, pareciam velhos amigos de infância. O gosto semelhante, os prazeres em comum, a forma de ver e viver a vida. Pareciam feitos um para o outro. A festa não foi suficiente, a cada novo encontro, enquanto se preparava, o frio lhe percorria a espinha. Era sempre uma nova descoberta. Continuavam a se perceber como almas gêmeas, e novos encontros naturalmente foram acontecendo. O amor crescia exponencialmente, e de uma forma muito saudável e sólida.

A França enfrentava alguns problemas em suas colônias na África, isso fez com que Pierre tivesse que deixar seu posto de cônsul no Brasil e assumir interinamente o posto no Senegal. Não passou muito tempo e o Senegal se tornou independente, o que fez com que Pierre retornasse a Paris.

Aquele distanciamento não havia esfriado a relação entre eles. A saudade havia alimentado o amor e enchia por dentro com uma luz quente e silenciosa.

E chegou o dia, o dia em que finalmente embarcaria para Paris. O voo duraria entre 18 e 24h, com uma escala em Dakar. Maria nunca havia voado de avião e aquela experiência juntava ainda mais emoção ao romance com o cônsul. O avião com suas poltronas amplas e confortáveis. Os passageiros elegantemente vestidos. O tempo passava lentamente, entre as refeições servidas em bandejas cobertas com toalhas de linho e um menu ricamente selecionado, servido certamente com revigorante espumante. A escala em Dakar não passara desapercebida, um calor envolvente entrou na cabine quando as portas foram abertas. Precisaríamos descer para a limpeza e abastecimento do avião. As horas de espera no saguão em Dakar passaram rápido, eram muitas novidades, desde a decoração do local até as vestimentas dos trabalhadores. Tudo encantava Maria e a deixava hipnotizada. Logo embarcariam em direção a Paris, onde a sua vida seria um conto de fadas, rica em festas e celebrações, o que mais apreciava fazer.

Chegando a Paris, procurou por Pierre no saguão, mas não o encontrou, esperou uma hora, duas horas e nada. Aflita começou a não sentir as suas pernas. Falava francês, mas aquela demora a estava sufocando. Começou a se perguntar o que faria sozinha em Paris? Desesperada, perdeu o raciocínio e percebeu seus olhos marejarem, quando uma pessoa vestindo um uniforme de motorista se aproximou dela e perguntou: — Mademoiselle Maria Coimbra? Pierre havia pedido ao motorista que a buscasse no aeroporto, pois havia ficado retido em uma reunião com alguns ministros.

O motorista a levou até a residência de Pierre. A casa ficava em um palacete antigo. O motorista a acompanhou até a entrada principal, mas deixou suas malas no carro. Ela, reflexiva, estranhou a falta de gentileza do motorista. Tocou a campainha e Pierre a atendeu prontamente. Estava lindo como sempre, mas algo em seu olhar estava diferente, havia um certo abatimento. Foram para a sala, o espaço era decorado com sobriedade, quase sem se notar um toque feminino. Sentaram-se, tomaram um vinho. Ele contava sobre a reunião com os ministros. Maria se remexia como se algo em sua roupa não estivesse no lugar certo, desconfortável. Foi quando, com um ruído forte, se fez presente. A porta abriu, passos em direção à sala. O pouco brilho que Pierre tinha no olhar se apagou de vez. A mulher que chegou combinava perfeitamente com a sala e um silêncio constrangedor se instalou. Finalmente, Pierre disse: Maria, te apresento minha esposa, Sophie.

Maria, quieta, não se manifestou, tomou um gole de vinho. Reorganizou as ideias e entendeu a ausência, a distância, os constantes adiamentos do reencontro. Tudo fazia sentido naquele momento. Suas pernas fraquejaram, se sentou, com as mãos trêmulas, gotas de vinho caíram sobre a sua luva branca que repousava sobre a mesa. Uma após a outra, manchando de sangue as luvas e o mapa de Paris onde havia planejado uma grande história.

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