A LINHAGEM OCULTA - Conto coletivo do EscreViver - 2026



A  LINHAGEM  OCULTA

Uma história escrita por vários autores:


Conto coletivo 2026: Os mesmo autores do conto O DESTINO DE FERNANDO. 




PRÓLOGO

O desaparecimento de Neblina



A madrugada ainda cobria o haras quando os cães começaram a latir.

Não era um latido comum, desses provocados por algum animal que se aventurava perto das cercas. Era um alvoroço inquieto, insistente, que se espalhava de um canil para outro.

A lua iluminava apenas parte dos pastos. Uma névoa baixa se formava sobre a relva e parecia engolir os caminhos de terra que levavam às baias.

Na guarita da entrada, o vigia levantou-se da cadeira e olhou para fora. Não viu ninguém. Abriu a porta, caminhou alguns passos e acendeu a lanterna.

— Quietos aí! — gritou para os cães.

Os animais não se calaram.

Ao longe, próximo ao galpão de transporte, ouviu-se o ronco abafado de um motor. Durou poucos segundos. Depois, silêncio.

O vigia pensou em telefonar para Queiroz, mas desistiu. Talvez fosse apenas um dos tratadores chegando mais cedo ou algum caminhão passando pela estrada do outro lado da propriedade.

Voltou para a guarita, sentou-se e observou o monitor das câmeras.

As telas estavam pretas.

Tentou reiniciar o sistema. Apertou alguns botões, desligou e ligou o aparelho. Nada.

— Justo hoje... — resmungou.

Quarenta minutos depois, as imagens reapareceram.

Tudo parecia normal.

As cercas estavam intactas. Os portões, fechados. Nenhum movimento estranho aparecia nas câmeras.

Quando o sol começou a clarear o horizonte, os primeiros funcionários chegaram. O haras despertava com seus ruídos de sempre: baldes arrastados, cavalos batendo os cascos, porteiras se abrindo, homens trocando cumprimentos sonolentos.

Foi um tratador quem percebeu.

Parou diante de uma das baias, olhou uma vez, depois outra.

A corrente estava no lugar.

O cadeado, fechado.

Mas a baia estava vazia.

— Seu Queiroz! — gritou.

O gerente surgiu poucos minutos depois, ainda abotoando a camisa. Caminhou rapidamente até o corredor das baias e parou diante da porta.

No alto, uma pequena placa trazia o nome do animal: NEBLINA.

Queiroz tocou no cadeado, examinou a corrente e olhou para dentro.

A palha estava revolvida. O bebedouro continuava cheio. Próximo à parede havia uma pequena mancha escura, talvez lama, talvez graxa. Nenhum sinal indicava como uma égua daquele tamanho poderia ter deixado a baia sem que a porta fosse aberta.

— Ela não pode ter desaparecido — disse o tratador.

Queiroz permaneceu calado.

Neblina era uma das éguas mais valiosas do haras. Campeã em competições importantes, possuía uma linhagem rara, cobiçada por criadores de várias regiões do país. Seu valor não estava apenas nas provas que vencera, mas na descendência que poderia produzir.

O gerente entrou na baia e se abaixou perto do chão. Encontrou uma pequena tampa plástica, transparente, semelhante às utilizadas em frascos de medicamentos veterinários. Guardou-a no bolso.

Depois olhou para o corredor.

— Ninguém entra nem sai daqui — ordenou de modo atabalhoado . — Fechem os portões - gritaram os tratadores.

— O senhor acha que roubaram a égua?

Queiroz encarou o homem.

— Cavalo não desaparece sozinho.

Do lado de fora, os cães ainda latiam.

Naquele instante, Queiroz teve a certeza de que o desaparecimento de Neblina não era um caso isolado. Havia muito tempo ele percebia pequenas coisas fora do lugar: documentos corrigidos à mão, registros duplicados, assinaturas que não combinavam, animais retirados para exames sem que ele fosse avisado.

Tentara acreditar que eram falhas administrativas.

Agora já não tinha tanta certeza.

Olhou novamente para a baia vazia.

Durante quase quarenta anos, conhecera cada animal, cada funcionário e cada palmo daquela propriedade. O haras era sua casa. Mais do que isso: era a herança que ajudara a proteger desde os tempos em que José Evandro ainda era um rapaz.

Pela primeira vez, sentiu que alguma coisa crescia escondida dentro daquela propriedade.

Alguma coisa que ele não compreendia.

E que talvez já fosse tarde demais para impedir.


 





PARTE I

MARCAS DE UM RÉVEILLON

CAPÍTULO I

A noite de Copacabana


Estava amanhecendo quando o ônibus chegou ao Rio de Janeiro, vindo de Lapinha, cidade pequena do interior de Minas Gerais.

Uma tênue faixa ocre atravessava o céu na horizontal, desenhando o contorno dos prédios e das montanhas. Virgínia esfregou os olhos, ajeitou-se no banco e colou o rosto na janela.

Tudo lhe parecia grandioso.

As avenidas, os edifícios, os automóveis passando em velocidade, as pessoas caminhando apressadas. Durante anos imaginara como seria estar numa cidade grande. Em seus pensamentos, havia arranha-céus, vitrines iluminadas, homens e mulheres elegantes, envoltos em casacos pesados, como nas fotografias de revistas estrangeiras.

Sua imaginação sempre fora muito maior do que a realidade.

Naquela manhã de dezembro, entretanto, o Rio de Janeiro não tinha nada de frio. A cidade parecia ferver. Um calor quase insuportável pairava no ar, envolvendo ruas, calçadas e construções.

Virgínia não se importou.

Estava ali.

Sozinha pela primeira vez, longe da fazenda, da pequena Lapinha, das ordens do pai e dos caminhos que conhecia desde criança.

Tinha pouco mais de vinte anos e a sensação de que a vida finalmente começava.

Jorge, seu pai, demorara a concordar com a viagem. Viúvo havia muitos anos, criara a filha com zelo e certa severidade. Não gostava da ideia de vê-la partir sozinha para uma cidade tão distante.

— Rio de Janeiro não é lugar para moça desacompanhada — repetira várias vezes.

Virgínia insistiu.

Queria conhecer o mar. Queria ver os fogos de Copacabana. Queria, ao menos uma vez, caminhar por um lugar em que ninguém soubesse quem ela era, de quem era filha ou onde morava.

Jorge acabou cedendo.

— Vá, mas tenha juízo.

Ela prometeu que teria.

Instalou-se numa pequena pensão, não muito distante da praia. Passou os primeiros dias percorrendo as ruas, admirando vitrines, comprando lembranças e telefonando para o pai todas as noites.

No dia 31 de dezembro, escolheu com cuidado o vestido branco que levara na mala. Prendeu parte dos cabelos, passou um batom discreto e ficou alguns minutos diante do espelho.

Sentia-se diferente.

Talvez não estivesse mais bonita do que de costume, mas estava livre. E a liberdade dava brilho aos seus olhos.

Quando chegou à praia, Copacabana já estava tomada por uma multidão vestida de branco. Havia música, vendedores, turistas, famílias inteiras e grupos de amigos carregando garrafas, flores e oferendas.

Virgínia caminhou sem pressa, deixando-se levar pela alegria daquele povo. A areia ainda guardava o calor do dia. O mar avançava e recuava, molhando seus pés.

Foi perto da meia-noite que conheceu Evandro.

Ele se aproximou para ajudá-la depois que um homem esbarrou em seu braço e quase derrubou a pequena bolsa que carregava.

— Está tudo bem? — perguntou.

Virgínia levantou os olhos.

Era um rapaz bonito, de sorriso fácil e maneiras delicadas. Vestia camisa branca de mangas dobradas e carregava duas taças de plástico numa das mãos.

— Está, sim. Foi só um empurrão.

— Em Copacabana, hoje, é quase impossível não ser empurrado.

Ela sorriu.

— Você está sozinho? — perguntou ele.

Virgínia hesitou.

— Por enquanto.

— Então posso lhe oferecer uma taça?

Ela aceitou.

Ele se apresentou apenas como Evandro. Disse que morava no Rio e que gostava de passar o réveillon na praia, embora todos os anos prometesse que ficaria em casa.

— E você? — perguntou. — É carioca?

— Mineira.

— Eu sabia.

— Como?

— Pelo jeito de falar.

Virgínia riu.

— E mineiro fala como?

— Como quem pede licença até para discordar.

Continuaram conversando.

Quando a contagem regressiva começou, Evandro ergueu a taça. À meia-noite, os fogos iluminaram o céu e o mar. A multidão gritou, abraçou-se e brindou.

Virgínia ficou paralisada diante do espetáculo.

Nunca imaginara que algo pudesse ser tão bonito.

Evandro observou o encantamento em seu rosto.

— Primeiro réveillon no Rio?

— Primeiro Rio. Primeiro mar. Primeiros fogos.

— Então é uma noite importante.

— A mais importante da minha vida até agora.

Brindaram.

Depois pularam sete ondas e muitas outras que vieram. Ele segurou sua mão quando a água bateu mais forte. Andaram pela praia, riram, conversaram sobre cidades, viagens e sonhos.

Ou quase conversaram.

Em certo momento, as palavras já não pareciam necessárias.

Havia urgências dentro deles, como se aquela noite estivesse destinada a terminar antes que tivessem tempo de se conhecer verdadeiramente.

Sentaram-se na areia, um pouco afastados da multidão. O luar refletia sobre o mar e os fogos ainda estouravam ao longe.

Virgínia não se lembraria depois de quem beijou primeiro.

Sabia apenas que se sentira desejada, bonita e viva.

Ficaram ali por horas.

Quando despertou, o sol já batia em seus olhos.

Por alguns segundos, Virgínia não soube onde estava. Depois viu Evandro adormecido ao seu lado e todas as lembranças da noite retornaram de uma só vez.

Sua roupa estava úmida, coberta de areia. Os cabelos, embaraçados. Sentiu vergonha de ser vista daquela maneira.

Levantou-se devagar.

Pensou em acordá-lo.

Chegou a inclinar-se em sua direção, mas desistiu. Talvez fosse melhor tomar um banho, trocar de roupa e depois voltar.

Saiu caminhando lentamente, arriscando pequenas olhadelas para trás.

Evandro continuava dormindo.

Somente ao chegar à pensão percebeu que não sabia o sobrenome dele.

Também não havia dito onde estava hospedada.

Não tinham trocado telefones.

Voltou à praia naquela tarde.

Depois no dia seguinte.

E mais duas vezes antes de retornar a Minas Gerais.

Não o encontrou.

Durante dias, Virgínia saboreou as lembranças daquele réveillon como se guardasse um segredo precioso. Revivia o sorriso de Evandro, o modo como ele segurara sua mão e a luz dos fogos refletida em seus olhos.

As selfies tiradas naquela noite ficaram guardadas no celular e, mais tarde, impressas dentro de uma caixa.

Com o passar do tempo, entretanto, o encanto começou a misturar-se à frustração.

Talvez aquele encontro tivesse sido apenas o que parecia: uma noite entre dois desconhecidos.

Virgínia voltou para Lapinha meio realizada, meio entristecida. Reencontrou o pai, a fazenda, os animais e a vida que deixara por alguns dias.



PARTE II

ONDE A HISTÓRIA COMEÇA



Virgínia voltou, mas não voltou sozinha.

Algumas semanas depois, descobriu que trazia no ventre um filho de Evandro.

Jorge recebeu a notícia em silêncio.

Andou de um lado para outro na varanda, passou as mãos pelos cabelos e demorou a encarar a filha.

— Você sabe onde encontrar esse rapaz?

Virgínia abaixou os olhos.

— Não.

— Nem o nome inteiro?

— Só Evandro.

O pai respirou fundo.

Virgínia esperava uma bronca, talvez uma acusação. Em vez disso, Jorge aproximou-se e a abraçou.

— Então criaremos essa criança juntos.

Foi assim que Fernando nasceu, longe de um pai que nem sabia da sua existência.

Jorge assumiu para si a tarefa de substituir a figura paterna. Acompanhou os primeiros passos do neto, ensinou-lhe a montar, a cuidar dos animais e a respeitar a terra.

Fernando cresceu esperto, curioso e cheio de vida.

Desde pequeno gostava da rotina da fazenda. Observava o nascimento dos bezerros, acompanhava a vacinação do gado e fazia perguntas que nem sempre os adultos sabiam responder.

Também herdara da mãe o gosto pelos livros.

Sua vida se dividia entre a escola, a família, a lida rural e as histórias que lia antes de dormir.

A proximidade com os animais acabou levando-o à Veterinária. Escolheu trabalhar com animais de grande porte e ingressou na Universidade Federal de Minas Gerais.

Virgínia acompanhava cada conquista do filho com orgulho.

Havia, entretanto, uma pergunta que nunca deixava de existir entre os dois.

Quem era Evandro?

Desde criança, Fernando conhecia as fotografias tiradas naquela noite em Copacabana. Via um homem jovem, sorrindo ao lado da mãe, sob o clarão dos fogos.

À medida que crescia, passou a observar os traços daquele rosto.

O formato dos olhos.

O sorriso.

O desenho do queixo.

Procurava em Evandro alguma coisa que também existisse nele.

Virgínia sempre lhe contara a verdade.

Não o fizera por crueldade, tampouco para alimentar ressentimentos. Simplesmente acreditava que o filho tinha o direito de conhecer a própria história.

Fernando não culpava a mãe.

Também não sabia se deveria culpar o homem da fotografia.

Evandro nunca soubera que ele existia.

Mesmo assim, a vontade de encontrá-lo tornou-se uma constante.

Era como uma porta fechada dentro dele.

Fernando apenas aguardava o momento certo para abri-la.



 



PARTE I

CAPÍTULO II

Em busca do passado



No último ano da faculdade, Fernando recebeu de vô Jorge um presente que não esperava.

Estavam na varanda da fazenda depois do jantar. O velho tomou um gole de café, limpou a garganta e entregou ao neto um envelope.

— O que é isso?

— Abra.

Dentro havia uma passagem para o Rio de Janeiro e uma quantia em dinheiro.

Fernando olhou para o avô.

— Para quê?

— Para você conhecer a cidade.

— Só por isso?

Jorge demorou alguns segundos antes de responder:

— E para procurar seu pai.

Fernando permaneceu calado.

O avô continuou:

— Você já esperou tempo demais.

Virgínia, sentada do outro lado da varanda, entrelaçou os dedos. As lembranças daquele réveillon continuavam vivas nela, embora mais de duas décadas tivessem se passado.

— Não sabemos quase nada — disse Fernando.

— Sabemos o nome — respondeu a mãe. — Sabemos a idade aproximada. Temos as fotografias.

— E uma cidade com milhões de pessoas.

— Ainda assim, é um começo.

Fernando segurou o envelope.

Uma parte dele se enchia de esperança. Outra temia encontrar uma resposta que seria melhor nunca conhecer.

— E se ele não quiser saber de mim?

Virgínia se levantou e se aproximou do filho.

— Então você saberá quem ele é. E seguirá sua vida.

— E se tiver família?

— Provavelmente tem.

— Filhos?

— Talvez.

Fernando passou a mão pelo rosto.

Jorge observava os dois em silêncio.

— Não precisa fazer isso por mim — disse Virgínia.

— Não é só por você, mãe.

Ela sabia.

Fernando precisava compreender de onde vinha. Não por vergonha da vida que tivera, nem por ingratidão ao avô. Jorge fora mais pai do que muitos homens ligados aos filhos pelo sangue.

Mas havia uma parte de sua história que permanecia vazia.

Poucos dias depois, Fernando viajou para o Rio de Janeiro.

Hospedou-se na casa de Ary, primo de segundo grau de Virgínia e advogado experiente. Foi ele quem indicou uma investigadora particular chamada Lenita Fragoso.

— Ela é discreta, competente e teimosa — explicou. — Quando começa uma investigação, só para quando encontra alguma coisa.


 





PARTE II

ERA COMO BUSCAR AGULHA EM PALHEIRO




O escritório de Lenita ficava no centro da cidade, num prédio antigo, com elevador de portas pantográficas e corredores estreitos.

Ela era uma mulher de pouco mais de cinquenta anos, cabelos curtos, olhar atento e gestos econômicos. Usava óculos de armação escura e carregava um pequeno caderno preto, no qual anotava quase tudo.

Fernando contou a história desde o início.

Falou sobre a viagem da mãe, o encontro em Copacabana, as fotografias e a falta de informações.

Lenita ouviu sem interrompê-lo.

Depois examinou as selfies no celular. Pediu que ele ampliasse uma delas.

— Sua mãe lembra alguma coisa além do primeiro nome?

— Ele disse que morava no Rio.

— Profissão?

— Ela acredita que fosse empresário. Mas não tem certeza.

— Idade?

— Devia ter uns vinte e quatro ou vinte e cinco anos naquela época.

— Algum amigo apareceu nas fotografias?

— Não.

Lenita aproximou o celular dos olhos.

— Ele usava relógio?

Fernando estranhou a pergunta.

— Acho que sim.

— As pessoas mostram mais do que imaginam nas fotografias. Roupa, relógio, postura, lugares que frequentam. Tudo pode ajudar.

Ela devolveu o aparelho.

— Não será fácil.

— Eu sei.

— Podemos encontrar dezenas de Evandros com idade compatível. Talvez centenas. Alguns já terão morrido, outros se mudado. Alguns não vão querer falar.

— Mesmo assim, quero tentar.

Lenita observou-o por alguns segundos.

— Você se parece com ele.

Fernando não soube o que responder.

A investigadora continuou:

— Principalmente nos olhos. Isso pode ajudar quando chegarmos a possíveis nomes.

Antes de iniciar formalmente o trabalho, Lenita pediu autorização para conversar com Virgínia. Fizeram uma videochamada ainda naquele dia.

A princípio, Virgínia ficou constrangida. Parecia temer que a investigadora julgasse suas escolhas do passado.

Lenita, porém, não demonstrou surpresa nem reprovação.

Fez perguntas simples e objetivas.

— Ele disse onde morava?

— Não.

— Falou sobre os pais?

— Não me lembro.

— Usava algum anel?

Virgínia fechou os olhos por alguns segundos, procurando a imagem de Evandro na memória.

— Não. Pelo menos, não de casamento.

— Mencionou trabalho?

— Disse que cuidava de negócios da família.

— Que tipo de negócios?

— Não sei. Talvez propriedades. Ele comentou que gostava de cavalos, mas não sei se tinha relação com o trabalho.

Lenita fez uma anotação.

— Cavalos?

— Sim. Falou que aprendera a montar ainda menino.

Fernando prestou atenção à informação.

A mãe nunca lhe contara esse detalhe.

— Por que você não me disse isso antes?

— Porque nunca achei importante.

Para ele, era.

Fernando crescera entre animais e escolhera a Veterinária. A ideia de que Evandro também gostava de cavalos parecia criar um vínculo invisível entre os dois.

Talvez fosse apenas coincidência.

Mas, naquele momento, qualquer coincidência ganhava importância.

Nos dias seguintes, Lenita começou a pesquisar homens chamados Evandro que tivessem vivido no Rio de Janeiro na época indicada. Procurou registros empresariais, fotografias antigas, notícias de jornais e endereços.

A lista inicial era enorme.

Aos poucos, eliminou os que não tinham idade compatível, os que eram casados havia muitos anos e aqueles cuja aparência não correspondia às fotografias.

Restaram três nomes principais:

Evandro Rezende, empresário do setor imobiliário;

Carlos Evandro Martins, proprietário de uma rede de hotéis;

e José Evandro Polinesi, administrador ligado a propriedades rurais e a um conhecido haras em Vassouras.

Um quarto nome surgia com frequência nos documentos relacionados a José Evandro: Queiroz.

Não havia informações suficientes sobre ele. Aparecia como gerente, administrador e procurador em diferentes registros do haras.

Lenita anotou o nome, mas não deu maior importância naquele momento.

Semanas se passaram.

Fernando precisou retornar a Minas Gerais para concluir o curso. A investigação continuaria no Rio.

Lenita mantinha contato frequente. Algumas pistas pareciam promissoras, mas logo se desfaziam.

Evandro Rezende tinha idade compatível e frequentava Copacabana. Fotografias antigas mostravam um homem bastante parecido com o rapaz das selfies.

Carlos Evandro Martins também estivera no Rio naquele réveillon e possuía um apartamento próximo à praia.

Sobre José Evandro Polinesi, havia menos informações pessoais. Ele aparecia em notícias relacionadas a cavalos, competições e negócios rurais. Não mantinha redes sociais e raramente concedia entrevistas.

Era um homem discreto.

Lenita decidiu investigar os três.


 



PARTE III

AS PEDRAS PELO CAMINHO DA INVESTIGAÇÃO



Certa manhã, ao chegar ao escritório, a investigadora encontrou a porta entreaberta. Parou no corredor.

Tinha certeza de que a havia trancado na noite anterior.

Empurrou-a com cuidado. Lá dentro o caos.

As gavetas estavam abertas. Papéis e pastas espalhavam-se pelo chão. Um armário fora forçado e o computador estava desligado.

Nada de valor parecia ter sido levado.

A bolsa com dinheiro permanecia dentro da mesa. O telefone reserva continuava no carregador. Até um pequeno porta-joias estava intacto.

Quem entrara ali procurava outra coisa.

Lenita examinou as pastas.

Os documentos sobre Evandro Rezende não haviam sido tocados.

Os de Carlos Evandro Martins também estavam no lugar.

Faltava apenas uma cópia do dossiê de José Evandro Polinesi.

Ela ficou parada no centro da sala, sentindo o ar abafado e pesado.

Até aquele momento, acreditara estar apenas procurando um homem que desconhecia a existência de um filho.

A invasão do escritório sugeria outra coisa.

Alguém sabia da investigação.

E não queria que ela continuasse.

Lenita fechou a porta, telefonou para a polícia e fez um boletim de ocorrência.

Depois ligou para Fernando.

Não contou tudo.

Disse apenas que surgira uma pista importante e que precisaria verificar algumas informações em Vassouras.

— Você acha que encontrou meu pai? — perguntou ele.

Lenita olhou para os papéis espalhados pelo chão.

— Acho que encontrei alguém que não quer ser encontrado.

Ao desligar, recolheu os documentos que restavam e guardou-os numa pasta.

Sobre a mesa, uma fotografia de José Evandro Polinesi permanecia aberta.

Ele estava ao lado de um cavalo escuro, segurando as rédeas com uma das mãos.

Atrás dele aparecia um homem mais velho, de expressão séria.

Na legenda da fotografia, havia apenas uma identificação:

José Evandro Polinesi e o administrador Queiroz, durante evento no haras.

Lenita aproximou a imagem dos olhos.

Havia algo naquele rosto mais velho que lhe parecia familiar.

Mas ainda não sabia dizer o quê...


 



CAPÍTULO III

Um veterinário em Vassouras



Tão logo concluiu a faculdade, Fernando recebeu uma proposta de trabalho num haras localizado em Vassouras, pouco mais de cem quilômetros distante do Rio de Janeiro.

A vaga havia chegado por intermédio de um professor da Universidade, que conhecia o gerente da propriedade e recomendara o jovem por seu bom desempenho com animais de grande porte.

Fernando mal podia acreditar.

Os cavalos sempre tinham sido sua maior paixão. Crescera entre bois, vacas, mulas e animais de trabalho, mas havia alguma coisa especial na força e na inteligência dos equinos. Gostava da forma como percebiam o medo, a ansiedade e até a mentira de quem se aproximava.

O processo de contratação fora realizado à distância. Enviou currículo, participou de duas entrevistas por videochamada e conversou longamente com o administrador do haras, um homem chamado Queiroz.

No dia em que recebeu a confirmação, telefonou imediatamente para a mãe.

— Consegui!

— Conseguiu o quê?

— O emprego no haras.

Virgínia soltou um grito tão alto que Fernando precisou afastar o telefone do ouvido.

— Eu sabia! Seu avô vai querer matar um boi para comemorar.

— Não precisa exagerar.

— Conhecendo seu avô, ele vai achar pouco.

Fernando riu.

A alegria, entretanto, misturava-se a uma coincidência que ele ainda não sabia como interpretar.

O haras ficava em Vassouras.

A mesma cidade em que José Evandro Polinesi mantinha propriedades e negócios ligados à criação de cavalos.

Lenita havia enviado essa informação poucos dias antes.

Fernando não sabia se o haras em que trabalharia pertencia justamente ao homem investigado. O nome do proprietário não aparecia nos documentos da contratação. Tudo fora tratado com Queiroz, que se limitara a dizer que o dono da propriedade viajava muito e comparecia ao local apenas em ocasiões importantes.

Fernando pensou em telefonar para a detetive. Desistiu.

Talvez estivesse enxergando sinais onde não havia nada. 

Havia muitos criadores na região. Vassouras era conhecida por fazendas históricas, propriedades rurais e criação de animais.

Ainda assim, guardou a dúvida.

Quando o dia da mudança chegou, despediu-se de Virgínia, do avô e de Dolores, companheira de Jorge havia dois anos.

— Não vá esquecer de comer — recomendou a mãe.

— Tenho vinte e quatro anos, mãe.

— E desde quando idade impede alguém de esquecer o almoço?

Jorge abraçou o neto com força.

— Trabalhe direito. Escute mais do que fala. E não tenha vergonha de perguntar quando não souber alguma coisa.

— Pode deixar.

— E não confie em cavalo que mostra os dentes.

— Isso vale para gente também? — perguntou Dolores.

— Principalmente para gente.

Partiu cedo.

O automóvel de pouco uso, foi presente do avô, seria seu companheiro mais frequente naquela nova fase.

À medida que se aproximava de Vassouras, sentia o frio na barriga crescer. Pesquisara sobre a cidade, vira fotografias, lera a respeito das antigas fazendas de café e da importância histórica da região. Mesmo assim, o desconhecido sempre o afetava.

Perguntava-se como seria recebido.

Se conseguiria mostrar competência.

Se faria amigos.

E, por que não admitir, se conheceria alguma garota interessante.

Era jovem, solteiro e não pretendia viver apenas para o trabalho.


 



PARTE I

A EXPECTATIVA DE FERNANDO




Ao chegar, parou num posto de gasolina próximo à entrada da cidade e perguntou pela pousada onde fizera reserva.

— É pertinho — respondeu o frentista. — Sobe essa rua, passa a praça e vira depois da igreja.

Fernando agradeceu.

— Primeira vez em Vassouras?

— É.

— Veio estudar?

— Trabalhar num haras.

O homem o observou com interesse.

— No haras do doutor Evandro?

Fernando sentiu um leve aperto no estômago.

— Não sei. Falei com um gerente chamado Queiroz.

— Então é lá mesmo.

O frentista apontou para a estrada.

— Propriedade grande. Gente importante. Cavalo que vale mais que casa.

Fernando sorriu, pagou o combustível e voltou ao automóvel.

O doutor Evandro.

Poderia ser apenas outro Evandro.

Mas não acreditava nisso.

Hospedou-se na Vila Hibisco, uma pousada simples, limpa e bem localizada. O quarto tinha cama de madeira, uma escrivaninha pequena e uma janela voltada para o jardim.

No fim da tarde, saiu para conhecer a cidade.

O casario alinhava-se ao longo das ruas estreitas. Havia uma praça, uma igreja de portas abertas, uma lanchonete movimentada e algumas senhoras conversando diante de uma farmácia.

Fernando gostou do lugar.

Parecia acolhedor.

Ao mesmo tempo, aquela tranquilidade provocava certo receio, como se numa cidade pequena todos soubessem mais da vida alheia do que deveriam.

Quando o sino da igreja anunciou a Ave-Maria, lembrou-se do avô.

Jorge devia estar sentado na varanda, ouvindo o mesmo horário chegar a Lapinha.

Naquela noite, Fernando demorou a dormir.

Pensou no emprego, na mãe, na investigação e no homem chamado José Evandro Polinesi.

Talvez estivesse prestes a trabalhar na propriedade de seu próprio pai.

Ou talvez fosse apenas uma coincidência cruel.

Na manhã seguinte, apresentou-se ao haras.

Logo na entrada, percebeu que a descrição do frentista não era exagerada.


 



PARTE II

O HARAS



O gramado verde se estendia diante dos olhos, cortado por cercas brancas e caminhos bem cuidados. Cavalos trotavam nos pastos, alguns acompanhados por tratadores. As baias eram amplas, ventiladas e limpas. Ao fundo, via-se uma pista de treinamento, um galpão e uma construção maior, de estilo antigo, que devia ser a sede da propriedade.

O cheiro de palha, couro, grama aparada e animais misturava-se no ar.

Fernando respirou fundo.

Gostaria daquele lugar.

Queiroz o aguardava próximo às baias.

Era um homem alto, de ombros largos, cabelos grisalhos e expressão fechada. Vestia calça escura, camisa clara e botas muito bem engraxadas. Exalava um perfume forte de água de colônia.

— Fernando?

— Sim, senhor.

— Não precisa me chamar de senhor. Aqui já tem cavalo demais para ser tratado com cerimônia.

Estendeu-lhe a mão.

O aperto foi firme.

— Chegou cedo.

— Prefiro chegar antes do horário.

— Bom costume. Difícil de encontrar hoje em dia.

Queiroz começou a apresentar a propriedade.

Mostrou as baias, a enfermaria veterinária, o depósito de medicamentos, os piquetes e a pista de treinamento.

— Aqui tudo precisa estar em ordem — explicou. — Animal saudável, funcionário satisfeito e papelada correta.

Ao dizer “papelada”, seu tom mudou ligeiramente.

Fernando percebeu, mas não comentou.

— O proprietário mora aqui? — perguntou.

— Não. Tem casa na cidade e viaja bastante. Costuma vir uma ou duas vezes por semana, quando não está fora.

— Doutor Evandro?

Queiroz parou de andar.

Voltou-se para Fernando.

— Já ouviu falar dele?

— No posto de gasolina disseram que o haras era do doutor Evandro.

O gerente o observou por alguns segundos.

— Nesta cidade, as pessoas sabem das coisas antes mesmo de elas acontecerem.

Continuou caminhando.

— O nome dele é José Evandro Polinesi. Herdou a propriedade dos pais e transformou o haras no que você está vendo.

Fernando sentiu o coração bater mais depressa.

Tentou disfarçar.

— Ele é veterinário?

— Administrador. Mas conhece cavalos melhor que muito profissional diplomado.

Queiroz abriu a porta de uma baia.

Dentro havia uma égua de pelagem acobreada, crina clara e olhos atentos.

— Esta é Neblina.

O animal aproximou-se da porta.

Fernando estendeu a mão devagar. A égua cheirou seus dedos e permaneceu imóvel.

— Ela é linda.

— E sabe disso.

Queiroz entrou na baia.

— Puro-sangue inglês. Inteligente, rápida e temperamental. Não gosta de gente insegura.

Fernando aproximou-se.

Neblina permitiu que ele tocasse seu pescoço.

— Parece tranquila.

— Porque gostou de você.

— E quando não gosta?

— Você descobre depressa.

Fernando examinou os olhos, as narinas e o estado geral da égua.

— Ela está em treinamento?

— Haverá uma competição no próximo mês. Neblina é uma das nossas maiores apostas.

Queiroz acariciou a crina do animal com um cuidado que não combinava com sua aparência severa.

— Mais do que uma campeã, ela é uma matriz importante.

— Pela linhagem?

— Pela linhagem e pela genética. Há criadores dispostos a pagar muito por um descendente dela.

Fernando observou a ficha presa do lado de fora da baia.

O número de registro estava escrito à mão sobre uma etiqueta colada por cima de outra.

— Essa ficha foi alterada?

Queiroz aproximou-se.

— Atualização de cadastro.

Retirou a prancheta do gancho.

— O sistema antigo tinha muitos erros.

— Entendi.

Queiroz guardou a ficha embaixo do braço.

— Ainda não precisa se preocupar com isso. Primeiro conheça os animais e a rotina.

Fernando percebeu que o assunto estava encerrado.

Durante o restante da manhã, foi apresentado aos funcionários. Havia tratadores, auxiliares, pessoal da limpeza, empregados administrativos e dois veterinários que compareciam em dias alternados.

A recepção foi cordial.

Mesmo assim, alguns o observavam com curiosidade.

Talvez por ser novo.

Talvez porque, numa propriedade onde quase todos trabalhavam havia muitos anos, qualquer rosto desconhecido chamasse atenção.

No horário do almoço, Queiroz sentou-se diante dele na pequena cozinha dos funcionários.

— Você nasceu onde?

— Em Lapinha, Minas Gerais.

— Seus pais trabalham com fazenda?

— Minha mãe ajuda meu avô na propriedade da família.

— E seu pai?

Fernando hesitou.

— Não conheço.

Queiroz levantou os olhos do prato.

— Morreu?

— Não sei.

O gerente permaneceu em silêncio.

Fernando tentou mudar de assunto.

— Minha mãe o conheceu no Rio, antes de eu nascer. Depois perderam o contato.

Queiroz largou o garfo.

— No Rio?

— Em Copacabana.

A expressão do gerente se fechou.

— Quando?

— Há quase vinte e cinco anos. Num réveillon.

Por um instante, Queiroz pareceu não ouvir os sons da cozinha. O rosto perdeu parte da cor, e seus olhos se fixaram em Fernando como se procurassem alguma coisa.

— Está tudo bem? — perguntou o jovem.

— Está.

Queiroz voltou a comer.

— Foi só uma lembrança.

Não explicou qual.

Nos dias seguintes, Fernando se integrou à rotina.

Levantava cedo, examinava os animais, acompanhava treinamentos e organizava registros clínicos. Gostava de trabalhar com Neblina. A égua parecia reconhecê-lo e tornava-se menos inquieta quando ele entrava na baia.

Queiroz, por sua vez, passou a observá-lo com frequência.

Às vezes de longe.

Outras vezes durante as atividades.

Numa tarde, enquanto caminhavam entre os piquetes, comentou:

— Você me recorda alguém que conheci há muito tempo.

Fernando esperou a continuação.

— Quem?

Queiroz desviou os olhos para os cavalos.

— Um rapaz que também fazia perguntas demais.

— Isso é um defeito?

— Depende da pergunta.

A partir daquele dia, o gerente passou a demonstrar certa afeição pelo jovem. Orientava-o com paciência, elogiava seus atendimentos e se preocupava quando Fernando trabalhava além do horário.

Era um cuidado discreto, quase paternal.

Fernando gostava dele, embora não compreendesse o motivo daquela aproximação tão rápida.

Certa noite, telefonou para Lenita.

— O haras pertence a José Evandro Polinesi.

Do outro lado da linha, houve silêncio.

— Tem certeza?

— O gerente confirmou.

— Queiroz?

— Sim.

— Você contou por que está procurando seu pai?

— Não. Só disse que não o conheço.

— Não fale mais nada por enquanto.

— Por quê?

— Porque alguém invadiu meu escritório e levou justamente parte do dossiê de José Evandro.

Fernando sentou-se na cama.

— Você não tinha me contado.

— Ainda não sabia se havia relação com a investigação.

— E agora?

— Agora sei que alguém ficou incomodado.

— Você acha que é ele?

— Não faço ideia. Mas quero que tenha cuidado.

Fernando olhou pela janela da pousada. A rua estava vazia.

— Queiroz ficou estranho quando falei que minha mãe conheceu meu pai num réveillon em Copacabana.

— Estranho como?

— Parecia assustado.

Lenita anotou a informação.

— Observe. Não confronte ninguém.

— E você?

— Vou continuar pesquisando.

Antes de desligar, Fernando perguntou:

— Você já conseguiu uma fotografia mais recente de José Evandro?

— Ainda não. As imagens públicas são antigas ou ruins.

— Ele deve aparecer aqui em breve.

— Então não demonstre interesse demais.

Fernando encerrou a ligação.

Sabia que deveria seguir o conselho.

Mas a curiosidade aumentava.

Pela primeira vez, o homem que procurava parecia não estar distante, perdido numa cidade enorme.

Poderia surgir a qualquer momento, caminhando pelo mesmo corredor de baias.





CAPÍTULO IV

OCORRÊNCIAS NO HARAS



Dali a poucos dias começaria a Semana do Bem-Estar Animal, um evento anual promovido pelo haras.

Durante uma semana, os cavalos seriam examinados, vacinados, higienizados e preparados para uma das competições mais importantes do calendário equestre. Criadores de várias regiões participariam. Haveria jornalistas, empresários, compradores e veterinários convidados.

Queiroz explicou que a contratação de Fernando ocorrera justamente por causa do aumento de trabalho naquele período.

— É uma boa oportunidade para mostrar o que sabe — disse. — Mas não tente resolver tudo sozinho.

— Pode deixar.

— Todo jovem diz isso antes de tentar resolver tudo sozinho.

Nos dias anteriores ao evento, a movimentação cresceu.

Caminhões entravam e saíam. Baias eram preparadas. Funcionários pintavam cercas e organizavam equipamentos. O setor administrativo revisava inscrições, registros e documentos sanitários.

Fernando aproveitou para estudar os animais que participariam das provas.

Neblina era sua preferida.

A égua possuía pelagem cobre, crina esbranquiçada e um olhar que parecia acompanhar cada movimento ao redor. Era veloz, obediente quando confiava em quem a conduzia e nervosa em ambientes muito agitados.

Durante um exame, Fernando percebeu uma pequena marca no pescoço do animal.

Afastou os pelos e tocou o local.

Parecia uma picada recente.

— Aplicaram alguma medicação nela? — perguntou ao tratador.

— Não que eu saiba.

— Vacina?

— Também não.

Fernando procurou a ficha clínica.

Não havia registro de aplicação.

Chamou um dos veterinários mais antigos.

— Doutor Álvaro, o senhor examinou Neblina ontem?

— Passei por todas as baias.

— Aplicou alguma coisa nela?

— Não.

— Tem uma marca no pescoço.

Álvaro olhou rapidamente.

— Pode ser picada de inseto.

— Está muito redonda.

— Cavalo se machuca com qualquer coisa, Doutor. Vá acostumando.

O veterinário afastou-se sem demonstrar interesse.

Fernando não se convenceu. A resposta parecia evasiva demais ara um profissional da saúde animal.

Anotou a observação num caderno pessoal.

 





PARTE I

LENITA MANDA NOTÍCIAS



Na véspera do evento, recebeu um pacote enviado por Lenita.

Dentro havia dois dossiês.

O primeiro tratava de Carlos Evandro Martins, dono de uma rede de hotéis. Era solteiro na época do réveillon, possuía apartamento em Copacabana e tinha idade compatível. No entanto, não haviam encontrado fotografias claras daquele período.

O segundo era sobre Evandro Rezende, empresário do setor imobiliário. Fotos antigas mostravam um homem bastante parecido com o rapaz das selfies.

Havia também uma carta.

Lenita explicava que ainda investigava José Evandro Polinesi, mas estava encontrando obstáculos. Alguns documentos haviam desaparecido dos arquivos públicos. Registros empresariais estavam incompletos. Um ex-funcionário do haras aceitara conversar, mas desistira poucas horas antes do encontro.

No fim, ela acrescentara:

“José Evandro possui idade compatível, esteve no Rio no mesmo réveillon e sempre foi ligado a cavalos. Ainda não consegui confirmar se é o homem das fotografias. Há um detalhe curioso: o nome de Queiroz aparece em praticamente todos os atos importantes da vida dele.”

Fernando espalhou as fotografias sobre a mesa do quarto.

Comparou o rosto dos homens.

Evandro Rezende realmente se parecia com o rapaz fotografado por Virgínia.

Mas as imagens de José Evandro eram antigas, tiradas de longe. Em uma delas, ele aparecia ao lado de um cavalo escuro. Atrás, estava Queiroz.

Fernando aproximou a foto.

Foi interrompido por batidas na porta.

— Quem é?

— Queiroz.

Fernando abriu.

O gerente entrou carregando uma pasta.

— Vim verificar se você recebeu a programação de amanhã.

— Recebi.

Queiroz colocou a pasta sobre a mesa e viu as fotografias.

Ficou imóvel.

Pegou uma delas.

— Onde conseguiu isso?

A voz não era agressiva, mas havia tensão.

Fernando tentou parecer despreocupado.

— Uma amiga me enviou.

— Que amiga?

— Uma investigadora.

Queiroz levantou os olhos.

— Investigadora de quê?

Fernando hesitou.

— De um assunto pessoal.

O gerente observou novamente a fotografia de José Evandro.

— Você não deveria mexer em coisas que não conhece.

— Não estou mexendo em nada do haras.

Queiroz soltou a foto.

— Ainda.

Saiu do quarto sem se despedir.

Fernando ficou com a sensação de ter cometido um erro.


 


PARTE II

O EVENTO - PRIMEIRO DIA 


Na manhã seguinte, acordou antes do sol.

Tomou café na varanda da pousada e seguiu para o haras.

Quando chegou, o movimento já era intenso.

Cavalos e proprietários chegavam quase ao mesmo tempo. Funcionários orientavam motoristas, conduziam animais e conferiam documentos. Jornalistas montavam equipamentos perto da pista. Garçons e cozinheiros preparavam a recepção na sede.

Fernando passou grande parte da manhã nas baias.

Durante o exame de um garanhão, percebeu um homem desconhecido rondando a baia de Neblina.

Usava boné, camisa escura e carregava uma pequena maleta.

— Posso ajudar? — perguntou Fernando.

O homem pareceu surpreso.

— Estou procurando o setor de coleta.

— Ainda não temos setor de coleta aqui.

— Então devo ter me confundido.

Virou-se para sair.

— O senhor trabalha com qual proprietário?

O homem não respondeu.

Desapareceu entre os funcionários.

Fernando procurou Queiroz.

— Tinha um sujeito estranho perto de Neblina.

— Como era?

Ele descreveu.

Queiroz fechou a expressão.

— Não deixe ninguém se aproximar dela sem autorização.

— Quem era?

— Não sei.

— Pareceu saber onde estava.

— Por isso mesmo.

Queiroz afastou-se apressado.

Pouco depois, Fernando conduziu Neblina até a pista.

Queria passar tranquilidade para a égua, pois sabia que a agitação interferia em seu desempenho.

Da cabeceira, examinou o ambiente.

Foi quando viu uma jovem alta, de cabelos castanho-claros e olhos verdes. Ela afagava a pelagem escura de um puro-sangue árabe e conversava com um tratador.

Havia alguma coisa nela que chamava atenção.

Talvez a postura.

Talvez a naturalidade com que tocava o cavalo.

Neblina deu um tranco na rédea.

— Calma, menina.

Fernando voltou os olhos para a jovem.

Ela já não estava.

Neblina realizou a prova com excelente desempenho e classificou-se para a etapa seguinte.

Quando o sino da sede anunciou o almoço, os convidados começaram a caminhar em direção à casa principal.

Queiroz chamou Fernando.

— Preciso que me ajude com algumas atividades da gerência.

— Claro.

— Confira os animais que chegaram pela manhã e entregue estas fichas no administrativo.

Fernando pegou os documentos.

Ao folheá-los, encontrou dois registros com o nome de Neblina.

Os números eram diferentes.

— Queiroz.

O gerente voltou-se.

— Há duas fichas dela.

Pegou os papéis das mãos de Fernando.

— Deve ser duplicidade do sistema.

— Os números de registro não coincidem.

— Eu verifico depois.

Guardou as fichas dentro da pasta.

— Agora vá almoçar.

A sede estava lotada.

Garçons e copeiras circulavam com bebidas e pequenos aperitivos. As conversas se misturavam, enchendo o salão.

Entre os visitantes, Fernando reconheceu alguns criadores conhecidos apenas de revistas e reportagens.

Viu novamente a jovem dos olhos verdes.

Conversava com um senhor mais velho, elegante, de cabelos grisalhos e postura rígida. Os dois pareciam próximos.

Fernando pensou em aproximar-se.

Desistiu.

— Tome sua linha — murmurou para si mesmo. — Isso é muita areia para seu caminhãozinho.

Mesmo assim, continuou olhando.

Ela possuía um tipo de elegância que não parecia ensaiada. Não fazia esforço para chamar atenção e, justamente por isso, chamava.

Quando anunciaram que o almoço estava servido, os convidados seguiram para as mesas com lugares marcados.

Fernando encontrou seu nome e quase perdeu a coragem.

A cadeira reservada para ele ficava ao lado da jovem.

Sentou-se.

— Com licença.

Ela sorriu.

— Você é o veterinário da Neblina.

— Sou o Fernando.

— Tereza Cristina.

Ele serviu-se de água para disfarçar a inquietação.

— Sem dúvida, Neblina é uma égua especial — comentou ela.

— Você entende de cavalos?

— Um pouco.

— Pela forma como estava tratando aquele árabe, parece entender muito.

— Cresci num haras. Depois estudei reprodução equina na Espanha.

Fernando ficou surpreso.

— Você é veterinária?

— Ainda não. Fiz parte do curso aqui e continuei fora. Estou terminando uma especialização.

— E voltou para a competição?

Tereza Cristina hesitou.

— Voltei por alguns compromissos familiares.

Antes que Fernando perguntasse quais, ela mudou de assunto.

Conversaram sobre cavalos, competições, genética e reprodução. Descobriram afinidades. Tereza Cristina conhecia técnicas modernas de coleta e conservação de material genético. Fernando falou de um projeto que imaginava implantar ali.

— Um centro de coleta e processamento de sêmen?

— Exatamente.

— Este haras tem estrutura para isso.

— Também acho.

— E animais com valor genético suficiente.

— Neblina, por exemplo.

Tereza Cristina ficou séria.

— Principalmente Neblina.

— Você conhece a linhagem dela?

— Mais do que gostaria.

Fernando percebeu a mudança.

— Como assim?

Ela pegou a taça.

— É uma história longa.

Antes que continuassem, o homem mais velho que conversava com ela aproximou-se.

— Tereza, seu pai está procurando por você.

Fernando sentiu o peito apertar.

— Já vou.

Ela se levantou.

— Foi um prazer, Fernando.

— O prazer foi meu.

Acompanhou-a com os olhos.

Quando se voltou, viu Queiroz observando-o do outro lado do salão.

O gerente não parecia satisfeito.

O almoço terminou no meio da tarde, mas os convidados permaneceram na sede. Houve chá, música e conversas sobre negócios.

Fernando ainda encontrou Tereza Cristina duas vezes. Em ambas, foi interrompido antes que pudessem retomar o assunto sobre Neblina.




PARTE III

O ENCONTRO MAIS ESPERADO



Na manhã seguinte, desceu cedo para o café da pousada.

Havia alguns hóspedes conversando numa mesa próxima.

— Ela voltou da Espanha há duas semanas — disse uma mulher.

— Veio para o casamento?

— Dizem que sim. O doutor José finalmente encontrou uma pretendente para aquele inútil do filho.

Fernando prestou atenção.

— Tereza Cristina vai mesmo se casar com ele?

— Daqui a um mês e meio.

Foi como receber um soco no estômago.

Tentou convencer-se de que não deveria se importar. Conhecera a moça no dia anterior. Conversaram por poucas horas.

Ainda assim, sentiu-se ridiculamente decepcionado.

Quem era ela? E quem era o noivo?

Ao chegar ao haras, encontrou Queiroz diante da baia de Neblina.

O gerente examinava a porta, a corrente e o chão.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não.

— Então por que está olhando assim?

Queiroz se abaixou e recolheu uma pequena tampa plástica.

— Encontraram isto perto da baia.

Fernando pegou o objeto.

— Parece tampa de frasco de medicamento.

— Também achei.

— Neblina tinha uma marca no pescoço ontem.

Queiroz levantou-se imediatamente.

— Que marca?

— Uma picada. Perguntei ao doutor Álvaro, mas ele disse que podia ser de inseto.

— Por que não me contou?

— Eu anotei na ficha clínica.

Queiroz foi até o armário onde os registros eram guardados.

Procurou durante alguns minutos.

— A ficha não está aqui.

— Está sim, eu mesmo a coloquei.

Queiroz demonstrou muita preocupação:

— Quem mais sabia da marca?

— O tratador e o doutor Álvaro.

Queiroz apertou a tampa entre os dedos.

— Examine Neblina agora.

Fernando entrou na baia.

A égua estava inquieta.

Seu pulso parecia mais lento do que o habitual, e havia uma leve falta de coordenação nos movimentos.

— Ela foi sedada.

— Tem certeza?

— Quase.

— Com quê?

— Só um exame pode dizer.

Queiroz respirou fundo.

— Faça os testes. E não comente com ninguém.

— Alguém aplicou alguma coisa nela?

— É o que vamos descobrir.

Fernando recolheu amostras de sangue.

Quando terminou, percebeu uma marca escura no chão da baia.

Abaixou-se.

Parecia graxa.

— Queiroz, caminhões entraram nesta área durante a noite?

— Não deveriam.

— A graxa pode ter vindo de equipamento de transporte.

O gerente ficou calado.

Ao fundo, ouviram o som de um automóvel aproximando-se.

Um carro preto estacionou diante da sede.

Um homem desceu.

Vestia calça clara, camisa branca e óculos escuros. Era alto, bem cuidado e caminhava com segurança, cumprimentando funcionários pelo nome.

Queiroz olhou para ele.

Depois olhou para Fernando.

— O patrão chegou.

Fernando sentiu o ar faltar.

O homem retirou os óculos.

Era mais velho do que o rapaz das fotografias de Copacabana, naturalmente.

Mas o sorriso era o mesmo.

Os olhos também.

José Evandro Polinesi caminhou em direção aos dois.

Fernando permaneceu imóvel.

Durante mais de vinte anos, procurara aquele rosto numa fotografia.

Agora ele vinha ao seu encontro, sem saber quem Fernando era.

E sem imaginar que o passado acabara de entrar no haras pela porta da frente.


José Evandro Polinesi aproximou-se devagar.

Fernando tentava controlar a respiração.

Durante anos, observara aquele rosto nas fotografias guardadas pela mãe. Agora precisava disfarçar a emoção e agir como se estivesse diante apenas do proprietário do haras.

O tempo modificara alguns traços. Os cabelos estavam grisalhos nas laterais, pequenas marcas cercavam os olhos e o rosto adquirira uma expressão mais séria. Ainda assim, não havia como negar a semelhança com o rapaz de Copacabana.




CAPÍTULO V

UM LONGO DIA DE MISTÉRIOS E DESCOBERTAS




José Evandro cumprimentou Queiroz com um abraço breve.

— Como estão as coisas?

— Temos um problema com Neblina.

— Que tipo de problema?

Queiroz mostrou a pequena tampa plástica.

— Encontramos isto perto da baia. O Fernando também percebeu sinais de sedação.

José Evandro voltou-se para o jovem.

— Você é o novo veterinário?

— Sim, senhor. Fernando Guimarães.

O proprietário estendeu a mão.

Quando as mãos se tocaram, Fernando sentiu algo difícil de explicar. Não era exatamente emoção. Era como se aquele gesto simples rompesse uma distância construída durante toda a sua vida.

— Queiroz falou muito bem de você — disse José Evandro.

— Espero corresponder, senhor.

— Pelo visto, já começou prestando atenção no que os outros não viram.

O homem entrou na baia e aproximou-se de Neblina.

A égua ergueu a cabeça ao reconhecê-lo.

José Evandro acariciou lhe a testa.

— O que fizeram com você, menina?

Fernando observou a delicadeza do gesto.

Não parecia um homem indiferente aos animais. Havia afeto verdadeiro no modo como tocava Neblina.

— Recolhi sangue para exame — explicou Fernando. — Ela está com os reflexos alterados e certa falta de coordenação.

— Corre risco?

— A princípio, não. Mas precisamos saber qual substância foi aplicada.

José Evandro se virou para Queiroz.

— Quem esteve aqui à noite?

— Estou verificando.

— As câmeras?

— Funcionaram normalmente.

Fernando se lembrou do homem da maleta visto perto da baia.

— Ontem havia um desconhecido rondando esta área.

José Evandro franziu a testa.

— Desconhecido?

— Um homem de boné e camisa escura. Disse que procurava o setor de coleta.

— Nós não temos setor de coleta.

— Foi o que respondi.

Queiroz parecia incomodado.

— Você me contou. Estou tentando descobrir quem era.

José Evandro olhou novamente para Fernando.

— Consegue descrevê-lo?

— Consigo.

— Faça isso por escrito. E avise imediatamente se o vir de novo.

— Claro.

José Evandro caminhou até a porta da baia e reparou na ficha presa ao lado.

— Por que esta etiqueta está colada sobre outra?

Fernando olhou para Queiroz.

O gerente respondeu:

— Atualização do sistema.

— Outra vez?

— Os registros antigos tinham divergências.

José Evandro retirou a prancheta do gancho.

— Esta é a terceira correção em menos de um ano.

Queiroz não respondeu.

— Quero todos os documentos de Neblina no meu escritório — ordenou o proprietário. — Registros sanitários, reprodutivos, genéticos e de competição.

— Vou providenciar.

José Evandro se afastou.

Antes de entrar na sede, voltou-se para Fernando.

— Gostaria de conversar com você depois do almoço.

— Estarei à disposição.

Quando ele desapareceu, Fernando percebeu que continuava segurando a respiração.

Queiroz observou-o.

— O que foi?

— Nada.

— Você ficou branco.

— É o calor.

— Aqui sempre faz calor. Você ainda não tinha ficado branco.

Fernando abaixou-se para examinar novamente Neblina.

— Talvez seja cansaço.

Queiroz permaneceu parado.

— Ele se parece com a fotografia?

Fernando ergueu os olhos.

— Que fotografia?

— Não me trate como tolo.

O jovem ficou em silêncio.

Queiroz continuou:

— A fotografia que estava sobre sua mesa.

— Parece. Parece muito.

— E o que pretende fazer?

— Ainda não sei se é ele.

— Então descubra antes de perturbar a vida de todo mundo.

— Não quero perturbar ninguém.

— Todo passado perturbado começa com alguém dizendo isso.

Fernando se levantou.

— Por que o senhor está tão preocupado?

— Porque conheço José Evandro desde que ele nasceu.

— E conhece a vida dele.

— Melhor do que qualquer pessoa.

— Então talvez possa me ajudar.

Queiroz fechou a expressão.

— Não me envolva na sua investigação.

Virou-se e saiu.

Fernando permaneceu diante da baia, sentindo que a aproximação com José Evandro havia produzido mais perguntas do que respostas.

Pouco depois, levou as amostras para o pequeno laboratório do haras. Enquanto organizava os tubos, ouviu passos atrás de si.

Era Tereza Cristina.

Vestia calça clara, camisa azul e botas. Os cabelos estavam presos.

— Soube que aconteceu alguma coisa com Neblina.

— Quem contou?

— Neste lugar, uma notícia corre mais depressa que cavalo de corrida.

Ela se aproximou da bancada.

— O que encontrou?

— Sinais de sedação.

— Aplicaram alguma coisa sem registro?

— É o que parece.

Tereza ficou séria.

— Isso já aconteceu antes.

— Com Neblina?

— Com outro animal.

Fernando interrompeu o que fazia.

— Quando?

— Há cerca de um ano. Um garanhão chamado Imperador apresentou sintomas parecidos antes de uma competição. Disseram que fora reação a um medicamento.

— Quem aplicou?

— Nunca descobriram.

— E o animal?

— Foi retirado da prova. Dois meses depois, vendido.

— Para quem?

Tereza hesitou.

— Não sei.

— Você disse que conhecia bem a linhagem de Neblina.

— Conheço.

— Por quê?

Ela olhou pela janela.

— Minha família criou a mãe dela.

Fernando esperou.

— Neblina nasceu numa propriedade do meu pai — explicou. — Foi vendida ainda jovem para José Evandro.

— Então você a acompanha desde pequena?

— Sempre que posso.

— Ontem disse que conhecia a linhagem dela mais do que gostaria.

Tereza respirou fundo.

— Porque a história daquela linhagem provocou muitos conflitos entre os criadores.

— Que conflitos?

— Dinheiro, Fernando. Quando um animal vale muito, aparecem disputas, falsificações e gente disposta a fazer qualquer coisa para controlar sua reprodução.

— Você acha que alguém aplicou sedativo para prejudicá-la na competição?

— Talvez.

— Ou para fazer outra coisa.

Tereza voltou os olhos para ele.

— Como o quê?

— Coletar material genético sem autorização.

Ela permaneceu calada por alguns segundos.

— Isso exigiria equipamento e conhecimento.

— O homem que vi carregava uma maleta e procurava o setor de coleta.

— Você contou a José Evandro?

— Contei.

Tereza caminhou até a porta.

— Tenha cuidado.

— Por que todos me dizem isso?

— Porque você chegou há poucos dias e já está fazendo perguntas que muita gente deixou de fazer há anos.

— E você? Deixou de fazer?

— Aprendi a escolher o momento.

Antes de sair, ela se voltou.

— O resultado do exame deve mostrar o que foi aplicado.

— Se ninguém trocar as amostras.

Tereza fitou-o por um instante.

— Agora você começou a entender.

Na hora do almoço, Fernando foi chamado ao escritório de José Evandro.

A sala ficava na parte mais antiga da sede. Havia estantes de madeira, fotografias de cavalos e troféus conquistados ao longo de décadas.

Na parede atrás da mesa, uma fotografia chamou a atenção de Fernando.

Mostrava José Evandro ainda jovem, montado num cavalo castanho. Ao lado, Queiroz segurava as rédeas.

O proprietário indicou uma cadeira.

— Sente-se.

Fernando obedeceu.

— Queiroz disse que você tem boas ideias sobre reprodução equina.

— Tenho estudado algumas alternativas para o haras.

— Que alternativas?

Fernando explicou o projeto de implantação de um Centro de Coleta e Processamento de Sêmen. Falou sobre estrutura, protocolos sanitários, seleção de reprodutores, armazenamento e possibilidade de comercialização.

José Evandro ouviu com interesse.

— Você preparou algum estudo?

— Ainda não está completo. Mas posso apresentar custos, estimativas e exigências legais.

— Faça isso.

Fernando se surpreendeu.

— O senhor considera a ideia viável?

— Considero necessária.

José Evandro se levantou e caminhou até a janela.

— Este haras viveu durante muito tempo da tradição. Tradição é importante, mas não paga contas se não vier acompanhada de planejamento.

— O centro pode valorizar os animais e criar uma nova fonte de receita.

— Também pode aumentar o controle sobre a genética.

Fernando percebeu a escolha das palavras.

— O senhor acredita que há falta de controle?

José Evandro demorou a responder.

— Acredito que crescemos depressa demais.

Voltou para a mesa.

— Quando meu pai morreu, Queiroz segurou esta propriedade praticamente sozinho. Eu era jovem e não entendia metade do que precisava entender. Com o tempo, expandimos. Vieram competições, parcerias, leilões e novos investidores.

— E os problemas.

José Evandro sorriu.

— Você realmente fala antes de pensar.

— Desculpe.

— Não precisa se desculpar. Apenas não faça isso diante de todo mundo.

Fernando sorriu também.

Por alguns segundos, esqueceu que poderia estar diante do próprio pai. Conversavam como dois profissionais interessados no mesmo assunto.

— Prepare o projeto — disse José Evandro. — Quero analisá-lo no mês que vem.

— Farei isso.





PARTE I

QUANDO SE ENCONTRA O QUE SE PROCURA



Quando Fernando se levantou, o proprietário perguntou:

— Guimarães é sobrenome do seu pai?

O jovem sentiu o coração acelerar.

— Da minha mãe.

— E seu pai?

— Não o conheci.

José Evandro abaixou os olhos, sentiu um leve atropelo no peito:

— Sinto muito.

— Não. Ele não sabe que eu existo.

O homem tentou parecer imóvel.

— Como pode ter certeza?

— Minha mãe perdeu o contato antes de descobrir a gravidez.

José Evandro tocou uma caneta sobre a mesa, evitando olhar diretamente para o rapaz.

— Isso deve ter sido difícil para ela.

— Foi, sim. Mas meu avô nos apoiou.

— Graças à Deus! Sua mãe mora em Minas?

— Em Lapinha, mas mudou-se recentemente para Vassouras.

A caneta parou entre os dedos de José Evandro.

Fernando acompanhou os discretos desajustes de José Evandro.

— Como ela se chama, meu jovem?

Fernando não hesitou.

— Virgínia. O nome dela é Virgínia.

O proprietário levantou o rosto. Parecia pálido..

O silêncio que se seguiu foi longo demais.

— Virgínia? — repetiu de modo singular.

— Sim.

José Evandro se recostou na cadeira.

Seus olhos perderam por um momento a segurança que demonstravam.

— É um nome bonito. - disse titubeante.

— O senhor conhece alguma Virgínia?

— Muitas pessoas passam pela nossa vida.

— É verdade. Mas, algumas ficam.

José Evandro observou Fernando. Ele sabe - pensou.

— Você veio trabalhar aqui por minha causa?

A pergunta atingiu o jovem de surpresa.

— Não. Não, senhor.

— Tem certeza?

— A vaga foi indicada por um professor. Eu só soube que o haras era seu quando cheguei aqui na cidade.

— E depois que soube?

Fernando percebeu que não adiantaria mentir.

— Descobri, através de uma investigação,  que o senhor pode ser meu pai. 

José Evandro permaneceu calado.

Não demonstrou revolta, nem surpresa exagerada. Apenas olhou para o jovem como se tentasse reorganizar lembranças muito antigas.

Não acreditava no que estava acontecendo ali. 

— Sua mãe esteve em Copacabana num réveillon? — perguntou.

— Esteve, sim senhor.

— Em que ano?

Fernando respondeu.

José Evandro fechou os olhos.

Quando tornou a abri-los, havia uma emoção contida em seu rosto. Os gestos pareciam atrapalhados:

— Preciso ver uma fotografia dela. Posso?

— Tenho aqui no celular.

Fernando procurou a imagem mais recente de Virgínia.

Entregou o aparelho.

José Evandro observou a fotografia durante alguns segundos.

Depois deslizou o dedo pela tela e viu outra imagem, antiga, digitalizada. Nela, ele próprio aparecia ao lado de Virgínia, sob os fogos de Copacabana.

A cor desapareceu completamente de seu rosto, sentiu as pernas perderem o equilíbrio. Incrédulo, perguntou:

— Onde conseguiu isso?

— Minha mãe guardou todos esses anos.

José Evandro tinha uma vaguidão no olhar. Caminhou até a janela.

Fernando esperou. Observou Evandro esconder o rosto entre as mãos:

— Eu procurei por ela, Fernando — disse o homem, de costas. — Durante meses.

— Minha mãe disse que voltou à praia várias vezes.

— Eu também. No dia seguinte, no outro dia, e no outro, depois na outra semana, depois em todos os lugares que conseguia imaginar que ela pudesse visitar.

Virou-se.

— Ela foi embora sem me acordar.

— Ele disse. Ficou com vergonha da aparência.

Apesar da tensão, José Evandro soltou uma breve risada.

— Virgínia disse isso?

— Muitas vezes.

O sorriso desapareceu.

— Por que nunca me procurou?

— Ela não sabia seu sobrenome. Nem onde o senhor morava.

José Evandro passou de novo as mãos pelo rosto.

— E você nasceu...

— Nove meses depois.

Nenhum dos dois disse mais nada.

Fernando sentia emoções contraditórias. Esperara por aquele momento durante anos, mas não sabia o que fazer com ele. Queria abraçar o homem, fazer perguntas, exigir respostas e, ao mesmo tempo, fugir.

José Evandro aproximou-se.

— É tudo inesperadamente novo para mim, assim como também é para você. Não posso alimentar nada sem um exame.

— Eu compreendo.

— Mas as datas...

— As datas coincidem. Tudo coincide.

— E você tem um semblante...

— Pareço com o senhor?

José Evandro sorriu tristemente.

— Mais do que eu gostaria de admitir sem ter certeza.

Eles se examinavam com os olhos quando a porta se abriu de repente.


Era o Queiroz.

Parou ao perceber os dois em silêncio.

José Evandro devolveu-lhe o celular.

O gerente lançou um olhar para a tela do apareclho e viu a fotografia antiga.

Fechou os olhos.

— Você sabia, Queiroz?— disse Fernando.

— Suspeitava.

— Desde quando?

— Desde que você chegou.

— Mas não disse nada.

— Não era meu segredo para contar. Não era minha história. 

José Evandro aproximou-se do gerente.

— Você se lembra dela? Viu tantas vezes as fotografias...

— Lembro do quanto você a procurou.

— Então por que não me disse que Fernando se parecia comigo?

Queiroz respirou fundo.

— Porque havia outras coisas acontecendo. E eu precisava ter certeza de que a presença dele aqui não fazia parte de alguma armadilha.

— Que armadilha?

O gerente olhou para Fernando.

— O haras não está seguro.

José Evandro franziu a testa.

— Do que está falando?

— Dos registros alterados. Dos animais retirados sem autorização. De funcionários pagos por empresas que não conhecemos.

— Por que não me contou antes?

— Contei. Você preferiu acreditar que eram erros administrativos.

José Evandro caminhou até a janela.

— E Neblina?

— Pode estar ligada a isso, patrão.

Fernando interveio:

— Precisamos ver os exames, mas tenho certeza de alguém a sedou.

Queiroz concordou.

— E se fizeram isso uma vez, podem tentar novamente.

José Evandro voltou-se para o jovem.

— Fernando, faça o exame de DNA.

— Quando?

— O mais depressa possível.

— Está certo.

— Até termos o resultado, ninguém precisa saber do que falamos aqui.

Fernando guardou o celular.

— Minha mãe precisa saber.

— Claro. Mas prefiro conversar com ela pessoalmente.

— Ela pode não querer vê-lo.

José Evandro aceitou o golpe sem reagir.

— Ela tem esse direito. Mas vai entender que eu não me esquivei do que não sabia.

Quando Fernando deixou o escritório, sentia que o chão não era firme.

Encontrara, finalmente,  o homem que procurava.

Mas a confirmação que deveria trazer alívio também o lançava para dentro de um problema maior.

Atrás dele, no escritório, José Evandro permanecia em silêncio.

Queiroz fechou a porta.

— Você sempre disse que gostaria de reencontrar Virgínia — comentou o gerente.

— Gostaria.

— Parece que o destino resolveu trazer a família inteira para dentro do haras.

José Evandro sorriu levemente, voltou os olhos para a fotografia antiga, a mesma que ele também tinha no seu celular.

— Talvez no pior momento possível.





PARTE II

REVELAÇÃO PARA VIRGÍNIA




Naquela noite, Fernando telefonou para a mãe.

Ficou alguns minutos olhando para o nome dela na tela antes de iniciar a chamada.

Virgínia atendeu sorrindo.

— Finalmente! Já estava achando que tinha trocado de mãe.

— Preciso falar com você.

Ela percebeu imediatamente a seriedade na voz do filho.

— Aconteceu alguma coisa?

— Acho que encontrei Evandro.

O sorriso desapareceu.

Virgínia permaneceu imóvel.

— Encontrou como?

— Ele é o dono do haras.

A mãe levou a mão à boca.

— José Evandro Polinesi?

— Sim.

— Você tem certeza?

— Ele reconheceu a fotografia de vocês.

Virgínia se sentou.

Durante alguns segundos, apenas o som da respiração dos dois atravessou a chamada.

— Ele se lembrava de mim?

— Disse que procurou por você durante meses.

Os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Não diga isso por pena.

— Foi ele quem contou.

— E você? O que sentiu?

Fernando olhou pela janela do quarto.

— Não sei ainda.

— Ele é uma boa pessoa?

— Parece ser.

— Parece não é o mesmo que ser.

— Eu sei.

Virgínia respirou fundo.

— Ele aceita fazer o exame?

— Sim. Ele pediu para eu fazer o mais depressa possível.

— Então faça.

— Ele gostaria de falar com você.

Ela fechou os olhos.

— Não sei se consigo.

— Você não precisa decidir agora.

— Passei tantos anos imaginando esse encontro que, agora que pode acontecer, tenho medo.

— Medo de quê?

— De descobrir que o homem da lembrança não existe mais.

Fernando entendeu.

Aquele Evandro guardado pela mãe tinha pouco mais de vinte anos, sorria sob os fogos e prometia que o mundo era grande. O homem atual carregava décadas de vida, escolhas e segredos.

— Ele também pode ter medo de descobrir quem você se tornou — pense nisso.

Virgínia sorriu entre lágrimas.

— Você está ficando sábio.

— Deve ser o convívio com cavalos.

Ela enxugou o rosto.

— Quando fará o exame?

— Amanhã.

— E quanto tempo leva?

— Alguns dias.

— Então esperaremos.

Antes de desligar, Virgínia perguntou:

— Ele se parece com você?

Fernando pensou um pouco.

— Acho que eu me pareço com ele.


 



CAPÍTULO VI

O projeto ousado



Na manhã seguinte, as amostras foram coletadas.

Queiroz providenciou o envio para um laboratório no Rio. O resultado seria entregue com confidencialidade.

Enquanto aguardava, Fernando se concentrou no trabalho.

Precisava organizar a proposta para o Centro de Coleta e Processamento de Sêmen. Reuniu dados, calculou custos e estudou as normas sanitárias.

A ideia era criar uma estrutura capaz de realizar coleta, avaliação, processamento, congelamento e armazenamento de material genético. O centro permitiria ao haras trabalhar com animais próprios e oferecer serviços a outros criadores.

Tereza Cristina passou a ajudá-lo.

Ela conhecia técnicas utilizadas na Espanha e possuía contatos com laboratórios e fornecedores.

Os dois se encontravam no fim do expediente, geralmente numa sala ao lado da enfermaria.

Fernando espalhava planilhas e desenhos sobre a mesa.

Tereza corrigia protocolos, acrescentava equipamentos e questionava os cálculos.

— Você está subestimando o custo do laboratório — disse ela.

— Não estou.

— Está, sim.

— Pesquisei três fornecedores.

— Pesquisou preços de equipamentos básicos. Falta o sistema de controle térmico, gerador de emergência e área de quarentena.

Fernando fez uma anotação.

— Mais alguma coisa?

— Sim. Você precisa separar fisicamente coleta e processamento.

— Eu sei.

— Então por que desenhou juntos?

— Para testar se você estava prestando atenção.

Tereza riu.

— Você é sempre assim?

— Só quando estou errado.

O convívio aproximava os dois.

Fernando tentava não pensar no suposto casamento. Tereza também não mencionava o assunto.

Certa tarde, enquanto revisavam documentos, ele decidiu perguntar:

— Você vai se casar?

Ela deixou a caneta sobre a mesa.

— Quem contou?

— Ouvi na pousada.

— Cidade pequena.

— É verdade?

Tereza desviou o olhar.

— Há um acordo entre as famílias.

— Acordo?

— Meu pai e José Evandro são sócios em alguns negócios. Acreditam que o casamento fortaleceria a relação.

— E você?

— Eu acredito que casamento deveria fortalecer uma relação entre duas pessoas.

— Então não quer?

— Não disse isso.

— Também não disse que quer.

Tereza levantou-se.

— Gustavo e eu nos conhecemos desde crianças.

— Esse é o noivo?

— É.

— E o ama?

Ela se irritou.

— Não devo explicações a você.

— Não deve.

— Então por que pergunta?

— Porque gosto de você.

A sinceridade surpreendeu os dois.

Tereza permaneceu parada.

Fernando continuou:

— Sei que nos conhecemos há pouco. Sei que não tenho direito de me envolver. Mas prefiro dizer a verdade.

Ela pegou a pasta.

— Você realmente fala antes de pensar.

— José Evandro também disse isso.

— Nesse caso, ele tem razão.

Tereza caminhou até a porta.

Antes de sair, voltou-se.

— Eu não amo Gustavo.

Foi embora.

Fernando permaneceu sozinho, sorrindo sem perceber.

O trabalho no projeto continuou.

Ao analisar os registros dos animais indicados para reprodução, encontrou novas inconsistências.

Um garanhão chamado Imperador aparecia como doador de material genético seis meses depois da data de sua venda.

Outro animal possuía duas identificações diferentes em documentos emitidos no mesmo mês.

Havia também registros de coleta em datas nas quais nenhum veterinário autorizado estivera no haras.

Fernando separou as fichas.

Chamou Tereza.

— Veja isto.

Ela comparou os documentos.

— Pode ser erro de lançamento.

— Três erros iguais?

— Não.

— Imperador aparece como doador depois de ter saído daqui.

— Talvez tenham utilizado material congelado.

— Não há registro de estoque.

Tereza ficou séria.

— Você mostrou a Queiroz?

— Ainda não.

— Mostre.

Encontraram o gerente perto da pista.

Queiroz examinou os papéis.

— Onde achou?

— No arquivo de reprodução.

— Esse arquivo deveria estar trancado.

— A porta estava aberta.

Queiroz guardou as fichas.

— Não comente com ninguém.

Fernando perdeu a paciência.

— Todo mundo manda que eu não comente. Ninguém explica nada.

— Porque ainda não sabemos em quem confiar.

— E o senhor confia em mim?

Queiroz o observou.

— Estou começando.

— Então diga o que está acontecendo.

O gerente olhou ao redor antes de responder.

— Há pelo menos dois anos, materiais genéticos são registrados sem minha autorização. Alguns pagamentos entram por empresas que não têm contrato com o haras. Quando tento verificar, os documentos desaparecem.

— José Evandro sabe?

— Sabe parte.

— Por que não chamou a polícia?

— Porque acusar sem provas pode destruir a reputação do haras.

— E deixar continuar pode destruir o haras inteiro.

Queiroz concordou.

— Por isso precisamos de provas.

Tereza cruzou os braços.

— O desaparecimento das fichas, a sedação de Neblina e os registros falsos não são suficientes?

— São indícios.

Fernando apontou para os papéis.

— Alguém pode estar vendendo material genético de animais valiosos sem autorização.

— É o que suspeito — respondeu Queiroz.

— Quem teria acesso?

— Veterinários, tratadores, funcionários do laboratório parceiro, transportadores e pessoas do administrativo.

— Isso inclui muita gente.

— Exatamente.

Naquela tarde, os resultados do exame toxicológico de Neblina chegaram.

A substância encontrada era um sedativo de ação rápida, utilizado para contenção de grandes animais.

A dose não fora alta o bastante para derrubá-la, apenas para reduzir sua resistência.

Fernando mostrou o resultado a José Evandro.

— Alguém pretendia manipulá-la.

— Coleta clandestina?

— É possível.

— Por que não concluíram?

— Talvez tenham sido interrompidos.

José Evandro chamou Queiroz.

— A partir de hoje, Neblina ficará sob vigilância permanente.

— Vou dobrar os turnos.

— Quero câmeras novas e controle de entrada.

Fernando acrescentou:

— Também seria importante trocar as fechaduras e limitar o acesso às fichas clínicas.

José Evandro concordou.

— Faça o que for necessário.

Nos dias seguintes, a rotina pareceu voltar ao normal.

Neblina recuperou-se completamente.

O projeto avançava.

Fernando e Tereza se aproximavam cada vez mais.

José Evandro mantinha certa distância, talvez por não saber como tratar o rapaz enquanto aguardava o exame de DNA.

Queiroz continuava atento.

Numa sexta-feira à noite, Fernando decidiu visitar a mãe.

Virgínia havia alugado uma pequena casa no centro de Vassouras. Quando ele chegou, encontrou-a de cabelos mais curtos, vestido novo e um brilho diferente no rosto.

— Você emagreceu.

— Sete quilos.

— Está doente?

— Não. Estou vivendo.

Dona Sebastiana surgiu da cozinha com uma travessa.

— Finalmente conheço o filho que nunca visita a mãe.

— Dona Sebastiana, não comece.

— Ainda nem comecei.

A casa era simples, acolhedora e perfumada por lavanda. Havia livros empilhados sobre uma mesa e cadernos da Universidade espalhados pelo sofá.

Fernando abraçou a mãe.

— Você está feliz.

— Estou apavorada.

— Parece feliz.

— As duas coisas podem morar juntas.

Durante o jantar, conversaram sobre as aulas, o haras e José Evandro.

Virgínia evitava pronunciar o nome dele.

— O resultado pode sair a qualquer momento — disse Fernando.

— E depois?

— Depois vocês conversam.

— Não sei o que dizer.

— Comece por “bom dia”.

— Você puxou o humor do seu avô.

O telefone de Fernando tocou.

Era Queiroz.

Ele atendeu.

— Fernando, onde você está?

A voz do gerente parecia tensa.

— Na casa da minha mãe.

— Venha para o haras.

— Aconteceu alguma coisa?

Houve uma pausa.

— Neblina desapareceu.

Fernando se levantou tão depressa que derrubou a cadeira.

— Como assim, desapareceu?

— A baia está vazia.

— E as câmeras?

— Ficaram fora do ar durante quarenta minutos.

Virgínia o observava assustada.

— Estou indo.

Fernando desligou.

— O que aconteceu? — perguntou a mãe.

— Roubaram uma égua.

— A Neblina?

Ele pegou as chaves.

— Como sabe o nome dela?

Virgínia apontou para o telefone.

— Você fala dela quase todos os dias.

Fernando beijou a mãe rapidamente e saiu.

Quando chegou ao haras, encontrou os portões fechados e funcionários reunidos perto das baias.

A polícia ainda não havia chegado.

Queiroz estava dentro da cocheira.

A corrente permanecia fechada.

O cadeado, intacto.

— Isto é impossível — disse Fernando.

— Impossível não quer dizer que não aconteceu.

A palha estava revolvida. O bebedouro continuava cheio.

No chão, próximo à parede, havia uma mancha escura de graxa.

Fernando se abaixou.

Era igual à marca encontrada dias antes.

— Usaram equipamento de transporte.

— Sem abrir a porta?

Fernando examinou as laterais da baia.

Notou pequenos riscos recentes numa das divisórias de madeira.

— Esta parede foi removida.

Queiroz se aproximou.

— Como?

— Soltaram a estrutura pelo lado da baia vizinha. Retiraram Neblina por trás e recolocaram a madeira.

Foram até a baia ao lado.

Estava vazia desde o início do evento.

No chão, encontraram marcas de rodas.

José Evandro chegou correndo.

— Fecharam as estradas?

— A polícia está avisada — respondeu Queiroz.

— Quanto tempo de vantagem têm?

— No máximo uma hora.

Fernando observou as marcas.

— Eles conheciam o sistema de câmeras, os horários e a estrutura das baias.

— Gente de dentro — concluiu José Evandro.

Um funcionário surgiu apressado.

— Seu Queiroz, o vigia não está na guarita.

— Onde ele está?

— Ninguém sabe.

Fernando e Queiroz trocaram um olhar.

— Verifiquem os alojamentos — ordenou o gerente.

José Evandro passou as mãos pelos cabelos.

— Neblina vale uma fortuna.

— Não foi levada apenas pelo valor — disse Fernando.

— Por quê?

— Quem queria dinheiro poderia sequestrá-la e pedir resgate. Quem fez isso preparou tudo com antecedência.

Queiroz completou:

— Querem a linhagem.

Fernando olhou para a baia vazia.

Neblina não era apenas uma campeã.

Era uma matriz genética rara.

Seu desaparecimento poderia alimentar por anos um mercado clandestino de reprodução.

Ao longe, ouviram as sirenes da polícia se aproximando.

Naquele momento, Fernando compreendeu que as fraudes não eram pequenos desvios administrativos.

Havia uma organização dentro do haras.

E quem quer que tivesse levado Neblina sabia exatamente o que estava fazendo.







O RASTRO DE NEBLINA

CAPÍTULO VII

O cerco vai se fechando


A notícia do desaparecimento de Neblina espalhou-se antes mesmo que a polícia terminasse de colher os primeiros depoimentos.

Criadores telefonavam. Jornalistas tentavam entrar no haras. Funcionários comentavam em voz baixa, como se falar alto pudesse piorar a situação.

José Evandro determinou que os portões permanecessem fechados.

Ninguém sairia sem autorização.

O delegado responsável pela ocorrência, Marcelo Figueira, chegou acompanhado de dois investigadores. Era um homem baixo, de cabelos ralos e olhar atento. Ouviu Queiroz, examinou a baia e pediu acesso às imagens das câmeras.

— Ficaram fora do ar durante quarenta minutos — explicou o gerente.

— Falha técnica?

— Não.

— Como sabe?

— Porque o sistema voltou sozinho. E porque nunca havia acontecido.

Fernando mostrou as marcas deixadas na madeira e no piso da baia vizinha.

— Retiraram a divisória por trás — explicou. — Provavelmente conduziram Neblina até algum equipamento de transporte.

O delegado se abaixou para observar as marcas de rodas.

— Um caminhão não entraria aqui sem ser visto.

— Não precisaria ser um caminhão grande — respondeu Fernando. — Existem reboques fechados para transporte de um único animal.

— E ela entraria sem resistir?

— Se estivesse sedada.

José Evandro encarou o veterinário.

— De novo?

— É possível. Quem tentou sedá-la antes pode ter feito um teste para descobrir a dose.

O delegado anotou.

— Isso indica planejamento.

— E acesso ao animal — acrescentou Queiroz.

Um policial se aproximou.

— Doutor, encontramos o vigia.

— Onde?

— No alojamento, desacordado.

Todos se voltaram para ele.

— Está vivo?

— Está. Parece ter sido dopado.

Fernando acompanhou os policiais até o alojamento.

O vigia, conhecido como Barreto, estava deitado na cama, respirando lentamente. Não havia sinais de luta. Sobre a mesa, uma caneca com restos de café.

Fernando examinou suas pupilas e o pulso.

— Precisa ser levado ao hospital.

— Pode ter tomado alguma coisa sozinho? — perguntou o delegado.

— Pode. Mas, considerando o que aconteceu, eu recolheria o café para análise.

Barreto foi levado pela ambulância.

Na guarita, os investigadores encontraram a porta destrancada e o sistema de câmeras funcionando normalmente. A gravação registrava o movimento até as duas horas e doze minutos. Depois, a tela ficava preta. As imagens retornavam às duas horas e cinquenta e dois.

Durante o intervalo, nenhum registro.

— Alguém sabia operar o sistema — concluiu o delegado.

— Ou tinha acesso remoto — disse Fernando.

Queiroz olhou para José Evandro.

— O sistema foi instalado pela empresa do Álvaro.

— O veterinário? — perguntou o delegado.

— O irmão dele possui uma empresa de segurança eletrônica — explicou Queiroz.

Fernando lembrou-se da indiferença do doutor Álvaro ao examinar a marca no pescoço de Neblina.

Não era prova.

Mas era mais uma peça.

— Onde está o doutor Álvaro? — perguntou.

Um funcionário respondeu:

— Não apareceu hoje.

O delegado voltou-se para Queiroz.

— Ligue para ele.

A chamada foi feita na frente de todos.

O telefone tocou até cair na caixa postal.

Tentaram novamente.

Nada.

— Alguém sabe onde ele mora? — perguntou o delegado.

Queiroz forneceu o endereço.

Dois policiais partiram imediatamente.

Enquanto isso, Fernando e Tereza percorreram a área externa das baias em busca de qualquer sinal.

Atrás do galpão, encontraram marcas de pneus num caminho de serviço pouco utilizado. A terra estava úmida, o que preservara parcialmente o desenho.

— Passou um veículo pesado — disse Tereza.

— Ou um reboque.

Seguiram as marcas até uma porteira lateral.

O cadeado parecia intacto.

Fernando examinou-o de perto.

— Foi trocado.

— Como sabe?

— Este é novo. Não tem ferrugem.

Tereza apontou para o chão.

— E há palha presa na base.

Do outro lado da porteira, as marcas continuavam por uma estrada estreita que atravessava uma área de mata.

Queiroz chegou acompanhado do delegado.

— Esta saída deveria estar sempre fechada — disse o gerente.

— Quem tem as chaves? — perguntou Figueira.

— Eu, José Evandro e o encarregado da manutenção.

— Nome?

— Valdir.

— Onde está?

Queiroz olhou ao redor.

— Também não apareceu hoje.

O delegado soltou um suspiro.

— Temos um veterinário ausente, um funcionário desaparecido e um vigia sedado. Está começando a ficar menos misterioso.

— Ou mais — respondeu Fernando.

O delegado o encarou.

— Por quê?

— Porque alguém planejou para que suspeitássemos exatamente dessas pessoas.

Figueira fechou o caderno.

— O senhor é veterinário ou investigador?

— Veterinário.

— Então deixe a investigação comigo.

Tereza tocou discretamente no braço de Fernando, aconselhando-o a se calar.

O delegado determinou que a estrada fosse isolada. Equipes começariam a procurar propriedades, galpões e veículos que pudessem ter passado pela região durante a madrugada.

Neblina possuía identificação eletrônica, mas Fernando sabia que o microchip poderia ser removido.

— E a marca a ferro? — perguntou o delegado.

— Pode ser adulterada — respondeu Tereza. — Ou escondida até que o animal seja retirado do país.

— Do país?

— Uma égua como Neblina pode valer mais no exterior do que aqui.

José Evandro levou a mão à testa.

— Ninguém transporta um cavalo internacionalmente sem documentação.

— Documentos podem ser falsificados — disse Fernando. — Especialmente se já existe um esquema funcionando dentro do haras.

O proprietário permaneceu calado.

O que antes eram suspeitas começava a adquirir contornos mais nítidos.

Não se tratava apenas de alguém desviando dinheiro.

Havia conhecimento técnico, acesso a documentos e uma rede capaz de movimentar animais valiosos.

No início da tarde, Lenita telefonou para Fernando.

— Preciso falar com você pessoalmente.

— Neblina foi roubada.

— Eu sei.

— Como?

— A notícia chegou ao Rio.

— Estamos no meio da investigação policial.

— A minha também avançou.

— Descobriu alguma coisa sobre José Evandro?,

— Descobri coisas sobre o haras.

Fernando se afastou dos outros.

— Que coisas?

— Há empresas comprando material genético de animais que não aparecem nos registros oficiais. Algumas têm ligação com um laboratório em Três Rios.

— Nome?

— GenEquus Biotecnologia.

Fernando anotou.

— Já ouvi esse nome.

— Onde?

— Em algumas notas fiscais antigas.

— Então guarde os documentos.

— Venha para Vassouras.

Lenita hesitou.

— Estou indo amanhã.

— Não venha sozinha.

— Fernando, passei a vida inteira trabalhando sozinha.

— E alguém invadiu seu escritório.

— Justamente por isso não vou parar.

Antes de desligar, ela acrescentou:

— Há outra coisa. José Evandro não parece envolvido diretamente.

— Como sabe?

— Os pagamentos passam por empresas administradas por terceiros. Alguns documentos levam assinatura digital dele, mas as datas indicam que estava fora do país.

— Alguém falsificou.

— Ou usou acesso autorizado.

— E Queiroz?

— Não encontrei nada contra ele. Pelo contrário. Há registros de que tentou bloquear duas transações.

Fernando respirou aliviado.

— Então quem?

— Ainda não sei. Mas o nome de doutor Álvaro aparece várias vezes.

Naquela noite, José Evandro reuniu Queiroz, Fernando e Tereza no escritório.

O delegado já havia deixado o haras, mas policiais permaneceriam na propriedade.

— Álvaro não estava em casa — informou José Evandro. — O carro dele também sumiu.

— E Valdir? — perguntou Tereza.

— Ninguém sabe.

Queiroz abriu uma pasta.

— Verifiquei as ordens de serviço das últimas semanas. Valdir pediu madeira e ferramentas para reparar justamente a divisória da baia de Neblina.

— Então preparou a remoção — disse Fernando.

— Talvez.

— O senhor ainda acha que pode ser coincidência?

Queiroz fechou a pasta.

— Não.

José Evandro caminhava de um lado para outro.

— Como alguém conseguiu fazer tudo isso debaixo dos nossos olhos?

— Porque confiávamos demais — respondeu o gerente.

Fernando olhou para os dois.

— Ou porque alguém queria que olhássemos apenas para os animais, enquanto mexia nos registros.

Tereza abriu o notebook.

— Encontrei uma coisa.

Todos se aproximaram.

— Comparei o pedigree de Neblina com o registro nacional. Há uma alteração na linhagem materna.

— Alteração de quê? — perguntou José Evandro.

— No sistema do haras, a mãe dela aparece como Aurora do Vale. No registro original, consta Aurora Imperial.

— Pode ser mudança de nome.

— Não. Os números de identificação são diferentes.

Fernando compreendeu primeiro.

— Criaram uma segunda linhagem.

Tereza assentiu.

— Uma cópia documental.

Queiroz se apoiou na mesa.

— Para quê?

— Para registrar descendentes clandestinos — respondeu Fernando. — Usando o material genético de Neblina, mas vinculando-o a um animal que oficialmente não existe.

José Evandro olhou para a fotografia da égua na parede.

— Quantos descendentes podem ter produzido?

— Não sabemos — disse Tereza.

— E agora levaram a matriz — concluiu Queiroz.

O telefone de Fernando tocou.

Era Virgínia.

Ele quase não atendeu, mas sabia que ela ficaria preocupada.

— Está tudo bem?

— Não. Mas estou seguro.

— Vi a notícia sobre a égua.

— Estamos procurando.

Virgínia fez uma pausa.

— Recebeu o resultado?

Fernando sentiu um aperto no peito.

Em meio ao desaparecimento de Neblina, quase esquecera o exame de DNA.

— Ainda não.

— A secretária do laboratório ligou para mim.

— Para você?

— Disse que não conseguiu falar com você. O resultado foi enviado por e-mail.

Fernando abriu a caixa de entrada.

Havia uma mensagem nova.

José Evandro percebeu a mudança em seu rosto.

— Chegou?

Fernando não respondeu.

Abriu o arquivo.

Leu uma vez.

Depois outra.

A conclusão era objetiva.

Probabilidade de vínculo paterno: 99,99%.

Fernando ergueu os olhos.

José Evandro permanecia diante dele, esperando.

— Deu positivo — disse o jovem.

O proprietário não se moveu.

Queiroz fechou os olhos, como se tivesse aguardado aquele momento desde que Fernando chegara ao haras.

Tereza levou a mão à boca.

José Evandro aproximou-se devagar.

— Posso ver?

Fernando entregou-lhe o celular.

O homem leu o documento.

Durante alguns segundos, o proprietário respeitado, seguro e acostumado a comandar desapareceu. Restou apenas alguém que acabava de descobrir ter um filho adulto.

— Fernando...

O jovem não sabia o que esperava ouvir.

Um pedido de perdão não faria sentido. José Evandro não conhecia sua existência.

Uma declaração de afeto pareceria prematura.

O homem devolveu-lhe o telefone.

— Eu perdi vinte e quatro anos.

Fernando sentiu os olhos arderem.

— Nenhum de nós sabia.

José Evandro o abraçou.

A princípio, Fernando permaneceu rígido. Depois correspondeu.

Não era o abraço de um pai e um filho que haviam compartilhado uma vida.

Era o abraço de dois desconhecidos ligados por uma história interrompida.

Queiroz afastou o rosto, discretamente emocionado.

O momento foi interrompido pelo toque do telefone do gerente.

Ele atendeu.

— Sim?

Ouviu por alguns segundos.

Sua expressão mudou.

— Onde?

Desligou e se voltou para os outros.

— Encontraram um reboque abandonado.

— Neblina estava dentro? — perguntou Fernando.

— Não.

— Onde encontraram?

— Próximo à estrada de Paraíba do Sul.

— Algum vestígio?

— Sangue.

José Evandro empalideceu.

Fernando pegou as chaves.

— Vou até lá.

— A polícia está no local — disse Queiroz.

— Eu conheço Neblina. Talvez consiga identificar o sangue, os pelos ou qualquer sinal.

Tereza já recolhia a bolsa.

— Vou com você.

José Evandro tentou impedir:

— Pode ser perigoso.

Fernando olhou para ele.

— Ela é responsabilidade minha.

Foi a primeira vez que falou com José Evandro depois de saber oficialmente que era seu pai.

O homem compreendeu que ainda precisariam aprender a ocupar aqueles novos lugares.

— Então eu também vou.


 




CAPÍTULO VIII

A estrada interrompida



O reboque estava abandonado numa estrada secundária, cercado por viaturas.

A parte traseira permanecia aberta. No interior havia palha espalhada, uma corda rompida e manchas escuras no piso.

Fernando entrou usando luvas.

Ajoelhou-se e recolheu alguns pelos presos numa das laterais.

Eram claros.

— Da crina de Neblina — afirmou.

Tereza examinou a corda.

— Foi cortada, não arrebentada.

— Então retiraram a égua daqui e seguiram em outro veículo — concluiu José Evandro.

O delegado Figueira aproximou-se.

— Encontramos marcas de pneus diferentes mais à frente.

— Quanto tempo faz? — perguntou Fernando.

— Algumas horas.

— E o sangue?

O delegado apontou para o piso.

Fernando analisou a mancha.

— Pode ser de uma lesão superficial. Não parece volume suficiente para ferimento grave.

José Evandro respirou aliviado.

— Ela pode estar viva!

— Provavelmente está — respondeu o filho. — Um animal como Neblina vale mais vivo.

A equipe encontrou também um frasco vazio de sedativo e uma seringa.

Fernando reconheceu o medicamento.

— É o mesmo tipo de substância encontrada no exame dela.

Figueira guardou o material.

— Temos digitais parciais. Talvez ajudem.

— Algum documento? — perguntou Tereza.

— Nada.

— Isso foi deixado de propósito — disse Fernando.

O delegado perdeu a paciência.

— Outra teoria?

— Quem planejou o roubo não abandonaria uma seringa, um frasco e pelos suficientes para identificar o animal.

— Então acha que querem nos levar para uma direção errada.

— Acho.

José Evandro concordou.

— Talvez Neblina nunca tenha seguido para Paraíba do Sul.

Figueira observou a estrada.

— O senhor sugere o quê?

— Que o reboque saiu do haras, percorreu alguns quilômetros e transferiu o animal. Depois veio até aqui apenas para deixar rastros.

O delegado chamou os investigadores.

— Verifiquem todas as bifurcações entre o haras e esta estrada.

Enquanto a polícia trabalhava, Fernando recebeu uma mensagem de Lenita.

Estou a caminho de Vassouras. Tenho documentos importantes.

Ele respondeu imediatamente:

Não venha sozinha. Onde você está?

Não houve resposta.

Tentou telefonar.

A chamada não foi atendida.

Ligou novamente.

Nada.

— Problema? — perguntou Tereza.

— Lenita está vindo para cá.

— A investigadora?

— Sim. Ela tem documentos sobre as fraudes.

José Evandro se aproximou.

— Diga a ela para procurar a polícia assim que chegar.

Fernando tentou mais uma vez.

A chamada caiu na caixa postal.

— Ela não atende.

Queiroz, que acabara de chegar ao local, ouviu a conversa.

— Qual estrada ela faria?

— Provavelmente viria do Rio pela principal.

— Vou ao encontro dela.

— Eu vou — disse Fernando.

— Você fica aqui - rosnou Queiroz.

— Ela está trabalhando para mim.

— E justamente por isso pode estar sendo seguida.

Queiroz entrou no carro antes que alguém pudesse discutir.

Lenita dirigia havia quase duas horas.

A pasta com os documentos estava no banco do passageiro. Dentro dela havia cópias de notas fiscais, registros de exportação, certificados genéticos e uma relação de empresas ligadas à GenEquus.

Também carregava um envelope destinado a Fernando.

Desde que saíra do Rio, percebera um automóvel escuro mantendo distância. A princípio, acreditou ser coincidência. Depois de três mudanças de faixa e uma parada num posto, não teve mais dúvidas.

Estava sendo seguida.

Telefonou para Fernando, mas o sinal falhou.

Tentou novamente. Nada.

O automóvel aproximou-se.

Lenita acelerou.

Sabia que não deveria entrar em pânico. Procurou um local movimentado, mas aquele trecho da estrada era cercado por mata e propriedades rurais.

O carro encostou perigosamente na traseira.

Ela segurou o volante com força.

Na curva, o perseguidor emparelhou e tentou tirá-la da pista.

Lenita freou.

O veículo passou à frente, atravessou parcialmente a estrada e obrigou-a a desviar para uma via secundária.

Agora compreendia o plano.

Queriam afastá-la da estrada principal.

Acelerou em busca de uma saída.

O automóvel continuava atrás.

Seu telefone tocou sobre o banco.

Era Fernando.

Ela tentou atender, mas perdeu o controle por um segundo. O carro derrapou na terra.

Endireitou o volante.

À frente, a estrada fazia uma curva mais fechada junto a uma ribanceira.

Lenita viu o perseguidor aproximar-se outra vez.

Abriu o porta-luvas e pegou o revólver.

Não teve tempo de usá-lo.

O carro escuro bateu na lateral de seu veículo.

Lenita apertou o freio.

O automóvel girou, rompeu a pequena proteção de madeira e lançou-se ribanceira abaixo.

O mundo se transformou em barulho, vidro quebrado e metal retorcido.

Depois, silêncio.

Queiroz encontrou poeira suspensa no ar quando chegou à curva.

Viu marcas recentes no chão e parte da proteção destruída.

Parou imediatamente.

Ao olhar para baixo, avistou o carro entre as árvores.

Pegou o telefone e chamou os bombeiros.

Depois começou a descer.

O terreno era íngreme e escorregadio. Galhos arranhavam seus braços. Quando chegou ao veículo, percebeu que o para-brisa estava quebrado e a porta do motorista, aberta.

Não havia ninguém no banco.

— Lenita! — gritou.

Nenhuma resposta.

Uma bolsa marrom estava caída próxima ao carro. Queiroz encontrou a carteira e confirmou o nome.

— Lenita Fragoso...

O veículo se moveu alguns centímetros, ameaçando deslizar ainda mais.

Queiroz recuou.

Foi então que viu o envelope entre os bancos. O nome de Fernando estava escrito na frente.

Esticou o braço e conseguiu apanhá-lo.

Ao se afastar, ouviu um gemido.

— Lenita?

Desceu mais alguns metros.

Encontrou-a caída entre arbustos, parcialmente escondida. Havia sangue em seu rosto,  ela respirava com sofreguidão.

— Está me ouvindo?

Lenita abriu os olhos com dificuldade.

— O carro...

— Os bombeiros estão vindo.

Ela tentou se levantar.

— Não se mexa.

— A pasta, pegue a pasta...

— Está no carro?

Lenita segurou o braço dele.

— Não deixe... pegarem.

— Quem?

— Álvaro...

Perdeu a consciência.

Queiroz olhou para o alto da ribanceira.

Um automóvel escuro estava parado na beira da estrada.

Por alguns segundos, conseguiu ver a silhueta de um homem.

Depois o veículo arrancou.

Queiroz memorizou parte da placa.

Quando os bombeiros chegaram, Lenita ainda estava inconsciente.

Foi imobilizada e levada ao hospital. Apresentava fratura numa perna, costelas quebradas e uma forte concussão, mas nenhum ferimento que indicasse risco imediato de morte.

Fernando chegou quando a ambulância partia.

— Ela está viva?

— Está — respondeu Queiroz - foi um acidente feio.

O jovem fechou os olhos, aliviado.

— Você a encontrou? Conseguiu falar com ela?

— Sim.

— E os documentos?

Queiroz mostrou o envelope.

— Havia isto no carro.

— Abriu?

— Não.

Fernando recebeu o envelope.

Naquele momento, não reparou que Queiroz também carregava no bolso uma folha dobrada, encontrada caída fora da pasta.

O gerente ainda não tivera tempo de lê-la.

Horas depois, no hospital, o médico informou que Lenita ficaria internada.

Fernando pediu para vê-la, mas não foi autorizado.

— Ela precisa descansar — explicou o médico. — Teve muita sorte.

— Quando poderá falar?

— Talvez amanhã.

José Evandro colocou a mão no ombro do filho.

O gesto ainda era novo para os dois.

— Vamos esperar.

Fernando abriu o envelope entregue por Queiroz.

Havia um relatório detalhado sobre José Evandro e as empresas ligadas ao haras.

Lenita concluíra que ele não participava das fraudes. Diversas operações haviam sido autorizadas em seu nome durante viagens internacionais ou períodos em que estava hospitalizado.

O relatório citava três pessoas com acesso suficiente para executar as transações:

doutor Álvaro;

Valdir, encarregado da manutenção;

e Gustavo Fragoso de Almeida, filho de um dos sócios comerciais de José Evandro.

Fernando sentiu o estômago se contrair.

— Gustavo — murmurou.

Tereza aproximou-se.

— O que tem ele?

Fernando mostrou o documento.

Ela leu o nome.

Seu rosto perdeu a cor.

— É meu noivo.

José Evandro pegou o relatório.

— Isso não prova nada.

— Ele é administrador da GenEquus — disse Fernando.

Tereza ergueu os olhos.

— Não é possível.

— Você não sabia?

— Sabia que trabalhava com biotecnologia. Não sabia que havia negócios com o haras.

Queiroz retirou do bolso a folha encontrada na ribanceira.

— Talvez isto ajude.

Entregou-a a José Evandro.

Era a cópia de uma transferência de alto valor feita pela GenEquus para uma empresa chamada Vale Dourado Participações.

— Conheço esta empresa — disse José Evandro.

— De quem é? — perguntou Fernando.

O proprietário olhou para Tereza.

— Do pai dela.

O silêncio tomou o corredor do hospital.

Tereza recuou um passo.

— Meu pai não faria isso.

— Talvez não saiba — disse José Evandro.

— Ou talvez todos vocês estejam procurando um culpado fácil.

Ela devolveu o documento.

— Gustavo pode ser arrogante, irresponsável e inútil para muitas coisas. Mas não é criminoso.

Fernando tentou aproximar-se.

— Tereza...

— Não.

Ela ergueu a mão.

— Não venha fingir que isso não muda nada.

— Eu não estou fingindo.

— Você queria que eu desistisse do casamento. Agora aparece um relatório dizendo que meu noivo participa de uma fraude.

— Foi Lenita quem investigou.

— Lenita trabalha para você.

Virou-se e saiu.

Fernando pensou em segui-la, mas José Evandro o impediu.

— Dê tempo a ela.

— E se avisar Gustavo?

— Então saberemos de que lado ela está.

— O senhor desconfia dela?

— Neste momento, desconfio de todos.

Queiroz olhou para a porta por onde Tereza saíra.

— Inclusive de nós mesmos.



 




CAPÍTULO IX

A nova vida de Virgínia



Enquanto o haras mergulhava em suspeitas, investigações e sabotagens, Virgínia tentava construir uma vida que não dependesse apenas do passado.

A mudança para Vassouras trouxera mais transformações do que imaginara.

Alugara uma pequena casa perto da Universidade, cortara os cabelos, emagrecera sete quilos e passara a se olhar no espelho com menos severidade.

Não queria parecer mais jovem.

Queria apenas se reconhecer.

A primeira aula foi um desafio.

Virgínia chegou cedo, carregando um caderno espiral com a fotografia de Roberto Carlos na capa. O detalhe provocara risos em Fernando, mas ela se recusara a comprar outro.

— Roberto Carlos não sai de moda — declarou.

Entrou na sala e percebeu imediatamente que era uma das alunas mais velhas.

Sentiu vontade de voltar para casa.

As outras estudantes conversavam em grupos, mexiam nos celulares e falavam sobre professores que Virgínia ainda nem conhecia.

Escolheu uma cadeira perto da porta.

Uma moça muito jovem sentou-se ao lado.

— Também está perdida?

Virgínia sorriu.

— Completamente.

— Ainda bem. Achei que fosse só eu.

A conversa simples aliviou parte do medo.

Nas semanas seguintes, Virgínia descobriu que não era a única adulta retornando aos estudos. Havia mães, trabalhadores e pessoas que, como ela, tinham interrompido sonhos para cuidar da família.

Passou a gostar das aulas.

Participava de projetos, ajudava colegas e levava para a sala a experiência adquirida no trabalho voluntário da Associação de Combate ao Câncer.

Dona Sebastiana cuidava da casa e assumira também a função de conselheira.

— A senhora precisa sair mais — dizia.

— Eu saio todos os dias.

— Universidade não conta.

— Por quê?

— Porque lá a senhora vai estudar, não viver.

Virgínia ria.

Apesar das novidades, a possível confirmação da paternidade de Fernando ocupava seus pensamentos.

Quando o filho telefonou contando o resultado positivo, ela ficou em silêncio.

— Mãe?

— Estou aqui.

— É ele.

Virgínia sentou-se na beirada da cama.

Durante vinte e quatro anos, imaginara aquele momento de diferentes maneiras. Em algumas, Evandro aparecia arrependido. Em outras, casado, indiferente ou incapaz de reconhecer o passado.

Nunca imaginara simplesmente ouvir:

É ele.

— Como você está? — perguntou.

— Confuso.

— Ele ficou feliz?

— Acho que sim.

— Acha?

— Estamos aprendendo a conversar.

Virgínia fechou os olhos.

— E ele quer me ver?

— Quer.

— Quando?

— Assim que as coisas acalmarem no haras.

A resposta trouxe alívio e frustração.

— Sempre há alguma coisa antes de mim — comentou, sem conseguir evitar.

— Não é isso.

— Eu sei.

— Neblina foi roubada. Lenita sofreu um acidente.

— Acidente?

Fernando contou o que sabia.

Virgínia ficou horrorizada.

— Você está envolvido nisso?

— Estou ajudando.

— Fernando, você é veterinário, não policial.

— Foi o que o delegado disse.

— Pela primeira vez, concordo com um delegado.

— Mãe...

— Prometa que terá cuidado.

— Prometo.

Virgínia conhecia o filho o suficiente para saber que aquela promessa não significava muita coisa.

No dia seguinte, decidiu visitar Lenita no hospital.

Encontrou a investigadora acordada, com a perna imobilizada e hematomas no rosto.

— Sou Virgínia, mãe do Fernando.

Lenita tentou sorrir.

— Reconheci pelas fotografias.

— Vim agradecer.

— Ainda não terminei o trabalho.

— Quase morreu.

— Não faz parte do contrato.

Virgínia puxou uma cadeira.

— Fernando contou que alguém tentou tirá-la da estrada.

— Não foi tentativa. Tiraram.

— Viu quem era?

— Não claramente.

— Mas disse o nome de Álvaro para Queiroz.

Lenita franziu a testa.

— Eu disse?

— Ele contou.

— Álvaro me seguia havia dias. Mas não sei se estava no carro.

— E Gustavo?

A investigadora a observou.

— Fernando leu o relatório.

— Leu.

— Gustavo é importante. Mas não trabalha sozinho.

— Quem mais está envolvido?

— Ainda não sei.

— José Evandro?

Lenita balançou a cabeça.

— Tudo indica que não.

Virgínia sentiu um alívio involuntário.

— A senhora esperava que fosse culpado?

— Não.

— Esperava que fosse inocente?

Ela demorou a responder.

— Acho que sim.

Lenita percebeu.

— Ainda gosta dele?

Virgínia olhou para a janela.

— Gosto da lembrança.

— Às vezes é mais difícil competir com uma lembrança do que com uma pessoa.

— Ele não precisa competir.

— Mas a senhora vai precisar descobrir se o homem de hoje cabe na história que guardou.

Virgínia sorriu.

— Fernando disse que você era teimosa. Esqueceu de mencionar que se mete na vida dos outros.

— É praticamente a mesma profissão.

Antes de sair, Virgínia perguntou:

— Vai continuar a investigação?

— Assim que conseguir andar.

— Pode investigar deitada.

Lenita sorriu.

— Seu filho puxou a senhora.

— Ele diria o contrário.

Naquela tarde, José Evandro telefonou.

Virgínia reconheceu a voz antes que ele se apresentasse.

O tempo mudara o tom, mas não apagara completamente o rapaz que ela conhecera na praia.

— Virgínia?

Ela apertou o telefone.

— Evandro.

Do outro lado, houve silêncio.

— Procurei por você.

— Fernando contou.

— Durante muito tempo achei que tivesse inventado aquela noite.

— Eu também.

— Posso vê-la?

Virgínia olhou ao redor da pequena casa.

Os livros, os cadernos e o perfume de lavanda davam àquele lugar uma identidade que ela construíra sozinha.

— Pode.

— Hoje?

— Hoje, não.

José Evandro não insistiu.

— Quando estiver pronta.

— Amanhã, às cinco.

— Onde?

— Na praça, em frente à igreja.

Ela não queria recebê-lo em casa.

Também não queria ir ao haras.

A praça era território neutro.

— Estarei lá.

Depois de desligar, Virgínia chamou Dona Sebastiana.

— Preciso de ajuda.

A mulher surgiu da cozinha.

— Roubaram outra égua?

— Pior.

— O que aconteceu?

— Vou encontrar o pai do Fernando.

Dona Sebastiana levou a mão ao peito.

— O homem do réveillon?

— O próprio.

— E está aí parada?

— O que devo fazer?

— Primeiro, tirar esse robe.

— O encontro é amanhã.

— Então temos pouco tempo.

Virgínia riu.

Pela primeira vez desde que descobrira a verdade, permitiu-se sentir alguma expectativa.

Não sabia se encontraria o rapaz dos fogos.

Provavelmente não.

Mas também ela já não era a moça que saíra escondida pela praia, coberta de areia e vergonha.

O tempo havia modificado os dois.

Talvez aquela fosse a oportunidade de finalmente terminar a conversa interrompida havia quase vinte e cinco anos.


A continuação aprofunda o reencontro de Virgínia e José Evandro, avança a investigação e coloca Tereza Cristina diante de uma escolha definitiva.





CAPÍTULO X

O reencontro


Virgínia chegou à praça vinte minutos antes do horário marcado.

Arrependeu-se imediatamente.

Agora teria tempo de sobra para pensar, desistir, voltar para casa e inventar qualquer desculpa.

Sentou-se num banco diante da igreja e observou as pessoas passando. Crianças corriam atrás de pombos, duas senhoras conversavam perto do coreto e um vendedor empurrava um carrinho de pipoca pelo calçamento.

Tudo parecia normal.

Somente dentro dela havia um tumulto.

Escolhera um vestido azul-claro, simples, mas elegante. Dona Sebastiana insistira em arrumar seus cabelos e aplicar uma maquiagem discreta.

— Não vou para um casamento — dissera Virgínia.

— Ainda não sabemos.

— Sebastiana!

— Estou apenas deixando as possibilidades abertas.

Agora, sentada diante da igreja, Virgínia tentava controlar as mãos. Apertava uma contra a outra, depois ajeitava a bolsa, mexia no cabelo e verificava as horas.

Às cinco em ponto, viu um automóvel escuro parar do outro lado da praça.

José Evandro desceu.

Virgínia o reconheceu antes mesmo que ele começasse a atravessar a rua.

O tempo transformara o rapaz que conhecera. Os cabelos estavam grisalhos, o rosto mais marcado e o andar menos apressado. Ainda assim, alguma coisa permanecia igual.

Talvez os olhos.

Ou o modo como parecia procurar por ela no meio de todas as pessoas.

José Evandro parou a poucos passos.

Os dois se olharam em silêncio.

— Virgínia.

— Evandro.

Ele sorriu, mas o sorriso veio acompanhado de uma emoção que quase o desarmou.

— Você está...

Virgínia ergueu uma sobrancelha.

— Cuidado com o que vai dizer... - disse e sorriu.

José Evandro riu.

— Está muito bonita.

— Melhorou.

Ele indicou o banco.

— Posso?

— Claro.

Sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa.

Durante alguns segundos, nenhum dos dois soube como começar.

Haviam imaginado aquele encontro muitas vezes, cada qual à sua maneira. Porém, quando finalmente estavam frente a frente, todas as palavras pareciam pequenas.

José Evandro foi o primeiro a falar.

— Eu acordei e você não estava lá.

Virgínia abaixou os olhos.

— Eu sei.

— Procurei pela praia inteira.

— Voltei mais tarde.

— Quando?

— No mesmo dia, horas depois. Depois no dia seguinte.

— Eu também.

Virgínia sorriu com tristeza.

— Então fomos dois tolos caminhando pelo mesmo lugar em horários diferentes.

— Eu não sabia seu sobrenome.

— Nem eu o seu.

— Só sabia que você era de Minas.

— E eu sabia que você morava no Rio e gostava de cavalos.

José Evandro balançou a cabeça.

— Muito pouco para encontrar alguém.

— Hoje bastaria uma busca na internet, mas há 20 anos...

— Naquele tempo, parecia que o mundo era maior.

Virgínia observou a igreja.

— Talvez fosse.

Ele respirou fundo.

— Eu queria ter sabido sobre Fernando.

— Eu sei. Gostaria que soubesse, mas estávamos nos procurando.

— Não estou dizendo isso por obrigação.

— Também sei.

— Você acredita?

Ela demorou a responder.

— Acredito que procurou por mim. Fernando contou. Queiroz também se lembrava.

José Evandro apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Meu pai dizia que eu estava obcecado por uma desconhecida. Tentou me convencer de que aquela noite não significava o que eu imaginava.

— E significava?

Ele voltou-se para ela.

— Significou para você?

Virgínia sustentou o olhar.

— Durante anos.

A resposta pareceu aliviar e ferir José Evandro ao mesmo tempo.

— Eu pensei em você muitas vezes.

— Casou?

— Não.

— Nunca?

— Nunca.

— Por minha causa?

— Não apenas.

Virgínia sorriu.

— Essa foi uma boa resposta.

— Aprendi a ter cuidado.

— Fernando não aprendeu.

— Percebi.

Os dois riram.

O riso quebrou parte da tensão.

José Evandro contou que tivera relacionamentos, mas nenhum casamento. Depois da morte dos pais, assumira o haras e mergulhara no trabalho.

— E filhos? — perguntou Virgínia.

— Pelo visto, um.

Ela ficou séria.

— Fernando teve uma vida boa.

— Eu vejo isso.

— Meu pai, Jorge foi pai para ele.

— Não pretendo disputar esse lugar.

Virgínia olhou para José Evandro com atenção.

— Essa também foi uma boa resposta.

— Não quero chegar depois de vinte e quatro anos e fingir que posso ocupar um espaço construído por outro homem.

— Fernando precisa ouvir isso.

— Vou dizer.

— Ele está feliz por ter encontrado você, mas também está confuso.

— Eu também.

José Evandro hesitou antes de continuar:

— Quando ele me contou seu nome, senti como se alguém tivesse aberto uma porta que eu mantinha fechada havia muitos anos.

Virgínia apertou a alça da bolsa.

— E agora?

— Agora não sei o que existe do outro lado.

— Eu também não.

Uma rajada de vento atravessou a praça.

José Evandro observou o rosto dela.

— Você continua saindo sem se despedir?

Virgínia riu.

— Hoje eu trouxe bolsa, telefone e endereço.

— É um progresso.

— E você continua oferecendo champanhe para desconhecidas?

— Parei depois daquela noite.

Ela percebeu a delicadeza escondida na resposta.

— Evandro, não quero que a gente confunda lembrança com sentimento.

— Nem eu.

— Não somos mais aquelas pessoas.

— Talvez isso seja bom.

Virgínia olhou para ele.

— Por quê?

— Porque aquelas pessoas não souberam trocar sobrenomes.

Ela tentou conter o sorriso, mas não conseguiu.

Ficaram conversando até o sino da igreja anunciar seis horas.

José Evandro falou sobre o haras, sobre a infância de Fernando que não conhecera e sobre o medo de se aproximar depressa demais.

Virgínia contou sobre a faculdade, sobre sua mudança para Vassouras e sobre os anos dedicados ao filho e ao pai.

Quando se levantaram, José Evandro perguntou:

— Posso vê-la novamente?

Virgínia ajeitou a bolsa.

— Pode.

— Amanhã?

— Não abuse - e riu delicadamente.

— Depois de amanhã?

— Telefone antes.

José Evandro sorriu.

— Desta vez tenho seu número.

Ela começou a caminhar.

Depois de alguns passos, voltou-se.

— Evandro.

— Sim?

— Eu não me arrependi daquela noite.

Ele permaneceu parado.

Virgínia continuou:

— Arrependi-me apenas de ter ido embora sem acordá-lo.

José Evandro sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

— Eu também não me arrependi.

Virgínia seguiu para casa.

Não sabia o que aconteceria entre eles.

Mas, pela primeira vez, a lembrança do réveillon deixava de ser uma história interrompida.


 





CAPÍTULO XI

As assinaturas falsas


Lenita permaneceu no hospital por mais alguns dias.

A perna fraturada exigiria cirurgia e semanas de recuperação, mas sua disposição para investigar não diminuíra.

Pelo contrário.

Quanto mais Fernando tentava convencê-la a descansar, mais determinada ela ficava.

— Quem tentou me matar cometeu um erro — disse, acomodada na cama.

— Qual?

— Não terminou o serviço.

Fernando balançou a cabeça.

— Isso não é coragem. É teimosia real.

— São parentes próximos.

Virgínia passou a visitá-la quase todos os dias. Levava livros, frutas e informações que recolhia entre as conversas do filho.

As duas desenvolveram uma amizade inesperada.

Lenita gostava da maneira direta de Virgínia. Virgínia admirava a inteligência e a coragem da investigadora, embora não aprovasse sua falta de prudência.

— Você precisa aprender a pedir ajuda — disse Virgínia.

— Passei a vida inteira resolvendo tudo sozinha.

— Então já passou da hora de variar.

Na manhã em que recebeu alta, Lenita pediu que Fernando levasse seu notebook ao hospital.

Abriu uma pasta protegida por senha.

— Aqui estão as cópias que não estavam no carro.

— Você guardou em outro lugar?

— Sempre guardo.


Lenita mostrou uma sequência de documentos.

Eram contratos entre o haras e a GenEquus Biotecnologia, empresa ligada a Gustavo Fragoso de Almeida.

As assinaturas digitais de José Evandro autorizavam coleta, armazenamento e comercialização de material genético.

— Ele nunca assinou isto — disse Fernando.

— Também acredito que não.

— Como falsificaram?

— Não falsificaram exatamente a assinatura. Usaram o certificado digital.

— Quem tinha acesso?

— Pelo menos quatro pessoas: José Evandro, Queiroz, o contador do haras e Gustavo, durante um período em que prestou consultoria administrativa.

Fernando franziu a testa.

— Gustavo trabalhou no haras?

— Durante quase um ano. Oficialmente, para modernizar o setor financeiro.

— Tereza nunca mencionou.

— Talvez não soubesse dos detalhes.

Lenita abriu outro arquivo.

— Veja as datas.

Fernando comparou.

Vários contratos haviam sido assinados quando José Evandro estava fora do país.

Um deles, durante uma internação hospitalar.

— Gustavo tinha o certificado digital.

— Provavelmente.

— E Álvaro?

— Assinava os laudos veterinários.

— Valdir cuidava da estrutura e do transporte.

— Exatamente.

Lenita apontou para uma planilha.

— A fraude tinha três braços. O administrativo autorizava operações falsas. O veterinário criava laudos e registros. O pessoal de manutenção e transporte movimentava os animais ou o material genético.

— E o dinheiro?

— Passava pela GenEquus e depois por empresas de fachada.

— Inclusive a empresa do pai de Tereza.

— Vale Dourado Participações.

Fernando ficou em silêncio.

— O pai dela está envolvido?

— Ainda não sei. A empresa recebeu valores, mas isso não prova que ele conhecia a origem.

— Tereza acha que estamos procurando um culpado fácil.

— É natural que pense assim.

— Ela foi embora e não responde minhas mensagens.

Lenita ergueu os olhos.

— Está preocupado com a investigação ou com ela?

— Com os dois.

— Então escolha qual dos problemas consegue resolver primeiro.

— E qual seria?

— A investigação. Sentimento não obedece planilha.

Fernando fechou o notebook.

— Precisamos entregar isto ao delegado.

— Sim. Mas antes quero descobrir onde está Neblina.

— Como?

Lenita abriu um mapa.

— O reboque foi encontrado em Paraíba do Sul para desviar a polícia. Mas o primeiro veículo saiu do haras por uma estrada lateral.

— Sabemos disso.

— O que vocês não sabem é que a GenEquus alugou, há três meses, uma propriedade rural em Paty do Alferes.

— Para quê?

— Segundo o contrato, instalação de um centro experimental.

— Há cavalos lá?

— Não oficialmente.

Fernando se levantou.

— Vou falar com o delegado.

Lenita segurou seu braço.

— Não vá sozinho até a propriedade.

— Eu disse que vou falar com o delegado.

— Conheço esse tom. É o mesmo de gente que promete ter juízo antes de fazer exatamente o contrário.

Virgínia, sentada perto da janela, concordou:

— Finalmente alguém o conhece tão bem quanto eu.

Fernando revirou os olhos.

— As duas juntas são um perigo.


O delegado Figueira recebeu os documentos no mesmo dia.

Diante das novas evidências, solicitou mandados de busca para a GenEquus, a casa de Álvaro e a propriedade alugada em Paty do Alferes.

— Nada de heroísmo — advertiu Fernando. — A polícia fará a busca.

— Eu sou o veterinário responsável por Neblina.

— E não é policial.

— Se a encontrarem sedada ou ferida, vão precisar de alguém que a conheça.

Figueira pensou por alguns segundos.

— Você vai na viatura, fica atrás da equipe e só entra quando for autorizado.

— Está bem.

— E não discuta.

— Tentarei.

— É exatamente esse tipo de resposta que me preocupa.

José Evandro também quis acompanhar.

O delegado recusou.

— Já tenho um proprietário, um veterinário e uma investigadora querendo participar. Isto não é excursão.

— Neblina pertence ao meu haras.

— E o senhor ficará aqui, preservando o que ainda não foi roubado.

Queiroz apoiou a decisão.

— Eu vou com Fernando.

— Não vai — disse José Evandro.

— Conheço os equipamentos e os veículos do haras.

O delegado suspirou.

— Apenas o veterinário. Mais ninguém.

Queiroz esperou que Figueira se afastasse.

— Não confio que encontrará tudo.

— O delegado?

— Quem chegar primeiro ao local.

Fernando compreendeu.

— Acha que há alguém dentro da polícia ajudando a quadrilha?

— Acho que o roubo de um animal dessa importância não aconteceria sem a devida proteção.

— Lenita encontrou a propriedade.

— E quase morreu por encontrar coisas demais.

Fernando, intrigado,  olhou para o gerente.

— O senhor sabe mais do que está dizendo.

Queiroz não respondeu.

— Desde quando desconfia de Gustavo?

— Desde que ele entrou na administração.

— Por que José Evandro permitiu?

— Porque o pai de Tereza é sócio antigo e pressionou pela modernização.

— E o senhor?

— Fui tratado como velho desconfiado.


Fernando quase sorriu.

Queiroz retirou uma chave do bolso.

— Se encontrarem Neblina, examine atrás da orelha esquerda.

— Por quê?

— Há uma pequena cicatriz em forma de meia-lua. Foi feita quando ela era potra.

— Isso não aparece nos registros.

— Justamente. É a melhor forma de confirmar a identidade se trocaram o chip ou adulteraram a marca.

Fernando guardou a informação.

Antes de sair, Queiroz segurou seu ombro.

— Traga-a de volta.

— Vou tentar.

— Não estou falando apenas da égua.

Fernando percebeu que o velho se referia também a Tereza, à família e talvez ao próprio haras.

Havia muitas coisas correndo o risco de não voltar.



 




CAPÍTULO XII

O CONFLITO DE TEREZA CRISTINA



Tereza Cristina dirigiu até a casa do pai naquela mesma tarde.

A propriedade ficava numa área nobre de Vassouras, cercada por jardins e muros altos. Ela crescera ali, entre almoços formais, festas e decisões tomadas sem que sua opinião fosse necessária.

O pai, Augusto Fragoso, estava no escritório.

Recebeu-a com surpresa.

— Pensei que estivesse no haras.

— Preciso falar com o senhor.

— Agora?

— Agora.

Augusto fechou o notebook.

Era um homem elegante, acostumado a comandar reuniões e pessoas. Tinha o hábito de responder perguntas com outras perguntas, fazendo o interlocutor sentir que sempre sabia menos do que deveria.

— Aconteceu alguma coisa?

— A polícia está investigando a GenEquus.

O pai não demonstrou surpresa.

— Empresas são investigadas o tempo todo.

— Por fraude, falsificação de registros e roubo de material genético.

Augusto encostou-se na cadeira.

— Quem contou isso?

— Não importa.

— Importa, sim.

— A empresa Vale Dourado recebeu dinheiro da GenEquus.

— Temos diversos negócios.

— Que negócios?

— Investimentos.

— Em cavalos?

— Entre outras coisas.

Tereza aproximou-se da mesa.

— O senhor sabia que material genético era comercializado sem autorização?

— Está fazendo uma acusação?

— Estou fazendo uma pergunta. O que pensar quando descubro que meu pai pode estar envolvido numa fraude?

Augusto se levantou.

— Tenha cuidado, Tereza.

— Com o quê? Com a verdade? Com o que é legal?

— Com pessoas que estão usando você para atingir nossa família.

— Não mude de assunto.

Augusto caminhou até a janela.

— Gustavo está tentando salvar uma empresa que enfrenta dificuldades.

— Falsificando contratos?

— Você não sabe do que fala.

— Sei que José Evandro não autorizou aquelas operações.

O pai se voltou rapidamente.

— Quem disse isso?

A reação respondeu mais do que as palavras.

Tereza sentiu um frio no estômago.

— O senhor sabia.

Augusto ficou em silêncio.

— Sabia que usavam o certificado digital dele.

— Gustavo garantiu que havia autorização verbal.

— E acreditou?

— Acreditei que ele sabia o que fazia.

— O senhor colocou dinheiro nisso.

— Coloquei dinheiro numa empresa de biotecnologia promissora.

— E recebeu de volta por meio de operações falsas.

— Não seja ingênua. Negócios nem sempre são limpos como seus livros de faculdade.

Tereza recuou.

—  Você compactuou. Onde está Neblina?

Augusto endureceu o rosto.

— Não sei.

— Gustavo sabe? Afinal, onde ele está?

— Viajando. Ah, isso não é da sua conta.

Tereza pegou o telefone.

— Avisarei a polícia.

O pai bateu a mão sobre a mesa.

— Você não fará isso.

Ela o encarou.

Augusto caminhou em sua direção, tinha flechas no olhar.

— Tereza, escute. Há muito dinheiro envolvido. Gente perigosa. Gente poderosa.  Gustavo cometeu erros, mas pode consertá-los.

— Consertar como? Roubando Neblina?

O pai não respondeu.

Tereza sentiu a última esperança desaparecer.

— O casamento também fazia parte do negócio?

Augusto desviou o olhar.

— Não diga bobagens.

— O senhor queria unir as famílias para proteger as transações?

— Queríamos estabilidade financeira.

— Estabilidade para quem?

— Para todos.

— Menos para mim.

Ela retirou do dedo o anel de noivado e deixou-o sobre a mesa.

— Entregue a Gustavo.


Tereza virou-se.

— Aonde vai?

— Procurar Neblina.


Ela parou junto à porta.

— Talvez o senhor não saiba que eu conheço Gustavo melhor do que imagina.

Saiu sem olhar para trás.

No automóvel, tentou telefonar para Fernando. A chamada caiu na caixa postal.

Enviou uma mensagem:

Acho que sei onde Gustavo pode ter levado Neblina. Não vá à propriedade de Paty sem falar comigo.

Esperou alguns segundos.

Nada. Ligou novamente. Sem resposta.

Tereza colocou o carro em movimento. Mas antes enviou sua localização em tempo real para o celular de Fernando.

Gustavo possuía um sítio antigo, herdado de uma tia, próximo à divisa entre Vassouras e Miguel Pereira. A propriedade estava abandonada havia anos, mas ele costumava dizer que um dia instalaria ali um centro de criação.

Era o tipo de lugar que não apareceria em nenhum contrato recente.

Também ficava longe da propriedade alugada pela GenEquus.

Perfeito para esconder um animal.

Tereza decidiu ir até lá.

Enquanto dirigia, tentou convencer-se de que apenas verificaria o portão. Não entraria. Não enfrentaria ninguém.

Sabia que estava mentindo para si mesma.

O caminho estreito atravessava uma região de mata fechada. Havia poucas casas e quase nenhum movimento.

Ao chegar, encontrou o portão aberto.

Parou o carro a certa distância.

O sítio parecia vazio.

Um galpão antigo aparecia atrás das árvores. Próximo à construção, havia marcas recentes de pneus.

Tereza desligou o motor.

Pegou o telefone, viu que Fernando visualizou o compartilhamento de localização.  

Depois saiu. Caminhou devagar até o galpão.

Ouviu um relincho.

Seu coração disparou.

— Neblina?

Outro som veio de dentro.

Tereza aproximou-se da porta lateral.

Estava destrancada.

Ao entrar, sentiu o cheiro forte de palha, suor e medicamento.

No fundo do galpão, uma égua de pelagem acobreada estava presa dentro de uma baia improvisada.

— Neblina...

O animal ergueu a cabeça. Parecia abatido.

Tereza correu até ela. Havia um curativo na região do pescoço e sinais de sedação. A marca de identificação fora raspada parcialmente.

— Meu Deus...

Tentou abrir a porteira.

Uma voz surgiu atrás dela.

— Eu sabia que você acabaria vindo.

Tereza se virou.

Gustavo estava junto à entrada.

Vestia camisa escura e segurava uma arma.

— O que você fez? Não precisava chegar a isto.

— Solte a égua. Você sempre foi dramática.

— A polícia está vindo, tudo vai acabar mal para você.

Gustavo sorriu.

— Não, a polícia não conhece este paradeiro.  

— Enviei minha localização.

— Para quem, Fernando?

Tereza não respondeu.

— Ele está ocupado indo para Paty do Alferes. Assim como a polícia.

Ela compreendeu.

A propriedade da GenEquus era uma distração.

— Você armou tudo.

— Eu organizei uma saída.

— Fraude, roubo, tentativa de assassinato... Isso é o que chama de saída?

Gustavo apertou a arma.

— Lenita, deveria ter parado de se intrometer. Não deveria ter vindo aqui.

— Você vai matá-la? - disse apontando para o animal.

— Não vou matar ninguém. Álvaro perdeu o controle.

— Mas...Neblina...

— Ela vai sair do país, Tereza. Aqui está complicado negociar...


Gustavo tinha o rosto deformado de raiva, aproximou-se.

— Entregue o seu telefone.

Tereza recuou.

— Não.

— Não piore as coisas, mulher!


Ele ergueu a arma.

— Tereza, me dá o seu telefone - ele gritou cuspindo saliva para todos os lados.

Ela não o reconhecia mais. Retirou o aparelho do bolso e o colocou no chão.

Gustavo se abaixou para pegá-lo.

Nesse instante, Neblina coiceou com força a lateral da baia.

O barulho surpreendeu os dois.

Tereza avançou sobre Gustavo.

A arma caiu.

Ele empurrou a moça contra a parede. Tereza conseguiu chutar o revólver para longe.

Gustavo agarrou seu braço. Ele estava possuído.

— Você sempre se achou melhor do que eu, sua vagabunda! - vociferou.

— Nunca precisei me esforçar, seu inútil!

Ele levantou a mão para golpeá-la.

Nesse instante, uma voz alta e dura surgiu na entrada:

— Solte-a.

Fernando estava parado junto à porta, segurando uma barra de ferro. Tinha os lábios comprimidos e o olhar cheio de coragem.

Gustavo virou-se para ele.

— Tereza, obrigado por ter enviado sua localização. - disse Fernando caminhando na direção de Gustavo. 

— Você não sabe do que eu sou capaz, cara! - rosnou Gustavo.

— Sei sim, investiguei tudo sobre você. Você é estelionatário, ladrão, falsificador, assassino e talvez mais outros adjetivos. Agora, é você que não me conhece nadinha, e não sabe do que eu sou capaz.

Gustavo soltou Tereza e correu em direção à arma.

Fernando avançou sobre ele. Os dois caíram no chão. Com a barra de ferro, imobilizou Gustavo prendendo-o pela garganta. 

Tereza correu para afastar o revólver.

Gustavo atingiu Fernando no rosto com golpes de socos com uma pedra presa entre os dedos. Tentou se levantar. Fernando apertou mais o "sossega leão". 

O som de automóveis se aproximando interrompeu a luta.

Sirenes soavam alto.

Gustavo estava imóvel.

— Você chamou a polícia? — perguntou Tereza.

— O Queiroz, ele chamou o delegado. Estão todos aí fora.

Gustavo olhou para a porta dos fundos. Seria uma alternativa de fuga.

 Queiroz surgiu apressado acompanhado de dois policiais.

— Acabou — disse o gerente.

Gustavo ainda tentou levantar, mas estava dominado.

Fernando levantou-se com dificuldade.

Tereza aproximou-se.

— Você está sangrando.

Ela tocou seu rosto.

— Não viu meu recado? Não era para vir sozinho. 

 — Mas, quando que você estava vindo para cá, não esperei ninguém. Como vê, você também veio sozinha.

— Então somos dois idiotas teimosos.

— Finalmente concordamos em alguma coisa.

Tereza o abraçou.

Fernando correspondeu, sentindo o corpo dela tremer.

Depois se voltou para Neblina.

Entrou na baia e aproximou-se lentamente.

— Calma, menina. Acabou.

A égua tentou erguer a cabeça.

Fernando examinou o curativo e procurou atrás da orelha esquerda.

Encontrou a pequena cicatriz em forma de meia-lua.

— É ela.

Queiroz fechou os olhos, aliviado.

— Graças a Deus.

Fernando verificou as mucosas, o pulso e a respiração.

— Está sedada e desidratada, mas viva.

— Conseguimos transportá-la? — perguntou o delegado.

— Só depois de estabilizar.

Tereza encontrou caixas térmicas no fundo do galpão.

Dentro havia amostras identificadas com códigos.

Fernando examinou os rótulos.

— Material genético.

O delegado aproximou-se.

— De Neblina?

— Dela e de outros animais.

Queiroz reconheceu alguns códigos.

— Estes pertencem ao haras.

A descoberta confirmava a fraude.

Não haviam roubado apenas a égua.

Durante anos, retiraram e comercializaram material genético sem autorização, criando descendentes clandestinos e falsificando linhagens.

Gustavo foi colocado na viatura.

Antes de entrar, olhou para Tereza.

— Seu pai sabia, Tereza.

Ela sentiu o golpe.

O policial o empurrou para dentro.

Fernando segurou a mão de Tereza.

Ela não a afastou.

— Vamos descobrir tudo — disse ele.

Do lado de fora, o sol começava a baixar sobre as árvores.

Neblina estava viva.

Mas o que haviam encontrado naquele galpão era apenas o início da verdadeira dimensão da fraude.


 




CAPÍTULO XIII

A rede escondida


A prisão de Gustavo provocou uma reação em cadeia.

Álvaro foi encontrado dois dias depois num hotel próximo à divisa com Minas Gerais. Tentava deixar o estado com documentos falsos e dinheiro em espécie.

Valdir apresentou-se à polícia acompanhado de um advogado.

Alegou que participara do roubo sob ameaça, mas as mensagens encontradas em seu telefone mostravam que recebia pagamentos havia mais de um ano.

O vigia Barreto, depois de recuperar a consciência, contou que Valdir lhe oferecera café pouco antes do turno da madrugada. Não se lembrava de mais nada.

A busca na sede da GenEquus revelou contratos falsos, registros de exportação, amostras genéticas e uma contabilidade paralela.

A fraude era maior do que todos imaginavam.

Durante quase três anos, o grupo comercializara material genético de animais premiados sem autorização dos proprietários. Algumas amostras eram registradas com nomes fictícios. Outras alimentavam linhagens falsas em haras do Brasil e do exterior.

Neblina representava a oportunidade mais valiosa.

A intenção era retirá-la do país com documentação adulterada, mantendo-a em reprodução clandestina.

A égua voltou ao haras numa ambulância veterinária.

Funcionários reuniram-se perto das baias para recebê-la.

José Evandro acariciou lhe a testa.

— Bem-vinda para casa, boneca.

Queiroz permaneceu ao lado, em silêncio. A emoção aparecia no cuidado com que verificava cada detalhe do transporte.

Fernando acompanhou a recuperação.

Nos primeiros dias, Neblina apresentou fraqueza, desidratação e irritação no local onde haviam realizado a coleta. Pouco a pouco, voltou a se alimentar e a reconhecer os tratadores.

Quando conseguiu caminhar sozinha até o piquete, os funcionários aplaudiram.

Fernando ficou ao lado de Tereza.

— Ela gosta de fazer uma entrada triunfal.

— Sempre gostou - disse a jovem.

— Você também - disse Fernando.

Tereza sorriu.

A relação entre eles retomou-se com cautela.

Havia afeto, mas também os efeitos da investigação e da prisão de Gustavo. Tereza precisaria lidar com o envolvimento do pai.

Augusto Fragoso foi chamado a depor.

As provas indicavam que financiara a GenEquus e recebera parte dos lucros. Ele afirmava desconhecer as fraudes, mas mensagens trocadas com Gustavo sugeriam o contrário.

Tereza não tentou protegê-lo.

Também não o abandonou completamente.

Visitou-o uma vez, antes que a Justiça decidisse por sua prisão preventiva.

— Vim porque sou sua filha — disse. — Não porque concordo com o que fez.

Augusto permaneceu do outro lado da mesa.

— Você escolheu estranhos em vez da nossa família.

— Escolhi a verdade, papai. O senhor passou a vida inteira acreditando que eu não seria capaz de pensar sozinha.

— Tudo o que fiz foi para garantir seu futuro. Não seja ingrata.

— Um futuro construído sobre fraude não me serve.

Augusto abaixou os olhos.

— Talvez um dia eu consiga perdoá-lo. Mas não fingirei que nada aconteceu.

Saiu antes que ele respondesse.


No haras, José Evandro começou a reorganizar a administração.

O contador foi afastado. Os registros passaram por auditoria. O acesso aos documentos e ao material genético tornou-se restrito.

Queiroz entregou o cargo.

— Estou velho demais para continuar — disse.

José Evandro recusou.

— Você não vai embora.

— Falhei em proteger o haras.

— Foi você quem percebeu primeiro.

— Ninguém conseguiria sozinho.

Queiroz olhou para Fernando.

— Agora você tem gente melhor para ajudar.

— Tenho um filho — respondeu José Evandro. — Mas não vou perder o homem que foi pai para mim.

Queiroz desviou o rosto.

— Você sempre foi dramático.

— Aprendi com você.

O gerente acabou permanecendo.

Entretanto, deixou parte das funções administrativas para uma nova equipe e voltou a se dedicar ao que mais gostava: os animais, os funcionários e a rotina da propriedade.

Fernando apresentou oficialmente o projeto do Centro de Coleta e Processamento de Sêmen.

Desta vez, não era apenas um plano de expansão.

Seria também uma forma de garantir controle, rastreabilidade e segurança sobre a genética dos animais.

José Evandro aprovou.

— Quero que você coordene.

Fernando hesitou.

— Ainda tenho pouca experiência.

— Tem conhecimento, coragem e a rara capacidade de enxergar o que está fora do lugar.

Queiroz acrescentou:

— E faz perguntas demais.

— Isso também — concordou José Evandro.

Fernando aceitou.

Tereza foi convidada a integrar o projeto, especialmente na área de reprodução equina e protocolos internacionais.

— Quer trabalhar comigo? — perguntou Fernando.

— Isso é um convite profissional?

— Por enquanto.

— E depois?

— Depois posso melhorar a proposta.

Ela sorriu.

— Aceito a parte profissional.

— Já é um começo.

Enquanto o haras se recuperava, Lenita continuava investigando.

Trabalhava em casa, com a perna imobilizada, cercada de documentos e telefonemas.

Fernando a visitava com frequência.

— Você deveria descansar — repetia - O médico recomendou.

— Médicos recomendam muitas coisas.

Lenita ajudou a polícia a localizar compradores, intermediários e contas utilizadas pela quadrilha.

Também confirmou que José Evandro nunca participara das operações.

Em determinado momento, ele foi visitá-la.

— Vim agradecer, Lenita.

— Pelo quê?

— Por descobrir meu filho, um filho que eu nem sabia ter.

Lenita apoiou-se nas almofadas.

— Tecnicamente, descobri uma fraude. Seu filho estava no caminho.

— Mais uma razão para agradecer pelo seu empenho e teimosia.

— Agradeça à Virgínia. Foi ela quem guardou as fotografias daquele Réveillon.

José Evandro sorriu.

— Já agradeci. Mas o farei outras vezes.

— Seja mais criterioso, mais direto, mais comprometido. Isso ajuda.

Ele sorriu concordando.

Quando saiu, encontrou Fernando no corredor.

— Como ela está?

— Teimosa demais.

— Ih, então está melhorando.

Pai e filho caminharam juntos até o estacionamento.

A convivência entre eles ainda era cuidadosa.

José Evandro evitava impor intimidade. Fernando evitava chamá-lo de pai.

Certa vez, durante um jantar, José Evandro perguntou:

— Você acha que algum dia vai conseguir me chamar de pai?

Fernando pensou.

— É evidente que sim. Es pensando nisso.

— Não precisa ter pressa, filho.

—  É emocionante ouvi-lo me chamar de filho. Esperei muitos anos por isso. Também não quero que espere vinte e quatro anos para chamá-lo de pai. - Os dois sorriram.

O vínculo crescia nas pequenas coisas. Iam se descobrindo, um pouco a cada dia.

Conversavam sobre cavalos, negócios e a infância de Fernando. José Evandro queria saber tudo: o primeiro dia de escola, as doenças, as brincadeiras, a escolha da profissão, sobre o avô...

Fernando, por sua vez, descobria o pai nem sempre gostava de tudo.

José Evandro podia ser controlador, teimoso e impaciente. Tinha dificuldade de admitir erros e costumava acreditar que trabalho resolvia problemas emocionais.

Fernando reconhecia algumas dessas características em si.

— Isso também é genético? — perguntou a Queiroz.

— Infelizmente é.

Virgínia e José Evandro passaram a se encontrar.

Sem promessas. Sem a urgência daquela noite de réveillon.

Caminhavam pela praça, tomavam café e conversavam sobre o tempo que haviam perdido.

Às vezes discordavam. Virgínia não aceitava que ele tentasse decidir as coisas por ela.

— Não sou uma funcionária do seu haras.

— Eu só estava sugerindo.

— Você estava mandando em voz baixa.

José Evandro aprendia a conhecê-la

Virgínia também.

Aos poucos, perceberam que não precisavam recuperar os anos passados. Precisavam apenas decidir o que fariam com os próximos.

Fernando observava a aproximação: 

— O que foi, está incomodado? — perguntou a mãe.

— Não.

— Está, sim.

— Só não quero que se machuque.

Virgínia segurou o rosto do filho.

— Você passou a vida sendo protegido por mim. Agora precisa entender que eu também posso escolher correr riscos.

— Risco?

— Sim. Todo sentimento é arriscado. Será assim entre você e Tereza.

Fernando abraçou a mãe.

— Você está diferente.

— Finalmente.

No fim daquele ano, Neblina voltou a correr.

Não participou de uma grande competição. Fernando considerou cedo demais.

Apenas percorreu a pista do haras diante de poucos convidados e funcionários.

Mesmo assim, quando ganhou velocidade, todos se emocionaram.

Sua crina clara se abriu ao vento.

Queiroz observava próximo à cerca.

José Evandro estava ao lado de Virgínia.

Tereza segurava a mão de Fernando.

Neblina completou a volta e diminuiu o passo diante deles.

Fernando aproximou-se.

— Muito bem, menina.

A égua encostou a cabeça em seu ombro.

Queiroz sorriu.

— Ela voltou.

Fernando olhou ao redor.

Não era apenas Neblina.

O haras também voltava.

A família começava.

E o passado, finalmente, deixava de ser uma prisão.



 



EPÍLOGO

UM NOVO RÉVEILLON



Um ano depois, Copacabana novamente se preparava para o réveillon.

A praia estava tomada por pessoas vestidas de branco. Havia música, vendedores, flores e crianças correndo pela areia.

Virgínia caminhava ao lado de José Evandro.

Desta vez, nenhum dos dois era jovem.

Ela usava um vestido branco leve e levava uma pequena bolsa atravessada no corpo. Ele carregava duas taças de plástico.

— Não acredito que trouxe champanhe — disse Virgínia sorrindo.

— Tradição é tradição, querida.

— Foi assim que tudo começou...


Mais adiante, o filho conversava com Tereza Cristina. Os dois haviam se afastado um pouco, caminhando perto da água.

Fernando coordenava o Centro de Reprodução Equina do haras, agora reconhecido pela segurança dos registros e pela qualidade dos procedimentos.

Tereza concluíra sua especialização e trabalhava ao lado dele.

Discutiam com frequência.

Também se amavam.

Queiroz se recusara a viajar.

— Réveillon bom é na fazenda, ao lado cavalos, sem os rojões - declarou.

Ficara no haras com Neblina e os outros animais, reclamando do barulho mesmo antes de ele começar.

Lenita passaria a noite com Virgínia e José Evandro, mas desistira na última hora.

Dissera que precisava concluir um relatório.

Virgínia suspeitava que a investigadora preferisse trabalhar a admitir que não gostava de multidões.

Faltavam poucos minutos para a meia-noite.

José Evandro retirou do bolso uma fotografia antiga.

Era uma das selfies tiradas havia vinte e cinco anos.

Na imagem, os dois sorriam sob os fogos.

Virgínia pegou a fotografia.

— Onde conseguiu? Essa foi tirada por mim.

— Fernando me deu uma cópia.

— Repare, eu estava tão jovem.

— Nós estávamos jovens, Virgínia

— E sem juízo.

— Você foi embora. Eu fiquei.

— Nenhum dos dois perguntou o sobrenome.

José Evandro levantou a taça.

— Podemos corrigir isso agora.

Virgínia olhou para ele com desconfiança.

— Não venha com pedido de casamento no meio da multidão.

Eles riram.

— Quer continuar comigo no próximo ano?

Virgínia sorriu.

— Um ano de cada vez?


A contagem regressiva começou.

Dez.

Nove.

Fernando se aproximou sorridente:

— Pai, posso atualizar a foto de vocês dois?

Evandro estremeceu. Acenou afirmativamente para o filho. A voz estava embargada. Os olhos deles marejados... sabiam que esta seria outra cena de Réveillon em Copacabana que ficaria para sempre na memória de todos.

No autofalante a contagem regressiva não parava.

Oito.

Sete.

Virgínia estava emocionada, segurou com força a mão de José Evandro e sorriram para a câmera.

Seis.

Cinco.

Durante anos, imaginara que o passado precisava ser recuperado.

O passado servira para aproximá-los.

Quatro.

Três.

José Evandro aproximou-se os lábios do  ouvido de sua amada:

— Demoramos quase vinte e cinco anos para terminar aquela conversa.

Dois.

Virgínia aceitou a carícia e aproximou seus lábios aos dele:

— Mas desta vez temos telefone, endereço e sobrenome, e um filho.

Um.

Os fogos iluminaram o céu.

José Evandro a beijou.

Fernando abraçou Tereza.

Ao redor deles, milhares de pessoas comemoravam a chegada de um novo ano.

Virgínia olhou para o mar.

Aquela praia guardava a lembrança da moça que ela fora, mas já não a prendia.

Havia criado um filho, reconstruído a própria vida e reencontrado um amor que não precisava ser igual ao passado para ser verdadeiro.

José Evandro ergueu a taça.

— À família.

Fernando fez o mesmo.

— Às famílias que a gente encontra.

Tereza completou:

— E às que se escolhe construir.

Virgínia sorriu.

Pensou em Jorge, Dolores, Queiroz, Lenita e em todos os caminhos que os haviam levado até ali.

A linhagem explicava de onde vinham.

Mas eram as escolhas que diziam quem se tornavam.

As ondas chegaram aos pés do grupo.

Virgínia segurou o vestido e começou a caminhar em direção ao mar.

— Vamos pular sete?

José Evandro acompanhou-a.

— E quantas mais vierem.

Desta vez, quando amanhecesse, nenhum dos dois iria embora...


FIM





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