Muito além do olhar - Yara Mourão

 



Muito além do olhar
Yara Mourão

Ainda que permanecesse parada junto às janelas, Palmira tinha um olhar oblíquo que perpassava toda a sala.  Girava a cabeça para os lados, para cima e para baixo, procurando sinais. Uma câmera, talvez, ou um microfone, algo que a pusesse num foco involuntário.

Falava baixinho para si mesma: “Será possível? Terei errado de lugar?” Ousou tocar nas altas estantes, buscando pistas, forçando o olhar entre os livros cujos títulos muito aleatórios sugeriam casos desastrosos.

Sentiu as pernas bambas só de lembrar das expressões de Lucinda, a bela secretária de seu marido. Um certo torpor, pelo abafado do lugar, talvez, a envolveu. Palmira sentiu arrepios ao se lembrar do convite para aquela visita: “Venha desarmada, querida, física e espiritualmente!”

Por que Lucinda a chamaria ali? De certo não era para uma festa. O fato é que só ela estava ali, intrigada e assombrada pelo silêncio inusitado daquele escritório de advocacia de seu marido.

Perdidos nos contornos, nos detalhes do ambiente, seus olhos pousaram num porta-retrato dourado sobre a escrivaninha: era a foto de uma bela mulher sorrindo para alguém. “Seria ela, Lucinda?”

O ambiente suntuoso fazia Palmira se sentir frágil, diminuída. Arrepios passavam por seus braços, enrijecendo seu corpo. Sentou-se no couro frio do sofá ao lado da mesinha com um abajur inglês. Seus dedos irrequietos tamborilavam sua irritação pela falta de informações, de notícias, ou de alguém que significasse algo naquele momento.

Silenciosamente, um criado entrou e colocou na mesa um jogo de chá servido para quatro pessoas. O homem abriu as cortinas, acendeu as luzes e saiu nos mesmos passos lentos com que entrara.

Palmira sentiu um frisson muito ruim, talvez pelo roçar das cortinas em seu braço. Cismou sobre as quatro xicaras: “Para quem seriam? Será que há mais convidados? Ou mais prisioneiros? Mais vítimas, sei lá? Talvez sejam para alguma testemunha, meu marido, Lucinda e eu?”

Tentando manter-se `a tona, repassou em segundos toda a história de seu casamento conturbado, os indícios de tramas e traições.

Sentiu-se num limbo. Quis fugir. As portas estavam trancadas, e as janelas fechadas com cadeados. Procurando chaves, suas mãos trêmulas abriram as gavetas da escrivaninha. “Será que aqui encontrarei algo útil?” pensou.  Mas ali não havia chaves. Ali havia um revólver! “Ah! Será que essa deverá ser minha companhia?”  pensou.

Então, voltando-se sobre suas próprias suposições, sentou-se junto às janelas com a arma na mão, tomou um chá, “estaria envenenado?” pensou, quase marota, e ficou esperando até o sono chegar, até o pesadelo terminar.

Ainda viu o empregado entrar, retirar as xícaras, fechar as cortinas. Sentia-se anestesiada. Ainda pode ver Lucinda sair do retrato, sorrindo, e abraçar seu marido que surgira sabe Deus de onde…

Palmira revirou os olhos, saboreou uma lágrima e, sem se dar conta do tempo, do lugar e da vida, deixou-se levar para um mundo que ela nem desconfiava que existia…


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