A companhia inesperada - Isabella Brancher

 




A companhia inesperada
Isabella Brancher

Dora se mudou para aquela casa no dia anterior. Três dormitórios, duas salas. “Casa grande demais para quem vive sozinha”, pensou.

Àquela hora da noite, estava exausta depois de tantas arrumações. O imóvel, adquirido em leilão, estivera desocupado por anos. Do mobiliário que permanecera nos cômodos, algumas peças seriam aproveitadas. Outras, muito antigas, seriam descartadas. Carregavam histórias que lhe pareciam pesadas demais para serem mantidas.

A casa ainda precisava de muitos reparos. Algumas janelas não se mantinham fechadas porque as travas estavam quebradas. As torneiras pingavam sem parar. A eletricidade, ainda precária, fazia as lâmpadas oscilarem entre o claro e o escuro. “Amanhã vejo tudo isso.”
Olhou para a cama, já arrumada com lençóis e travesseiros novos. Parecia confortável. Dora não tinha forças nem para divagar. Deitou-se e logo pegou no sono.

Passado aquele sono profundo, oriundo do cansaço extremo, acordou. A luz do corredor havia ficado acesa e projetava sombras tremulantes pela parede. Queria se levantar para apagá-la, mas ainda se sentia muito cansada para sair da cama quentinha. A temperatura na casa havia abaixado consideravelmente e, assim, queria evitar o choque com o frio. Virou-se de costas para a luminosidade e procurou retomar o repouso interrompido. Quieta, no silêncio da noite, começou a escutar ruídos que haviam passado despercebidos durante o dia.

Algo ressoava incessantemente no quarto ao lado: parecia uma janela que batia; o ritmo irregular não combinava com uma janela batendo ao vento. Por vezes era mais forte, outras vezes parecia apenas um rangido. Não conseguia perceber o que era… julgou ser uma janela que se abrira com o vento. Tentando se concentrar no primeiro ruído, percebeu outro vindo do banheiro. Esse ela reconheceu imediatamente: gotas de água caíam do chuveiro e ressoavam na banheira de metal.

O conjunto de sons foi se intensificando e, cada vez que tentava se distrair da pequena banda que a acompanhava, acabava por identificar um novo som. Agora ouvia pequenos passos que pareciam vir do teto. Será que teria um sótão na casa? Ninguém lhe havia falado sobre isso. Não se contentou em tentar espantar mais essa inquietação, virou-se e observou o teto do quarto com atenção. Percebeu que o forro era de madeira e que, em alguns pontos, parecia estufado. Nesse exato momento, novos passos foram escutados, algo raspava com fúria a madeira. Dora percebeu que estava prendendo a respiração. Seus dedos apertavam o lençol sem ela perceber. O arranhar frenético sobre sua cabeça fez seu estômago se contrair.

Sobressaltada pelo susto, levantou-se com a intenção de verificar o que estava acontecendo. Temia que permanecer na cama só faria seu corpo enrijecer ainda mais.

Vestiu o penhoar e caminhou lentamente em direção ao barulho, que vinha do corredor, que agora iluminado parecia menos assustador. O ruído a fez olhar para cima e assim percebeu um alçapão. Suas pernas pareciam ainda mais flácidas, com pouca sustentação. No alçapão havia um gancho e, atrás da porta, uma haste de metal comprida que julgou servir para abrir o alçapão. O tremular de suas mãos dificultava o encaixe da ponta da haste no gancho do alçapão. Queria se livrar daquela angústia o mais rápido possível; na terceira tentativa, conseguiu. Puxando o alçapão, uma escada desceu e uma passagem para o sótão se abriu. A escada escura à sua frente parecia exigir uma decisão imediata. Subo ou não subo? Aquela dúvida invadia seu íntimo. Possuída por essa incerteza, mantinha-se paralisada, olhando o sótão. O silêncio que se instalou pareceu ainda mais perturbador. Mais uma vez tomada pelo medo, pisou no primeiro degrau; a madeira rangeu. A escuridão acima não era convidativa; recuou, buscou uma lanterna e voltou a subir. Degrau a degrau, entre cada um, respirava fundo, procurando forças para continuar a subida. Chegando ao topo, ouviu novamente o som. Não era um arranhar furioso como imaginara. Era breve, irregular. Algo se movia. O local estava coberto por poeira e velhos caixotes abandonados. Entre duas malas, viu um pequeno vulto se encolher. Dora congelou, ouviu um miado. Curto e fraco, depois outro.

Percebeu os olhos brilhantes da gata que a encarava. Abaixou a lanterna e percebeu cinco gatinhos aninhados em uma manta. Logo pensou: então, era você! A gata permaneceu alerta, mas não recuou.

Lá embaixo, as torneiras continuavam pingando e as janelas ainda batiam com o vento. A casa permanecia velha, fria e cheia de reparos por fazer, mas já não parecia vazia.

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