UM ESTRANHO EM MINHA SALA
Sergio Dalla Vecchia
Tereza concentrada em seu texto, cabeça baixa, debruçada sobre a escrivaninha não percebeu a entrada sorrateira de Clovis em sua sala.
Um leve cutucão, o susto, levantou-se lepidamente e deu de cara com o sorridente Clovis.
Desconsertada tentou se inteirar no contexto. Encarou-o fixamente e não o reconheceu. Era um estranho a sua frente.
Clovis totalmente desconfortável pela péssima acolhida apenas silenciou-se tendendo sair da sala.
Tereza percebendo a desilusão do homem, baixou a guarda e logo perguntou.
─ Não o conheço, como conseguiu entrar com essa facilidade em minha casa?
─ Professora Tereza, foi a Da. Natalina sua cozinheira que abriu a porta para mim. Ela pensou um pouco, mas logo me reconheceu. Sou o Clovis, fui seu aluno por um tempo. Não se recorda, tinha dezessete anos e iria prestar vestibular e a sra.me ajudou muito, tanto que passei no vestibular. Agora após vinte anos vim para cá a trabalho e resolvi procurá-la. Sou advogado e vim resolver um litígio no Fórum.
Tereza ainda confusa conseguiu aos poucos atiçar a memória e logo a imagem do jovem aluno Clovis foi-se delineando e Zaz! Uma emoção tomou conta da velha professora.
─ É você mesmo meu garoto brilhante! Por que nunca me deu notícias, esqueceu-se da professora? Que alegria ver um homem feito e ainda advogado, parabéns!
Agora dois pares de olhos estavam marejados e somados ao da Natalina que escutava atrás da porta plagiavam a Fontana di Trevi, transbordavam amor.
Sentindo o coração resfriado por anos pela falta de reconhecimento das autoridades, um caloroso abraço fraternal com Clovis foi o bastante para descongelar o coração da cansada docente.
Professora é assim, se mantém imortal por que recebe em troca a energia pura dos carinhos e considerações dos alunos, que espiritualmente valem mais do que qualquer salário.
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