O sacerdote bonitão
Ises de Almeida Abrahamsohn
Era um jovem padre inconformado com o celibato obrigatório imposto pela Igreja Católica Apostólica Romana. Por que ele, másculo, atraente, com os desejos carnais normais da espécie humana, deveria se sujeitar às leis de um grupo de cardeais vetustos e impotentes sediados em Roma?
Gostava de seu ofício, prezava sua habilidade de conselheiro, considerava-se mesmo um psicólogo. Não havia escolhido a vida religiosa. O destino o havia empurrado para o orfanato e depois para o seminário. Lúcio era filho bastardo colocado numa família pobre e piedosa para ser criado. Era grato ao casal idoso que o abrigara e amara até os seis anos. Aos sete, morreu-lhe o pai adotivo e a mãe, impossibilitada de o manter, enviou-o ao internato católico. Aos doze anos, faleceu a mãe, deixando o imóvel onde morava à Cúria em troca do compromisso de manter e educar o jovem até a idade adulta. Acabou optando pela facilidade de continuar os estudos no seminário. Faltou-lhe coragem de abandonar antes da ordenação.
Como padre, Lúcio levou a sério a profissão. Aconselhava jovens, apaziguava famílias, aliviava os pecadores. Enfim, cuidava de seu rebanho e era apreciado especialmente pelas paroquianas do sexo feminino. O que constituía um problema para o bom padre Lúcio, que gostava das mulheres e, principalmente, gostava de sexo.
Procurar profissionais de sexo, nem pensar. Tinha pavor de doença venérea. Impossível também, naquela pequena cidade, ir a um prostíbulo ou receber visitas femininas. Atrair alguma moça bonita solteira entre as fãs paroquianas também estava fora de cogitação. Primeiro, o medo de engravidar e, segundo, porque preferia uma parceira que tivesse alguma experiência e que, de fato, apreciasse as volúpias do ato sexual.
Estava cansado das confissões. Muitas mulheres frequentavam as missas atraídas pelo jovem e belo padre. O confessionário era disputadíssimo , algumas mesmo ousavam insinuações. Como achar uma parceira experiente e discreta para suas noites?
Veio-lhe a ideia de chamar para confissão num dia determinado aquelas que costumavam trair os maridos. Ele as chamava de “traideiras”. Confessavam, ouviam os conselhos, faziam a penitência, e na semana seguinte lá estavam elas de novo, relatando o mesmo pecado e seguindo a mesma penitência. Era entre essas que faria a seleção. Eram cerca de dez senhoras que, confiantes no segredo da confissão, haviam exposto seus pecados de adultério. Padre Lúcio descartou aquelas de adultério ocasional.
Procurava as pecadoras contumazes a quem habilmente perguntava sobre os pecados de volúpia e luxúria. Restaram-lhe três candidatas a sondar. Decidiu-se por Rita.
Rita era uma linda morena de trinta e cinco anos, casada há 15, sem filhos. Era infértil.
Melhor assim, a candidata ideal, não haveria complicações.
Padre Lúcio chamou Rita para uma confissão de fim de tarde, num sábado com a igreja vazia. Sugeriu mostrar-lhe um livro ilustrado na sacristia. Ao que Rita aceitou entusiasmada.
Da sacristia à cama do sacerdote que morava na casa ao lado foram apenas doze passos.
E assim Lúcio e a bela Rita se encontraram ardentemente por vários meses.
Rita se divorciou, Padre Lúcio resolveu abandonar a batina e o casal mudou-se para outra cidade. Ele passou a dar aulas de português e história, e Rita se tornou corretora de imóveis. E foram muito felizes, ou tanto quanto é possível ser.
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