DOMINGO MÍSTICO - Sergio Dalla Vecchia

 



DOMINGO MÍSTICO

Sergio Dalla Vecchia


Sandro, homem vivido de experiências materiais, umas assertivas, outras infrutíferas, resolveu passear num domingo cinzento no Parque do Ibirapuera em São Paulo.

Quando se aproximou do Parque, observou próximo do obelisco uma série de tendas brancas arranjadas em torno da área destinada ao aeromodelismo e nautimodelismo, contendo uma pista circular para voo a cabo e uma piscina rasa para modelos náuticos.

Curioso, logo achou uma vaga e estacionou o carro.

Foi se aproximando das tendas e deparou-se com um pórtico com cartaz dizendo, Feira Mística. 

Transpassou o pórtico e, deslumbrado com um mundo totalmente diferente, foi se encantando ao passar por cada tenda.

Passou pelas mágicas, depois da bruxaria, na sequência dos ciganos, até que deparou com a da cartomante. Ali estacou, parecia ter sido sugado pelo tempo. Do nada veio a lembrança dela! O amor da sua vida que o deixou há anos arrastando com ela sua alegria de viver.

Olhou para o interior da tenda e viu a cartomante, que, com um gesto de dedo indicador enrolando, o convidava a entrar.

Quando percebeu, já estava diante daquela mulher, olhos negros firmes que o fitavam como flechas.

— Como posso te ajudar?

Ainda anuviado de ideias, respondeu:

— Onde está Rosângela, o amor da minha vida?

A cartomante, ardilosa, respirou fundo e virou lentamente as cartas.

Sandro, vidrado, não desviava a atenção e, quando descuidava, deparava-se com o olhar penetrante da mulher. 

Enfim, ela levantou os olhos e disse, sem rodeios, para Sandro:

— Desculpe-me, ela está em outro país e formou família, portanto está claro que ela não quer saber mesmo de você.

Agora, como você, um homem bem-apessoado e amoroso, pôde se deixar levar por um amor tão mal correspondido, a ponto de me procurar e saber do paradeiro dessa ingrata? Existem mulheres mais interessantes nesse mundo, sabia?

Não sei se foi carma ou não, mas Sandro permaneceu horas na tenda de onde se ouvia uma conversa para lá de animada.


O segredo das três cartas - Isabella Brancher

 





O segredo das três cartas

Isabella Brancher


— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto…

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não…

— A mim e a ela — explicou vivamente ele. — Rita quis me acompanhar nessa visita.

A cartomante não sorriu: disse-lhes só que esperassem. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso. Rita divagava.

Enquanto ela baralhava as cartas, Camilo roía as unhas vigorosamente, aqueles minutos de espera o estavam consumindo. Vários pensamentos preenchiam a sua mente.

A sala tinha um aspecto sombrio que causava ainda mais apreensão em Camilo e Rita. As cores, apesar de vivas, preenchiam tanto o ambiente que deixavam em ambos uma sensação de falta de ar. Aquelas últimas semanas, marcadas por tantos acontecimentos inesperados, tornavam tudo ainda mais desconfortável.

A cartomante começou a balbuciar algumas palavras e a mente de Camilo começou lentamente a se acalmar. 

Começou a dispor as cartas sobre a mesa. Surgiu a primeira: a imperatriz. Ela arqueou as sobrancelhas e soltou uma interjeição leve: “ohhh”. Veio a segunda: a sacerdotisa, uma nova interjeição escapou de seus lábios. Então apareceu a terceira: a estrela. A mulher congelou. Perplexa, ficou algum tempo a observar essas três cartas juntas e, num leve sobressalto, como se surpreendentemente fosse algo quase impossível de acontecer, murmurou: 

— Não!

Camilo, que já estava assustado o suficiente, com o coração disparado, perguntou: 

— O que foi? O que aconteceu?

A face da vidente empalideceu e ela permaneceu pensativa, como se estivesse buscando a melhor forma de transmitir o que via. Camilo sentiu um leve tremor percorrer seu corpo, a mente voltou a turbinar pensamentos. Rita levou a mão à barriga, não vinha se sentindo bem havia alguns dias. A ansiedade, os bilhetes, tudo a fazia sentir-se profundamente enjoada.

Ela continuou a apresentar as cartas na mesa, mas a cada carta a tensão crescia. 

Seu semblante tornava-se cada vez mais estranho, como se aquilo desafiasse toda a experiência adquirida em anos de ofício.

Camilo sentiu a boca secar.

— Pelo amor de Deus, mulher, diga logo o que viu!

Finalmente, como num vômito, a cartomante, rindo de nervoso, diz: — Ela está grávida de trigêmeos! 


Nota:

A Imperatriz: é o símbolo máximo da fertilidade, da criação e da gestação próspera.

A Sacerdotisa: indica o início de tudo, o momento misterioso da concepção e do desenvolvimento interno.

A Estrela: traz esperança, renovação e a bênção de uma nova vida.



(O texto acima é uma releitura do conto A CARTOMANTE/MACHADO DE ASSIS, com aproveitamento do primeiro parágrafo do autor)